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"Ideias Feitas" na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Bem-vindo, Alberto. E o título da tua crônica de hoje é o seguinte: "A jornalista brasileira e a sífilis dos portugueses."

Olá, Ricardo. Boa tarde. É, o título é esse, mas vou começar por dizer que em Portugal existe uma fundação chamada Gulbenkian, que promove coisas. Há dias inaugurou uma exposição intitulada "Complexo Brasil". A exposição tem, naturalmente, um catálogo e o catálogo inclui um texto de uma senhora chamada Eliane Brum, que é apresentada como a mais premiada jornalista brasileira. E no texto em causa, a senhora dona Eliane culpa os portugueses pela apropriação de terras indígenas e pela escravatura. E culpa os portugueses todos, os de antigamente e os portugueses de agora. Os de agora, vá lá, apenas partilham, segundo ela, uma responsabilidade coletiva, já que ela faz-nos o favor de reconhecer que ainda não éramos nascidos. Já quanto aos portugueses de antigamente, a senhora dona Eliane trata com particular brutalidade. Ela escreve o seguinte, passo a citar, e passo mesmo a citar, porque não sou eu que digo isto: "O que os homens portugueses começaram a fazer aqui tão logo que colocaram as suas botas e seus corpos infetados no ventre de areia das praias, seus pênis sifilíticos nas vaginas das mulheres originárias, foi construir ruínas." E vamos por partes. Desde logo, é interessante que uma fundação sediada em Portugal pague, porque eu não acredito que a senhora dona Eliane escreva de borla, para que uma estrangeira insulte cada cidadão do nosso país, já falecidos e nós, os atuais. Se a ideia é insultar portugueses, estamos cá nós para isso. E de resto, na canção "No Fado Tropical", do Chico Buarque, que por acaso ou não por acaso é comunista, lembrava-se também a sífilis que os portugueses levaram, mas também não se esqueciam algumas influências mais simpáticas que Portugal terá legado ao Brasil. A senhora dona Eliane só reteve, salvo seja, as doenças contagiosas. Depois é preciso dizer que já não há paciência para esta cantilena do colonialismo e, no caso do Brasil, ainda menos. Por um lado, a cantilena implica o desconhecimento ou, no mínimo, o desprezo pelos processos históricos e a circunstância de que as migrações, a violência e a escravatura, que de fato os portugueses ajudaram a globalizar, mas que encontraram já implantada em África, tudo isso são elementos inseparáveis da formação das civilizações e depois, mais tarde, dos Estados. É assim a vida, é assim que a vida tem sido já há largos séculos. E, por outro lado, ou em simultâneo, a cantilena substitui a História, ou procura substituir a História por uma visão infantil do mundo, que divide o mundo em bons selvagens e conquistadores malvados, em oprimidos e opressores, em vítimas e carrascos, e um longo etc. Qual é o objetivo destas patranhas, destas histórias? Não da História, destas histórias. Eu julgo que há dois objetivos. Há um mais material e espero que seja inviável, que é exigir as famosas reparações, ou seja, fazer-nos pagar não se percebe bem o quê, nem por quê, nem a quem. E o outro objetivo, que é mais simbólico, mas mais viável, é desculpar fracassos. O Brasil é independente há 200 anos e, em larga medida, continua a ser um país falhado por muitas patifarias que os portugueses fizeram sempre lá. Já nem vou discutir isso. Eu julgo que dois séculos inteirinhos chegariam para que os autóctones se conseguissem limpar e, sobre as tais ruínas que os portugueses construíram, conseguissem erguer uma nação próspera, imparável, rica e feliz. Ou então, dá-se o caso de a senhora dona Eliane achar que logo que os portugueses pisaram o ventre das praias brasileiras, ou das areias, ou alqueé, que o caldo ficou irremediavelmente entornado e que o Brasil só seria um país como deve ser se se limitasse a permanecer na Idade da Pedra, como as quantas tribos índias a viverem por ali e ocuparem 0,5% do território. Em qualquer dos casos, eu não sei o que a senhora dona Eliane está fazendo no Brasil. Eu fui ver, nunca tinha ouvido falar na senhora, mas fui ver. E a senhora é caucasiana, de descendente de europeus, no caso italianos, e tem-se servido a vida inteira dos benefícios que o Ocidente permite e concede e que a cultura dos ameríndios dificilmente permitiria e concederia. Afinal, vai-se a ver e a senhora dona Eliane é uma hipócrita e se calhar, em vez de lhe darem mais prêmios, o que ela precisava era de um bocadinho de vergonha na cara, mas julgo que os prêmios estão mais à mão e quem diz prêmios, diz estes convites da Gulbenkian.

Obrigado, Alberto, e até amanhã no "Ideias Feitas" aqui na Rádio Observador. Um abraço. O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite D'Alisman.