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Gabinete de Guerra da Rádio Observador, programa diário aqui na antena da rádio, em que abordamos os conflitos na Ucrânia, Médio Oriente, mas não só. E hoje, para nos ajudar nesta análise e neste olhar, contamos com a presença do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, boa tarde, bem-vindo. Vamos começar por este ataque em larga escala lançado pela Rússia contra a Ucrânia, em particular contra a capital Kiev. O último balanço apontava para cinco mortos. Foram registadas várias explosões, atingidos edifícios residenciais. Que sinal dá a Rússia com este ataque à capital ucraniana?
É o sinal que, se houvesse dúvidas, realmente não estamos aqui num contexto de nos estarmos a aproximar de algum tipo de cessar-fogo ou de negociações de paz, portanto, isso já devia ter ficado evidente. Mas realmente o que temos aqui é um intensificar, uma escalada, e fala-se muitas vezes, abusa-se inclusive desta palavra escalada, mas realmente uma escalada daquilo que tem sido a tática habitual da Rússia, sobretudo nos períodos de inverno, que é realmente apostar em grandes ataques aéreos, sobretudo com drones e mísseis, e também cada vez mais com estas bombas planadoras e agora eventualmente com jato também, contra infraestruturas críticas, contra centros populacionais e, portanto, no fundo, procurando tornar a vida durante o inverno, um inverno bastante gelado nestas zonas do mundo, um inferno pra população civil ucraniana pra procurar quebrar a sua vontade de resistência. E realmente, o que é incrível é que isso não tenha acontecido ao fim de mais de três anos de conflito. De fato, isso não aconteceu, pelo menos até ver. Realmente, também é importante destacar que isto são ataques muito intensos, com grande regularidade, mas sem qualquer tipo de pré-aviso. Portanto, a única razão também porque não há mais mortes civis é porque a Ucrânia investe imenso, dá prioridade à proteção da sua população civil, com abrigos, investe muito no armamento antiaéreo. Muitas vezes, quando Zelensky vai procurar apoio militar, primeiro que tudo é disso que fala, da necessidade de mais apoio antiaéreo. E portanto, é isso que explica, por exemplo, a diferença em relação a outros conflitos, onde, na verdade, os ataques até são menos intensos, onde até no caso de Israel em Gaza, muitas vezes havia pré-avisos pras populações saírem das zonas que iam ser atacadas, mas onde acabou por haver mais vítimas civis, porque obviamente não havia essa, nomeadamente da parte do Hamas, não havia essa preocupação de proteção da população civil.
Esta sexta-feira é também notícia o ataque ucraniano contra o porto de Novorossiysk, que suspendeu a exportação de petróleo após este ataque. É esta a estratégia da Ucrânia também atingir infraestruturas críticas, como é o caso deste porto?
Sim, aqui a grande novidade no último ano tem sido que a Ucrânia tem sido cada vez mais eficaz nestes contra-ataques aéreos, sempre procurando alvos militares ou alvos que tenham a ver realmente com esta infraestrutura de refinação ou de exportação de petróleo e gás, portanto, os hidrocarbonetos, que são realmente o grande motor da máquina de guerra russa, são uma fatia crucial do orçamento de Estado russo e, portanto aí a Ucrânia o que está a tentar fazer é com os meios que tem, que são sempre muito inferiores aos da Rússia. Temos esta assimetria permanente de meios, enfim, desde o início da guerra e que o apoio ocidental atenuou um pouco, mas nunca conseguiu realmente inverter. Mas com estes poucos meios, conseguir ter aqui estragos em infraestruturas que são mais vulneráveis, ou seja, enfim, os hidrocarbonetos, como nós sabemos, facilmente explodem, portanto, não é preciso drones com muita capacidade destrutiva pra produzirem muitos estragos e, por outro lado, também que são realmente muito importantes pro esforço de guerra, enfim, em vários níveis, desde esta dimensão de rendimento que pra o Estado russo que vai permitir financiar a guerra, mas inclusive até alimentar a máquina de guerra russa, que, como todos os exércitos contemporâneos, é muito mecanizada e, portanto, também precisa de combustível pro esforço de guerra.
É eficaz esta estratégia ucraniana ou produz alguns resultados, para além dos danos evidentes provocados nas infraestruturas que servem de alvo a esses ataques?
A estimativa em relação a este porto, que é um porto no Mar Negro, é que passa por aí à volta de 2 milhões de barris por dia, é à volta de 2% do mercado global, o que pode parecer pouco, mas é imenso. Realmente, com um ataque só e vindo de um só país, portanto, realmente parece ter causado aqui danos significativos. A questão sempre, o problema sempre, enfim, e é também verdade que a Ucrânia parece estar a ser mais eficaz nestes ataques, sobretudo nos últimos meses, mas é verdade também que há sempre esta questão que é quão rapidamente é que se consegue reparar esses danos. No fundo, isto é um gato e o rato constante, ou seja, tal como a Ucrânia também há anos que é atacada e vai procurando reparar, restabelecer as suas centrais elétricas, a sua rede elétrica, portanto, no fundo, contrariar os efeitos negativos dos ataques russos. Obviamente, a Rússia está a tentar fazer a mesma coisa com estes ataques também. Portanto, a questão sempre é depois quão rapidamente também é que o outro lado consegue recuperar, e isso é muito difícil de prever também com a informação que temos disponível.
Bruno, sugires ainda um terceiro tema para esta edição de Gabinete de Guerra, a declaração do chanceler alemão. Ontem, Friedrich Merz declarou que os jovens da Ucrânia não devem deslocar-se em massa para a Alemanha e disse Merz que pediu a Volodymyr Zelensky para garantir que a chegada de jovens ucranianos ao solo alemão fosse restringida. O que se te oferece dizer sobre este pedido e esta declaração do chanceler da Alemanha?
Pelos vistos esta opção ucraniana já está a ter consequências negativas também em termos de relações diplomáticas. Ainda há uns dias falámos disso, um colega que tinha estado na Ucrânia dizia que realmente em termos dos soldados ucranianos, essa iniciativa foi bastante desmoralizadora. No fundo, havia ali uma espécie de reserva estratégica, que era estes jovens a partir dos 18 anos não iam pra linha de frente até aos 25 para poderem continuar a sua educação, mas também não podiam sair do país e à partida com esta ideia de que havendo uma aflição na linha da frente, podia-se mobilizar como último recurso essa reserva. Aparentemente, o que está a acontecer também é que, de acordo com os órgãos de informações alemães, está a haver um enorme aumento do número de jovens ucranianos a entrar na Alemanha, passaram de cerca de 100 por semana pra 1000. Já há mais de 1 milhão de ucranianos refugiados na Ucrânia. Há também uma controvérsia na Alemanha, porque esses jovens ucranianos que não estão a trabalhar recebem subsídio de desemprego e a ideia é que isso pode levar a que não tenham incentivos a procurar emprego. Eu tenho algumas dúvidas que as pessoas não procurem emprego na Alemanha, mas remunerado, que será certamente melhor remunerado que um subsídio. Mas em todo o caso, isso está também a criar problemas na política interna alemã. E o chanceler Merz veio aqui dizer: "Vocês têm que controlar isso, porque isso está a criar problemas aqui", é o que ele diz nessas declarações públicas, portanto, reportando a essa conversa com o Zelensky, mas ele depois diz isso numa conferência de imprensa, "os jovens ucranianos devem estar na Ucrânia a lutar pelo seu país, a defender o seu país". Obviamente, em termos pessoais, não me sinto à vontade para fazer esse genre de declarações. Eu percebo que, de facto, sendo possível escapar a uma guerra, haja muita gente jovem que prefira fazer isso, mas realmente as implicações pro futuro da Ucrânia são tremendas. A ideia era manter os jovens aqui e educá-los, garantir o futuro da Ucrânia. Se não ficam no país para o defender de armas na mão, mas se não ficam no país de qualquer forma, eventualmente isso vai ser um problema adicional para o futuro da Ucrânia, quer em termos de defesa, quer em termos de economia, de desenvolvimento, etc. Portanto, perder alguma da sua população mais jovem, mais dinâmica. Mas tudo isto mostra realmente como a Ucrânia está a enfrentar uma crise particularmente difícil em várias frentes.
Bruno, ainda temos aqui mais alguns segundos. Há uma notícia de hoje, isto sobre o Médio Oriente, deixando agora o conflito no leste da Europa e passando para o Médio Oriente, que a Rússia apresentou no Conselho de Segurança das Nações Unidas um projeto de resolução alternativo sobre a Gaza. Que projeto de resolução é este?
Toda esta questão do mandato da força de paz, da força de manutenção de paz. Aparentemente, parecia que havia um certo consenso, pelo menos foi essa a ideia que os Estados Unidos passaram sobre o tipo de mandato, sobre esta ideia que seria, aliás, uma força de imposição de paz, com a possibilidade de desarmar grupos armados, etc. Começaram a surgir nos últimos dias muitas notícias de que alguns dos países que se tinham oferecido ou que tinham sinalizado interesse, de facto, tinham muitas dúvidas de uma missão nesses termos. O próprio Egito, por exemplo, desde logo. Portanto, esta ideia que estariam disponíveis para manter a paz, para treinar uma força palestiniana, mas a ideia de desarmar pela força o Hamas, que é o que estaria aqui implícito, já seria uma missão muito mais arriscada e portanto, de repente, o número de países disponível começa a diminuir. Aparentemente, a Rússia está a tentar ganhar a iniciativa, tentar dar eco a essa insatisfação e recuperar algum protagonismo. A Rússia ficou muito marginalizada também por força das derrotas que os seus aliados, o Irão e o regime de Assad, tiveram. No caso do regime de Assad na Síria, inclusive a queda do regime. A Rússia está sempre à procura de uma oportunidade para reafirmar o seu protagonismo, o seu estatuto de grande potência, sendo que está agora muito condicionada pelo conflito na Ucrânia, mas não deixa sempre de ir tentando. Não me parece que seja muito provável que isso vá muito longe, porque obviamente os Estados Unidos deverão querer continuar a controlar o problema. Mas em todo o caso, parece ser um sinal de que há realmente problemas a esse nível de desenho da missão de paz, que foi aliás uma das coisas que eu fui aqui sublinhando, que era algo que se podia antecipar como uma das grandes dificuldades e um dos grandes testes deste plano de paz, que seria preciso ultrapassar para passar pras fases seguintes, esta questão do desarmamento do Hamas, quem é que faz isso, quem é que garante isso, e se esta força de paz, quem é que estaria disponível a assumir realmente os riscos que esse tipo de missão implicaria.
Falaste no Egito, também os Emirados Árabes Unidos nos últimos dias vieram manifestar indisponibilidade para nesta altura integrar essa força internacional. Bruno Cardoso Reis, historiador, esteve conosco hoje neste gabinete de guerra. Olhar para estes dois conflitos no Médio Oriente e também no leste da Europa. Bom fim de semana, Bruno.
Bom fim de semana, obrigado.