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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque a situação no Médio Oriente. Temos conosco o historiador Bruno Cardoso Reis e vamos falar sobre aquilo que está acontecendo também em Gaza, sendo que há uma das notícias que chega vinda do ocidente. O Canadá suspendeu o fornecimento de armas para Israel. Foi o que anunciou o líder canadiano Justin Trudeau, sendo que uma fonte do governo anunciou isso depois também de uma votação não vinculativa realizada no Parlamento. As autoridades israelitas já reagiram, diz que a história vai julgar a decisão do Canadá e pelo que temos visto, os Estados Unidos da América estão também a rever o fornecimento de armas para Israel. Pergunto se isto é uma revisão da posição do ocidente, sempre ao lado de Israel, tendo em conta estes desenvolvimentos por parte do Canadá e dos Estados Unidos.

Aquilo que distingue os países ocidentais é que, ao contrário dos aliados da Rússia, nomeadamente muitos destes países do sul global, como a África do Sul, o Brasil ou a Índia, que gostam muito de falar de direitos humanos e de direito internacional, mas que quando lhes convém, do ponto de vista dos negócios ou das relações com aliados nos BRICS, ignoram completamente isso e mantêm relações como se nada tivesse acontecido com a invasão da Ucrânia, como se não se tratasse de uma violação grosseira do direito internacional, os países ocidentais muitas vezes são críticos de Israel. Foram no passado e são agora também. A questão é até onde é que vai essa crítica e quais são as implicações depois em termos das várias dimensões dessa relação. Mas em relação ao fornecimento de armamento, que é uma questão que agora tem sido colocada, houve vários países europeus que suspenderam esse fornecimento. Por exemplo, os Países Baixos, o Canadá agora também. Não são muito importantes. Nomeadamente estes dois não são muito importantes, não são grandes fornecedores de armamento em geral e também não a Israel. Os Estados Unidos aqui seriam absolutamente cruciais. Embora Israel tenha uma indústria militar muito desenvolvida, uma indústria de defesa muito desenvolvida, está longe de estar completamente dependente das importações de armamento, como era o caso há algumas décadas atrás, mas obviamente continua a ter uma relação muito próxima com os Estados Unidos e em relação a alguns sistemas de armamento, há realmente uma dependência em relação ao fornecimento dos Estados Unidos e portanto, essa sim, seria uma questão crucial. Para já, os Estados Unidos sinalizaram aqui algum desconforto. Portanto, isto é uma forma diplomática de dizer: "Nós estamos atentos, estamos a ponderar". E portanto, aquilo que foi dito foi: Israel garantiu por escrito que estava a usar esses sistemas de armamento fornecido pelos Estados Unidos de acordo com a lei internacional. Não estava a visar deliberadamente civis, estava a ter os devidos cuidados para evitar aborto de civis, etc. E portanto, os Estados Unidos estão a dizer que estão a rever isso e ver se é efetivamente assim. Portanto, é um sinal público de que há aqui desconforto, de que Israel está, no fundo, a conduzir a sua defesa em relação ao Hamas de uma forma que muitas vezes tem sido criticada pelos Estados Unidos, e isso pode ter consequências em termos de fornecimento de armamento. E portanto, é uma ameaça com algum peso, mas para já não passa de um sinal e de uma ameaça. Não há ainda nenhum sinal de que realmente haverá essa suspensão ou que ela está iminente, pelo menos.

Bruno, ainda falando de Gaza e também daquilo que vem do ocidente, tivemos as declarações de António Guterres. Diz o secretário-geral da ONU que não pode haver uma duplicidade de critério entre aquilo que está a acontecer em Gaza e a forma como também os países do ocidente reagem a isso e a forma como reagem ao que está a acontecer na Ucrânia. Guterres pede para não haver esta duplicidade de critério, mas pergunto eu a ti: são comparáveis estes dois cenários entre Ucrânia e também Gaza?

O sofrimento da população civil é comparável e é sempre algo que qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade e empatia fica chocada com esse sofrimento.

Claro.

Agora, em termos do conflito e da sua origem, obviamente não são comparáveis. E portanto, não pode haver incoerência na defesa de princípios humanitários e na defesa da população civil, mas também não pode haver falsas equivalências. Uma das grandes diferenças começa logo no início, que é reconhecido por António Guterres e pelos líderes europeus, foi Israel que foi atacado pelo Hamas a partir de Gaza e não o contrário. Portanto, quem tomou a iniciativa de começar este conflito foi um grupo armado terrorista extremamente violento, baseado em Gaza, que não respeita as leis da guerra, que massacrou impunemente civis da forma mais bárbara. Mulheres, crianças, com agressões sexuais, mutilações, etc. E no caso da Ucrânia, obviamente, foi a Rússia que atacou a Ucrânia e cometeu uma série de crimes de guerra também bem documentados. Depois há uma questão também importante, que é embora Se possa criticar a forma como Israel está a conduzir a sua campanha, Israel, ao contrário da Rússia, pelo menos vai avisando a população civil onde é que vai haver ataques e portanto dá alguma possibilidade à população civil de fugir dessas zonas antes de haver esses ataques, algo que a Rússia nunca faz, mesmo quando ataca sistematicamente e arrasa completamente cidades inteiras. E uma terceira diferença fundamental também é que o Hamas não quer saber da população civil, a não ser para a usar para a sua propaganda. Portanto, não faz qualquer esforço para proteger a população civil. Pelo contrário, sistematicamente a coloca em risco, conduzindo ações armadas a partir de infraestruturas civis, inclusive de hospitais. Enquanto obviamente no caso da Ucrânia, o Estado ucraniano, uma das suas grandes prioridades, inclusive sacrificando a eficácia militar, tem sido proteger a população, tem sido, por exemplo, comprar, pedir sistemas de defesa antiaéreos, muitos deles colocados nas grandes cidades para procurar minimizar os efeitos dos ataques russos. A Ucrânia podia ter optado por apenas apostar em sistemas ofensivos ou sistemas para serem usados na linha da frente e deixar a Rússia atacar as cidades ucranianas, matar civis em grandes quantidades, até para produzir um efeito maior de rejeição, de crítica na comunidade internacional e obviamente não fez isso. E é isso que o Hamas está a fazer. Obviamente, isto não quer dizer que não deva haver críticas a Israel e sobretudo, e muitas vezes eu tenho-as feito aqui, aliás, em relação à questão da quantidade de ajuda que está a chegar, em relação às condições da população civil. Tudo isso me parece não só corresponder ao direito internacional, às obrigações de uma potência ocupante, mas até seria do interesse de Israel para preservar a sua imagem a nível internacional.

Bruno Cardoso de Reis, ainda temos tempo para um último tema e vamos falar sobre a resolução que foi apresentada pelos Estados Unidos na ONU, uma resolução que apela a um cessar-fogo imediato em Gaza. Sabemos disto porque o secretário de Estado norte-americano Antony Blinken indicou essa apresentação, diz que é uma resolução que apela a um cessar-fogo imediato ligado à libertação de reféns. Pergunto se esta resolução mostra algum recuo na posição dos Estados Unidos da América face a algumas violações do direito que Israel tem feito.

No fundo, é a mesma resolução que se fala há várias semanas. Blinken, que está na sua sexta viagem a várias capitais do Médio Oriente vem falar nisso porque é uma forma de responder às críticas, sobretudo no mundo árabe, por que os Estados Unidos não aprovam resoluções para exigir um cessar-fogo. E portanto, a resposta é: nós temos uma outra resolução, que não reúne apoio suficiente no Conselho de Segurança, mas que, por um lado, deixa claro que é preciso um cessar-fogo imediato em troca da libertação de reféns. Portanto, tem de haver essa condição, porque não nos podemos esquecer que há mais de 100 civis israelitas, mulheres, crianças, idosos, etc, civis que estão detidos em condições que não são conhecidas, nem se sabe exatamente quantos é que estão vivos ou mortos. Portanto, essa questão. Também a questão da condenação explícita do massacre do 6 de outubro, que esteve na origem do conflito e que até agora as Nações Unidas nunca condenaram. Mas no fundo é uma forma dos Estados Unidos dizerem: "Nós estamos disponíveis para criticar Israel, estamos dispostos a realmente exigir um cessar-fogo, mas nestas condições", e não noutras resoluções que ignoram completamente como é que começou o conflito, que exigem um cessar-fogo não só imediato, mas sem limitação de tempo. Portanto, no fundo, um armistício imposto a Israel e sem que haja garantia também da libertação de reféns, que é uma negociação que está em curso, obviamente, e em que Israel defende que é crucial para que haja essa libertação de reféns, manter a pressão militar sobre a liderança do Hamas, que utiliza esses reféns como escudo humano. Portanto, aumentar o grau de ameaça sobre a liderança para tentar garantir que há realmente algum incentivo para o Hamas libertar alguns reféns. E portanto, sim, indica algumas tensões, algumas críticas, algum distanciamento público dos Estados Unidos em relação a Israel e à forma como está a conduzir a guerra e, em particular, à dimensão humanitária e de proteção à população civil, mas nos termos que o próprio Estados Unidos defina e não em termos impostos por outros países que são muito mais críticos de Israel, em resoluções que parecem aos Estados Unidos muito mais desequilibradas. Que no fundo só criticam Israel e ignoram, por exemplo, a questão do Hamas ou da libertação dos reféns.

A Guerra na Terra Santa é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30. Tem nova edição depois do noticiário das 16h. Está sempre disponível em podcast. Eu sou o André Maia. Até uma próxima.