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Junta-se a nós o Alberto Gonçalves. Boa tarde, Alberto.

Boa tarde, Alberto Gonçalves.

Olá, boa tarde.

Rui Rio não está muito preocupado com as sondagens. E tu?

Eu também não estou demasiado preocupado com as sondagens . E percebo que o doutor Rio não esteja preocupado, porque ele nunca mostrou nenhuma intenção, desde que é líder de PSD, que as sondagens fossem muito diferentes. A questão é: as sondagens mais recentes têm dado o PS no limiar da maioria absoluta. E mais significativo do que isso, talvez, têm mostrado que o PSD está a caminho de uma espécie de extinção ou muito próximo disso, pelo menos enquanto partido de poder. É claro que o papel do doutor Rio nisso tudo não é desprezível. É uma personagem que tem sido desde o início, desde que é líder, conveniente para o PS, e nota-se isso até pelo entusiasmo ou pelo menos pela não aversão daqueles comentadores que se dizem de direita e passam a vida a apoiar o doutor Costa, a simpatia que eles nutrem pelo doutor Rio. Mas é preciso também ter em conta que, apesar de tudo, e há a questão também dos mídia, favoreceram muito ou acarinharam o doutor Rio no início e continuam a não antagonizá-lo em demasia, porque acaba por ser simpático para o PS. Mas é preciso não esquecer que quem elegeu o doutor Rio foi o PSD, e o PSD que decidiu que este era o rumo a tomar. E se agora se aproxima dos 20% nas sondagens, é lá com eles, é uma decisão que eles tomaram e estão no seu direito.

E nesta altura com o centro-direita mais fraco, há a possibilidade de nova maioria de esquerda.

Pois, a questão é essa e as questões que derivam dessa, porque uma maioria de esquerda já vimos o que pode fazer, mas apesar de tudo, é uma maioria de esquerda que estruturalmente não consegue mudar o país. Ou podemos ir diretos ao assunto, constitucionalmente não consegue. Agora, o que as próximas eleições podem trazer, e as sondagens estão a indicar isso com alguma probabilidade forte, é a possibilidade de o Parlamento atingir os dois terços de maioria de esquerda. E não é uma simples esquerda. Temos as esquerdas tradicionalmente radicais, a extrema-esquerda do PCP e a extrema-esquerda do Bloco, e temos um PS que não só por este convívio que manteve com a extrema-esquerda nestes últimos quase quatro anos, é um PS muito radicalizado. Arriscamo-nos não só a ter uma maioria parlamentar de esquerda, mas poderemos ter uma maioria constitucional de esquerda. E a questão aí é: traz outros perigos para o país. Isso é o que me preocupa.

Mas achas que o PS, apesar de tudo, é um partido moderado dentro da esquerda, é democrático.

Eu acho que o PS já foi mais moderado. Eu acho que este PS para manter o poder, é capaz de coisas que mesmo as pessoas que não eram socialistas não suspeitavam. E eu não suspeitava. As pessoas podem não terem gostado do engenheiro Sócrates, mas a verdade é que o engenheiro Sócrates nem quando teria precisado, e houve ali uma altura que precisou, nunca se aliou à extrema-esquerda. E o doutor Costa já mostrou que não tem problema nenhum com isso. E se nós tivemos até agora, nestes 40 e poucos anos de democracia, uma Constituição assim já um bocadinho a tender para o terceiro mundo em certos aspetos, podemos arriscar-nos a ter uma Constituição absolutamente e assumidamente marxista. Isso começa a aproximar-nos mesmo daquilo que algumas pessoas disseram desde 2015, e foram alvo de chacota, que começa a aproximar-nos um bocadinho demais da Venezuela. Só não aproxima em definitivo porque apesar de tudo estamos na Europa e ainda vamos estando na União Europeia. Mas por este andar eu não sei onde podemos chegar. Caracas pode estar muito mais perto do que parecia.

Alberto Gonçalves, todas as tardes aqui no Observador, por volta desta hora, desfaz ideias feitas.

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