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Terminou sem qualquer acordo o encontro entre o presidente da Rússia e da Turquia. Vladimir Putin diz que só muda de posição sobre o acordo dos cereais se o Ocidente cumprir as exigências. Este é o primeiro tema em análise no Gabinete de Guerra de hoje, com todos os membros residentes: o historiador Bruno Cardoso Reis, a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz.

A Rússia está prestes a fechar um pacto para fornecer cereais a seis países africanos e de forma gratuita, é ao mesmo tempo que anuncia Vladimir Putin, além de não haver acordo para regressar ao acordo de cereais. Bruno Cardoso Reis, olhando para as declarações de Putin, vês aqui uma posição de força? Estavas à espera de algum acordo hoje?

Eu tinha dúvidas que fosse possível chegar a um acordo já, até porque isto tem implicações, ou seja, envolve outras partes. No fundo, a Turquia tem aqui um pouco a função de mediador, a par das Nações Unidas, nomeadamente com os países ocidentais, com a própria Ucrânia, portanto, não esperava um acordo imediato. Parece-me que a Rússia mantém uma posição de relativa intransigência, ou seja, quer voltar a ter acesso sem impedimentos, pelo menos de um banco importante, do banco agrícola, com o pretexto do acordo dos cereais, mas sem qualquer restrição na prática apenas aos cereais. Quer que esse banco volte a ter acesso ao sistema Swift, ao mercado financeiro internacional, ao mercado dos dólares, e os países ocidentais acham que isso não é razoável, porque isso seria criar uma enorme brecha nas sanções com a Ucrânia. Estão disponíveis a aceitar uma coisa devidamente limitada, ou seja, criar-se uma filial desse banco apenas para lidar com negócios que tenham exclusivamente a ver com cereais ou com os fertilizantes, com esta dimensão mais alimentar. Desse ponto de vista, este acordo que a Rússia propõe, esta espécie de alternativa, o próprio Putin reconheceu, nesse aspecto, eu acho que podemos concordar com ele. Ele tem razão quando diz que realmente este acordo que ele refere com financiamento do Qatar, envolvendo também a Turquia para processar esses cereais e transformá-los em farinha e depois enviar para seis países africanos, isso realmente não é um substituto do acordo dos cereais, ou seja, é uma pequena gota d'água no oceano. Mesmo em relação à África, são seis países entre 50, todos eles aliados muito próximos da Rússia. Estamos a falar do Mali, da Eritreia, do Zimbabué, da República Centro-Africana, do Burkina Faso. É realmente um pequeno acordo, um incentivo também aos amigos turcos para não tomarem uma posição demasiado hostil à Rússia, mas em termos do essencial, ou seja, do problema do mercado de cereais a nível global e, em particular, da segurança do abastecimento nestes países com mais dificuldades, realmente a situação continua. Nós estamos a falar, no caso da Rússia e da Ucrânia somadas, à volta de 30% do mercado de exportações de cereais a nível global. Estávamos a falar antes da guerra, da Ucrânia contribuir à volta de 45%, portanto, praticamente sozinha contribuía metade dos cereais que eram comprados pelo Programa Alimentar Mundial, que é o programa das Nações Unidas para acorrer a situações de fome, de carência alimentar, e obviamente tudo isso está em risco. Já agora, só uma última nota, o presidente Putin aproveitou para voltar a repetir um tema na narrativa russa que é os cereais ucranianos não estão a ser enviados para os países pobres, ao contrário dos da Rússia. Eu volto a recordar que o grande problema da Rússia no acordo é que quer vender em troca de dólares e não dar cereais. Se não fosse essa a questão, não se punha o problema do acesso ao Swift e do tal Banco da Agricultura. Mas ele diz bem, os cereais ucranianos só 5% é que vão pra África e mais de metade vão pra Europa. De acordo com a comissão que foi criada, que inclui as Nações Unidas, para lidar com estes cereais do acordo do Mar Negro, eles dizem que mais de metade desses cereais foram realmente para países em desenvolvimento, em via desenvolvimento. Não sei se isto é depois a Rússia pegar nos outros cereais que não estão abrangidos pelo acordo do Mar Negro e que a Ucrânia basicamente foi forçada a exportar realmente por via sobretudo terrestre ou fluvial pelo Danúbio pra Europa, se é desses que está a falar, mas se está a falar, é mais um exemplo da extrema hipocrisia russa, porque isso é uma situação que resulta da própria situação de guerra e do estrangulamento das exportações normais por via marítima que a Rússia criou em relação aos cereais ucranianos.

Bruno, a imprensa de Ancara diz que Erdoğan estava à espera de convencer o presidente russo a retomar os acordos. Não foi isso que aconteceu, mas vimos o líder turco a defender que a Ucrânia precisa suavizar a posição contra a Rússia no que toca aos cereais. Isto é pressão adicional sobre Kiev ou faz parte de um discurso normal de mediador?

Eu assisti à conferência de imprensa, mas as traduções simultâneas são sempre o que são. Eu já vi que é essa a interpretação que aparece nalguma imprensa internacional, que isso tem a ver com o acordo dos cereais. Eu não percebi se não era uma referência mais geral às negociações entre a Ucrânia e a Rússia, retomar negociações de paz, vamos dizer assim, entre a Ucrânia e a Rússia. Mas seja como for, sim, é um sinal de que a Turquia está a fazer aqui mais pressão pública sobre a Ucrânia. Também referiu que seria importante que houvesse cedências nesta questão do acordo dos cereais, remetendo para o papel das Nações Unidas como mediador. Vamos ver o que é que acontece, mas realmente à partida, parece haver aqui algum sinal de maior aproximação à posição russa do que em relação à posição ucraniana ou mesmo dos países ocidentais A Turquia tem uma posição muito pragmática nas relações com a Rússia, continua a fornecer armamento à Ucrânia, apoiou a ideia de uma adesão futura da Ucrânia à NATO. No entanto, sobretudo em termos económicos, e isso foi muito referido, aliás, na conferência de imprensa como sendo um dos grandes temas deste encontro, as relações económicas entre a Rússia e a Turquia têm estado num crescimento exponencial, aumentaram quase 100% desde que começou a guerra. O turismo russo a mesma coisa. Há uma série de acordos que tem a ver com o fornecimento de energia, de gás natural russo à Turquia a preços mais baratos, com prazo de pagamento mais alargados, criação de eventualmente um hub de exportação, de reexportação de gás a partir da Turquia. Há realmente aqui um interesse económico bastante grande da Turquia nas relações com a Rússia no contexto atual. Pode ser que isso ajude a explicar estas palavras um pouco mais pró-russas, eventualmente de Erdogan, mas no essencial, parece-me que a postura dele é sempre bastante pragmática e atenta, sobretudo aos interesses, nomeadamente económicos e estratégicos da Turquia.

Bruno, achas que neste cenário pode cair por terra um regresso da Rússia ao acordo de cereais quando falamos na cedência gratuita a seis países africanos?

Eu acho que não é esse o principal obstáculo. Acho que isso é uma forma hábil da Rússia recompensar alguns dos seus poucos aliados a nível mundial. É uma forma hábil também de contrariar esta ideia de que, no fundo, esta realidade não é uma ideia, que a Rússia está objetivamente a criar constrangimentos no mercado de cereais, no mercado alimentar mundial, está a promover a inflação dos produtos alimentares, inclusive para aumentar o preço a que vende os seus. Com isso, está a criar aqui um risco maior de uma crise alimentar, de fomes em países já vulneráveis. É verdade que a Rússia tem aqui uma série de exigências, mas numa negociação não se pode simplesmente apresentar uma condição e dizer que é assim ou acabou. Os países ocidentais têm um contra-argumento bastante razoável dizer: "Se realmente a questão é, e sempre foi isso que nós aceitamos e apenas isso, haver aqui uma exceção para bens alimentares, inclusive os fertilizantes, no quadro das sanções, nós não podemos permitir que depois haja um banco russo que simplesmente volte a funcionar normalmente no sistema financeiro internacional para qualquer negócio que seja. Isso não corresponde nem ao espírito, nem à letra do acordo dos cereais. Poderemos pensar em abrir aqui uma exceção bem delimitada". Se a Rússia estiver disponível a discutir nesses termos, creio que as Nações Unidas apresentou uma proposta bem fundamentada também nesse sentido. Acho que poderá ser possível voltar ao acordo, mas aquilo que me parece, com base simplesmente nos sinais públicos, nessas declarações públicas, é que a Rússia não está muito inclinada a fazer essas cedências e parece-me que está realmente aqui apostada em manter esta prova de força e não ceder, não chegar aqui a uma solução de compromisso. Se for assim, também me parece difícil que os países ocidentais voltem completamente atrás e, no fundo, admitam aqui uma brecha enorme no regime de sanções financeiras que têm mostrado ser bastante eficazes. Basta ver, aliás, a queda livre do valor do rublo.

Vamos agora à Ucrânia, Bruno. Temos mudanças no governo, no ministro da Defesa. Sai, portanto, Oleksii Reznikov, que se demitiu. Já se falava da saída do ministro da Defesa por causa de casos de corrupção. Até abordaste isso hoje de manhã na primeira edição do Gabinete de Guerra. Pergunto-te quem é o substituto agora escolhido, o Rustem Umerov. Ele teve um papel importante no plano internacional para reverter a anexação da Crimeia.

Sim, ele é de facto uma figura importante na política ucraniana e em particular é uma figura de liderança da comunidade dos tártaros da Crimeia. Nós ouvimos muita propaganda russa e até com muitos ecos também em Portugal, analistas que conhecem mal a história desta região, dando a entender que a Crimeia era uma espécie de uma terra ancestral russa, que sempre foi russa. Ora, a Rússia só ocupou a Crimeia no final do século XVIII, em 1783. Até ao século XX, a maior parte da população da Crimeia era população tártara muçulmana, portanto, esta comunidade a que pertence o novo ministro da Defesa, o Rustem Umerov. Ele faz parte, aliás, de uma assembleia tradicional tártara, que é reconhecida pelo governo ucraniano. Houve uma série de purgas desta população ainda no Império Czarista, depois por Stalin, sobretudo. Só a partir daí, só a partir da Segunda Guerra Mundial é que o maior grupo étnico na Crimeia passou a ser os etnicamente russos, mas ainda assim com uma porcentagem muito importante de tártaros e de outros. Só com a ocupação em 2014 da Rússia é que houve mais uma vaga de fuga destas populações, inclusive o próprio Rustem Umerov. Ele era responsável pelaquela plataforma da Crimeia, onde esteve o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que procura sensibilizar em termos diplomáticos os parceiros da Ucrânia, em geral os países do mundo, para a realidade da situação na Crimeia e até para esta história que a Rússia distorce de forma flagrante. Acho que é também uma aposta interessante. Uma das missões muito importantes do ministro da Defesa é a diplomacia, por paradoxal que pareça, mas é obviamente esta diplomacia mais militar, procurar parcerias, procurar negociar, por exemplo, o fornecimento de armamento. O seu antecessor era bastante eficaz, mas o novo ministro tem este ângulo interessante, que é permitir ao mesmo tempo também relançar a conversa sobre o estatuto da Crimeia e a história da Crimeia Além disso, ele é uma pessoa com muita experiência. Desempenhava agora funções também de gestão do organismo que gere o patrimônio estatal ucraniano. Portanto, é alguém que também dará algumas garantias. Também tinha um passado empresário nesta componente mais de gestão da logística, de contratos de aquisição, etc., que originam esses escândalos de corrupção. Parece-me que é realmente uma pessoa com um perfil interessante e que claramente pro presidente Zelensky era importante passar aqui uma imagem de viragem de página, de refrescamento, ter alguém se quer com uma personalidade mais forte do que o antecessor, do que o anterior ministro da Defesa, que era realmente visto sobretudo como um diplomata, um pouco o polícia bom face a Zelensky, que às vezes apareceu um pouco como o polícia mau na relação com os aliados.

Bruno, a Rússia propõe exercícios navais conjuntos com a China e a Coreia do Norte. Isto é uma troika de força e como é que o Ocidente pode reagir se isto se vier mesmo a confirmar?

Parece-me uma manobra diplomática inteligente da Rússia. Nós falámos inclusive nos Cinco Continentes, há umas semanas, de uma novidade importante em termos da arquitetura de segurança do Extremo Oriente, que foi uma manobra trilateral da defesa muito mais institucionalizada em termos de cimárias regulares, de exercícios militares regulares entre o Japão, a Coreia do Sul e os Estados Unidos. E a Rússia vem aqui propor uma espécie de contraparte, quase exatamente simétrico. Na mesma região da Rússia, temos de nos lembrar que a Rússia é o maior país do mundo e que também tem o Extremo Oriente russo, Vladivostok, precisamente nesta zona do mar do Japão, na fronteira com a Coreia do Norte, e portanto, vem propor estes exercícios navais entre a Rússia, a Coreia do Norte e a China. O que eu diria é que, apesar de tudo, as relações de confiança mútua entre estes três países são bastante menores do que serão entre os Estados Unidos e o Japão e entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul. Eventualmente, também há tensões entre a Coreia do Sul e o Japão que foram agora ultrapassadas, mas em todo o caso, acho que é uma manobra inteligente, até porque é sobretudo nos meios navais que a Rússia continua a ter algumas disponibilidades, porque não os pode empenhar na Ucrânia, nomeadamente porque o mar Negro está fechado a novos barcos de guerra, ou seja, a Turquia, uma das funções importantes geoestratégicas que tem neste conflito, é controle do acesso, dos estreitos que ligam o Mediterrâneo e os restantes mares do mundo ao mar Negro, e desde o início da guerra usou a prerrogativa que tem para impedir a entrada de navios de guerra de países beligerantes, ou seja, neste caso, basicamente da Rússia. Obviamente, a Ucrânia não tem navios fora do mar Negro. A Rússia tem várias frotas em outros mares, mas não pode levar esses barcos para o mar Negro e, portanto, isto é uma forma de mostrar algum serviço a aliados, a parceiros nesta zona, usando meios que não são utilizáveis no contexto da guerra da Ucrânia, ao contrário dos meios terrestres e aéreos que estão todos muito direcionados para a guerra na Ucrânia.

Bruno, só para terminar. A Rússia diz que afundou quatro lanchas com forças especiais ucranianas próximo da Crimeia, lanchas de fabrico norte-americano. Ponto de situação da guerra nesta vertente marítima.

É realmente uma dimensão da guerra que nós prestamos menos atenção, que é menos evidentemente importante que a dimensão terrestre, onde a Ucrânia tem grandes limitações. Basicamente, eu insisto sempre neste ponto, mais ainda do que na Força Aérea, em termos de Forças Navais da Marinha, a Marinha Ucraniana basicamente deixou de existir com a anexação da Crimeia. Era aí que estavam, no essencial, as bases e os meios navais ucranianos e portanto tem enormes limitações. Eles procuraram ultrapassar isso com o desenvolvimento de drones e aparentemente também com esta utilização de botes, de lanchas rápidas com forças especiais. No entanto, essas forças são realmente bastante vulneráveis, sobretudo em raios de mais longo alcance. Uma coisa seria utilizar estas forças, por exemplo, em rios, como o próprio Dnieper, outra coisa é fazer raios, por exemplo, contra a Crimeia. Houve um bem-sucedido, aparentemente a Rússia diz que já houve dois que conseguiu travar, que conseguiu destruir esses navios e essas forças especiais. A Ucrânia não confirma nem desmente, mas se é assim, realmente temos aqui mais uma confirmação de que ao nível naval, apesar dos esforços ucranianos, continua a haver grandes limitações àquilo que a Ucrânia consegue fazer.

Obrigada pela tua análise, Bruno Cardoso Reis. Aqui o Gabinete de Guerra é muito focado nesse encontro entre Vladimir Putin e Recep Erdoğan, mas deu também para fazermos aqui um ponto de situação sobre o terreno. O Gabinete de Guerra está de volta amanhã de manhã. Rádio Observador.