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Vamos olhar para alguns dos fatos mais recentes relacionados com o conflito no Oriente Médio e também com o conflito no Leste da Europa. E é precisamente por aqui que hoje começamos. Boa tarde, Bruno Cartaxo Reis, bem-vindo. Vamos começar pelo 19° pacote de sanções aplicado pela União Europeia à Rússia. Este número, porventura elevado, é um sintoma da falta de eficácia das sanções europeias a Moscovo?

Acho que é um sinal de que se podia ter sido mais eficaz mais cedo, mas também é verdade que isto da guerra económica, da guerra de sanções é um jogo permanente. Tal como no conflito militar, o inimigo tem um voto e se vai adaptando e vai procurando contornar ou adaptar-se ao tipo de táticas militares que estão a ser usadas, também acontece isso neste tipo de guerra económica, ou seja, basicamente o fenômeno do contrabando nas suas múltiplas formas. Portanto, realmente deve haver um esforço permanente de ir adaptando as sanções exatamente à tentativa de fugir às sanções. Eu diria que hoje em dia, provavelmente as sanções mais importantes são as chamadas sanções secundárias, que são aquelas que têm a ver com procurar identificar empresas, países que não são russos, não são a Rússia, que de repente passam a ter volumes de negócio quatro ou cinco vezes maiores do que acontecia antes e em que há indícios sólidos de que isso significará que estão a colaborar, obviamente, com um preço inflacionado, mas estarão a colaborar em formas de contornar as sanções. Outro aspecto que tem sido muito falado e que agora está a receber atenção reforçada é esta questão desta chamada Shadow Fleet, ou seja, esta frota de navios de nacionalidade duvidosa, que mudam de bandeira, que não se sabe muito bem a quem é que pertencem, pra onde é que vão, etc, mas que se percebe pelas suas rotas que estão a participar neste esforço para contornar as sanções contra o petróleo russo. Todo esse tipo de medidas são potencialmente bastante relevantes e eu acho que as duas coisas podem ser um pouco verdade. Se calhar devia-se ter feito mais cedo. Também havia aqui o receio do custo económico que isso podia ter na própria Europa.

E esse custo económico está afastado com esta intenção de bloquear de forma total as importações de gás natural liquefeito russo a partir de janeiro de 2027?

Lá está, é um exemplo de como essas coisas também são feitas muitas vezes de forma gradual. Para dar tempo aos países europeus para se adaptarem, para dar tempo ao mercado para encontrar alternativas, sem que isso também tenha custos económicos exagerados. Eu percebo que é algo que é sempre também muito criticável, ou seja, esta ideia que no fundo, mas afinal não queremos ajudar a Ucrânia. Mas é verdade, numa guerra económica, não faz muito sentido. Aqui, por exemplo, um dos receios era que houvesse uma explosão no preço do petróleo de tal forma que isso acabasse por beneficiar até as exportações russas. Mas a coisa não é assim tão simples. Estamos a assistir agora a uma subida do preço do petróleo, mas sobretudo por causa das sanções financeiras americanas. Já temos indicações, por exemplo, que empresas chinesas, que são das principais, neste momento, a par das indianas, os principais clientes do petróleo russo, que estão a cancelar contratos, desde logo porque têm um argumento legal para fazer isso, sendo que há aqui um custo que não estava previsto, que seriam estas sanções norte-americanas. Lá está, até pode subir o preço, mas isso não beneficiar a Rússia se ela não conseguir exportar. No fundo, são cálculos complicados, mas o ponto sempre é a ideia procurar prejudicar mais a Rússia do que os países europeus. Parece-me que por vezes têm havido casos em que se pode dizer que se esperou demasiado tempo, se hesitou demasiado, se teve demasiado em conta interesses muito específicos de certos países. O caso da Hungria é talvez o mais escandaloso, e que isso dificultou um avanço mais rápido. Mas eu também não acho que se possa dizer que as sanções são irrelevantes, como diz a Rússia. Se fossem irrelevantes, a Rússia não passava o tempo a tentar nas negociações de paz que fossem levantadas. Mas como também dissemos muitas vezes, o que a história nos mostra é que este tipo de guerra económica não é irrelevante, pode criar dificuldades, problemas, custos, bloqueios que são relevantes, que complicam o esforço de guerra do país que é o alvo, mas por si só nunca resolveram o conflito armado. Porque, por regra, quando chega a um conflito armado é porque o que está em choque é tão importante pras partes que não é simplesmente por haver aqui um custo adicional, além do custo em vidas e do custo financeiro que tem um conflito armado, não é por haver aqui um custo adicional que se vai de um momento pra outro parar o conflito, mas isso também não as torna irrelevantes.

Não foi só a União Europeia que aplicou sanções à Rússia, também os Estados Unidos o fizeram. Os Estados Unidos aplicaram sanções a duas empresas petrolíferas russas. E a propósito desta decisão, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, diz que sempre que falo com o Vladimir, tenho boas conversas, mas não levam a lado nenhum. Atirou a toalha ao chão Donald Trump na tentativa de mediar um acordo de paz entre a Rússia e a Ucrânia?

Eu acho que é demasiado cedo pra dizer isso e também não é muito conforme à personalidade do Donald Trump. Ou seja, eu acho que a única certeza que podemos ter em relação ao Donald Trump é a incerteza. Realmente, o Donald Trump é muito imprevisível e tem aqui uma visão muito personalizada da política externa, como nunca vimos de um presidente americano. Não quer dizer que as relações pessoais, a diplomacia presencial não tenham um papel importante, mas no caso do Donald Trump parecem ser basicamente o alfa e o ômega. Tudo se resume a isso. E portanto, isto significa que realmente ele parece estar sempre muito dependente com quem é que fala, quem é que ouve, do tipo de percepção um pouco intuitiva que tem do comportamento do outro líder, porque é basicamente isso que lhe interessa, do outro líder. E portanto, acho que dizer que há aqui um corte definitivo com a Rússia de Putin e que vai haver uma aposta clara, decisiva no apoio à Ucrânia, não me parece que faça sentido dizer-se isso. Eu não me arriscaria a dizer isso. Agora, realmente No fundo, começa a haver artigos e comentários até de responsáveis republicanos nos Estados Unidos a dizer que a certa altura o presidente Trump vai ter de perceber, depois de uma, duas, três vezes, que realmente Putin não está a negociar de boa fé, que não há nenhuma razão para acreditar que simplesmente a simpatia pessoal que Trump acha que Putin tem por ele vai aqui alterar alguma coisa, portanto, é preciso começar a aplicar pressão à séria, em termos económicos e em termos militares, para realmente forçar um cessar-fogo e forçar uma negociação um pouco mais de boa fé. Essa seria a única forma de realmente levar Putin a negociar. Eu obviamente concordo com esse ponto de vista, como será claro para os ouvintes já há bastante tempo. Ou seja, não me parece que enquanto Putin achar que tem hipóteses de ter alguns ganhos no terreno, mesmo com enormes custos, nomeadamente em vidas de soldados russos, e sobretudo enquanto ele achar que poderá convencer Donald Trump a deixar cair a Ucrânia, e portanto, o apoio militar americano é aqui absolutamente vital para a capacidade de resistência eficaz da Ucrânia. Enquanto Putin tiver essa ideia, e eu acho que ainda não pôs de lado também essa ideia, de facto não vejo outra forma senão aumentar a pressão sobre ele a partir dos Estados Unidos. Portanto, há alguns sinais de que isso estará a acontecer. Também parece confirmar que o facto de Marco Rubio, formalmente o chefe da diplomacia, o secretário de Estado, como se diz na linguagem política americana, ter passado a ter aqui o papel de liderança nos contactos com a Rússia e não Steve Witkoff, para a preparação desta suposta cimeira que iria acontecer em Budapeste, que isso também poderá ter ajudado aos Estados Unidos assumirem aqui uma postura mais estratégica e que tem menos a ver com estas intuições e relações individuais e pessoais entre Trump, ou Witkoff e Putin.

Voltemos então agora o nosso olhar para o Médio Oriente e para o diploma preliminar ontem aprovado no Knesset, o Parlamento Israelita, que abriria a possibilidade da Cisjordânia ser anexada por Israel. Ora, Donald Trump veio hoje dizer que Israel perderá todo o apoio dos Estados Unidos se tentar anexar a Cisjordânia. Revelador este episódio da fragilidade do acordo de cessar-fogo para o qual tens chamado a atenção.

Sim, é revelador. Eu chamei a atenção que precisamente uma das principais fragilidades é que não diz basicamente nada sobre a Cisjordânia, que é o território palestiniano mais importante, onde se concentra a maior parte da população. É verdade que a guerra estava a decorrer em Gaza, mas realmente isso não significa que se possa ignorar este outro território onde ainda por cima as coisas não estão congeladas, onde temos cada vez mais incidentes mortíferos envolvendo colonos armados, onde realmente havia também estas ameaças de anexação por parte de alguns partidos membros da coligação, destes partidos de direita mais extremista, dos ministros Ben-Gvir, nomeadamente, e Smotrich. E portanto, realmente era fácil adivinhar que algo deste tipo poderia acontecer e era crucial perceber qual seria aqui a reação, nomeadamente dos mediadores. Por exemplo, a Arábia Saudita também veio rejeitar completamente esta ideia, mas em particular, obviamente, dos Estados Unidos e do presidente Trump. E portanto, parece-me que Trump aqui percebeu que realmente isto seria potencialmente fatal para a possibilidade de continuar com o seu plano de paz, seria fatal para a possibilidade de qualquer tipo de normalização futura de relações entre os países árabes do Golfo, a que ele dá muito valor por causa da sua riqueza, nomeadamente, e Israel. E portanto, tomou aqui uma posição clara e aparentemente mais uma vez confirma que quando os Estados Unidos exercem uma pressão forte sobre Israel, ela tem algum impacto e portanto vamos ver se confirma realmente que essa questão está enterrada. Mas infelizmente, não haver avanços na formalização da anexação, não quer dizer que no terreno as coisas não continuem complicadas, não continuem a degradar-se. Portanto, temos que continuar a prestar atenção ao que é que se passa na Cisjordânia.

E como é que interpretas esta iniciativa legislativa à luz do acordo de cessar-fogo? Está Israel verdadeiramente interessado em chegar a um entendimento e a uma solução pacífica para o conflito?

Bem, a grande maioria das pessoas em Israel claramente queria um cessar-fogo e queria a libertação dos reféns. Se querem a paz e sobretudo se querem uma paz que implique fazer cedências dolorosas ao outro lado, nomeadamente viabilizar algum tipo de Estado palestiniano, isso já é uma questão muito mais em aberto, até porque muitos israelitas parecem ter concluído do 7 de outubro que o resultado de sair do território palestiniano e o entregar aos palestinianos, basicamente foi o que aconteceu em Gaza. Israel controlava, e mal, as fronteiras de Gaza, porque obviamente continua a entrar imenso armamento, mas não havia tropas israelitas, não havia colonos israelitas, não havia uma presença israelita em Gaza desde 2006, 2007, que o Hamas governava esse território, e o resultado é este ataque, o maior massacre de judeus desde a Segunda Guerra Mundial, do 7 de outubro. Portanto, isso criou aqui um problema. Do meu ponto de vista, isso é um erro, obviamente, porque no fundo Israel tem a experiência de muitas décadas em que vai de vitória militar em vitória militar, depois nunca consegue a paz e acaba por ser vítima novamente de episódios de extrema violência, precisamente porque não aceita entrar aqui num processo negocial. Obviamente a culpa nunca é apenas de uma parte, portanto não estou a dizer que não haja muitas oportunidades perdidas do lado palestiniano também, mas nos últimos anos acho que é evidente que da parte, sobretudo da direita israelita, nomeadamente Netanyahu, o primeiro-ministro que tem dominado a política israelita nas últimas décadas, realmente não houve propriamente uma vontade de negociar de boa fé. E aliás, Netanyahu é muito claro em relação a isso, a criação de algum tipo de Estado palestiniano, que poderia não resolver todos os problemas, mas me parece indispensável, ou pelo menos a melhor solução que se encontra, a solução de dois Estados a tentarem conviver em paz para tentar resolver este conflito. Portanto, parece-me que realmente o que isto mostra é que há setores importantes no Parlamento israelita que não estão preocupados com viabilizar o plano de paz, que, pelo contrário, há setores importantes no Parlamento israelita que não se importariam de afundar o mais rapidamente possível qualquer possibilidade de um avanço para as fases seguintes do plano de paz do Donald Trump.

Bruno Cardoso Reis, historiador. Todas as semanas ajuda-nos aqui na antena do Observador a olhar para estes dois conflitos no Médio Oriente e também no Leste da Europa. Bruno, até breve. Foi o Gabinete de Guerra desta quinta-feira.

Obrigado.