Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
"Ideias Feitas", na Rádio Observador. Bem-vindo, Alberto Gonçalves. Hoje queres falar de Fernanda Câncio, a quem chamas a jornalista mais ingénua do mundo.
Parece que é. Olá, Ricardo. Boa tarde. Eu começo por confessar que não devia ter saudades, mas de facto tinha saudades das aventuras do engenheiro Sócrates ou do senhor José Sócrates, mais exatamente. E estes recentes depoimentos de algumas das testemunhas do julgamento em curso vieram mitigar, pelo menos, essas saudades. Eu gostei em particular do depoimento da senhora Fernanda Câncio, que se diz jornalista de investigação, mas nunca diz que foi namorada ou amiga particularmente íntima do senhor Sócrates. Aparentemente, era apenas uma pessoa que o acompanhava em viagens de lazer e viagens que, mais a julgar pelas verbas envolvidas do que pelos destinos, não estão ao alcance do cidadão médio. Eu fui ver, não é difícil ver estas coisas hoje em dia, consultar estas coisas. Entre 2008 e 2014, a senhora Fernanda Câncio acompanhou o senhor Sócrates em pelo menos oito viagens, desde Menorca a Tavira, passando por Formentera, Veneza, Creta, Cortina d'Ampezzo, Estremoz, Tavira e Albufeira. Mas Albufeira, atenção, no Hotel Pine Cliffs, que certo tipo de socialistas não se mistura com o ralé. Pelos vistos, este hotel é caríssimo e eu depois fui ver o depoimento de outra testemunha e é particularmente caro. Ou seja, há aqui viagens de dezenas de milhares de euros, como a passagem dada em Veneza, há uma moradia que ficava por 1800 € diários em Formentera, por aí fora. E a senhora Fernanda Câncio admite as viagens e admite que não as pagava. Diz ela que o senhor Sócrates a convidava e ela, coitada, lá ia. Quer dizer, ela não diz exatamente que era o senhor Sócrates a convidá-la. Ela diz "esta pessoa", o que mostra desde logo uma distância que nos impede de acreditar em qualquer relação mais profunda entre os dois. Eu sei que é difícil de entender por que a senhora Fernanda Câncio ia regularmente de férias com alguém que, pelos vistos, lhe era quase um estranho e com quem, garante ela, não se encontrava sequer semanalmente. Mas isso cada um sabe se e não vou opinar sobre a vida privada de ninguém. O que eu acho estranho nesta história toda, acho eu e acha muita gente, é a ingenuidade da senhora Fernanda Câncio, que volto a repetir, se afirma jornalista de investigação, ao imaginar que o salário de primeiro-ministro, que à época seria líquido uns 5 mil € mensais, ou se calhar até talvez menos, que um salário destes podia financiar o tipo de férias que esta pessoa lhe proporcionava. E isto sem contar com os apartamentos em Paris e as fatiotas de Rodeo Drive e outras minudências em que o senhor Sócrates gastava os seus rendimentos. Claro que também havia a lenda da herança familiar, mas acreditar na herança familiar era ainda mais extraordinário do que aceitar que o senhor Sócrates conseguia esticar o salário a limites inimagináveis. Eu não conheço a senhora Fernanda Câncio, estive com ela em dois ou três almoços no meu tempo do Diário de Notícias, devo ter trocado com ela duas, três frases. Mas mesmo assim, estou disposto a acreditar piamente no depoimento dela, na ingenuidade dela, na boa vontade dela. No que eu não acredito é que ela seja realmente jornalista de investigação, que é um ofício que em princípio exige, ou pelo menos dantes exigia, argúcia, ceticismo e curiosidade, tudo características que a senhora Câncio, segundo ela própria, não possui. Além disso, é uma péssima opinadora ou comentadora da atualidade, já que durante os anos em que acompanhava o senhor Sócrates nestas viagens, assinou uma coluna no Diário de Notícias em que com frequência jurava pela honestidade a toda a prova do então primeiro-ministro. E para cúmulo, insultava violentamente os que suspeitavam que o senhor Sócrates era um bocado aldrebão. Depois, em 2018, já uns anos depois desta história toda ter acabado, a senhora Fernanda Câncio escreveu um artigo a reconhecer que, afinal, o senhor Sócrates é um bocado aldrebão. Se a senhora Fernanda Câncio tivesse investigado o caso Watergate, o Nixon só teria sido desmascarado para aí em 1995, 96. E se ela tivesse acompanhado o Nixon a Formentera, acho que nem hoje teria sido desmascarado ainda.
Obrigado, Alberto. E amanhã regressas com mais "Ideias Feitas" aqui na Rádio Observador. Um abraço, Alberto.
Um abraço, Ricardo.
O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.