Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Abrimos aqui mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador, onde vamos falar dos conflitos na Ucrânia e do Médio Oriente. Hoje é nossa convidada, Ana Cavalieri, é especialista em assuntos internacionais. Olá, Ana, muito bem-vinda.
Olá, obrigada. Muito cá estar.
Muito obrigada. Começamos com a guerra na Ucrânia. O plano de paz dos Estados Unidos continua a estar na ordem do dia e deverá estar certamente nos próximos tempos. A Ucrânia diz que o texto deste acordo teve alterações negativas para o lado de Kiev, desde que os enviados de Trump se reuniram no Kremlin com Vladimir Putin. Ana, a Ucrânia ainda pode ter alguma esperança de que os Estados Unidos tratem a Rússia como um verdadeiro invasor, não privilegiando as vontades de Putin, ou os Estados Unidos veem que para que esta guerra chegue ao fim, não há, de facto, outra hipótese senão ouvir, de alguma maneira, aquelas que são as exigências do Kremlin?
Eu penso que essa é uma boa avaliação. Os Estados Unidos não têm aqui qualquer pudor ideológico de tratar a Rússia como algo que deve ser lidado consoante o poder que a Rússia consegue expressar, quer seja o poder militar, neste momento, está a ter alguns ganhos, apesar de serem muito lentos naquilo que é a zona de Donetsk, acabaram de conseguir tomar Pokrovsk. E eu penso que muitas vezes nós europeus, sabendo da injustiça profunda e do sofrimento causado por esta invasão, que naturalmente, segundo o nosso entendimento, viola aquilo que são os princípios básicos da soberania e integridade territorial. Aquilo que Donald Trump e a administração americana estão neste momento a fazer é uma espécie de comparação. Eles acreditam que o poder militar russo, que demonstrou ser muito débil para aquilo que eram as expectativas no início da invasão em 2022, eles não têm um bom exército e o exército e as tropas estão neste momento a serem sacrificadas com péssimo equipamento. Mas o cálculo que Trump faz é que apesar da debilidade, a dimensão demográfica, o facto da China ainda em parte sustentar uma economia de guerra com a compra de petróleo a preços baixos, ainda é superior àquilo que é a capacidade de resistência ucraniana a longo prazo. Isto se, naturalmente, partimos do pressuposto que os europeus não estão preparados para assumir os passos que seriam necessários para reforçar, não só em termos de tropas, como em termos também do próprio armamento, aquilo que seria a capacidade de defesa militar ucraniana. E eu penso que então, neste momento, aquilo que Donald Trump está preparado para fazer é tentar convencer os ucranianos a cederem o Donbass, isto é, Lugansk e Donetsk, lugar que está praticamente conquistado pelos russos, mas Donetsk ainda falta cerca de 15% a 20%, sendo certo que agora que Pokrovsk caiu, que era no fundo um centro muito importante daquela linha fortificada defensiva. Neste momento, agora, provavelmente, o que Trump acha é que eles vão conseguir rapidamente o resto de Donetsk, por isso mais vale utilizar isso como uma cartada negocial do que esperar que os russos a conquistem e depois terem de dar outra coisa, vá lá, em troca de um cessar-fogo. Mas o grande problema do lado dos americanos é que eles não conseguem dar aos ucranianos as garantias de segurança que seriam necessárias para os ucranianos conceberem dar esse território. Dar, não em termos formais, mas em termos informais, em termos de facto. E é neste momento, nós sabemos que durante três dias, até sábado, Steve Witkoff e Jared Kushner estiveram reunidos com a delegação ucraniana liderada por Umerov e não sabemos até que ponto agora é que depois da visita a Putin, que naturalmente pendeu o acordo mais pro lado russo, não sei até que ponto é que Umerov, a representar os ucranianos, conseguiu então voltar a trazer este acordo mais benéfico para a suscetibilidade e necessidades ucranianas.
Zelensky esteve até hoje reunido não só com o Papa, mas com Giorgia Meloni. Acredita, Ana, que a primeira-ministra italiana pode ser a chave para fazer chegar a voz da Europa a estas negociações, ou nem assim?
Sem dúvida, de todos os líderes europeus, o líder que consegue inspirar mais confiança, e depois nós sabemos que Trump é muito de feeling, vá lá, e de gostos pessoais. Nós sabemos que ele gosta pessoalmente de Giorgia Meloni e também porque Giorgia Meloni representa um conservadorismo patriótico, que é algo que em termos ideológicos, Trump aprecia. Todavia, eu volto a frisar, acho eu que nós sabemos neste momento que aquilo que são as prioridades e a maneira de ver relações internacionais de Trump já está muito estabelecido. Eu penso que Meloni poderá apelar àquilo que seria talvez os pontos comuns em termos de cultura e de civilização e de valores que os Estados Unidos podem ainda ver na Europa como parceiros, cuja aliança deve ser fortificada. Todavia, eu penso que aquilo que são os fatores materiais que vão apelar à decisão e às propostas de Trump já estão tomados. Neste momento, não existe uma possibilidade, porque aquilo que se poderia verdadeiramente fazer para ajudar a Ucrânia, nós sabemos, e todos os fatores já são sabidos há muito tempo, seria apertar com as sanções secundárias relativamente à Índia e à China, que são quem compra a maior parte do petróleo, e sendo certo que as sanções contra a Rosneft e a Lukoil, aquelas duas grandes empresas russas, ajudaram a debilitar a economia de guerra russa, que está neste momento fraca. Todavia, é preciso referir que os russos não respondem ao sacrifício e ao sofrimento económico da maneira como nós, ocidentais, responderíamos, pelo que isso não irá demover, à partida Putin a continuar a guerra. E sabemos também que, para além de apertar as sanções secundárias à China e à Índia, que nós europeus também não estamos aprestados para fazer, porque naturalmente as nossas economias domésticas iriam sofrer nesse processo, também é tentar fornecer mais mísseis de longo alcance para possibilitar à Ucrânia fazer ataques em profundidade à Rússia, nomeadamente a infraestruturas energéticas, e esperar que o dano militar e económico e a resistência que a Ucrânia pudesse fazer também no seu próprio território, pudessem então levar Putin a dizer: "Ok, não vale a pena continuar". Todavia, eu penso que neste momento, Putin nunca irá regressar ou nunca irá chegar a um ponto em que aceitará um cessar-fogo se o Donbass não for cedido na sua totalidade.
Mas, por outro lado, Donald Trump vai mais longe, diz que está na hora da Ucrânia marcar novas eleições presidenciais. Pergunto se esta afirmação terá eventualmente alguma influência da Rússia e se a Ucrânia tem condições para eleições num momento de guerra e no meio de negociações.
Eu penso que é efetivamente um dos pontos favoritos do Kremlin, de propaganda, é referir que este regime de Zelensky é ilegítimo, porque já passou aquilo que seria o prazo regular de validade, mas naturalmente é impossível, e Trump está a afirmar algo que me parece absurdo, porque naturalmente é impossível num país que está sob a invasão, até em termos logísticos, da infraestrutura eleitoral que é necessária montar para garantir a segurança e a liberdade dessas eleições. Isso é impossível de ser montado. Há regiões que neste momento estão absolutamente a viver sob alvos constantes de ataques aéreos. E para haver eleições é preciso haver segurança pública, é preciso haver a capacidade de se fazer uma campanha informada e livre, sem estar condicionada. Isso não é possível. E muitas vezes chegamos também ao absurdo de referir: "A Rússia está em guerra, mas mesmo assim faz eleições". Mas isso, naturalmente, é porque não é a Rússia que está a ser invadida, não é a Rússia que tem tropas externas a invadirem o seu território. Claro que os escândalos de corrupção na Ucrânia, nomeadamente aquilo que foi revelado recentemente sobre desvios de fundos que deviam ser usados para fortalecer as infraestruturas energéticas. E depois sabemos que os homens muito próximos de Zelensky, nomeadamente o seu sócio principal e também aquele que seria o chefe da Casa da Presidência, que era o segundo homem mais poderoso da Yermak, que é da Ucrânia, estarem envolvidos em escândalos de corrupção de um país que está a receber tanta ajuda externa, retira muita credibilidade e retira muita legitimidade naquilo que é o plano internacional. Mas mesmo assim, afirmar que seria necessário haver eleições nas circunstâncias, no terreno, que estão mais do que patentes, que não poderiam conduzir a eleições fidedignas, livres e seguras, parece uma contradição, é um argumento totalmente inválido, a meu ver.
Passamos agora para o conflito do Médio Oriente. O governo britânico vai organizar uma conferência de construção da paz, precisamente nessa região. Uma conferência para acontecer no mês de março, tem o objetivo de ajudar a estabelecer um fundo internacional de paz para Israel e Palestina. Estas iniciativas podem, de alguma forma, alcançar este objetivo, promover uma paz duradoura entre estes povos, ou a estratégia deve ser mais profunda do que organizar uma conferência?
Eu penso que este ponto do conflito e também dadas as várias décadas de conflito, sabemos que não são conferências deste género que irão resolver. Sendo certo que são sempre apropriadas a discussão teórica, científica e também política destas questões. Eu penso que não se deve cancelar o evento, mas não é esperar que seja da eficácia que se propõe. Aquilo que nós sabemos é que Netanyahu e Trump vão se reunir a 29 de dezembro, logo antes do final do novo ano, e falar sobre aquilo que seria o papel daquela força internacional de estabilização que terá a legitimidade e mandato dado pelas Nações Unidas. Ainda não sabemos bem como é que será concretamente aquilo que vai ser os poderes, porque voltando a reiterar aquilo que eu já disse, ou que tenho vindo a dizer, esta força não vai ser uma força de manutenção da paz, vai ser uma força que terá de construir a paz, terá de ir a células terroristas que estão espalhadas e neste momento voltaram a conseguir o controle daquela parte da Faixa de Gaza que está ao lado oeste da Linha Amarela. Agora o Hamas já conseguiu voltar a ter o controle desses vários quilômetros e é preciso uma força que esteja também preparada, e preparada quer dizer que tenha de ter homens treinados, tenha de ter homens também motivados para o fazer e os governos que os mandam também de estar motivados para sacrificar tesouro e vidas nesse processo, de tentar desarmar e desmilitarizar o Hamas, porque naturalmente, aquilo que será um futuro de convivência minimamente segura e pacífica entre a Faixa de Gaza e o governo que irá liderar politicamente e administrar a Faixa de Gaza com Israel, não poderá, à partida, segundo aquilo que Israel considera legítimo depois do 7 de outubro, envolver um grupo terrorista tão premente naquela região, naquela área como o Hamas. Ora, neste momento, a parte mais difícil será exatamente essa, é conseguir convencer o Hamas a bem, ou então por meios de coação militar, a conseguir desarmar, sendo certo que as únicas forças que à partida têm a capacidade e a motivação para o fazer é Israel. De facto, naquilo que será o acordo de paz Que a segunda fase irá iniciar agora no início do ano, em força, à partida não será Israel a concretizar essa missão. E é preciso saber então em que medida é possível essa força fazer. Nós sabemos também que neste momento tem havido desenvolvimentos interessantes entre Israel e a Síria. Nós sabemos que al-Sharaa teve agora o seu aniversário no poder e sabemos que tem havido algumas conversas, tentativa da Síria entrar no enquadramento, no quadro normativo dos acordos de Abraão, mas neste momento isso ainda não se concretiza. Mas isso quer dizer que neste momento existe uma leve aproximação de Israel e alguns estados árabes para voltar a retomar aquilo que são ligações diplomáticas. Agora, é preciso saber ainda que a fase mais difícil e aquilo que neste momento poderá alterar o status quo, e o status quo é um cessar-fogo, mas com constantes trocas de atos que às vezes parece que o cessar-fogo não está em vigor, mas ainda está, porque nós sabemos que o Hamas já tem conseguido infringir aquela linha amarela e Israel tem ripostado aquilo que o Hamas vai alegar que são violações por parte de Israel desse cessar-fogo, por isso há acusações mútuas da quebra desse cessar-fogo, mas neste momento ainda se mantém. Mas a segunda fase de desmilitarização, desarme, desradicalização na Faixa de Gaza será o mais difícil, mas vamos ver até que ponto a comunidade internacional está empenhada em que isso aconteça.
Qual dos dois conflitos o mais difícil de resolver? Muito obrigada, Ana Cavalieri, por ter estado conosco no Gabinete de Guerra, que está de regresso amanhã.