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"Ideias Feitas", na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Obrigado.
E queres falar sobre o atentado na sinagoga de Detroit e na tentativa de atentado em Nova York.
Sim, são dois atentados. Felizmente, não morreu ninguém, a não ser, num dos casos, o autor. Mas vou começar por fazer uma escala no Reino Unido e começo por notar que as autoridades políticas e judiciais de lá, e a separação lá entre uma coisa e outra já começa a ser um bocado difusa ou difícil de distinguir, de destrinçar. As autoridades de lá ainda não estavam satisfeitas com as 12 mil detenções anuais por discurso de ódio e resolveram agora reforçar os poderes com uma nova definição jurídica, que é a de hostilidade antimuçulmana. Portanto, é uma coisa específica destinada a punir quem disser mal da religião islâmica. Obviamente. Os Estados Unidos ainda não vão tão avançados quanto o Reino Unido em matéria de combate ao discurso de ódio. Na América, ninguém é preso, ninguém é detido por discurso de ódio. No ano passado, o número de detidos acho que foi de zero pessoas, segundo pude confirmar, mas como se costuma dizer, as sementes estão lançadas. É sempre um princípio. Há uns dias houve uma manifestação à porta da residência oficial do mayor de Nova York, o senhor Mandani, contra a islamização da cidade ou aquilo que os manifestantes achavam que é a islamização da cidade. Entre parêntesis, isto aconteceu poucos dias depois de se ter descoberto que a mulher do senhor Mandani tinha posto likes em posts que glorificavam o massacre do 7 de outubro em Israel. E fora de parêntesis, houve então a tal manifestação anti-Islão, completamente pacífica. Não eram muitas pessoas sequer, uma dezena de pessoas, a berrar uns slogans, como de costume, nas manifestações pacíficas. Em simultâneo, houve também ali, e à mesma hora, uma contramanifestação, esta já um bocadinho menos pacífica, e a certa altura, um dos participantes dessa segunda manifestação, a tal manifestação que não sendo islamofóbica, pelo contrário, era a favor da harmonia universal e da tolerância, dessas coisas todas bonitas, mas um dos participantes desta manifestação lançou um explosivo na direção dos primeiros manifestantes. Felizmente, não se magoou ninguém, como eu já referi, pelo menos com gravidade. No comentário que fez após o sucedido, o mayor Mandani nem por uma vez referiu a tentativa de atentado, que, aliás, foi cometido por um jovem muçulmano. O mayor limitou-se a condenar a islamofobia e a contar que ele, coitadinho, sentiu pela vida fora essa islamofobia e deve ser por isso, por causa da exclusão de que tem sido alvo, que chegou a presidente da maior cidade do Ocidente. O curioso é que na generalidade das televisões americanas a cobertura foi semelhante. Todas ou quase todas fizeram questão de apresentar a notícia como tendo a ver com uma manifestação racista, islamofóbica e de extrema-direita, em que houve uma tentativa de atentado, uma coisa sem autor definido. E quem viu a notícia distraidamente ficou a pensar que o autor pertenceria a essa cáfila de racistas, islamofóbicos e de extrema-direita. E algumas televisões, julgo particularmente acho que foi a CNN, não a nossa, adeus, fizeram questão de esclarecer que o mayor, que estava dentro de casa, não ficou ferido. Isto para aumentar a confusão e para parecer ainda mais que o explosivo tinha sido levado por um manifestante da dita extrema-direita. E é claro que o senhor Mandani não ficou ferido porque, ao contrário do que tentaram fazer crer, o atentado não o visava de todo. Foi, aliás, cometido por um seu apoiante ou um suposto seu apoiante, que tentou matar aqueles que não o apoiam. É difícil imaginar maior travesti de jornalismo do que a cobertura desta história de boa parte das televisões americanas. Mas oportunidades não faltam, porque ainda ontem um outro muçulmano desatou aos tiros numa sinagoga perto de Detroit, que ele tinha invadido com seu automóvel. Por sorte, lá está, não morreu ninguém, exceto o próprio. E é de notar que a sinagoga até possui, pelos vistos, um infantário, que tinha cento e tal crianças lá dentro. Deve ser o pior atirador de sempre, felizmente. Eu não tive a oportunidade ainda, nem estômago, para ver o modo como as televisões americanas relataram o episódio, mas de certeza que no mínimo terão todo o cuidado para evitar o crescimento da islamofobia, porque de cada vez que há uma ação isolada ou organizada do terrorismo islâmico, o grande perigo não é acabarmos mortos, pelos vistos, é podermos sentir e expressar, se sobrevivermos, sentimentos islamofóbicos. No Reino Unido, isso já vai passar a ser crime ou já é crime. E vemos que a islamofobia, não só no Reino Unido, está a ser devidamente combatida. O terrorismo islâmico, nem tanto. E eu gostava de saber quantas pessoas têm morrido no mundo por causa da islamofobia e quantas pessoas têm morrido no mundo por causa do terrorismo islâmico. Quer dizer, gostava de saber. Já sei, não sei os números exatos, mas faço uma ideia. E com isto termino e desejo-te um ótimo fim de semana, Ricardo, e aos ouvintes também.
Um bom fim de semana, Alberto. Até segunda.
Até segunda. Um abraço.