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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e conosco temos hoje o historiador Bruno Cardoso Reis. Bem-vindo, Bruno, mais uma vez. Vamos ainda à reunião de ontem de Paris e este balanço ao dia seguinte à cimeira que aconteceu ontem, tendo em conta que o próprio secretário-geral da NATO já veio pressionar, incentivar os Estados-membros e a Portugal também, que ainda estejam abaixo dos 2% do PIB nos gastos de defesa, a que ultrapassem esse limite no próximo verão. A Europa estará à altura de conseguir cumprir os desígnios, não só este, mas também todos aqueles relacionados com o conflito na Ucrânia?
Essa é uma grande questão, e aí o grande desafio não é apenas a questão do dinheiro, não é principalmente a questão do dinheiro. É o facto de que a Europa não é, de facto, um ator único, não é um Estado federal, não é uma federação, ao contrário daquilo que muitas vezes os críticos da União Europeia também dizem, que é uma espécie de super Estado. De facto, os Estados Unidos são, por exemplo, uma federação realmente de 50 Estados em que o centro, o governo federal, tem enorme poder, nomeadamente nestas questões de defesa de política externa, em que muitas vezes, de facto, haver uma resposta rápida, robusta, clara, é muito importante. Na Europa, de facto, temos esse problema. A forma de ultrapassar isto tem sido, no fundo, apostar mais nestes formatos que eu chamo de mini lateralismos, que não é necessariamente a questão da quantidade de países, é o fato de serem formatos mais flexíveis, coligações, no fundo, de países que estão empenhados em resolver um determinado problema, que partilham determinadas preocupações e soluções, em vez de passar necessariamente pela máquina muito mais pesada, com muitas regras da União Europeia. Agora, apesar disso, há esta questão de base, que realmente é preciso investir mais, e é preciso investir não só mais, mas melhor, ou seja, mais coordenadamente e muito mais rapidamente. Desde logo para ajudar a Ucrânia, mas depois para dissuadir também a Rússia e fazer prova de força em relação aos Estados Unidos. Ora, os compromissos têm sido declarados, tem-se avançado nalguns países muito, por exemplo, no caso da Alemanha, países que têm também margem financeira para fazer isso, para decidir investir muito mais. Mas há outros que têm muito menos margem, por exemplo, para tomar essas decisões, têm muito menos dinheiro disponível, muito menos margem também para aumentar a sua dívida, que é uma possibilidade que agora surge, como é o caso dos países do Sul. Portanto, esse é um problema. E depois, a outra questão é realmente esta questão de se conseguir aqui uma frente suficientemente unida de um número suficiente de países. Não estou a dizer que têm de ser realmente todos. Já se percebeu que não se pode contar com a Hungria de Órban há muito tempo, mas, por exemplo, ainda hoje também havia declarações da primeira-ministra italiana, Meloni, que diga-se, é bom da verdade, se tem mostrado muito mais solidária e empenhada em manter a União Europeia por causa dos interesses da Itália nisso também, do que se poderia pensar no passado, tendo em conta a sua proveniência ideológica, de uma direita mais populista e mais nacionalista. Mas a verdade, por exemplo, é que ela veio dizer: "Eu tenho dúvidas em relação a envio tropas, talvez pudesse estender o Artigo Quinto e é fundamental mantermos boas relações com os Estados Unidos." Eu até posso concordar que em tudo isso há algum elemento de verdade. Realmente é uma questão muito séria enviar tropas, que é muito importante manter a relação com os Estados Unidos. Agora, vamos ver se isso não é feito à custa de divisões, de tensões, de quebra de solidariedade entre os europeus. Acho que isso seria péssimo, inclusive para se conseguir ter algum peso junto à administração americana de Donald Trump, que claramente só percebe a força.
O certo é que, Bruno, em todo este contexto, a Rússia está a tentar pressionar para que a Ucrânia mude de governo, para que o Volodymyr Zelensky saia, que exista um governo provisório, uma ideia que já foi rejeitada tanto por António Guterres como também pela Casa Branca, que já reforçou que o governo ucraniano é determinado pela Constituição do país e também pelo povo. O que a Rússia pretende exatamente com esta ideia e com esta proposta?
Pretende aquilo que sempre pretendeu, ou seja, isto mostra bem que isto não é uma questão de um pequeno diferendo territorial. O Putin já tentou utilizar esse argumento várias vezes, já devia ser claro para toda a gente de boa fé e com o mínimo de interesse em analisar os factos que isso não era realmente assim. Eu recordo que ele começou por dizer em 2014 que ia só ficar pela Crimeia, porque era realmente só uma questão territorial e das zonas onde havia imensa gente que se identificava como russa, etc. Portanto, ele quer realmente mudar o regime em Kiev, transformar a Ucrânia num satélite do tipo da Bielorrússia, até pode formalmente manter a independência, mas tem de ceder o território que a Rússia entender e tem de fazer o que a Rússia entender, portanto, perder, na prática, a sua independência. E como percebe que com Zelensky, e com o regime que está atualmente em Kiev, não consegue isso, realmente procura aqui, no fundo, voltar a pôr em cima da mesa esta questão. Felizmente, aparentemente, para já, a reação do lado dos Estados Unidos, que neste momento está sempre em dúvida, porque muitas vezes o negociador americano nomeado por Donald Trump ou até o próprio presidente Trump parece ter mais simpatia e mais confiança nas palavras da Rússia do que dos seus aliados europeus ou da Ucrânia, desta vez parece que realmente não se foi a esse ponto. Isso também provavelmente reflete o facto de aqui nos Estados Unidos estar a começar a haver alguma reação a esta colagem excessiva à Rússia. Agora vamos ver, uma coisa é a porta-voz da Casa Branca, outra coisa é Donald Trump. E portanto, vamos ver se esta linha se mantém, mas realmente isso seria a linha certa. Nos termos da Constituição, não pode haver eleições em tempo de guerra, esse é o problema. É um real problema, eu também já falei aqui várias vezes disso. Eu percebo perfeitamente a posição ucraniana, mas se a guerra se prolongar durante muito tempo, isso vai se tornar um problema, porque ser uma democracia, por contraste com a Rússia, onde de vez em quando o presidente muda e é eleito pelas pessoas, presidentes com ideias diferentes, como aconteceu com Poroshenko ser substituído por Zelensky. De facto, isso é muito importante para mobilizar apoios nas democracias ocidentais, mas a questão aí tem de ser, desde logo, desejavelmente acabar a guerra, eventualmente alterar a Constituição e, em todo caso, isso ser feito por vontade dos ucranianos e não por imposição da Rússia.
Certo é que a Rússia diz perceber a posição dos Estados Unidos relativamente à Gronelândia. Podemos encontrar aqui algum paralelismo?
Sim, acho que infelizmente temos de nos confrontar com esse paralisma, ou seja, temos neste momento de colocar esta questão: será que Trump não quer mesmo um acordo com Putin em que a Ucrânia é forçada a ceder território ou reconhecer a perda de território, não só a conquista de facto, mas a conquista de direito. Isso seria minar tudo o que tem sido um dos principais pilares da ordem internacional desde 1945. Aconteceu muitas vezes antes disso, durante a história, mas desde 1945 isso tem limitado muito o número de conflitos armados, tem limitado alguma coisa aquilo que as grandes potências podem fazer. Portanto, parece haver aqui da parte do Donald Trump, o inverter completo da posição americana. Tradicionalmente os Estados Unidos perceberiam isso e não quereriam fazer isso, mas neste momento, eu acho que até por causa destas questões da Gronelândia, do Panamá, do Canadá, esta ideia de que uma grande potência pode simplesmente adquirir território porque lhe convém, de facto pode haver da parte do Donald Trump este objetivo convergente com Putin e Putin percebe isso e publicamente exprime a sua compreensão por este interesse americano na Gronelândia. Se a Rússia acha isso uma boa ideia, eu diria que é um bom sinal que não será uma boa ideia para os interesses americanos. No fundo, é esta ideia de que isto ajudaria a normalizar este tipo de pressão, de coerção, de tentativas de anexação por parte de grandes potências.
Certo é que dessa reunião de ontem sai também essa ideia de que a Europa ou os países europeus não vão levantar sanções contra a Rússia. Por outro lado, a Rússia responde a dizer que a Europa faz isso porque não quer a paz. O que este braço de ferro também nos diz e como é que ele poderá acabar?
Os nossos ouvintes sabem que eu já tinha previsto que esta seria uma questão que poderia obrigar finalmente a Europa a entrar no processo negocial e que seria a própria Rússia a pressionar nesse sentido. Porque realmente os Estados Unidos podem garantir e prometer muita coisa, podem ameaçar com o fim do apoio militar à Ucrânia, isso tem aqui um impacto potencialmente tremendo, mas uma coisa que não podem fazer é dizer que vão acabar as sanções económicas da União Europeia, que era o principal mercado externo da Rússia antes deste conflito de 2022. Portanto, desse ponto de vista, de facto a União Europeia tem aqui algum poder, alguma capacidade. Esta é uma área que está federalizada, o comércio é uma área em que os Estados delegaram esse poder na União Europeia, é um mercado único integrado. Por outro lado, mostra que realmente toda aquela conversa russa de que as sanções não interessam nada, que está tudo a correr bem, a economia russa está espetacular e que as sanções são completamente irrelevantes, mais uma vez fica demonstrado que é completamente falso. É claramente uma questão absolutamente crucial para a Rússia no quadro deste processo negocial. É uma concessão que a Rússia vai querer, porque é indispensável realmente para conseguir normalizar um pouco a sua economia, que está num estado lastimoso e sob pressão e quanto mais tempo se arrastar o conflito, mais complicado será gerir esta complicada dimensão económica, de guerra económica, que leva a taxas de juro de mais de 20%, a inflação à volta dos 10%.
Bruno Cardoso Reis, obrigado pela tua análise em mais um Gabinete de Guerra. Estamos de regresso na próxima semana. Bom fim de semana.
Obrigado. Bom fim de semana.