Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360º, esta segunda-feira com a análise do coronel José do Carmo. Bom dia, coronel, bem-vindo.
Bom dia.
Bom dia. Começamos pelas negociações trilaterais entre Estados Unidos, Ucrânia e Rússia, que vão continuar no próximo domingo nos Emirados Árabes Unidos. Mas ontem ouvimos Zelensky dizer que o acordo com garantias de segurança oferecidas pela Casa Branca está 100%, que só falta assinar. Sobre o acordo de paz propriamente dito, não adiantou nada, coronel. Fica cada vez mais difícil para a Ucrânia, para Zelensky, evitar uma paz imposta pela Rússia, ou seja, nos termos de Moscovo.
Se ela vier a existir, não será bem nos termos de Moscovo. Ou seja, Moscovo se fosse, já tinha aceito. Tinha saído desta reunião com as coisas muito mais definidas e não saiu. Saiu ali um princípio que vão continuar a falar. Foram postas na mesa do lado ucraniano as garantias de segurança que os Estados Unidos se dispõem ou que estarão comprometidos a aceitar, mas essas medidas de segurança implicam um exército ucraniano muito mais forte, muito mais abastecido e muito mais ligado aos Estados Unidos e ao Ocidente do que Moscovo está disposto a aceitar. Ou seja, a Rússia tem um objetivo nesta operação, que não é aquele que a retórica diz, de desnazificação, de auxiliar a população russa, não é nada disso, são tudo pretextos. O que Moscovo quer é uma Ucrânia que fique subordinada à Rússia, de modo tipo a Rússia, que não se liga ao Ocidente e que não tenha um exército forte, de modo que possa depois dominar, de outra maneira qualquer, ou continuar mais tarde as operações, quando entender que está em condições de o fazer. E esse é que é o problema. As linhas vermelhas são completamente diferentes. A Ucrânia já parece, pela retórica, disposta a aceitar alguma ambiguidade territorial nas regiões que neste momento estão ocupadas pela Rússia, provavelmente irá aceitar não aquele pedaço do Donbass. É um pedaço que a Ucrânia não está disposta a aceitar, a não ser com contrapartidas muito fortes e não parece que a Ucrânia vá retirar daquele território e entregá-lo aos russos, acho que está fora da cogitação, embora seja esse, para já, o desejo inicial da Rússia. E, portanto, as próximas reuniões, que irão ocorrer já agora em fevereiro, vão chocar-se nestas linhas vermelhas de ambas as partes e também linhas vermelhas americanas. A América não quer que esta guerra continue, não apenas pelo ego do Trump, para há mais uma guerra, mas acima de tudo porque os Estados Unidos consideram que um prolongamento desta guerra irá colocar ainda mais a Rússia nos braços da China. E esse é que é o grande problema.
Pois. No final da semana passada ouvimos um Zelensky desesperado a atacar a falta de justiça contra Putin e a acusar a Europa e também a NATO de se encostarem aos Estados Unidos. Coronel, Zelensky diz que a Europa precisa de Forças Armadas unidas, forças que possam verdadeiramente defender a Europa, e tem razão, mas coronel, o que é que está a ser feito nesse sentido? Se é que está a ser feita alguma coisa.
Os diagnósticos são sempre fáceis de fazer. Toda a gente se apercebe do que seria útil fazer, mas a Europa não está unida, de facto. Há países que apoiam a Rússia, há países que são muito mais egoístas, pensam mais nos seus interesses imediatos e não no futuro. E, portanto, a Europa é o que é, sempre foi. É um continente que muitas vezes está em guerra uns com os outros. Isso é o que é, é a realidade. Nós desejaremos que não fosse assim, mas é assim. O que a Europa irá fazer, irá continuar a fazer lentamente. Quando se fala em Europa, fala-se se calhar na União Europeia, uma entidade supranacional. Mas é tal coisa. A União Europeia não é um Estado federado, nem sequer é um Estado confederado e, portanto, serão sempre os países a tomar suas decisões. Os processos comuns são lentos, não respondem a mudanças súbitas de paradigma, mas isso é o que será. Serão os países, não a União Europeia, a fazer aquilo que tem que ser feito, que é alocar orçamentos para Forças Armadas, para aumentar a produção de certas armas, para criar uma cultura de defesa que a União Europeia não tem, embora entenda que mais tarde, no futuro médio prazo, possa vir a haver uma integração. Note que até os meios são diferentes. Há países que têm calibres de um lado, outros calibres diferentes, aviões diferentes, meios diferentes. É muito difícil uma logística e uma integração de tudo isto. São linhas diferentes de armamento, de equipamento e tudo isto para se uniformizar, porque os países também não têm interesses iguais. Há países que são mais marítimos, outros são mais terrestres. Isto tudo é muito difícil de fazer. O que vai acontecer é os países próprios, Alemanha, Polónia, aqueles países mais na linha da frente com a Rússia, estão a tratar de se armar, a tratar de se reorganizar, de aprimorar a sua defesa. Os outros, que estão cá mais para trás, vão adiando à espera que o problema passe. É assim que é. Não acho que há muito a fazer. A Europa não é um Estado.
Sobre o que se está a passar nos Estados Unidos, depois de mais uma intervenção do ICE, que resultou na morte de um cidadão norte-americano, coronel, parece-lhe que Trump vá recuar depois da onda de críticas até de antigos presidentes, ou os Estados Unidos podem estar à beira de uma guerra civil?
Neste momento há dúvidas sobre se a atuação daquela agência policial está a ser feita segundo aquilo que é o Estado de direito. Mas são casos individuais, que individualmente irão ser colocados em tribunal, irão ser julgados por juízes. Agora, esta ideia de que o Estado americano está a criar uma força que, de algum modo, é acima da lei ou com esta perceção, porque às vezes são as percepções que interessam. Sim, isto também não é bom para Trump Se começar a ser visto como aqueles estados, ainda por cima, aqueles que apoiam Trump têm uma plataforma que é menos Estado, ou seja, o Estado federal não se meter e não impor o seu dictate sobre os estados, são os estados que constituem a união. E portanto, esta intervenção de uma polícia federal dentro dos estados vai contra esta ideologia. Portanto, há aqui problemas na base de apoio de Trump. Ele não é propriamente tonto e poderá mudar de rumo muito rapidamente quando se apercebe que está-
Encurralado, não é?
Diga.
Quando se apercebe que está encurralado, não é?
Exatamente. Quando percebe que por aí não ganha nada. Ele muda de rumo rapidamente, também não tem esse problema.
Sobre a Gronelândia, na sexta-feira, já depois do Fórum Davos, a Casa Branca publicou uma montagem de Donald Trump a caminhar ao lado de um pinguim na Gronelândia, onde estes animais não existem, mas não é esse o ponto. A questão é, coronel, Trump recuou ou não no tema da anexação da Gronelândia?
A retórica da anexação, eu até cheguei a falar aqui disto, é uma grande retórica. Não é possível a anexação da Gronelândia no imediato, e também no médio prazo também será muito difícil, porque a própria lei interamericana não permite assim de cara, só porque o presidente decide. A não ser que os Estados Unidos deixem de ser um Estado de direito, que ainda é. O Trump, no fundo, terá obtido nesta reunião, já ele sabia perfeitamente que não era possível invadir a Gronelândia ou anexar a Gronelândia assim de cara, só porque ele queria. O que ele queria, neste caso, é muito simplesmente direito de veto sobre os negócios chineses em infraestruturas na ilha, que é o que está em causa aqui. A China tem uma estratégia, que é uma estratégia longa, lenta, é como a água que vai ocupando e vai enchendo, que é no fundo, dominar a ilha, estudantes que vão estudar pra China gratuitamente, infraestruturas, aeroportos, minas, e com muitas vantagens. E essa é a estratégia chinesa em todo o mundo. Aquilo é um gargalo, é ali que passam ou passarão rotas importantes no futuro, eventualmente. E os Estados Unidos não querem que isso aconteça. Portanto, eles irão basicamente ter direito de veto sobre este tipo de negócios e irão também ter uma maior liberdade, desta vez, quando o acordo chegar. Neste momento, há apenas indícios que poderá haver um acordo, há apenas uma disposição para negociar, não há um acordo ainda. Mas as linhas gerais deste acordo serão estas, ou seja, direito de veto americano sobre negócios com empresas chinesas e, eventualmente, maior liberdade americana em movimentações militares dentro da ilha, no sentido de poderem criar mais novas instalações. Neste momento, podem fazê-lo. Podem fazê-lo, mas é porque o governo da Dinamarca permite. Mas o governo da Dinamarca pode mudar, amanhã pode ser outro e pode não permitir. Desde que fique no papel, eu acredito que seja isto que os americanos querem. Mas Trump, claro, meteu também a sua colher, que é no sentido de "agora vou adquirir mais um bocado de território", mas se desse, seria ótimo para ele, mas não me parece que seja um ponto importante para a América isso.
Coronel José do Carmo, muito obrigada pela sua análise no Gabinete de Guerra. Um bom dia, boa semana.
Obrigado.
Obrigada.