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Desfazemos ideias feitas. Alberto Gonçalves, bem-vindo.
Olá, boa tarde.
Ora viva, Alberto Gonçalves. Está um final de tarde agradável para estar numa esplanada. E digo isto porque o Alberto Gonçalves quer falar precisamente sobre a fúria que tem notado contra as esplanadas que estão repletas de gente.
Sim, agora com esta fase do desconfinamento, as esplanadas abriram e as pessoas foram para as esplanadas, porque realmente estavam proibidas de o fazer há demasiado tempo, e muita gente aproveitou. Infelizmente, em vez de isto ser um motivo de alegria e de festejo, não. Para uma considerável parte da população, isto é um motivo de preocupação e um sinal de irresponsabilidade. Vemos por aí, basta ir às redes sociais, que hoje são uma forma de aferirmos o sentimento generalizado. Não sei se corresponde sempre à realidade, mas pelo menos dá uma ideia, uma amostra razoável da realidade. E vemos muita gente indignadíssima com o à-vontade com que as pessoas estão na esplanada, com a quantidade de pessoas que estão nas esplanadas, com a falta de máscara que muitas pessoas não usam nas esplanadas. Eu não sei exatamente como é que as pessoas haveriam de usar máscara nas esplanadas. Se vão às esplanadas beber, comer, fumar ou outra coisa qualquer, vão estar a usar a máscara intermitentemente e isso faz diferença? Obviamente, não fará diferença nenhuma se uma pessoa estiver uma hora na esplanada, usar a máscara durante 27 minutos e durante 33 minutos não usar. Portanto, a alegada propagação do vírus será a mesma, mas para estas pessoas não é. Não que elas estejam exatamente, alguns casos poderão estar preocupadas com o vírus. Há pessoas que estão realmente muito próximo da paranoia em relação ao vírus. Mas na maioria das pessoas eu não acho que seja a questão do vírus que as preocupe. Eu acho que é o fato de verem as pessoas voltarem a uma vida, ou tentarem voltar a uma vida normal, a uma vida decente, a uma vida humana, de fazerem coisas que as pessoas em sociedades livres podem e devem fazer, como por exemplo, uma coisa tão simples quanto estar numa esplanada, beber uma cerveja ou um refrigerante e comer o que lhes apetecer. E isso parece incomodar muita gente. E essa gente é capaz de ter este ressentimento. É um sentimento feio, mas existe. Andam por aí a escrever: "É preciso ter muito cuidado, vejam lá, vamo-nos portar mal, depois a culpa é do governo, coitado. Já estamos a preparar-nos para novo confinamento. Esta gente não tem juízo". Enfim, não sei o que eles querem. Eles aparentemente querem a tal questão do grau zero de risco ou um risco de grau zero. E provavelmente esse risco de grau zero, eu lamento desiludir essas pessoas. Não sou especialista no assunto, essas pessoas também não são. Os especialistas erram constantemente, pelo que temos visto nas suas previsões e nas suas análises. Portanto, somos todos livres de dizer mais ou menos o que queremos, por enquanto. E esse grau zero nunca vai existir. É o que me parece. Isto é uma doença infectocontagiosa. A questão da vacina com a qual se acena para que um dia se atinja um ponto de imunidade de grupo, por exemplo, ou um ponto em que a Covid não seja mais uma ameaça, é uma promessa muito discutível, porque há a vacina da gripe há algumas décadas e a gripe continua a existir. Nada garante que a vacina vá fazer desaparecer a Covid. Se a Covid não desaparecer e se tornar uma doença endémica à população, vai haver sempre casos, vai haver sempre mortes. Nós neste momento estamos numa altura em que o número de casos é absolutamente, estatisticamente reduzidíssimo e o número de mortes é praticamente nulo. E estou a considerar já aquilo que se diz que são mortos com Covid. Essas mortes nem sempre serão provocadas exclusivamente pela Covid. São pessoas que testaram positivo à Covid. Imaginemos umas horas ou uns dias antes de morrerem, por exemplo, em ambiente hospitalar. E mesmo assim, nos últimos dois ou três dias, houve, salvo erro, no total, cinco mortes, todas elas, por acaso, na região até de Lisboa. No resto do país houve zero mortes atribuídas à Covid, mesmo que essa atribuição, em muitos casos, seja um bocadinho abusiva. Portanto, essas pessoas que estão muito preocupadas com a Covid e estão a reclamar e a criticar, quem quer regressar a uma vida normal. Se essas pessoas não querem regressar a uma vida normal, estão no seu direito. Fecham-se em casa, fecham-se onde quiserem e deixam as outras pessoas, no imaginário da paranoia que anda por aí, deixam as pessoas que andam à solta irresponsavelmente a contagiarem-se e pronto. A partir do momento que se contagiarem todas umas às outras, essas já não representam perigo nenhum, porque já vão ter a Covid e depois já não vão contar, julgo eu, ou pelo menos vão diminuir a possibilidade de contagiar outros numa fase posterior. Agora, esta questão de acenar. Hoje em dia, o medo é o R. Prometem-nos a vacina, que aí vai chegar a um ponto ideal em que já não teremos problema nenhum. E neste momento tudo é feito em função do famoso R, com base naquele semáforo, naquele quadrozinho que o doutor Costa um dia, num feliz dia, resolveu apresentar à nação. Agora, o R não tem significado nenhum, pelo que eu percebo. Estudei alguma matemática, já não me lembro das derivadas como me lembrava na época, mas o que percebo e ouvindo quem percebe mais do assunto, ou muito mais do que eu, o R não tem absolutamente significado nenhum se não for analisado em função do número de casos e, sobretudo, o que conta para aqui é o número de mortos. A partir do momento que há muito poucos casos e que os casos tendem a diminuir, o R tende para estabilizar em um. E se o R for um bocadinho acima de um, o volume de casos que isso acarreta, ou de novos casos, é mínimo. Isso não tem interferência nenhuma. Só para terminar e para lembrar também, que no início diziam-nos que todas estas medidas, estas restrições, que iam sempre durar duas, três semanas. As próximas duas, três semanas desde março de 2020 são sempre as fundamentais. No início, essas duas, três semanas fundamentais eram para salvar o Serviço Nacional de Saúde e, sobretudo, por causa do limite de pessoas nas unidades de cuidados intensivos. Hoje em dia está pouquíssima gente em unidades de cuidados intensivos, felizmente, e está muito abaixo até do número que as autoridades e o professor Marcelo tinham decretado como ideal, que era abaixo dos 200. Neste momento, estão cento e poucas pessoas em unidades de cuidados intensivos, por problemas ligados à Covid. Portanto, antigamente, o problema era esse, era salvar o Serviço Nacional de Saúde. Agora sabemos que a parte do Serviço Nacional de Saúde que está reservada à Covid, está, felizmente, com folgas, não tem problemas de excesso de ocupação, portanto, a situação é perfeitamente gerível, mas com muita distância. Depois assustaram-nos com a questão, já não era o Serviço Nacional de Saúde, eram as estirpes. As novas estirpes iam ser muito mais contagiosas, muito mais mortais. Ora, os países de onde as estirpes são originárias, por exemplo, a África do Sul e o Reino Unido, são dois dos países do mundo em que os casos mais têm descido e as mortes têm tendência para chegar ao zero ou quase. E agora temos esta questão toda em volta do R. Está o país todo suspenso para saber se o R sobe mais ou sobe menos e se vai fechar outra vez ou se não vai fechar, tudo em volta do R. O que eu digo não tem reflexo, obviamente, no que as outras pessoas fazem e muito menos no que as autoridades decidem. Portanto, as autoridades vão continuar nestes delírios e nesta esquizofrenia de confinamento e desconfinamento sucessivo e estados de emergência com estados de contingência, a alternar entre umas coisas e outras. As autoridades lá saberão os disparates que fazem e dadas as pessoas que neste momento ocupam os postos decisivos, não é de esperar que as coisas passem a ser propriamente lúcidas ou sensatas. Agora, em relação aos cidadãos comuns, convinha que eles vivessem as suas vidas, deixassem os outros viver as deles com o máximo de normalidade possível. Estas obrigações, estas restrições ligadas à Covid, que numa pequena proporção podem ter ou puderam ter, a certa altura, alguma razoabilidade, começam a perder a razoabilidade toda a partir do momento em que não se faz tensão ou que não há qualquer vontade, mesmo do cidadão comum, de voltar atrás e de voltar à vida que tinha. A partir do momento que as pessoas parecem querer levar a paranoia ou medo, a histeria em relação à Covid e o uso de máscara e o distanciamento social e a falta de contato com os familiares e com os amigos. A partir do momento que as pessoas querem levar isto de forma indefinida até à eternidade, enquanto por cá estiverem, isto começa a tomar focos de uma doença que já não é Covid, é uma doença, é uma perturbação mental qualquer, que sinceramente, a Covid não pode ser responsabilizada por isso. Não gosto de dar conselhos, mas as pessoas que vivam a sua vida e que pensem que a vida é muito mais do que a Covid. A Covid é um facto, existe. Isto não há negacionismos aqui, a Covid existe, faz mal a algumas pessoas, faz bastante mal a uma certa porcentagem de pessoas, com certeza, especialmente mais frágeis e mais idosas, mas é um bocadinho da vida. Há muita vida para além da Covid e é isso que convinha que as pessoas se lembrassem. Enquanto isso, para se relembrarem disso, que vão a uma esplanada e que bebam uma cerveja em paz e que descontraiam.
Fica esse convite. Já esta semana, recordo até, o próprio primeiro-ministro britânico Boris Johnson disse que na próxima semana, na próxima segunda-feira, pelo que percebi, ele próprio irá degustar uma cerveja num pub. Fica a crônica do Alberto Gonçalves, o "Ideias Feitas" hoje, à boleia dessa fúria notada pelo Alberto Gonçalves contra as esplanadas que desde o início da semana têm estado repletas de gente.
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