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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Em Bruxelas estão representantes dos governos de Israel e da Palestina. O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, voltou a defender uma solução de dois Estados, algo que foi ignorado pelo representante de Israel. Mostrou-se focado, isso sim, na libertação de reféns e no apoio para desmantelar o Hamas. Daniela Nunes, enquanto não sabemos os resultados, parece que estão a sair, mas enquanto não sabemos ao certo tudo o que saiu desta reunião, o que é que espera deste encontro?

Em primeiro lugar, referia só que não se espera um encontro entre os dois chefes de diplomacia israelita e palestiniano. Os dois vão ser recebidos em Bruxelas, já terão sido recebidos, mas em momentos distintos. Pelo menos era o que estava previsto até hoje de manhã. E vão ser os dois recebidos também num contexto que não só é bastante atípico, como referiu o próprio chefe de diplomacia da UE, como é também um contexto mais alargado, uma vez que sabemos que está a decorrer o Conselho de Negócios Estrangeiros e estão a ser tratados vários assuntos prementes, como é, obviamente, o conflito israelo-palestiniano. E justamente no âmbito, quer deste conselho, quer deste conflito, estão a ser agendados ou já terão acontecido encontros com os ministros da tutela egípcio, saudita e jordano. É nesse sentido que eu também sublinho a amplitude deste encontro europeu, que na verdade junta vários não europeus e que por isso também tem a importância e a centralidade óbvias para a União Europeia. União Europeia que ocupa aqui um papel importante, a meu ver, de mediador e de entidade ouvinte das duas partes, em rigor até de mais partes, mas sobretudo focada nas representações israelita e palestiniana. Ao nível dos resultados e das expectativas, o que é que podemos esperar e, sobretudo, também tendo em conta essa que sublinhavas, Vanessa, ser a posição do próprio chefe de diplomacia da UE? Eu diria que o mais provável é ver uma União Europeia a fazer força para uma solução política assente nessa retórica dos dois Estados. Isto por um lado. Por outro lado, uma representação israelita a tentar desviar o epicentro destas conversações para questões e para temas mais pequenos, digamos assim, e que possam simultaneamente contribuir, por um lado, para a resolução de problemas como, por exemplo, os reféns e, por outro, que não comprometam nem apertem muito com a representação israelita, que marca presença neste encontro no sentido de arrancar-lhe qualquer adiantamento acerca desta solução de dois Estados. Sabemos perfeitamente também que Netanyahu e o executivo israelita são e estão muito mais inflexíveis do que uma solução desse tipo, pelo menos para já. E isso também me leva a crer que, por muito que a União Europeia queira intervir na qualidade de mediador e queira adotar um papel ativo neste conflito, que já se percebeu que envolve uma parte substancial do mundo e não se cinge aos territórios de Israel, da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, por muito que assim seja, o que me parece é que vão ser outras pressões, que não a europeia, aquelas que poderão fazer ou provocar maiores resultados ou fazer surtir maior efeito. Eu refiro-me aqui, por exemplo, à pressão dos países vizinhos do Médio Oriente, também à pressão da ideia de uma guerra não com um, mas com vários grupos terroristas, isto sob a perspectiva de Israel, e obviamente à pressão dos Estados Unidos, cuja influência neste governo israelita, que é um governo tão intransigente, como sabemos e como temos vindo aqui a analisar, já parece ter tido melhores dias esta influência norte-americana neste executivo israelita. O que temos visto ultimamente é uma administração nos Estados Unidos mais favorável à ideia de insistir na necessidade de uma solução política. E isso sim, a meu ver, pode resultar mais eficazmente no aumento da flexibilidade de Netanyahu. Ele próprio é maus lençóis dentro do seu próprio país e a arcar, sob este ponto de vista doméstico, com graves consequências de hostilizar ao longo destes quatro meses de guerra a sua própria opinião pública. Portanto, só para concluir, não creio que seja este encontro europeu que vai fazer a representação israelita demover-se, pelo menos de maneira significativa, desta que tem sido uma posição bastante intransigente. Serão, a meu ver, outras pressões, designadamente esta, e muito especialmente esta, dos Estados Unidos, a conseguir arrancar alguma coisa de Netanyahu. Mas pelos vistos, já nem esta pressão consegue arrancar assim tanta coisa de significativo. Enfim, vamos ver.

A Guerra na Terra Santa é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.