Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360, eu sou a Maria João Simões. A análise é do Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.

Olá, Maria João, bom dia.

Olá, Miguel. Zelensky tinha avisado e confirmou-se: a Rússia lançou esta madrugada um ataque massivo de mísseis e drones contra Kiev, Dnipro e Kharkiv. Atingiu uma creche, um centro comercial e vários prédios residenciais. Há, para já, nove mortes confirmadas e mais de uma centena de feridos. Miguel, este megaataque é prova de que Putin está a aproveitar a distração e o desgaste de Washington no Golfo Pérsico para tentar asfixiar a Ucrânia. E que resposta podemos agora esperar por parte de Kiev?

Nós já sabíamos que Vladimir Putin tinha, mais ou menos, pensado que a partir do final da primavera, princípio do verão, fizesse um ataque massivo àquilo que até são consideradas cidades-fortalezas. Portanto, isso poderá acontecer. A partir do momento que a Ucrânia também conseguiu fazer esta chamada guerra em profundidade na Rússia, nós estávamos à espera que a resposta fosse exatamente igual, na proporção, muitas vezes até muito maior, e com os ataques indiscriminados. Durante muito tempo, Donald Trump, de alguma forma, esteve envolvido neste processo, com a retira da tentativa de conseguir fazer reuniões, a que chamava de reuniões para um acordo de paz, que depois não deram em nada. Mas nós também sabemos que, quer por parte da Ucrânia, quer por parte da Rússia, existe um desgaste e existe até uma noção de que os Estados Unidos não acrescentam nada de novo. Permita a expressão. E então, o que é que acontece? Nós vimos a Rússia dizer aquela frase, quando Vladimir Putin diz duas vezes no dia da parada militar em Moscovo, que agradecia os préstimos de Donald Trump, que agradecia a intenção que Donald Trump tinha tido, mas que este era um problema da Ucrânia e um problema da Rússia e que os dois tinham que resolver. Se nós pensarmos também que na mesma semana, quando foi aquela reunião dos 40 países em que Zelensky esteve sentado ao lado de António Costa e disse também que entende e respeita a posição norte-americana, mas que este é um problema da Ucrânia e da Europa para resolver diretamente com a Rússia. Ou seja, os dois afastaram-se de Donald Trump, afastaram-se da posição de mediação que os Estados Unidos estavam a ter e, portanto, de alguma forma, pensou-se que se estava a criar aqui uma posição em que a Europa teria efetivamente uma posição mais privilegiada. Agora, não se pode dialogar com Putin, porque nós sabemos que Putin tem pouco interesse no diálogo e tem muito menos interesse em fazer um processo de paz, porque tem a sua posição maximalista. Vai continuar a atacar desta forma, vai tentar fazer uma megaoperação, como eu dizia, a partir do verão, na tentativa de desbloquear aquilo que são as chamadas cidades-fortaleza, porque aí estaria aberto quase um caminho direto para Kiev. E não me parece que neste momento Donald Trump tenha peso e capacidade de intervir neste conflito como nós esperaríamos.

Vamos esperar também para ver a resposta da Ucrânia. Sobre a guerra no Médio Oriente, depois do Irão ter suspendido as negociações ontem por causa dos ataques israelitas no Líbano, Trump terá pedido a Netanyahu para travar os avanços e suspender o envio de mais tropas pra região. Miguel, isto não limbra a relação histórica entre Estados Unidos e Israel? Isto é, Trump está disposto a tudo para impedir que o acordo com o Irão desabe, incluindo amarrar as mãos do seu maior aliado?

O que nós vamos vendo, acima de tudo, Maria João, é a total incapacidade de controle que Donald Trump apresenta. Apresenta na questão da Ucrânia, como estávamos a falar, mas na questão do Irão tem sido óbvio que perdeu o controle da narrativa e perdeu o controle da situação. Neste momento, nós temos Israel que não quer o acordo com o Irão, tem a questão do Hezbollah que quer resolver e o Irão tem dito desde o princípio, inclusive aquele que tem sido o mediador pra questão, disse logo naquela noite de sexta-feira, quando saiu o primeiro cessar-fogo, que o cessar-fogo incluía também os proxies, nomeadamente a questão do Líbano, o que Israel nunca quis respeitar e nunca respeitou. Donald Trump deu sempre carta-branca a Netanyahu, mas como vê agora que o Irão se pega a esse ponto para se afastar das negociações, e como Donald Trump não está mais em controle da narrativa, nem da situação, e temos a questão do Estreito de Ormuz, que obviamente, em termos econômicos, esgota a posição do presidente americano. E então parece que ontem, era pelo menos a informação que estava no Axios, que teriam inclusivamente gritado um com o outro ao telefone e Donald Trump teria utilizado uma linguagem menos simpática, referindo-se a Netanyahu como louco, dizendo que ele estava louco. E nós sabemos também que Donald Trump estava a dar um certo espaço para que Netanyahu conseguisse, de alguma forma, controlar e criar um garrote sobre o Hezbollah. Era essa a posição que Netanyahu queria fazer. O problema é que o descontrole que se está a ver neste momentoQuer na Faixa de Gaza, quer na Cisjordânia, mas nomeadamente no Líbano, vai fazer com que o Irão tenha mais uma carta na mesa para dizer: "Bom, eu até gostaria de aceitar um memorando de entendimento, mas primeiro tenho que resolver esta situação".

Mas Miguel, podemos dizer que Trump está politicamente encurralado e refém da boa vontade de Teerão?

Sim, está encurralado da boa vontade de Teerão e está encurralado numa dinâmica de acontecimentos que ele não domina mais, porque esta é que é a grande questão. Antigamente, Donald Trump e os Estados Unidos tinham esta capacidade de que a sua intervenção militar ditava o segundo passo político. Hoje não mais acontece isso. E esta guerra no Irão vem provar que as grandes potências, ou pelo menos a maior potência militar internacional, que é os Estados Unidos, neste momento, a sua capacidade militar não dá uma vitória política e, portanto, ele vai depender não só da boa vontade de Teerão, mas também daquilo que é a decisão política de Netanyahu. E Netanyahu, que também está dentro de portas fragilizado, à beira de umas eleições, à beira de um processo judicial, quer efetivamente ter uma vitória militar e uma vitória sobre mais um grupo terrorista, também para dentro de portas poder ainda ter um balão de oxigênio que lhe permita ou ir a eleições, já se fala que até pode nem ir a eleições, mas que de alguma forma tenha capacidade de decidir o seu próprio futuro. Donald Trump, neste momento, não tem mais controle em nenhum dos acontecimentos, ou seja, está dependente daquilo que os outros possam decidir.

Miguel Baumgartner, muito obrigada pela tua análise. Boa semana, Miguel. Um bom dia, obrigada.

Bom dia, Miguel.