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Um guia para o eclipse até dia 12. Um programa diário dedicado ao raro fenômeno que vamos ter a oportunidade de assistir na próxima quarta-feira. E hoje vamos falar de umbrófilos. E como sempre, tenho aqui a ajuda do jornalista Martim Andrade, o nosso enviado especial ao eclipse de 2026. Bem-vindo, Martim. Ora, umbra vem do latim e filos do grego, e isto já é uma pista importante para nos explicar o que é um umbrófilo.

Por definição, e já como explicaste, umbra significa sombra, em latim, e filos vem do grego para aquele que tem afeto por algo. Portanto, se juntarmos as duas coisas, temos-

Aquele que gosta de, ou amigo de.

Exatamente. Temos alguém que tem algum tipo de afinidade pela sombra. O termo é mais utilizado no contexto da botânica ou da biologia. Está mais associado também para descrever plantas que precisam da escuridão, por exemplo.

Exato.

Mas o termo passou também a entrar no vocabulário deste meio dos eclipses, sendo agora usado para englobar os caçadores de eclipses, aquelas pessoas que dão a volta ao mundo à procura de eclipses do sol, da lua, sempre atrás daqueles breves instantes de escuridão total.

Então, acho que não vou ofender ninguém se disser que são os maluquinhos dos eclipses. E já vamos conversar com um, que está aqui ao pé de nós. Mas tu recentemente falaste com um verdadeiro campeão de eclipses.

É verdade, existe um portal online para os astrônomos entusiastas poderem registrar os eclipses que viram, onde, quando, etc. E Paul Melli, que eu tive a oportunidade de entrevistar, já viu 89 eclipses solares. A entrevista vai ser publicada hoje.

89?

Sim, a entrevista vai ser publicada hoje, por isso não quero dar assim-

É em todo o mundo, não é?

Em todo o mundo.

Claro.

Não quero dar grandes spoilers, até porque posso ser parcial, mas acho que foi uma conversa muito interessante. Mas ele é um astrônomo norte-americano, que fazia estas viagens à mesa do trabalho como engenheiro na NASA. E começou por ir poupando pra viajar, depois conseguiu parcerias pra organizar excursões com agências de viagens e com isto ficou também, não só pelos eclipses, mas já visitou mais de 308 países e territórios no mundo inteiro, incluindo Portugal.

É uma ótima desculpa. E temos conosco um umbrófilo português, o Mário Ramos. Bem-vindo, Mário, que teve a simpatia-

Obrigado o convite

...de vir aqui à Rádio Observador. É um astrônomo amador, foi militar, é um apaixonado por eclipses. Posso garantir que não estava cá no de 1912. Não assistiu a esse. Quantas feitas, quantos eclipses já viu?

Eclipses solares, tenho registrados 15.

15.

Sendo três totais, dois anulares e o resto parciais. Vou tentar somar mais um este ano e mais outro no próximo ano. Vamos ver como corre.

E qual é a sua primeira memória de um eclipse? Como é que, no fundo, nasceu este fascínio pelo fenômeno?

O primeiro eclipse que vi foi parcial, em Portugal. Aliás, a maior parte foram parciais e em Portugal. Foi em 1971, eu tinha sete anos. Não havia óculos, não havia filtros.

Foi com radiografia?

Não vou dizer, não posso dizer essas coisas, mas tinha que se espreitar pelo cantinho da janela da cozinha, com muito cuidado, até porque se dizia que fazia mal observar o sol durante um eclipse. Portanto, os tempos eram outros. Hoje estamos muito mais informados e temos ferramentas seguras pra poder observá-los em segurança. O que nos motiva mesmo, de fato, é ver o primeiro eclipse total, porque um eclipse total é uma coisa única. E aquela imagem de ver o sol com a coroa solar à volta no céu, durante a totalidade, é uma imagem que nos fica gravada profundamente na mente. E passado alguns meses continuamos a vê-la. E embora ela se vá desvanecendo ao longo do tempo, continuamos a ter aquela sensação de querer voltar a vê-la. E é isso que faz depois correr atrás dos eclipses. Não é por somar eclipses. É por todo o conjunto da experiência, porque o eclipse também não é só ver o sol. São os animais, o comportamento dos animais, são as sombras, a temperatura, são as pessoas, o comportamento das pessoas é muito estranho durante o eclipse total.

Porque é um momento estranho, não é? Que de repente fica praticamente de noite, quando ainda é dia.

Eu te dou um exemplo. No eclipse que estive com um grupo de amigos no Egito, viajamos quase oito horas de autocarro até o planalto da Líbia. Os egípcios montaram um acampamento numa zona militar, com tendas e áreas de restauração. Éramos seguramente mais de 50 mil pessoas naquele espaço.

50 mil?

Sim, dos quatro cantos do mundo. Imagina o barulho que resulta de um conjunto dessas pessoas. No momento em que o sol se tapou e apareceu a coroa solar, conseguia-se ouvir o vento. Portanto, um silêncio absoluto. Assim que a totalidade acabou, há uns que riem, há outros que choram, há uns que se abraçam e que se beijam, há outros que se atiram pro chão, abrem-se garrafas de champanhe. É uma loucura total.

E já teve, pra além do eclipse do Egito, que já mencionou, também viu a totalidade em França, que foi o primeiro que viu.

Sim, foi o primeiro.

E entretanto também já esteve na Rússia.

Em Novosibirsk.

Em Novosibirsk, ali no meio da Sibéria.

No meio da Sibéria.

De que forma é que essas três experiências foram distintas? Porque são eclipses diferentes, é o mesmo tipo de eclipse, mas são eclipses diferentes.

Sim, são diferentes. Em Paris, fomos pra norte de Paris, tivemos que sair da autoestrada um bocado com dificuldade, porque os engarrafamentos eram enormes, e acabamos por ficar numa zona, acabou por chuviscar um pouco, estava nublado, mas acabamos por ver uma parte substancial do eclipse. Na Sibéria, depois de 52 horas de viagem num comboio transiberiano, que chegou Registe-se.

À tabela.

Um minuto antes da hora, a Nova Sibírske, 52 horas depois de ter partido de Moscovo

Não me diga que é possível os convéns andarem à tabela.

Exatamente. Chegámos à Sibéria, o eclipse foi no dia um ou dois de agosto. Chegámos à Sibéria dois dias antes, às 18h, com 30 graus de calor. Fomos direitos pra piscina do hotel. À semelhança dos outros grupos que lá estavam, era para nos termos deslocado um pouco mais para sul. Mas no dia anterior ao eclipse, um dos nossos elementos do grupo ficou com uma gastroenterite e não estava em condições de sair do hotel. E tudo bem. Ficámos todos no hotel e partilhámos o eclipse com toda a equipa do hotel, que trabalhava no hotel. Claro, não percebíamos uma palavrinha do que eles diziam, mas eu acho que eles gostaram pelas expressões.

E há pouco falou da reação ao momento, depois a temperatura baixou muito ou não?

Em Nova Sibírske não medimos a temperatura. No Egito, registámos 10 graus de descida de temperatura durante a totalidade.

10 graus de diferença?

Sim.

Durante o período-

Durante o período da totalidade, 10 graus.

Ou seja, o eclipse é algo que se sente na pele.

Sente-se, convém levar um casaquinho fininho.

Portanto, convém levar um casaquinho de malha no dia 12, ter à mão. E o que é que tem marcado agora para este dia?

Eu vou estar alojado em Bragança de 11 a 15.

Quando é que reservou?

Em novembro, se não estou em erro.

Em novembro passado.

Em novembro passado.

E ainda por cima foi fácil encontrar?

Sim. Quer dizer, não foi fácil, havia uma unidade hoteleira que já estava esgotada.

Ok. Porque temos a noção que a oferta-

Mas já tenho reservas desde janeiro para agosto do próximo ano.

Ok.

Vou ficar ali por Bragança, baseado em Bragança. No dia do eclipse, vou subir 110, 120 km para Espanha para poder ficar dentro da faixa da totalidade e estou a estimar ter à volta de 1min53s, 1min34s de totalidade. Uma zona calminha, uma povoação muito pequenina, que é pra fugir das confusões.

Isto porque o acesso do lado português à Ribeira do Norte-

Rio do Norte, sim.

Rio do Norte, foi vedado.

Sim, por causa dos incêndios.

Por causa dos incêndios, o que está também a provocar algum desagrado.

Aquela zona ali é uma zona muito sensível. Os incêndios têm que ser mesmo uma preocupação.

Para já é uma ótima desculpa pra passear. É fácil. Mas por que quer continuar a viver esta experiência?

Primeiro, gosto de astronomia desde criança.

É um apaixonado, não é, pelo tema?

Faço parte de uma associação sem fins lucrativos, que completou 25 anos o mês passado.

Como é que se chama?

O Núcleo Interativo da Astronomia e Inovação em Educação, que é composto por um fantástico grupo de amigos e de pessoas que ensinam ciência e astronomia por esse mundo fora, com projetos europeus financiados pela União Europeia, de formação pra professores e alunos nas escolas. E temos feito um trabalho extraordinário ao longo destes anos.

E a sua motivação parte dessa paixão, não é?

Parte desta paixão de criança pela astronomia, pelo universo, e depois ter esta sensação de que quando olhamos pro céu, seja para as estrelas, seja durante um eclipse, um fenômeno destes, nós ficamos reduzidos à nossa mais pequena insignificância daquilo que efetivamente somos no meio disto tudo. Porque nós temos aquela tendência humana de pensar que conseguimos controlar tudo e depois quando estamos perante este tipo de fenômenos, nós nos sentimos pequeninos. E isso são coisas que nos marcam. Os eclipses a mim marcaram muito profundamente a forma como eu passei a encarar a minha vida e aquilo que se passa à minha volta. Passei a ser muito mais tranquilo, muito mais calmo nesse aspecto, e tomar uma perspectiva de encarar a vida um dia de cada vez.

Isso é incrível, provocar essa reação.

Mas cada pessoa é uma pessoa.

Claro, mas estou a perceber perfeitamente o que está a dizer.

Eu estou a mafagafar todo este tema.

Sim, porque realmente, não só a raridade, mas a grandiosidade, vamos dizer assim, do fenômeno.

A magnitude.

Sim, faz-nos sentir-

Eu estava ali fora a dizer ao Martin que tenho aqui um catálogo com os eclipses todos do século XXI até o ano 3000, feito por um senhor americano que faleceu o ano passado, que era o Fred Espenak, também está na lista. E eu só consigo marcar aqui eclipses, já com algum custo de fazer algumas viagens, até àquilo que eu gostaria que fosse a minha esperança média de vida. E vou ter que parar em 2053, porque lá, se chegar, terei 89 anos, não sei se estou em condições.

Mas já está a tomar nota das viagens que vai fazer?

Daquilo que gostaria de fazer, sim.

Quais são as próximas?

2027, 2028.

2027.

2027 no sul de Espanha.

No sul de Espanha. Portanto, vamos ter aí um parcial, é isso?

Sim. Não, total.

Total também?

Total.

Parcial em Portugal.

Parcial em Portugal.

Em todo o território continental, começa nos 80% e pode ir até aos 90 e tal por cento, quanto mais pra sul for.

Mas no sul de Espanha, vamos ter a oportunidade. É em 27.

Sim, 27. Abaixo da linha de Cádiz, já está dentro da faixa total.

Será melhor começarmos já a reservar quartos em Espanha e comprar óculos também.

Eu já fiz as reservas em janeiro.

Pronto.

E os óculos podemos usar o deste.

Exato. Não se vão estragar, em princípio.

Depois, em janeiro de 2028, temos um anular, que vai abranger o Algarve Mas é janeiro. Em 2028.

Pode estar nublado, não é?

A 22 de julho de 2028, terá que viajar até à Austrália. Mas eu para mim não tenho nada disso.

Que bela desculpa para ir à Austrália.

Tenho aqui um parcial.

Há aí um mais exótico?

Não. Exóticos há muitos. Para a Ásia.

Na Antártica.

Mas por curiosidade, este de 2053, que eu alinhei, vai ser um pouco mais abaixo de onde vai passar este de 2027. Portanto, aqui vai ser um parcial também grande. Já não vai passar em Espanha, não vai abranger Espanha, mas vai passar em Ceuta, em Melilha, no norte de Marrocos.

E aí, portanto, o Mário já com-

89 anos

...um senhor de 89 anos. Tem a certeza que vai conseguir?

Se ainda conseguir perceber o que é o Sol.

Então não consegue. Martim, mas o próximo total é 2144?

2144. Cá em Portugal. Eu aproveito só para fazer uma pergunta, porque é o meu caso, não sei, Ricardo, se é o teu. É o meu primeiro eclipse solar.

Quer dizer, total.

Que eu já vi, pelo menos parcial nunca vi.

Parcial já vi.

Já houve cá em Portugal, eu nunca vi. É o meu primeiro total.

Obrigado, Martim. Pensaste que não?

Tem que se inscrever na lista.

Tenho, exato.

Mas eu queria perguntar para alguém que vai ver o seu primeiro eclipse solar, que recomendações é que têm de opções para viver no momento, coisas para olhar, certos detalhes?

Primeira coisa, segurança acima de tudo. Óculos certificados. Por favor, não comprem óculos na internet, em plataformas duvidosas. Óculos certificados, com o símbolo de certificação correto. Verifiquem sempre se os óculos não têm nenhum furo, nem nenhum risco. Coloquem os óculos na cara, com a cara virada para a frente. Tapem, verifiquem se não entra luz. A seguir, então, podem levantar a cabeça e olhar para o sol. Não olhem mais do que 10 a 15 segundos contínuos. Isto por quê? Porque os óculos filtram a luz, mas deixam passar o calor, os infravermelhos. E ao fim de algum tempo, há acumulação de calor na retina, basta que a temperatura aumente meio grau acima da temperatura normal do nosso corpo e poderão causar-se lesões na retina que só se vão verificar passado 10 ou 15 anos, os tais pontos mortos, depois quando queremos ler ou conduzir e vemos pontos mortos. Portanto, não façam isso. Que 10, 15 segundos a olhar para o sol, a seguir baixam a cabeça, tiram os óculos, emprestam os óculos a outra pessoa, descansam 10 a 15 minutos. Até porque estes 10, 15 minutos, não se consegue ver evolução significativa.

Porque o ponto focal vai ser 26 segundos, não é?

Cá em Portugal, sim.

Sim, mas aí não é necessário óculos. Durante a totalidade é para tirar os óculos, é para ver a olho nu.

Mas aqui em Lisboa, por exemplo?

Tem que ser sempre com proteção.

Vai ser parcial.

Sempre parcial.

Claro.

E se estiverem em zonas onde tenham árvores, prestem atenção às sombras das árvores, porque a partir dos 80, 85%, as sombras começam a ficar deformadas com o aspeto do crescente do sol. As próprias sombras dos nossos dedos ficam distorcidas também da mesma forma. Prestem atenção aos animais, os passarinhos começam a tentar recolher, animais do campo, burros, vacas, cabras, começam a ir para os pontos de recolha. E prestem atenção à vossa volta, às pessoas que estão à vossa volta e à reação, que vai ser, assim que acaba a totalidade, a explosão de alegria.

E as fotografias para o Instagram podem esperar.

Podem esperar, sim.

Muito obrigado, Mário-

O prazer foi todo meu

...por ter vindo aqui à nossa emissão, por ter participado neste guia para o eclipse. O Mário Ramos, um aficionado dos eclipses, também contei com a ajuda do jornalista Martim Andrade. Um guia para o eclipse, todos os dias na Rádio Observador, por volta das 17h15 e sempre em podcast. E no próximo episódio, desta sexta-feira, vamos falar sobre mitos em torno dos eclipses. Há por aí muitos medos que ainda perduram.