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"Ideias Feitas". "Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo. Boa tarde.
E hoje vamos ter crítica musical?
Parcialmente. Eu não sei se tu és apreciador dos Smiths e do Morrissey.
Sim, não posso dizer que não. Não é a minha primeira escolha, mas sim.
Hoje também já não é a minha primeira escolha, mas quando os Smiths apareceram, eu tinha 13 anos e no início da adolescência, foram ali durante aqueles poucos anos que eles existiram, foram talvez a minha primeira escolha, ou estavam entre as primeiras, certeza. Para quem não sabe, o Morrissey era o vocalista dos Smiths, letrista, líder e rosto da banda, e depois seguiu uma carreira a solo que dura até hoje. Eu finalmente consegui vê-lo no Porto agora no sábado, depois de uma série de tentativas e de bilhetes comprados em Portugal e fora de Portugal, em que ele cancela sempre os concertos, ou muitas vezes.
Este fim de semana houve concerto mesmo.
Este houve. Foi um excelente concerto, apesar do calor dentro do pavilhão. Mas o que eu queria dizer é que Morrissey tem uma longa carreira já a solo, também, e feita de discos melhores ou menos bons, mas nunca discos maus, e nunca discos cretinos. E com isto tudo, ele acabou por não se tornar nunca um entertainer como os outros. Sobretudo nos últimos 20 anos, talvez, ou talvez um pouco mais no Reino Unido, ele transformou-se talvez no artista em atividade mais silenciado ou cancelado, como se diz agora, pelos mídia, por causa das suas afirmações públicas. E o mais curioso é que as afirmações ditas polêmicas do Morrissey são tão antigas quanto a carreira dele, que tem uns 40 e tal anos. A diferença é que o que antes era provocador e levava a imprensa a tentar desesperadamente entrevistá-lo, toda gente queria entrevistar o Morrissey dentro e fora de Inglaterra, na certeza que ia ouvir das raríssimas pessoas no mundo do pop que sabiam pensar e expressar-se, aos poucos isso começou a ser tabu. O Morrissey não acho que tenha mudado, ou mudado particularmente. O mundo à volta dele é que mudou e começou a achar inadmissíveis as opiniões dele. No fundo, a forma como os mídia, ou boa parte dos mídia, têm lidado com o Morrissey nestas décadas é um excelente barômetro do espírito do tempo. Antigamente, os mídia corriam atrás dele, agora fogem dele, correm dele. E hoje o Morrissey quase só aparece nos mídia em artigos onde se compara o talento, que não conseguem deixar de lhe reconhecer, com as ideias, que é obrigatório achar obscenas ou ofensivas. Agora, se virmos com alguma atenção e se retirarmos alguns, podemos debater os excessos das coisas que ele diz a propósito do consumo de animais e da crueldade para com os animais. Podemos debater, eu não estou a dizer que ele está errado ou que está certo. Ele é um vegetariano e leva o vegetarianismo muito a sério. Mas tirarmos isso, as ideias dele nem são nada de particularmente excêntrico. Na maioria não são. O problema é que raramente coincidem com as ideias que o mainstream político e midiático gostaria que fossem totalitárias. Só para dar aqui uns exemplos, ele não aprecia a propensão censória da cultura woke, incluindo as perseguições iniciadas pelo movimento Me Too, já foi muito claro sobre isso. Ele não aprecia que a terra onde ele nasceu e cresceu tenha perdido uma determinada identidade à conta do excesso de imigração, ou do que ele considera o excesso de imigração. Ele defendeu a saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit, portanto. Defende Israel em vez de Gaza e já fez uma canção a condenar o atentado de Manchester, aquele atentado cometido durante um concerto de uma estrela pop, Ariana Grande, salvo erro, que matou uma série de gente, foi cometido por um terrorista islâmico. A canção chama-se "Bonfire of Teenagers", acho eu. Encontra-se no YouTube. É uma canção que eu recomendo, porque é comovente e é uma denúncia da passividade britânica subsequente ao atentado, e é uma canção que nenhuma editora ousou editar. Estas são algumas coisas que o Morrissey disse ou fez nos últimos anos. E devido a dizer estas coisas, a fazer estas coisas e de saber expressá-las com eloquência, numa época em que as opiniões dissonantes não são especialmente valorizadas, ele tornou-se uma espécie de pária. Agora, é um pária contraditório, que apesar do silêncio ou até dos insultos que a generalidade dos mídia lhe dedica, ele é capaz de encher, como encheu o Pavilhão Rosa Mota, o Super Bock, o Palácio Cristal no Porto, como aconteceu no sábado passado, e foi o concerto final de uma digressão europeia sempre com salas repletas. Eu acho que é possível, e até provável, que muitas das pessoas que assistem aos espetáculos não partilhem necessariamente das opiniões dele, mas pelo menos não se sentem ofendidas por essas opiniões a ponto de evitarem vê-lo e ouvi-lo. Aí é que queria chegar, já vou terminar, Ricardo. Apesar das inúmeras e imensas forças que se movem para censurar e condicionar o pensamento alheio, não é só com o Morrissey, infelizmente, que isto acontece, há ainda espaço para a liberdade. Um concerto do Morrissey, além de incluir canções por vezes extraordinárias, canções que marcaram as vidas de tantos de nós naquelas idades mais suscetíveis, um concerto dele acaba por ser uma celebração dessa liberdade e por isso é igualmente um sinal de otimismo, o que chega a ser irônico, quando o artista em causa é talvez o maior paradigma do pessimismo em atividade, e sempre foi.
É um paradoxo. Obrigado, Alberto, e até amanhã.
Até amanhã, Ricardo. Um abraço.
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