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Para ideias feitas.

Ideias feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo, boa tarde e obrigado.

E hoje queres falar sobre a chamada Lei da Burca.

É, a chamada Lei da Burca foi agora aprovada na especialidade pelos partidos da alegada direita, ou ditos de direita, o PSD, o Chega, a Iniciativa Liberal, CDS, e teve o voto contra de toda a esquerda, do PS para lá ou para a esquerda. Houve ali uns avanços e uns recuos, o Chega acabou por ceder às exigências do PSD para evitar inconstitucionalidades. O diploma deixou de ter algum peso religioso e passou a focar-se na segurança nacional e na ordem pública. O texto final proíbe a ocultação integral do rosto em espaços públicos e prevê um regime de coimas mais ligeiro do que estava previsto na proposta original. E entre parêntesis, a nova lei também devia incluir uma referência à necessidade de se evitar o ridículo para que não se repetisse algumas situações que aconteceram durante a Covid. Mas esse, obviamente, não é o ponto. O ponto que eu quero trazer aqui é o facto de toda a esquerda ter votado contra a referida lei e sobretudo o facto de ter votado contra a lei, porque acha que a lei pretende estigmatizar os islâmicos que residem em Portugal. Uma deputada do PCP, Paula Santos, é líder da bancada parlamentar, aliás, é líder do PCP. A deputada Paula Santos acha que a lei vai contribuir para a estigmatização, para a exclusão e para a ostracização e se calhar para mais coisas terríveis terminadas em ão. E para esta senhora, ela vai ainda mais longe, ela acha que o objetivo da lei é continuar a alimentar o discurso do ódio e de violência com quem é diferente. Ora bem, vamos por partes. Desde logo, é engraçado ver a esquerda, aquela exata esquerda que passa a vida a protestar ou a fingir que protesta contra o heteropatriarcado, a misoginia, a masculinidade tóxica, a violência doméstica e essas coisas todas, ver essa esquerda unida na defesa de um dos símbolos mais inequívocos da subalternização da mulher. É com certeza aquela esquerda cuja inabalável coerência a faz fingir que defende os direitos dos homossexuais enquanto em simultâneo apoia regimes que perseguem, torturam e matam os mesmos homossexuais. Depois, outra alínea, não se percebe como é que uma lei que obriga as muçulmanas a cumprirem regras básicas de convivência social para nós, para quem está aqui, para a sociedade a que chegam, como é que isso vai fomentar o ódio e a violência contra quem é diferente. Em princípio, os processos de assimilação são desejáveis e servem justamente para atenuar essas diferenças e facilitarem a vida em comum e evitarem justamente a propagação desse tal ódio e, no limite, da própria violência. Por fim, é sempre curioso constatar o caráter quase encantado que a esquerda, ou uma boa parte da esquerda, acho que era talvez mais primária, dedica às alegadas diferenças. Na retórica dessa gente, a diferença é uma bênção, logo que o padrão de referência para essa diferença seja o modo de vida ocidental. Tudo o que é diferente de nós é pelos vistos maravilhoso, incluindo cobrir o rosto das mulheres, ou a mulher estar subjugada à tutela do homem, ou as desigualdades que a mulher sofre no direito familiar e nas heranças, estão tudo características de algum islão core e, no limite, a mutilação genital feminina. Dirão alguns, e com razão, que a mutilação genital feminina não é uma prática comum da vasta maioria do islão. Pois não será. E o uso da burca também não é. Ambos os costumes são manifestações desumanas, uma talvez mais extrema do que outra, mas são manifestações das tais diferenças que não temos e que principalmente não devemos respeitar. Claro que uma lei não vai acabar com a opressão sofrida por inúmeras mulheres muçulmanas, mas pelo menos torna ilegal um dos principais sintomas dessa opressão. Impede-nos de formalmente sermos, enquanto sociedade, cúmplices. A criminalização do homicídio também não impede que ocasionalmente alguém mate alguém, mas há um consenso, acho que mais ou menos geral, e um certo descanso em sabermos que o homicídio é punido pelo Código Penal. E isto até a esquerda parlamentar, claro, se lembrar de legalizar determinados homicídios em nome das diferenças, mas esse dia ainda não chegou. Não me admirava que um dia chegasse.

Até amanhã, Alberto. Um abraço.

Até amanhã, Ricardo. Um abraço.

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