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Desfazemos ideias feitas com o Alberto Gonçalves. É a primeira crônica desta semana. Boa tarde, Alberto.
Olá, boa tarde, Vanessa.
Hoje vamos falar sobre o fim de semana, sobre um tiroteio em Almada. Queres comentar aqui as reações àquilo que aconteceu num shopping de Almada?
Sim, aconteceu num shopping de Almada, aconteceu num bar em Setúbal, salvo erro, no dia anterior, em que foi morto um funcionário do bar, e aconteceu também, acho que já depois do tiroteio em Almada, num café em Portalegre, em que um funcionário também do café foi agredido e teve que ser assistido no hospital. E o que há em comum nisto tudo, para além da violência, é o fato de ninguém nos media ter identificado de quem estamos a falar. Não me estou a referir a nomes ou a moradas das pessoas, evidentemente, mas a verdade é que toda a gente sabe e toda a gente percebe que as pessoas envolvidas nestes atos de violência são ciganos. Hoje até custa a sair o nome, de tanto ser reprimido. É um tabu referir que isto é cometido por ciganos. E é um tabu por quê? Em boa parte, por boa vontade. Não é por má-fé, é por uma genuína vontade de proteger a comunidade cigana da discriminação. Eu percebo isso, percebo que esse cuidado exista. Agora, esse cuidado não pode ser excessivo ou não pode ir a ponto de parecer que estamos a esconder a notícia ou que estamos a proteger, neste caso, os criminosos, os autores destes vários crimes de que falei, que são crimes, de que se trata, evidentemente. Porque uma coisa é discriminação, mas outra coisa, aparentemente oposta, mas depois vai cair no mesmo, é o privilégio. E o resultado de uma e de outra coisa é mais ou menos o mesmo. Quando a população em geral ou quando a maioria da população reage às notícias sobre 0,5% ou 1% da população, não sei exatamente qual é a percentagem da comunidade cigana ou de ciganos entre os cidadãos portugueses, recordemos que são cidadãos portugueses de pleno direito, mas quando a maioria da população vê este tipo de notícias e vê estas notícias com demasiadas cautelas, com demasiados escrúpulos e que não revelam, de facto, o que se trata, as pessoas começam a sentir o efeito da discriminação. Aumenta o efeito da discriminação. Eu achava muito bem que não se referisse à etnia das pessoas envolvidas, se isto fossem casos absolutamente pontuais. O problema é que não são casos pontuais. O senhor doutor André Ventura nunca explicou onde é que foi buscar aquele número de que 15% da população prisional de Portugal era constituída por ciganos, ou seja, uma percentagem muito superior à percentagem de ciganos no grosso da sociedade. Não sei se isso é verdade, se não é verdade, ele não justificou os dados que mostrou. Mas a verdade é que todos percebemos que há mais ciganos a praticar crime face à quantidade de ciganos que existem em Portugal do que não ciganos a praticar crime face à quantidade de não ciganos que existem em Portugal. Isso é mais ou menos consensual, é mais ou menos percebido por toda a gente. Ou seja, há um problema com a comunidade cigana e se esse problema for abordado por esta estratégia do escrúpulo e do segredo, esse problema não se vai resolver, esse problema vai aumentar, porque vai permitir... O meu problema não é que chegue ou não aumente os votos. O que pode ser grave nisto, para além dos crimes em questão, é que as pessoas tomem a parte pelo todo, que é isso que esta estratégia de ocultação acaba por desencadear. Passa-se a considerar que todos os ciganos são potencialmente criminosos ou criminosos, quando evidentemente isso não é verdade. Se em vez do privilégio, houvesse uma, não estou a falar agora só dos media, estou a falar em geral, mesmo das autoridades. Há uma série de questões ligadas à comunidade cigana em que se nota esse privilégio. Nós tivemos nos últimos meses, ao longo do último ano, um ano e tal, aquela questão dos pais de Famalicão que impedem os filhos de frequentar as aulas de Cidadania, uma disciplina que não interessa a ninguém, não tem importância nenhuma. E isso deu a polêmica que deu. Mas já vimos casos de crianças, de jovens da comunidade cigana, os jovens ciganos, que são dispensados de frequentar o ensino obrigatório, de todo, não estou a falar de uma disciplina, estou a falar de todo o ensino obrigatório, apenas por respeito aos valores culturais da comunidade em causa. O que eu, em princípio, nem acho necessariamente errado. Agora, é um direito, pelos vistos, que só assiste a membros da comunidade em causa e não assiste a outras pessoas. Isto, neste caso, não tem nada a ver com crimes, é uma outra questão, uma questão apenas jurídica ou legal, uma decisão de um tribunal, mas que se reflete também nas questões ligadas ao crime. Ou seja, todos ficamos com uma impressão de que os ciganos gozam da possibilidade de fazer coisas que não seriam permitidas, sem o devido castigo, à grande maioria dos outros cidadãos. E esse sentimento de impunidade da comunidade cigana e de injustiça face ao resto dos portugueses, aumenta os sentimentos de oposição à comunidade cigana, ou seja, aumenta os sentimentos da discriminação e podemos usar a palavra racismo. Neste caso, pode-se usar a palavra, mas o tipo de atitude que se tem demonstrado para com a comunidade cigana é uma atitude que, sendo de cautela e sendo, na maioria dos casos, eu acho que advém de De um lugar de bom senso, de cuidado, vem da boa fé, mas que acaba por ser prejudicial aos próprios ciganos. Sobretudo aos próprios ciganos que obviamente não se envolvem regularmente ou ocasionalmente em crimes, ou em desacatos, ou em desordens. Aquelas situações em que quando nós lemos que um grupo invadiu a urgência de um hospital e agrediu uns enfermeiros e uns médicos. É uma espécie de linguagem cifrada que permite a qualquer pessoa perceber de que grupo se trata. Quando a linguagem não é cifrada, quando não é assim vaga, é dito de quem se trata. Imaginemos um grupo de adeptos alemães ou polacos que vêm ver um jogo a Portugal e causam aí uma baderna qualquer, são identificados normalmente como tal. Não acho que ser estrangeiro ou ser português, neste caso, faça diferença. Neste caso, são membros de uma comunidade específica que devia ser pressionada, através do escrutínio e da sanção, quando se justifica, a resolver também os seus problemas. É uma comunidade que parece viver, ou boa parte dela, o número suficiente de pessoas dessa comunidade parecem promover uma vida fora da sociedade em que se inserem e deviam inserir. Há situações que envolvem a comunidade cigana e violações da lei, às quais eu até acho uma certa graça, como quando foi durante as restrições da Covid, os ciganos faziam festas que duravam dias e ninguém ousava perturbar-lhes as festas. E esse tipo de desobediência civil, não acho que seja consciente ou politizada ou coisa do gênero, apenas eles faziam o que lhes dava vontade de fazer. Nesse caso, até tem a sua graça. Há uma certa desobediência que não prejudica ninguém e que tem a sua graça. Agora, quando essa inadequação às regras básicas da sociedade, e as regras básicas incluem não agredir pessoas na via pública ou na privada, incluem não dar tiros em shoppings que, por visto, tirou até feriu uma criança. Quando os exageros, quando as violações da lei incluem esse tipo de coisas, o caso é mais grave. Não é uma simples festarola durante o tempo do confinamento. É uma coisa mais complicada e que convinha ser abordada como tal. Se se reconhecer, se se perceber que há um problema com a comunidade cigana, é mais fácil que esse problema, não digo que desapareça, as coisas não desaparecem por decreto ou por nossa vontade, mas que se atenue, pelo menos, e que qualquer pessoa tenha a noção de que quem agrediu ali não foi exatamente a comunidade cigana enquanto um todo vago, foi um conjunto de indivíduos da comunidade cigana que não respeita a lei. E lá está, parece haver mais indivíduos dentro da comunidade cigana, uma percentagem maior de indivíduos dentro da comunidade cigana que não respeita a lei, do que a percentagem de indivíduos que não respeitam a lei fora da comunidade cigana. O problema é apenas esse. Se esse problema for abordado, for encarado, for debatido, e sobretudo pelas autoridades, não somos nós aqui que vamos resolver nada. Se isso for debatido, a opinião pública é capaz de mudar um pouco o foco que tem neste momento, e que é um foco bastante apreciativo face aos ciganos. É evidente que é, e que tem razões de ser. Se isto depois alimenta o populismo, claro que alimenta o populismo. Não acho é que esse seja o ponto. O ponto principal disto e o mais prejudicial disto, ou melhor, os dois pontos principais disto, e que são graves, é o facto de os crimes se repetirem, porque há a noção de impunidade, e do facto de muita gente que é cigana e que não pratica crimes nenhuns, ser discriminada porque fica embrulhado nesta noção vaga destes grupos que atacam, e destes grupos que matam, e destes grupos que disparam tiros para o ar. Esses é que são os problemas. Se o Chega cresce em função disto ou não cresce em função disso, não devia ser alvo de discussão. Só mesmo para terminar, Vanessa. Ainda há dias, o meu amigo, de facto, o Carlos Guimarães Pinto, da Iniciativa Liberal, a propósito destas acusações de que estes grupos que estariam envolvidos na questão do shopping de Almada são ciganos, publicou uma série de fotografias de portugueses não ciganos que cometeram crimes. Sim, mas a questão aqui é a estatística, é a percentagem. E é isso que conta e que devia contar e que devia ser discutido, pelo menos. Não devia ser ocultado, porque ao ocultar, isto está acontecendo noutros países, com outras comunidades, com outras minorias, com outras etnias, com outros grupos religiosos. Se se tenta ocultar, se se tenta fingir que não existe ou que não é feito por quem é feito, que os crimes não são feitos por quem os comete, o problema nunca se resolveu por essa via. O problema tende a agravar-se. E receio que em Portugal se agrave, espero bem que não. Não há um conjunto de crimes provocados pela comunidade cigana que deixe o país em polvorosa, com certeza, felizmente. Agora, que há uma tendência para que uma boa parte dos crimes ou dos desacatos em Portugal tenham essa origem, há. E isso é que convinha, em vez de esconder, convinha assumir.
E fica aqui a tua posição sobre isto, Alberto Gonçalves. Até amanhã.
Até amanhã, Vanessa.