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"Ideias Feitas", como é habitual com Alberto Gonçalves, sempre a esta hora na "Tarde Política" da Rádio Observador. Há pouco também falámos disso no "E o Vencedor é...". Quero-te também falar, Alberto, bem-vindo mais uma vez, da mensagem de Natal do Primeiro-Ministro.
Olá, Luís. Parece que não há alternativa hoje. Infelizmente, não há alternativa a não falar disso. Eu começava por lembrar que ao longo da história, alguns grandes políticos ficaram em parte conhecidos pelos grandes discursos. Houve o discurso de César no Rubicão, ou o que sobrou dele, o de Lincoln em Gettysburg, o de Churchill, o "We shall fight on the beaches", o "I have a dream" do Martin Luther King e por aí fora. E depois há os políticos que não são grandes e fazem discursos proporcionais ao seu tamanho. Eu sou capaz de arriscar e dizer que há décadas que no mundo inteiro, pelo menos que eu saiba, não tenho visto um estadista com retórica particularmente admirável. E o caso português, sobretudo no presente regime, também não é exceção. Ontem, dia de Natal, o Primeiro-Ministro dirigiu-se ao país e esteve exatamente ao nível que se espera dele, que é o nível do seu antecessor no cargo, e é o nível do senhor que está quase a deixar de ser o inquilino do Palácio de Belém, e é o nível de muitos outros. O doutor Montenegro, como o doutor Costa, como o professor Marcelo e como a generalidade dos nossos políticos, fala como se fosse vereador de Urbanismo da Câmara de Felgueiras, sem ofensa para o vereador de Urbanismo da Câmara de Felgueiras, não faço ideia quem seja. No que toca ao estilo, não há estilo. Há clichês, há palavreado oco, conversa fiada, umas expressões e umas palavras horrorosas. E de brinde, houve na mensagem natalícia do doutor Montenegro diversas referências e analogias futebolísticas, que é o tema que ele domina ou o tema que ele julga, se calhar com razão, que interessa aos portugueses. Ele próprio teve a decência de avisar que ia usar o que ele chamou uma metáfora desportiva a propósito do crescimento económico. E disse ele: "É a diferença entre jogar para empatar ou ter a mentalidade vencedora de jogar sempre para ganhar". Isto é muito bonito. E logo a seguir veio a inevitável menção ao Cristiano Ronaldo como exemplo de uma mentalidade de fazer diferente, que ainda é mais bonito. Quanto ao conteúdo, houve a exploração da notícia da Economist, que já foi uma revista séria, e que lhe permitiu, ao doutor Montenegro, concluir sem se rir, note-se, que Portugal é hoje uma referência a nível europeu e mundial. E houve o que achei mais estranho, esta foi a única parte do discurso ou da mensagem que me surpreendeu. Houve uma duríssima crítica ao governo que ele, doutor Montenegro, lidera, principalmente quando ele disse que a ambição do país carece de coragem política e capacidade reformista. Ora, o atual governo, como aliás todos os anteriores, com exceção turbulenta do governo do Pedro Passos Coelho, também carece e muito de coragem política e capacidade reformista. Acho que isto é mais ou menos óbvio, a menos que o doutor Montenegro suponha que este pacote laboral é a reforma definitiva de que Portugal precisa. Tirando isso, não se está a ver que saia do atual poder político qualquer esboço de reforma séria, qualquer reforma abrangente. Se calhar o homem esqueceu-se de que é Primeiro-Ministro, pensa que ainda está na oposição e por isso resolveu criticar o governo. Agora, ele está no governo, ele é o líder do governo, é o Primeiro-Ministro e é absolutamente responsável pela estagnação do país. Um país que, pelos vistos, o mundo inteiro inveja, mas é tão responsável por essa estagnação quanto o doutor Costa. E em abono da verdade, eu faço aqui um parêntesis para dizer que o doutor Costa e os vultos que o rodeavam tentaram reformar o país para o tornar mais parecido com a Venezuela. Esse esforço houve. Agora, o doutor Montenegro, apesar do que diz aos cidadãos, parece mais empenhado no imobilismo absoluto, o que apesar de tudo é sempre o mal menor. Agora, para terminar, Luís, no fim da tal mensagem, ficámos como já estávamos, ficámos indiferentes ao que os políticos dizem e com a certeza de que graças ao que os políticos não fazem, Portugal não sai disto. Ontem o Primeiro-Ministro pediu aos portugueses, suplicou quase aos portugueses que abandonem a mentalidade do deixa andar. Outra expressão lindíssima. Em todos os outros dias, o mesmo Primeiro-Ministro reza, com certeza, para que a mentalidade não mude. Ele próprio vai deixar andar e espera que os portugueses continuem a fazer o mesmo. O deixa andar é a melhor garantia de que o país não anda. Em Portugal até arranjámos um eufemismo para este estado de coisas e é um eufemismo que de certeza é caro ao doutor Montenegro: a estabilidade.
Montenegro não é Cristiano Ronaldo é o título da tua crónica de hoje. Alberto, obrigado. Bom fim de semana. Segunda-feira há mais "Ideias Feitas" antes das 19h aqui na Tarde Política.
Bom fim de semana, Luís. Um abraço.
O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.