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Bem-vindo, Alberto. "Ideias Feitas" na Rádio Observador e hoje queres falar sobre a greve geral.
Quero sim, senhor. Olá, Ricardo, boa tarde. Deixe-me começar por referir aqui um microepisódio que aconteceu justamente ontem. Mostraram-me um post na página do Facebook de uma militante do PCP, uma senhora que é professora do ensino secundário e que denunciava nesse post os 40 milhões de pobres que há na Califórnia. O post pretendia naturalmente chamar a atenção para o extremo falhanço da sociedade americana e, por inerência, do capitalismo. E conseguia, porque 40 milhões de pobres só na Califórnia é realmente muito, sobretudo se tivermos em conta, eu depois fui confirmar, já tinha essa impressão, que a Califórnia só tem 39 milhões de habitantes, de propósito. Ou seja, a Califórnia tem mais pobres que moradores. E a Califórnia é, como sabemos, o estado mais rico dos Estados Unidos. Imaginem como será nos outros estados, e alguns eu até conheço. A miséria é muito mais profunda do que aquilo que me parece à vista. Eu uso isto como exemplo da vasta flexibilidade dos comunistas com os números e com os números, por exemplo, da greve de ontem, a dita greve geral, porque para os sindicatos a greve foi, como sempre, um sucesso absoluto e como é costume nestes casos, foi a maior de sempre. Cada greve é sempre a maior de sempre, esse é um princípio incontornável destas coisas. E depois vem a realidade e parece que, como também costuma acontecer, a realidade discorda um bocadinho dos números apresentados pelos comunistas. Se calhar, a greve não foi assim tão significativa, embora tenha existido, obviamente, mas no setor privado, por exemplo, a adesão à greve foi naturalmente nula ou quase nula, foi muito baixa, pelo menos a parte do país que fez greve. Que com certeza em quantidades acho que bastante inferiores aos 80% garantidos pelos sindicatos, é a parte do país que trabalha para o Estado e a parte do país que se viu afetada pela greve é a parte do país que depende dos serviços do Estado, ou seja, nos transportes, nas escolas, nos hospitais, etc. Há aqui um problema. Se calhar, julgo que o problema não passará tanto pelo chamado pacote laboral, que de resto ainda não foi aprovado e mesmo que venha a ser aprovado, não vai mudar assim nada de especial e estará longe de nos salvar da rigidez de que sofre a nossa legislação do trabalho. Há aqui um problema, acho eu. O problema está no Estado e na nossa dependência direta ou indireta do Estado. E a propósito, como o tempo de ideias feitas não é ilimitado e portanto não posso desenvolver isto demasiadamente, eu aproveito para aconselhar o artigo de hoje do Rui Ramos aqui no site do Observador, onde ele desenvolve com a habitual clareza a seguinte ideia, e vou citar o Rui Ramos: "A greve foi só geral no sentido em que o Estado em Portugal é demasiado geral. Para resolver esse problema, o meio adequado não é o pacote laboral, mas a reforma do Estado." São palavras dele e que eu, como se costuma dizer, como sei dizer, subscrevo. No fundo, por pequeno que seja o relativo sucesso de cada greve, a de ontem e a todas as outras que já houve e que venha a haver, demonstra o oposto daquilo que os partidos que apoiam essas greves desejam. Esses partidos desejam mais Estado. As consequências das greves, quando se fazem sentir, apenas servem para confirmar que convinha, se calhar, haver menos Estado, que convinha dependermos menos do Estado. E isso exige uma coragem política, uma vontade de reformas que não se encontra em nenhum partido relevante, não se encontra no governo, nos partidos do governo, não se encontra nos partidos da oposição. Quanto ao resto, a greve aconteceu porque é a derradeira forma de expressão das esquerdas e sobretudo das esquerdas mais extremas, mas não só. E é a única maneira que essas esquerdas têm hoje de tentar mobilizar as massas que ainda podem estar potencialmente ao seu alcance. Agora que essas esquerdas estão encolhidas, estão apertadinhas num canto do Parlamento, há esta forma de expressão. As manifestações que aconteceram ontem foram mais festivas ou mais violentas, que são mais um ato de desespero do que uma celebração de uma qualquer vitória ou de uma proeza. Greves assim não são exatamente um levantamento, são uma espécie de resignação, são a prova de que há uma parte ainda significativa, e a meu ver, demasiado significativa do país, que ainda está resignada à dependência, ao paternalismo, ao Estado, em suma. Por mais voltas que dermos, em Portugal vamos sempre parar ao Estado e isso, na minha perspetiva, na minha ótica, como dizem, isso nunca é bom.
Obrigado, Alberto. E um abraço e até amanhã. Até amanhã, não. Bom fim de semana.
Bom fim de semana, Ricardo.
Um abraço.
Até segunda. Um abraço.
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