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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Bem-vindo, Alberto. E hoje queres ir a uma das polémicas do momento: a lei da burca.

Olá, Ricardo. É, eu passei um bocadinho do fim de semana a tentar acompanhar e a tentar perceber essa polémica em volta da lei da burca ou, mais exatamente, da lei que, salvo algumas exceções, proíbe ocultar o rosto em locais públicos. Acho que é assim a forma mais correta. Exato. Mas, de facto, foram as vestes islâmicas, e a burca e o niqab, em particular, que foram discutidos e que às vezes foram defendidos sob os argumentos mais extravagantes. E desde logo, eu achei interessante constatar a curiosa evolução de algum feminismo que há 50 anos ou 60 queimava sutiãs e que desde aí defendia o direito das mulheres à igualdade e agora defende a imposição da burca e o dever das mulheres a serem submissas e invisíveis. E depois, também é interessante notar, e também constatei, a evolução de certo progressismo, que deve coincidir mais ou menos com este feminismo que acabei de falar. Antigamente, os progressistas lutavam por uma sociedade secular, onde a vida civil estivesse livre de influências religiosas, de condicionamentos religiosos, de dogmas, de padrões, enfim, de obrigações religiosas. Agora, os progressistas defendem o estrito respeito pela religião. Mas atenção, não por qualquer religião. Só se deve respeitar as religiões que não sejam, digamos, tradicionais no Ocidente. Só as religiões que não foram fundacionais para o nosso modo de vida são estimáveis. E se forem variações particularmente medievais dessas religiões, melhor ainda, e mais respeito merecem. O cristianismo, o judaísmo são alvo de chacota, na melhor das hipóteses. O Islão, especificamente as correntes e os costumes mais retrógrados e mais opressores do Islão, são defendidos com fervor por aqueles que ainda há 10 minutos achavam inadmissível a mera presença do crucifixo nas salas de aulas. Houve aqui não há muitos anos uma polémica em volta disto. O engraçado é que para fingir que não se abdica do progressismo, a liberdade religiosa, e estou a citar a expressão entre aspas, é justamente um dos argumentos invocados pelos opositores da dita lei da burca. E por acaso estão enganados, porque cobrir o rosto das senhoras nem é liberdade, nem é religião. Por um lado, os estudos conhecidos, e há alguns, e há, por exemplo, um estudo célebre realizado em França em 2010, 2011, quando na altura também se proibiu a burca por lá. Esse estudo e outros mostram que a vastíssima maioria das muçulmanas preferiria não ter de andar mascarada. E além disso, todos conhecemos o sofrimento das mulheres afegãs antes do advento dos talibãs, coitadas. Tinham de exibir o rosto e boa parte do corpo e podiam ter profissões e podiam ser humanas. Essas coisas todas eram uma desgraça. E, por outro lado, parece que em nenhuma passagem do Corão se impõe ou sequer se recomenda o uso da burca ou de traje similar. A ocultação das mulheres e do rosto das mulheres, em particular, é uma violência geograficamente e religiosamente restrita, pelos vistos. E ainda que não fosse, é apenas natural que os costumes religiosos alheios se tenham de acomodar às leis de cada país. A mutilação genital feminina também é habitual em certas nações predominantemente islâmicas ou totalmente islâmicas, e nem por isso a devemos permitir aqui, julgo eu. Embora eu desconfie que muitas feministas e muitos progressistas estariam a favor dessa prática, sobretudo em nome do tal respeito pela liberdade religiosa. E por fim, há a questão do número, porque eu vi alguns opositores da nova lei, para não usar os argumentos anteriores, usavam o argumento de que há pouquíssimas mulheres a usar burca em Portugal. Não sei como é que eles as contaram, mas contaram e concluíram que havia poucas. Mas também ainda há, felizmente, poucos homicídios em Portugal e também nem por isso se acha mal criminalizar o homicídio. E se este exemplo é falacioso, e é um bocado, eu reconheço, temos um caso inverso, por exemplo, que alguém lembrou nas redes sociais, não fui eu que me lembrei dele, mas foi alguém, não sei identificar, que lembrou, e muito bem. A lei que permite a adoção por casais do mesmo sexo até hoje beneficiou 40 crianças nestes anos. E não vi que essa raridade motivasse pedidos de abolição da referida lei. Portanto, não será o número que será o fator determinante aqui. Em suma, e o fator determinante aqui é sempre o mesmo, é um problema que é constante e que não tem nada a ver com a burca e que não tem nada a ver com o Islão. O problema é o problema da esquerda com a nossa civilização. Tudo o que sirva para a combater é louvável, incluindo as práticas dos talibãs. Isto nunca é assumido, a esquerda nunca assume este combate e cobre-o com os disfarces cá. No fundo, a esquerda é que não mostra a cara. Não são só as senhoras que são obrigadas a usar burca. A esquerda cobre o seu rosto, esconde a sua cara e fala voluntariamente.

Obrigado, Alberto, aqui a desfazer ideias feitas na Rádio Observador e a fechar esta hora das 18h. Um abraço, Alberto. Até amanhã.

Um abraço, Ricardo. Até amanhã.

O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.