A consultoria Deloitte, a maior do mundo, terá ajudado o oligarca russo Roman Abramovich a falsificar documentos para ocultar a riqueza do multimilionário às autoridades do Chipre. Este é o resultado de uma investigação conjunta da BBC e do Bureau of Investigative Journalism, divulgada no programa BBC Panorama, no domingo, e inserida nas investigações do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação sobre a evasão de sanções à Rússia.

Os registos do escritório da consultoria no Chipre dão conta do “desaparecimento” de 672 milhões de libras (795 milhões de euros) das contas das empresas de Abramovich, que incluíam mansões, super-iates e jatos privados. Além disso, a Deloitte terá aconselhado o oligarca a evitar o pagamento de impostos através da falsificação de documentos.

A investigação remonta a 2006, quando as operações financeiras do oligarca eram feitas através do Chipre, considerado um “paraíso fiscal” da Rússia entre 1995 e 2022.

O primeiro documento analisado remonta a 2006, após uma nova lei cipriota de transparência ter obrigado à publicação das contas da empresa. Para evitar a declaração de rendimentos, que incluíam mansões, apartamentos de luxo e jatos privados, no valor total de 672 milhões de libras (795 milhões de euros), os associados de Abramovich e da firma MeritServus, detida pela Deloitte, decidiram “reescrever a história”.

“Elaboraram um plano para burlar a lei de transparência transferindo os ativos para a empresa-mãe da Amiscan nas Ilhas Virgens Britânicas, onde poderiam ser mantidos escondidos. E retrocederam a mudança em três anos para fazer parecer que a transferência de ativos havia acontecido em 2003“, refere a BBC. A Deloitte Cyprus considerou os documentos “adequados” para permitir a remoção dos ativos das contas da Amiscan, e assinou as contas. Ficaram apenas 75 mil dólares (67 mil euros) dos ativos financeiros do oligarca no Chipre.

Além do desaparecimento de 795 milhões de euros, um esquema semelhante apagou quase dois mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros). Um email da MeritServus enviado em agosto de 2005 para os associados de Abramovich sugeria ao oligarca a alteração de registos contabilísticos para 2003 e 2004, para evitar o pagamento de impostos no Chipre.

“Se concordar, será necessário alterar as demonstrações financeiras e os registos contabilísticos em conformidade para 2003 e 2004”, escreveu Demetris Ioannides, da MeritServus.

Cerca de um mês depois, um associado russo respondeu “concordo”, tendo depois sido falsificados vários documentos para demonstrar que a companhia Kravin Investments, com sede no Chipre, “estava apenas a guardar e a investir os fundos em nome da sua empresa-mãe nas Ilhas Virgens Britânicas” e que, por isso, não teria saldo na conta bancária, pelo que não seria obrigada a pagar impostos.

Em setembro de 2005, a Deloitte pediu algumas mudanças nas contas, como na taxa de juros e nos saldos da conta bancária, devido às mudanças retroativas, o que sugere que a companhia terá aconselhado e permitido a falsificação de documentos e a evasão de milhões de dólares em impostos. De acordo com o jurista Andrew Mitchell, o esquema constituiu uma evasão fiscal “direta”.

“Se acontecesse na Inglaterra e fosse na casa dos milhões [de dólares], a Autoridade Tributária e a Alfândega de Sua Majestade estariam a pensar numa acusação”, afirmou à BBC.

Em 2006, um terceiro esquema semelhante transferiu mais de 10 mil milhões de dólares (8,9 mil milhões de euros) da companhia Electus Investments para as Ilhas Virgens Britânicas, para dar a ideia de que a empresa não era detentora da fortuna.

“Por cada oligarca russo ou oligarca corrupto do Médio Oriente ou da África, há um exército de serviços financeiros e jurídicos ocidentais e prestadores de serviços de relações públicas, que está facilmente a levar dinheiro para branquear a sua reputação e fazê-los parecer normais”, afirmou Vladimir Milov, antigo vice-ministro da Energia da Rússia e atual crítico do Kremlin, à BBC.

Os advogados do oligarca negam as acusações, afirmando que a investigação tem “propósitos políticos”, e afirmam que a investigação não mostrou “qualquer evidência” de que Abramovich teria sabido, ordenado ou autorizado a falsificação de documentos.

Roman Abramovich tornou-se conhecido em 2003 por ter comprado o Chelsea, mas foi obrigado a vender o clube após ter sido incluído na lista europeia de sanções, em 2022, devido às suas ligações ao Kremlin. Além disso, a obtenção da cidadania portuguesa, em 2021, motivou um inquérito por suspeitas de irregularidade na sua atribuição.

[Annie conhece o ministro do Interior de Cuba há muito tempo, mas a paixão que os une é relativamente recente. É justamente nessa altura que Zé Manel, como ela lhe chama, vai ser implicado num dos maiores escândalos da liderança de Fidel Castro. O “Caso Ochoa” envolve droga, fuzilamento, prisão e o narcotraficante mais conhecido do mundo: Pablo Escobar. Já pode ouvir o quinto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]