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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, é por aqui que todos os dias analisamos as principais novidades no terreno, nos dois principais conflitos a nível mundial, não só a guerra na Ucrânia, mas também no Médio Oriente. Hoje junta-se a nós Daniela Nunes, é especialista em Relações Internacionais. Daniela Nunes, bem-vinda mais uma vez à Rádio Observador e ao Gabinete de Guerra. Hoje vamos começar pela guerra na Ucrânia. Vamos falar sobre a situação em Kursk, que muito se tem falado sobre esta situação. Os ucranianos querem ou ameaçam duplicar a área dominada nesta zona. Esta operação que começou no início do mês continua a dar muito que falar, a tomar também proporções um pouquinho maiores. Voltou-se a falar do nuclear. Pergunto o que é que Kursk representa para ambos os lados da guerra neste momento, para Rússia e Ucrânia, mas também se este pode ser o gatilho para a morte de qualquer eventual negociação entre Rússia e Ucrânia. Bem-vinda.
Olá, André, boa tarde, obrigada. Boa tarde também aos ouvintes. Uma coisa é certa: a incursão em Kursk no início deste mês de agosto veio mudar um pouco o debate acerca da guerra e, nomeadamente, veio mudar a narrativa, porventura, mais fatalista relativamente às capacidades da Ucrânia, sobretudo quando comparadas às da Rússia. O que isto quer dizer? Quer dizer que de repente passamos a ver um tipo de exercício ofensivo, por parte da Ucrânia, que não é uma resposta a um exercício original russo. Portanto, de alguma maneira, o que vimos foi a tomada da dianteira dos eventos pelos ucranianos e não uma resposta dos ucranianos a esses eventos. E isto é muito importante no contexto de qualquer competição, seja ela saudável ou não, quanto mais ao nível de uma guerra. Porque há aqui uma dimensão, que é a dimensão das percepções e que em política conta muito, que de repente se transformou, e que se transformou muito favoravelmente para a Ucrânia. E que, pelos vistos, não é uma transformação flash, portanto, não ficou circunscrita àquele dia ou àquela semana mais ou menos áurea para o esforço de guerra ucraniano, porque esse esforço continuou e continuou com sucesso. Estamos no final do mês e continuamos a avaliar o peso que a presença ucraniana em Kursk pode ter para a definição dos próximos contornos da guerra. E, sobretudo, estamos também, como dizias, André, a assistir a uma ambição do governo ucraniano de tomar qualquer coisa como o dobro do território naquela zona fronteiriça. E aqui cabe-nos chamar a atenção para um exercício muito inteligente e que pode sustentar esta ambição ucraniana, a ambição de avançar ainda mais, que foi a destruição por parte das forças ucranianas dos três grandes pontes que ligavam o território agora dominado pela Ucrânia, nesta região de Kursk, ao restante território russo. O que temos neste momento são cerca de mil soldados russos cercados, digamos assim, nesta zona, e uma probabilidade algo forte de a Ucrânia conseguir mesmo andar mais alguns quilómetros e podendo mesmo, como dizíamos, dobrar a sua presença em Kursk, isto territorialmente falando. Estes mil homens russos, que já agora diga-se de passagem, contrastam com os cerca de 15 mil militares ucranianos na região, a dada altura poderão mesmo ter de se render, isto já que também, por um lado, vão estar desprovidos de condições para se manterem do ponto de vista logístico, material, militar, porque como digo, a Ucrânia cortou essas vias de manutenção. E depois, por outro lado, porque a Rússia, e deixe-me dizer-te que algo surpreendentemente, pelo menos do meu ponto de vista, parece estar a prestar um pouquinho mais atenção a outros focos do conflito, como é o caso da região de Kharkiv, num sinal que pode ser lido como uma espécie de reconhecimento de que aqueles homens, aqueles mil russos, estão, por assim dizer, dados como perdidos e que a eficácia da incursão ucraniana de 6 de agosto apanhou mesmo o Kremlin de surpresa. Eu julgo que se Putin e o seu exército se sentissem em perfeitas condições para conter este avanço ucraniano, já o teriam feito sem hesitações. Mas a verdade é que a Ucrânia deu muito bem a volta à questão com o esvaziamento destas travessias entre a região de Kursk e o resto da Rússia, portanto, equacionou muito bem qual seria o comportamento dos russos face a esta incursão e como tal, quase que respondeu a esse comportamento mesmo antes de ele acontecer. E só para terminar, a Ucrânia também equacionou aqui outra coisa muito importante, que foi a forma como tudo isto, esta incursão, e a ser uma operação bem-sucedida, poderia também vir a servir os interesses não tão militares, mas mais políticos e diplomáticos do governo ucraniano. Isto por quê? Zelenskyy disse muito recentemente, não sei se ontem ou anteontem, que esta operação em Kursk fazia parte do plano de paz a apresentar aos Estados Unidos. E também disse, já agora, curiosamente, que quer esta operação, quer o plano para a paz, tinham como objetivo levar a guerra à Rússia para obrigar a Rússia a querer pôr-lhe um ponto final. Portanto, eu diria que isto é quase uma retórica infantil, mas uma retórica muito acertada de "não faças aos outros aquilo que não gostas que te façam a ti". Portanto, perante isto, dizer o quê? Dizer que, como é evidente, a Rússia não vai ceder, não vai sequer mostrar-se demasiadamente afetada por esta incursão, que de resto veio alimentar a sua vitimização e aquela lógica de que o Ocidente está a trabalhar para a prorrogação deste conflito, em vez do contrário. E como, aliás, também demonstram as declarações recentes do senhor Lavrov, do ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, que diz que, inclusivamente, e como também mencionaste, André, do ponto de vista nuclear, que é aqui também um elemento nevrálgico relativo a esta zona de Kursk Do ponto de vista nuclear, o senhor Lavrov disse qualquer coisa como: "O Ocidente está aqui a procurar fazer escalar o conflito", mas isso não é nada que, do ponto de vista das narrativas e da leitura que os russos fazem do conflito e da dinâmica que opõe o Ocidente às forças russas, seja uma novidade.
Uma novidade, exatamente. Daniela Nunes, temos apenas quatro minutos até o final. Vamos olhar para Israel. Tivemos o resgate de um refém israelita. Falamos de Farhan al-Qadi, de 52 anos, ainda não percebemos se foi libertado pelo Hamas ou se conseguiu fugir e depois resgatado pelas forças israelitas. Há aqui também algumas incongruências, mas gostava de perguntar o que é que isto pode significar para o estado das coisas e também para o governo israelita, ou seja, para o bem ou para o mal, o que é que muda com mais um refém que é resgatado?
Olha, em quatro minutos vou tentar resumir a coisa em três grandes pontos. O primeiro é dizer que é impossível ficar indiferente às imagens desta pessoa. O antes e o depois destes 11 meses de cativeiro são chocantes. Esta história, que para esta pessoa, felizmente, acabou bem, de certa forma serve como uma ilustração para aquilo que nós andamos todos a imaginar há quase um ano, mas que ainda não tínhamos visto, pelo menos com contornos assim tão reais. Tudo isto e sobretudo a forma como esta pessoa surge envelhecida, claramente doente e claramente desnutrida, tudo isto veio humanizar ainda mais este conflito e tornar ainda mais desesperante a busca por uma qualquer forma de cessar-fogo. E obviamente também sem esquecer o lado palestiniano, já agora, porque na Faixa de Gaza também há muitos palestinianos em cativeiro, a diferença é que eles conseguem ver a luz do dia. O segundo ponto seria dizer também que, apesar do caráter positivo que esta vitória humana teve para Israel, a verdade é que, segundo já se pôde apurar, embora nem todas as fontes noticiem a coisa da mesma forma, a recuperação deste homem não é nem fruto de uma libertação do Hamas, nem fruto de uma megaoperação de sucesso das forças israelitas. Ou seja, ao que parece, Israel sabia que haveria reféns na região sul da Faixa de Gaza, obviamente sem saber onde com exatidão, e o Hamas terá percebido que as tropas israelitas estavam a chegar perto do local. Ora, a versão que corre, pelo menos em parte dos canais noticiosos, é que este refém terá ficado para trás durante a fuga do grupo terrorista. Inclusivamente, até começou por ser confundido com um membro do Hamas, não sei se por questões ligadas a alguns traços físicos ou se por falar árabe. Já agora dizer também que este senhor é um cidadão israelita cuja língua materna é o árabe, apesar de ele também falar hebraico. E por isso mesmo, dizer ainda que esse pode ser um dado importante e ele poderá eventualmente vir a ser um elemento relevante para o governo israelita, já que por falar árabe e por compreender árabe tão bem, pode também ter entendido boa parte das conversas que ouviu durante estes quase 11 meses em cativeiro. Finalmente, o meu terceiro ponto. Acredito francamente que este feito possa trazer ao governo de Netanyahu uma certa sensação de sobrevivência acrescida, como se este governo ganhasse mais uma vida. Portanto, agora têm razões para aparecer, não como os maus da fita, mas como os patriotas de sucesso que finalmente conseguiram cumprir, pelo menos parcialmente, uma das suas grandes promessas. Bem sei que ainda há muitos reféns por recuperar, mas este homem pode ter trazido mais algum oxigênio ao executivo de Netanyahu, altamente posto em causa, como sabemos, desde 7 de outubro, e aliás, por causa das suas próprias metodologias, e que agora pode ver uma boa oportunidade para provar que o seu objetivo primordial é mesmo o de libertar os reféns e não é o de dizimar exclusivamente o Hamas, conforme este governo tem reiterado desde o princípio do conflito, e embora muitas vezes deixando-nos algo duvidosos sobre isso. Já estou a ver que estás a fazer muitos sinais sonoros, é suposto calar-me. Já percebi.
Gostamos sempre de ouvir Daniela Nunes, mas infelizmente não temos mesmo tempo para mais. Mas esse ponto que dizias agora é também confirmado, de certa forma, pelo próprio refém que falou com Benjamin Netanyahu e pediu mesmo para que o presidente israelita coloque um fim a isto. Diz que quer sejam árabe ou judeu, quer que liberte todos. Vamos esperar pelos próximos episódios. Também conto contigo, Daniela Nunes, aqui no Gabinete de Guerra. Obrigado e até uma próxima.
Obrigada, André. Até à próxima.