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Está no ar o Gabinete de Guerra desta quinta-feira, onde vamos abordar um dos temas do dia: a visita do secretário-geral da NATO à Ucrânia. E para nos ajudar a perceber o significado e as consequências desta visita de Jens Stoltenberg, temos conosco o especialista em História Militar, professor da Academia Militar António José Telo. Esta é uma conversa também aqui na Rádio Observador com a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e o jornalista Miguel Videira.

De fato, Nelson, uma das notícias do dia. Stoltenberg chegou a Kiev esta manhã, uma visita surpresa, a primeira desde o início da guerra. Prestou homenagem aos soldados ucranianos mortos durante o conflito. Mais tarde, numa conferência de imprensa conjunta com Volodymyr Zelensky, anunciou que o tema da adesão da Ucrânia à NATO vai ser discutido na reunião da Aliança Atlântica, agendada para o próximo mês de julho. Professor António José Telo, boa tarde, bem-vindo. Como é que interpreta esta visita e este anúncio, que seguramente, imagino, não deixará particularmente satisfeito o regime de Moscou?

Boa tarde. Acho uma visita particularmente importante e que se insere dentro dos preparativos, quer do lado ucraniano, quer do lado russo, do momento decisivo da guerra em que vamos entrar agora nesta primavera-verão. É particularmente importante por várias razões. Em primeiro lugar, tinha havido um consenso na primeira fase da guerra de que a Ucrânia desistia do seu pedido de adesão à NATO. Agora, com esta visita, que é uma visita única, portanto é um caso inesperado e é um caso original, essa questão torna a ser colocada em cima da mesa. E torna a ser colocada num sentido muito evidente de dizer que a NATO vai reavaliar essa situação, o que significa que o pedido se mantém e que a intenção se mantém. Portanto, é uma alteração da situação existente e é uma maneira de a NATO dizer à Rússia que não são os únicos que podem fazer a escalada da guerra. Recordo que neste momento, por exemplo, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo está a fazer uma digressão pela Ibero-América, visitando a Nicarágua, Cuba, Venezuela e o Brasil. Portanto, é nisso, de fato, uma resposta a esta escalada diplomática que a Rússia está a fazer e também uma resposta às próprias afirmações do presidente Lula, do Brasil, que parece fazer afirmações num contexto como nunca tinha feito anteriormente.

Sobre isso, aliás, deixe-me perguntar-lhe, porque falávamos da escalada da guerra. Lula da Silva queixava-se há dias que o Ocidente, e estamos a falar em particular dos Estados Unidos e União Europeia, estavam a fomentar a guerra. Este anúncio de Stoltenberg vem dar, de alguma forma, razão ao presidente brasileiro?

De modo nenhum. A NATO é uma aliança defensiva e, portanto, a única questão aqui que se põe desde o primeiro momento é a garantia de segurança da futura Ucrânia. Ou seja, a garantia de que a Ucrânia tem, independentemente como esta guerra termine e do acordo que existe, a garantia que ela terá de que o acordo será respeitado. Porque recordo que esta guerra surge porque a Rússia por várias vezes desrespeitou os acordos. A Ucrânia, nomeadamente quando se tornou independente, desistiu do seu arsenal nuclear, entregou à Rússia não só o arsenal, mas também N vetores ligados ao arsenal nuclear, bombardeiros nucleares, por exemplo, e entregou-os à Rússia justamente mediante a garantia da Rússia de que não atacaria a Ucrânia. Ora, por duas vezes, em 2014 e em 2022, a Rússia desrespeitou essa garantia. Portanto, este pedido de adesão à NATO da Ucrânia, que já vem de há muito tempo, era justamente uma maneira de a Ucrânia garantir a sua segurança. Não era de atacar a Rússia, mas de garantir a sua segurança, que a Rússia quebrou as suas promessas e a sua garantia. Portanto, não se trata, nesse aspecto, de uma qualquer provocação à escalada do Ocidente. O que há aqui, sim, é uma alteração da situação inicial. Situação inicial em relação a março, abril do ano passado. Nessa situação inicial, no sentido de facilitar um acordo sobre a agressão brutal da Rússia, a Ucrânia tinha suspendido o seu pedido de adesão e tinha tomado essa iniciativa como forma de facilitar esse acordo. Bom, esse acordo não apareceu. A Rússia nunca se mostrou disposta a fazer cedências para esse acordo. Pelo contrário, a Rússia fez, sim, uma escalada unilateral, através da anexação unilateral de uma parte substancial do território da Ucrânia.

Professor António José Telo, mas esta posição do Brasil, através do presidente Lula da Silva, não demonstra que, a par de outras ocorrências que já verificámos, como por exemplo a posição da Índia em certos momentos, que tem sido difícil ou está a ser difícil ao Ocidente, aos Estados Unidos e à União Europeia, juntarem outros aliados para este movimento?

Não. Ou seja, a maioria das votações na ONU nisso são claras, penso eu. A esmagadora maioria dos Estados vota contra a agressão russa e vota a favor da retirada das forças russas Portanto, aqui há de facto uma maioria clara. Aliás, amanhã no encontro de Ramstein, só os Estados que ajudam ativamente a Ucrânia, que fornecem armas para a defesa da Ucrânia. Eu recordo que a Ucrânia não está a atacar ninguém. A Ucrânia está a tentar se defender e tem cerca de 18% do seu território ocupado. Portanto, é uma defesa legítima em relação a uma agressão. Esses Estados que fazem uma ajuda ativa à Ucrânia são perto de 60. E, para além disso, há pelo menos mais 80 a 100 outros Estados, depende das votações na ONU, que condenam a agressão russa, embora não façam uma ajuda ativa à Ucrânia. Ainda há pouco tempo, aliás, um novo Estado se juntou a uma ajuda ativa no sentido de fornecer armas à Ucrânia, que foi a Coreia do Sul. Que não é um caso tão pouco importante como isso, porque tem uma das mais importantes indústrias de defesa. E, por exemplo, em aspetos que interessam à Ucrânia, como sejam carros de combate e como sejam veículos de combate e infantaria, tem dos mais modernos do mundo, que já tem fornecido e que está a fornecer à Polónia, nomeadamente, e que agora se mostra disposto a enviar armamento para a Ucrânia.

Professor, ia fazer-lhe só mais uma pergunta, estamos a terminar o nosso tempo. Queria lhe perguntar se antecipa alguma resposta, sob o ponto de vista militar, por parte da Rússia a este retomar do dossiê da negociação da adesão da Ucrânia à NATO?

Infelizmente, a resposta da Rússia, que ela já nos habituou, costuma ser sempre o aumento dos bombardeamentos a alvos civis. Essa é a resposta tradicional da Rússia e infelizmente é de prever que isso aconteça outra vez. Portanto, em todos os casos em que tem havido um aumento do apoio internacional à Ucrânia e que tem havido um aumento da ajuda à Ucrânia, a resposta russa é essa. Um crescimento dos bombardeamentos feitos por artilharia, por mísseis, por lanças-foguetes, em menor grau pela aviação, e sobretudo atingindo alvos civis e atingindo indiscriminadamente alvos civis. A Ucrânia desde o primeiro momento tem seguido uma política de não só de ocupação do território ucraniano, mas de genocídio da população ucraniana desses territórios, ou seja, de tentar afastar a população ucraniana desses territórios, de modo a quando eles sejam ocupados, já lá estejam pró-russos e população que a Rússia depois lá coloca. Portanto, isto é uma política de genocídio que a Rússia tem seguido. Portanto, o que é de prever é que haja uma intensificação dessa política. Os bombardeamentos fazem parte dessa política. É uma maneira, nomeadamente, de levar a população ucraniana a fugir e sair destas zonas que estão em disputa e que eventualmente a Rússia pretende ocupar, como tem feito sistematicamente no Donbass. Portanto, é de prever que haja aí, de facto, uma intensificação desta política que, em termos internacionais, tem sido classificada, e nomeadamente por tribunais internacionais, tem sido classificada como crime de guerra. E genocídio é, de facto, um crime de guerra.

Professor António Gjedl, agradeço a sua disponibilidade e a sua análise a este tema do dia, no que diz respeito à guerra na Ucrânia. A visita do secretário-geral da NATO, que chegou esta manhã bem cedo a Kiev e prometeu retomar as negociações sobre a adesão da Ucrânia à Aliança Atlântica no próximo mês de julho.