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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Bruno Cardoso Reis, a guerra na Faixa de Gaza vai a caminho dos três meses. Israel, que tinha colocado objetivos até ao final de janeiro de 2024, conseguir alcançar aquilo a que se propunha. Chegados aqui, ao final de 2023, já são muitos mais meses de guerra. Qual é o balanço que fazes da estratégia militar de Benjamin Netanyahu até agora e o que é que perspetivas para esses meses, esses mais meses que aí vêm?

Eu penso que Israel não tinha boas opções em relação a Gaza. Vamos ser claros, no fundo, o Hamas teve muitos anos para construir uma rede logística, inclusive com os famosos túneis, mas vai muito para além disso, muito poderosa, para armar e equipar forças muito poderosas, e a sua capacidade operacional ficou bem demonstrada no 7 de outubro. Enfim, com tudo o terrível que teve esse ataque, a verdade é que em termos estritamente militares, revelou realmente grandes capacidades da parte do Hamas. Portanto, isso exigiria uma resposta muito forte da parte de Israel. Agora, o problema sempre neste tipo de conflitos é, para combater uma força deste tipo, uma força terrorista, guerrilha, uma força irregular que não tem propriamente uma linha da frente, que não tem quartéis bem identificados, não tem bases, não está alinhada numa zona muito clara do território, está completamente misturada com a população civil, esconde-se deliberadamente entre a população civil, utiliza infraestruturas civis, escolas, hospitais, como cobertura para essa rede logística, por exemplo, túneis, tudo isso tornava extremamente difícil uma ação militar eficaz de Israel. Também me parece que o próprio ataque do 7 de outubro criou em Israel muitas vezes este risco de se pensar mais numa lógica de vingança propriamente do que uma lógica estritamente estratégica, em que os meios militares são usados com fins políticos. E portanto, aí parece-me que Israel, no fundo, terá de fazer essa opção, que é até que ponto é que quer levar esta campanha militar mais intensa, com todos os custos não só humanos, mas também políticos, diplomáticos que isso tem para Israel, ou quer começar a pensar mais numa estratégia militar que sirva objetivos políticos realistas. E aí também há grandes dificuldades, ou seja, Israel, por exemplo, continuamos a ouvir informações contraditórias, mas continuamos a ouvir altos responsáveis israelitas a dizer que não querem a Autoridade Palestiniana na Faixa de Gaza, que querem uma ocupação militar israelita, mas com uma presença, uma administração de países árabes. Ora, isso é completamente impossível e os Estados Unidos já explicaram isso várias vezes a Israel. Não há Estados árabes disponíveis para governar em Gaza, que está a ser ocupada militarmente por tropas israelitas, inclusive com a possibilidade muito real do Hamas continuar a fazer ataques, emboscadas contra essas tropas, que obviamente vão levar a retaliações israelitas. Os Estados árabes não estão disponíveis a esvaziar completamente, a deslegitimar a Autoridade Palestiniana e Israel não tem nenhum interesse que isso aconteça, porque apesar de tudo, é aqui a barreira contra o predomínio do Hamas em termos do nacionalismo palestiniano. Portanto, há realmente aqui grandes contradições, grandes tensões entre a estratégia militar, a estratégia política e diplomática de Israel. Como eu digo, eu percebo que seria sempre difícil encontrar aqui respostas fáceis e eficazes àquilo que aconteceu a 7 de outubro, mas não me parece que Israel esteja a caminho de, de facto, conseguir esse tipo de equilíbrio entre os meios militares e os meios políticos e estratégicos. Também penso que isso tem muito a ver com a própria natureza do governo israelita. É verdade que passamos a ter elementos mais moderados, como o general Gantz, mas eles são um pequeno grupo. É verdade que estão no gabinete de guerra, que toma as decisões mais importantes em relação ao conflito, mas Netanyahu é ele próprio um falcão. Sempre teve uma visão de que a paz no Médio Oriente só é possível através da força e tem no seu governo vários ministros, seis, bastante mais radicais ainda, que representam os próprios colonos e os colonatos. E portanto, isso também significa que nós podemos pensar que da parte de Netanyahu, ele está a pensar não só como acabar com a guerra, mas também como garantir que não acaba a sua carreira política. Ora, ele aí precisa de realmente uma grande vitória, o que parece muito difícil, ou eventualmente um prolongar do conflito para justificar ir adiando, no fundo, dar explicações pro que aconteceu a 7 de outubro e também antecipar eleições e pôr em risco a sua própria carreira política.

Bruno, e com esse extremar de posições até dentro do governo israelita, Israel corre o risco de perder aliados, até tendo em conta que tem ignorado os apelos para respeitar o direito internacional humanitário?

Eu penso que em relação aos Estados Unidos, esse risco não existe, pelo menos não em termos de uma ruptura total. Até porque os Estados Unidos têm a noção de que se fizessem isso, ou seja, se cortassem relações, vamos dizer assim, com o governo israelita, haveria o risco muito sério de isso ser visto como um sinal para países como o Irão, por exemplo, para grupos como o Hezbollah ou os Houthis, intensificarem ainda muito mais os seus ataques a Israel. E essa tem sido, do meu ponto de vista bem, a grande prioridade dos Estados Unidos, tem sido evitar uma escalada regional do conflito. E portanto, isso implica também dar o sinal de que os Estados Unidos não vão permitir que Israel seja atacado com um nível de intensidade ainda maior ou crescente. E portanto, há aqui sempre um equilíbrio difícil. Isso dá aos Estados Unidos alguma legitimidade para pressionar Israel, mas também ao mesmo tempo limita aquilo que os Estados Unidos podem fazer, porque do lado de Israel também se sabe que os Estados Unidos não querem cortar completamente com Israel, portanto, não vão levar as suas ameaças, digamos, as suas pressões demasiado longe. Em relação a outros países, isso realmente pode acontecer e até já está um pouco a acontecer. Ou seja, já aconteceu com alguns países do sul global que têm um histórico de relações próximas de colaboração com Israel, que também têm um histórico de combate ao jihadismo, ao terrorismo jihadista, como as Filipinas ou a Índia. No caso da Europa e do mundo anglo-saxónico, por exemplo, a Alemanha, a Austrália, o Canadá, a Nova Zelândia deram alguns sinais também de desconforto, a Grã-Bretanha, mas não ao ponto, lá está também, de cortarem completamente ou de sinalizarem que vão deixar de apoiar totalmente Israel. Mas portanto, eu acho que, em todo caso, o prolongar do conflito, o prolongar de um conflito muito intenso, um crescendo no número de vítimas ainda maior no número de vítimas civis, vai criar problemas crescentes a Israel nas relações com os seus aliados. Isso não há dúvida, até porque há também uma pressão da parte da opinião pública interna nesses países, e portanto, isso pesa alguma coisa no contexto das decisões de governos democráticos, como é o caso dos Estados Unidos ou da Alemanha ou da Grã-Bretanha.

A Guerra na Terra Santa é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde, está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.