Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Começa aqui mais uma edição do "Gabinete de Guerra", num dia em que as forças ucranianas voltaram a atacar território russo. Desta feita, o alvo foi a cidade de Domodedovo, a 45 km de Moscovo. É nosso convidado hoje no Gabinete de Guerra, o coronel Mendes Dias, que vai estar aqui à conversa com a Judite França e o Miguel Videira.

O ataque a que fazias referência, Nelson, foi feito com recurso a drones. Na sequência deste ataque, registou-se um incêndio, segundo os meios de comunicação, numa oficina de automóveis. Fica situada a cerca de 10 km do aeroporto de Domodedovo, um dos mais importantes do país. Boa tarde. Bem-vindo, coronel Mendes Dias. Retomo uma pergunta que, de resto, é tema central do programa de hoje, da história do dia da Rádio Observador: a Ucrânia levou a guerra para dentro da Rússia?

Sim, claramente. Pondo de fora as questões ligadas à legitimidade, tem. Isso já vem acontecendo há algum tempo, mas agora com maior frequência, partindo pela capacidade que lhe é dada pelos drones que possui. Há um caso, facto, e passou a haver, do meu ponto de vista, um padrão. O padrão está caracterizado perto do sistema do centro de decisão política da Federação Russa, Moscovo, em primeiro lugar. Em segundo lugar, parece que a trajetória dos drones vai ao encontro de bairros onde vive a elite russa, incluindo o seu presidente russo, e para aeroportos. E este foi, do meu ponto de vista, mais um. Claro, podemos interpretar as interceções muito tarde e isto pode corresponder a uma fragilização do sistema de defesa antiaéreo russo. De qualquer maneira, se assim é, certamente os russos pelo menos terão que mudar os parâmetros com que funcionam os sistemas informáticos do sistema de defesa aérea, principalmente o sistema de defesa PANTSIR. Mas é o que isto indica. Portanto, a resposta é sim. E em segundo lugar, há um padrão nessas ações. O que tem causado é a incerteza, a guerra levada até aí, é mexer com a população, porque do ponto de vista de objetivos atingidos, obviamente que até agora não teve consequência palpável.

Mas pode ser preciso deslocar alguns dos meios de território ucraniano para território russo?

Não, julgo que não. O meio ucraniano tem alcance e os meios de defesa antiaérea que estão na Rússia também têm alcance mais que suficiente para fazer as interceções. Do meu ponto de vista, nem o quantitativo, porque repare, há outra ideia que é importante. Quando se pretende a utilização do drone, conjugado com outros ou não, quando se pretende, de facto, um resultado decisivo, o lançamento é de enxames. Grupos de cinco drones ou grupos de 10 drones, a que a seguir poderão vir dois ou três mísseis. Isto é, vamos impactar o sistema de defesa antiaérea do outro lado, que fica ocupado. Aliás, como os ucranianos fizeram com o Moskva, o navio que foi afundado, o navio almirante da Frota do Norte. Portanto, inunda-se os radares dos sistemas para depois vir um meio, de facto, decisivo. Ora bem, tem havido um drone, dois drones a sítios diferentes e isto não é suficiente. As forças ucranianas certamente sabem isso, mas causa um efeito importante do outro lado. Particularmente, nós temos alcance para chegar aí. E é isto que está a acontecer. E as populações, obviamente, passam a viver em sobressalto e deixam ter aquela ideia que vivem num espaço sacrossanto.

Com potencial para mudar a perspectiva que a população tem deste conflito?

Sim, não tenho dúvida, mas só que depois tem dois efeitos. Há duas ideias. A primeira ideia é o facto dessa incerteza, o medo que leva a população a tirar apoio. Mas pode haver o segundo efeito. A população depois de habituar-se, vai pro bunker, vem e começa a banalizar e até aumenta o grau da resistência. Por exemplo, passou-se com a população ucraniana em Kiev e com aquelas coisas todas que se fizeram, em que se ganhou resistência. E passou-se também na Segunda Guerra Mundial, de bombardeamentos, uma série de bombardeamentos que, às tantas, as populações iam para os bunkers, vinham e banalizavam, até ganhavam mais resistência. Eu próprio assisti isso na Bósnia em 94, 95. E pode ter os dois efeitos. Nesta altura, julgo ter mais o primeiro efeito da incerteza, porque não é significativo do ponto de vista dos meios envolvidos e da consequência.

Estes ataques ucranianos podem, de alguma forma, abrir caminho a um endurecimento por parte da ofensiva de Moscovo a território ucraniano, o uso de outro tipo de armamento? Antecipa essa possibilidade?

Não, o uso de outro tipo de armamentos, julgo que se deve estar a referir objetivamente ao armamento nuclear, portanto a resposta, do meu ponto de vista, é não.

Armas químicas.

Não. Se há a haver, já poderia ter havido. Não é isto que vai trazer, até porque já vem do anterior. Por exemplo, julgo que foi hoje pela primeira vez que as forças russas utilizaram em massa munições de fragmentação, na área de Robotyne. Mas não é nessa lógica. Portanto, o endurecimento de escalar Só há um, que é o escalar do convencional para o não convencional. E isso significa nuclear químico-biológico. Repare que não há consequência nenhuma do ponto de vista de efeitos nos ataques ucranianos, a não ser este que nós estamos aqui a discutir. Eu não antevejo que seja por causa disso. Não a passagem do convencional para o não convencional. Por exemplo, houve uns ataques russos à Polónia, mas antes houve drones ucranianos na Crimeia. O que interessa é, como isto é ação-reação, esquecendo essas lógicas de vingança que não vejo muito bem na guerra. Aliás, nós quando dizemos que a guerra é dinâmica, é paradoxal, porque a guerra é ação-reação, e portanto há um dinamismo que lhe é inerente, pode é não ser de imediato. Mas o que pode acontecer é haver algum efeito punitivo, mas é um efeito punitivo útil. Isto é, a Ucrânia reparou que no dia 20 de julho de 2023, uma das empresas militares russas colocou de novo os T-72 e T-90 modernizados, entregou às Forças Armadas Russas. O que é que isto significou? Dadas as sanções, os russos há algum tempo foram buscar aqueles carros de combate mais antigos. Mas por que é que os foram buscar? Porque estes mais modernos, na componente do aparelho de pontaria, que é a câmara térmica, que era comprada aos franceses, é o Catherine C. Por efeito das sanções, deixou de haver possibilidades. Eu vou utilizar de forma mais simples a palavra, tiveram que encostar estas versões mais modernizadas e ir ao antigo. Qual foi a nossa linguagem? É porque já não têm mais, porque outra coisa qualquer. Não é verdade. Ora bem, mas a Ucrânia, dando conta que as empresas militares colocaram de novo isso, diagnosticado que esse handicap no que respeita aos aparelhos de pontaria foi resolvido, graças à óptica e à optrónica. O que é que fizeram a seguir? Bombardearam a tal fábrica que é suspeita de trabalhar exatamente estas áreas da óptica e optrónica. Quer dizer, mesmo que haja um efeito punitivo, do meu ponto de vista, tem que haver alguma coisa útil para efeitos da componente militar, quer seja ucraniana, se for Ucrânia, quer seja a Rússia, se for a Rússia. Se houver endurecimento para o não convencional, que eu julgo que não vai haver, mas se houver, não é certamente por causa de dois drones que acabaram por ser intercetados. Eventualmente, isso só é decisivo, costumo alongar um pouco, mas é importante dizer, só é decisivo se de facto se concluir que por essa ação ou outras de natureza irregular, os alvos sejam sempre de gravidade. Por exemplo, como o senhor presidente Zelensky e a sua entourage mais importante, ou o senhor presidente Vladimir Putin e a sua entourage mais importante. Aí já temos que pensar noutra forma, mas enquanto não for isto diagnosticado, julgo que não é motivo para esse tal endurecimento.

Coronel Mendes Dias, agradeço-lhe a sua disponibilidade e a sua presença neste Gabinete de Guerra. E mais um dia de ataques ucranianos à Rússia. Tem sido uma constante e foi também este o tema central desta análise, deste episódio de Gabinete de Guerra. Rádio Observador, Amadora