Seinfeld e Sheeran, afinal há cancelamentos ou não?
As contradições flagrantes na abordagem dos dois casos têm sido o aspeto mais interessante. Quando surgiu a controvérsia em torno de Seinfeld, passei semanas a ler que o cancelamento era uma invenção, ou apenas o mercado cultural a funcionar com base em opções legítimas dos potenciais clientes. Claro que as pessoas podiam e deviam recusar partilhar um cartaz com Seinfeld. Claro que era legítimo apelar ao boicote do seu espetáculo por discordância com as suas opiniões sobre Israel para levar ao seu cancelamento. Subitamente, quando um tal de Macklemore, da trupe musical de Ed Sheeran, foi impedido de atuar, aparentemente por ter gritado “Free Palestine”, todas essas ameaças de boicote e cancelamento deixaram de ser legítimas. Afinal há mesmo cancelamento, afinal há casos inaceitáveis de censura.
Tenho tanto interesse nas opiniões de Sheeran e Seinfeld sobre a Palestina, como sobre a jardinagem, que é nenhum. Mas têm o direito a tê-las e a dizê-las. Uma coisa é não ir a espetáculos ou eventos que não nos interessam, outra bem diferente é organizar publicamente boicotes para impedir a sua realização. A cultura censória de hoje – que fanáticos, ora de esquerda, ora de direita, vão promovendo, enquanto se queixam do outro lado – obriga a escrever o que deveria ser óbvio. Ir assistir ao espetáculo de Seinfeld não significa que concordemos com o que diz sobre a Palestina. Gostar de ouvir José Mário Branco não significa que sejamos favoráveis ao fim imediato do FMI, apreciar Wagner não nos torna antissemitas.
Considerar normal só ouvir, só ler, só partilhar palco com quem pensa como nós, não revela força de caráter, revela fraqueza de entendimento e vontade de impor a sua visão aos outros. A inteligência artificial plenamente autónoma traz grandes riscos, mas convém não subestimar os malefícios da estupidez humana.
Fascismo sempre mais e outras palavras mágicas
No caso de Seinfeld e Sheeran há um elemento adicional a ter em conta: a obrigatoriedade que se tenta impor do conceito (muito abusado) de genocídio para referir a situação em Gaza, se não se quiser ser acusado de ter sangue de inocentes nas mãos. Sheeran revelou nesta questão ter tanto caráter moral como musical, ou seja, muito pouco. Começou por dizer que não queria fazer declarações políticas – algo perfeitamente respeitável – mas para tentar justificar não mostrar solidariedade com a defesa da liberdade de expressão dos seus colegas. Acabou por se deixar forçar a alinhar pela cartilha. É suposto continuarmos a fazer de conta que não existe uma tentativa de policiar palavras, de punir quem não segue o catecismo?
A Zigurate e o Instituto Cervantes organizaram um debate sobre uma destas palavras mágicas e malditas, o fascismo, a pretexto de um ensaio de Santiago Gerchunoff. A sua tese é que hoje é quase obrigatório, sobretudo à esquerda, o abuso do termo fascismo para denunciar qualquer situação de que se discorde. Gerchunoff defende que o que explica esse abuso é a tentação de assumirmos o papel de herói, reclamando a herança gloriosa da Resistência ao nazismo. Com isso acaba-se, implicitamente, por culpar as vítimas por não terem previsto e denunciado a tempo onde tudo aquilo ia parar. Esquecendo-se, assim, que muitas dessas vítimas realmente combateram o fascismo, o melhor que puderam, em circunstâncias adversas e impossíveis de adivinhar. O risco é que de tanto abusarmos de palavras como fascismo ou genocídio, elas percam o seu sentido próprio, reduzidas a um insulto cada vez mais corriqueiro. Se abastardamos as palavras, não as vamos ter quando forem realmente necessárias. Outro problema do politicamente correto e da cultura de cancelamento é confundir a política com uma espécie de magia em que tudo se resolve se usarmos as fórmulas certas. Cancelamentos, policiamento da linguagem são um bom instrumento de hegemonia cultural, são úteis para fazer carreira e desfazer rivais, mas resultam num pensamento preguiçoso de seita, incapaz de lidar com a complexidade, que confunde preferências e preconceitos com a realidade, sendo, por isso, incapaz de a enfrentar e transformar.
A ONU ainda serve para quê?
E por falar em palavras mais ou menos vãs, falemos da ONU, criada em 24 de outubro de 1945, umas semanas depois do final da Segunda Guerra Mundial, em 2 de Setembro desse ano. Será só conversa, mas a ideia é que conversar pode ajudar a evitar combater. Em particular a Assembleia Geral continua a ser o grande palco global de diplomacia pública aberto a todos. A prova? Apesar de todas as suas críticas à ONU, Donald Trump não tem dispensado esse grande palco.
A Assembleia Geral nunca foi pensada para aí serem tomadas grandes decisões. Sobretudo esta semana de alto nível é uma oportunidade anual para múltiplos líderes se encontrarem discretamente – houve mais de 1000 encontro bilaterais durante esta semana. E também para ser uma oportunidade para perceber as prioridades que vão dominando a agenda dos demais Estados e eventualmente tentar criar coligações em torno de ações mais concretas.
Este ano propus um teste para perceber qual seria o peso de dois temas cruciais para o futuro da ordem global: a IA e a segurança marítima. Neste “bingo diplomático” é claro que o problema que ganhou foi o da segurança marítima. O Bahrain, particularmente afetado pelo bloqueio de Ormuz, liderou uma tomada de posição coletiva de mais de 80 países sobre o risco inaceitável de se permitir bloquear e taxar estreitos à margem da lei internacional. Muitos perceberam a gravidade do precedente que o Irão está a tentar criar. É um bom sinal, o máximo que podíamos esperar de uma Assembleia Geral da ONU, claro que o mais difícil vem a seguir.
Já o risco representado pelo enorme potencial da IA autoprogramada está longe de reunir um apoio tão alargado. Uma declaração, aliás modesta, sobre o tema do presidente finlandês Stubb reuniu apenas 22 países, apesar de António Guterres também ter organizado um encontro paralelo sobre o tema. Talvez por muitos terem receio de perderem uma oportunidade de negócio, ou de confrontar abertamente os EUA e a China que querem garantir a liderança nesse campo. Das 10 maiores empresas de IA existe apenas uma europeia, a Mistral. Xi ainda foi ao ponto de afirmar que é fundamental garantir o “controlo humano”, suponho que por via do Partido Comunista Chinês. Já Trump insiste que está tudo bem, o problema era o nome, que mudou para Super Inteligência, afinal, se se chamar Super Inteligência deve ser super boa. Trump e o trumpismo têm muito em comum com os obcecados politicamente corretos na esquerda radical com o nome das coisas, veja-se o “Golfo da América”. Enfim, esperemos que a crescente preocupação de eleitores e bilionários norte-americanos acabem por forçar uma mudança na Casa Branca.
A ONU pode pouco? Realmente pode. Significativamente Xi ainda foi mais imperial a lidar com a ONU do que Trump. Apesar de estar nos EUA para uma cimeira bilateral, o imperador comunista nem sequer se deu ao trabalho de ir misturar-se com outros líderes “menores” em Nova Iorque. E é assim porque criámos a ONU como um clube de Estados, e num clube mandam os sócios. Ora, se os Estados, sobretudo os mais poderosos se desentendem, se desinvestem, não podemos exigir milagres da ONU. Em geral é um erro apostar em palavras mágicas e esperar milagres da política.