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É o primeiro encontro do Gabinete de Guerra esta semana aqui na tarde em direto, com a Ucrânia a dizer que está pronta para lançar a contraofensiva e com duas ameaças do lado russo sobre a continuidade do acordo com a exportação de cereais e também com essa questão nuclear a subir de tom. Gabinete de Guerra com o historiador Bruno Cardoso Reis, também aqui com as dúvidas da Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.

Três ou quatro pontos na ordem de trabalhos para este arranque de semana. Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. Começando aqui pela contraofensiva, quem diz que está tudo a postos é um dos mais altos funcionários da segurança da Ucrânia. Estamos a falar de Oleksii Danilov, em entrevista à BBC. Isto foi há dois dias, mas afinal começa ou não começa essa contraofensiva?

O responsável máximo do chamado Conselho de Segurança Nacional, que hoje em dia em quase todos os Estados, é o instrumento principal da ação externa, também de condução da guerra, de condução da estratégia do Estado. Portugal já é dos pouquíssimos países que continua a não ter uma estrutura desse tipo, portanto é uma figura realmente muito importante. Também várias vezes já falamos do Conselho de Segurança Nacional Russo, mas de facto ele diz que está tudo preparado. Também diz que pode ser amanhã, pode ser depois de amanhã, pode ser daqui a uns dias ou semanas. Eu acho que isso valida uma tese que eu tenho, que é os ucranianos estão aqui a esticar a corda, estão aqui a aumentar a incerteza, a tensão, a forçar os russos a reforçar a vigilância e a causar também aqui uma certa ilusão psicológica e até física. Se tivermos constantemente de reforçar a vigilância e ter soldados a patrulhar com mais intensidade, isso cria algum desgaste e isso também faz parte de uma ofensiva bem planeada. Não sabemos exatamente quando é que começou. Apesar de tudo, e dependendo até de como é que se interpreta aqui uma ofensiva, eu diria que em certos aspectos é provável que essa contraofensiva já tenha começado, com bombardeamentos preparatórios, ataques a paióis, a centros de comando, sabotagem na retaguarda, até com estas ações de guerra psicológica, aqueles ataques, por exemplo, no interior do território russo, para forçar tropas russas a desviarem-se da frente e irem proteger fronteiras. Inclusive, é possível que, por exemplo, na zona de Bakhmut tenham feito aquilo que se chamam ataques exploratórios. No fundo, perceber qual é a solidez das defesas russas, qual é ali a capacidade de penetração ou de rutura. E é normal que esse tipo de ataques se multipliquem, se intensifiquem, até que realmente se perceba melhor quais é que serão aqui os alvos principais, as linhas principais de avanço. Há quem defenda que a ofensiva ucraniana pode não ser assim tão visível e que podemos não assistir aqui a grandes ruturas espetaculares da frente e tudo isso. Eu percebo e em vários destes aspectos realmente não é assim tão visível. A verdade é que se os ucranianos quiserem reconquistar território, que é o seu grande objetivo declarado, precisam realmente de ter ruturas visíveis, precisam de ter avanços significativos. E isso vai ser realmente difícil, porque as ofensivas são das operações militares mais complexas, mais mortíferas, são muito mais complexas do que uma defesa. E os russos também tiveram algum tempo para se preparar, mas eu acho que isso é inevitável. Se não houver grandes ações visíveis, isso quer dizer que os ucranianos têm aqui um problema. Não vejo como é que eles conseguirão avançar significativamente no terreno e atingir estas suas prioridades declaradas de recuperar o território perdido sem isso acontecer.

Bruno, sabemos que Moscovo já começou a transferir armamento nuclear para Minsk. Hoje o presidente bielorrusso, Alexander Lukashenko, anunciou que oferece armas nucleares a todos os países que se juntem à Rússia e à Bielorrússia. Quão perigoso pode ser este anúncio ou estamos perante a pressão retórica a que já nos habituou esta zona leste do globo?

O que é mais interessante é que entretanto, há meia hora talvez, o presidente do Cazaquistão, que era referido expressamente por Lukashenko, parece que o Cazaquistão está preocupado com isto, não precisa de se preocupar, se quiser pode aderir também a este tratado de união e também ter armas nucleares. E o presidente Tokayev, do Cazaquistão, disse: "Eu acho muita piada, percebo que é uma piada, é uma coisa que não é para levar a sério". Deu aqui também uma resposta de crítica irônica ao seu homólogo, mas disse ele: "O Cazaquistão não precisa de fazer isso, tem outros mecanismos de ligação com a Rússia. E o Cazaquistão leva muito a sério os acordos internacionais e nós aderimos ao tratado de não proliferação nuclear". Isso é de facto o que está em discussão, ou seja, aquilo que causa desconforto e problemas é que nós falamos do Memorando de Budapeste, de 1994, a respeito desta coisa escandalosa que a Ucrânia foi levada, pressionada, patrocinada, paga para ceder o seu armamento nuclear, o armamento nuclear soviético que estava no seu território, à Rússia, em troca de uma garantia da Rússia, da sua segurança, da integridade do seu território nas fronteiras que tinha em 1991. Mas devíamos falar do Memorando de Budapeste, porque a Bielorrússia também assinou esse memorando, também tinha armas nucleares, e o Cazaquistão também assinou. Eram as outras repúblicas soviéticas, a par da Rússia, que tinham armamento nuclear. O que está aqui em causa é que realmente a Bielorrússia mostra que não é um país de fiar e está a violar os termos desse acordo. Voltou a ser um Estado com armas nucleares. Mas isto é muito significativo do tipo de tensões que existem mesmo em zonas muito próximas da Rússia, mesmo em zonas como a Ásia Central, tradicionalmente sob uma espécie de isonomia informal russa, mesmo depois da queda da União Soviética, cada vez mais por força desta política muito agressiva de Putin, há Estados, mesmo nessas zonas de influência, bastante desconfortáveis e que querem aqui deixar claro que não se vão deixar arrastar para uma situação de satelização, como aconteceu com a Bielorrússia, de ser um mero satélite da Rússia.

Bruno, Kiev foi alvo de novo de bombardeamentos russos esta madrugada, com explosões em zonas centrais da capital ucraniana. Qual é o ponto de situação que fazes das batalhas no terreno?

Essa é uma dimensão muito importante do conflito, a dimensão aérea. Tem implicações também para a própria ofensiva. Os ucranianos precisam denegar o domínio do espaço aéreo aos russos para terem hipótese de fazer uma ofensiva com sucesso. Ao mesmo tempo, precisam de proteger a sua população, precisam de proteger as suas infraestruturas críticas. Isso tem sido um alvo prioritário dos russos, pelo menos desde outubro do ano passado, quando começaram a ter mais dificuldades, ou dificuldades ainda mais visíveis em avançar no terreno. E, portanto, a Ucrânia aí tem feito um esforço enorme com a ajuda dos países ocidentais, em particular, para reforçar as suas defesas aéreas, criar uma defesa muito mais integrada, coordenada, multinível, com múltiplos sistemas. Agora, a verdade é que a Rússia não desiste, claro, e vai continuar a tentar várias táticas para tentar perceber o que é que funciona melhor contra as defesas antiaéreas ucranianas. Um método relativamente fácil, barato, é enviar estes enxames de drones, portanto, dezenas e dezenas de drones, por exemplo, contra a capital Kiev. Isso, por um lado, obriga muitas vezes a usar sistemas dispendiosos, que seriam melhor utilizados eventualmente contra outros sistemas igualmente dispendiosos. E, por outro lado, tem também esta função de testar a solidez dessas defesas aéreas e causar algum impacto, mesmo que grande parte dos drones sejam interceptados. Essa é uma das dificuldades com que a Ucrânia se depara neste momento.

Sim. Bruno, e passando aqui para o último ponto de hoje, que futuro para o acordo de exportação de cereais? O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia veio hoje avisar que se a situação não mudar, vai ser preciso assumir que o pacto já não funciona. O que é que tem de mudar?

Eu acho que uma coisa que eventualmente mudou foram as eleições na Turquia. Havia aqui também muita suspeita que, a par de um problema de base e que também está, aliás, presente na mensagem de Lavrov, que era a questão de que havia muitos países no Sul global que a China quer conquistar, quer manter na sua esfera de influência, que dependem muito deste abastecimento regular de cereais, que não querem um mercado de cereais muito inflacionado ou muito perturbado em termos da segurança do abastecimento. Mas à parte disso, havia aqui a questão da Turquia como intermediário neste acordo, que também traz vantagens econômicas e de estatuto à Turquia. No contexto das eleições turcas, não era nada conveniente que o acordo ficasse em questão. Ficou bastante evidente também que Putin tinha aqui uma preferência declarada por Erdogan. As eleições turcas estão ganhas, Erdogan reconquistou o poder, isso dará eventualmente mais margem de manobra à Rússia, mas continua a haver esta outra dimensão, e por isso também Lavrov ir dizer: "Eu acho que sem o acordo é possível garantir esses abastecimentos aos países do Sul". Eu espero bem que, de facto, não, esta ameaça não se concretize. Esta chantagem também faz parte um pouco das chantagens retóricas e diplomáticas russas recorrentes. Espero que não se concretize. A concretizar-se, acho que seria uma má notícia para os países do Sul global, independentemente dessas promessas russas. E também, já agora, mostra que as sanções econômicas ocidentais são realmente um enorme problema para a Rússia, são um enorme irritante. É por isso que eles fazem tanta questão delas serem levantadas o mais possível, o mais genericamente possível, no contexto deste acordo.

Sim, terminamos com um irritante este Gabinete de Guerra de hoje. Estamos de volta amanhã. Até lá, Bruno.

Obrigado.