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Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Bem-vindo, Alberto. Deixa eu ver se percebi bem: tu dizes que ainda há portugueses cativos na questão da flotilha?

Não são da flotilha. Olá, Ricardo, boa tarde. Já explico que portugueses são esses, mas são, de facto, portugueses verdadeiramente sequestrados. Mas antes de mais, devo dizer que depois de toda aquela angústia, depois de todo o drama em volta, aí sim, dos participantes da flotilha humanitária, fiquei muito contente com a chegada dos participantes a Lisboa. E além de contente, fiquei espantado, já que alguns deles, pelo menos um deles, tinha passado cá para fora a informação de que os israelitas não lhes davam água há 48 horas. Aliás, eles ainda estavam detidos há 24 horas ou há 36 e já se queixavam de que não bebiam água há 48, o que é um bocado esquisito. Mas muito mais esquisito, muito mais insólito, é ver seres humanos que estão não sei quantos dias sem beber água e depois sobrevivem para contar a história. Eu fui consultar, uma vez li um bom livro sobre o assunto, cujo título agora me escapa, uma história de dois tipos perdidos no deserto do Novo México. Normalmente, após dois dias, as pessoas deixadas à sede entram em delírio. No caso concreto dos participantes da flotilha, eles também provavelmente já estão em delírio há muito tempo, provavelmente há anos, isso sem ter nada a ver com a hidratação do organismo. A realidade é que afinal deve ter havido um mal-entendido e o que aconteceu é que Israel apenas forneceu, segundo se soube, entretanto, aos ativistas apenas água da torneira. Ou seja, os ativistas, que são gente esclarecida e de bom coração, lutam pelo extermínio de Israel e, em troca, as maléficas autoridades israelitas vingaram-se não lhes pondo à disposição, água do Luz ou Evian ou qualquer água engarrafada que haja lá em Israel. E isto conforme recomenda, ou deve recomendar, imagino, a Convenção de Genebra. O importante é que para quem esteve uns dias a ser torturado a pimentos, a iogurte e a água da companhia, os nossos ativistas chegaram em boa forma ao aeroporto de Lisboa, muito sorridentes, muito festivos. E mal chegaram, aliás, regressaram àquele clima de êxtase e de festança que dominou a viagem longa da flotilha. Infelizmente, há um problema sério e grave à margem deste circo todo: ontem não chegou a Portugal nenhum dos portugueses de facto sequestrados no Médio Oriente. Quem chegou ontem a Portugal foram os portugueses que voluntariamente participaram numa excursão marítima para divulgar propaganda do Hamas e que muito civilizadamente, ao fim de dois ou três dias, Israel devolveu à origem. O problema sério é que, além destes pândegos, há seis portugueses de facto sequestrados naquela zona, sequestrados pelo Hamas, faz amanhã exatamente dois anos. Esses cidadãos com dupla nacionalidade e descendentes sefarditas não se dirigiram para Gaza por vontade própria. Não se dirigiram para lá voluntariamente, foram raptados por selvagens em território israelita e sujeitos, como é de supor, à maior violência que podemos imaginar. Três deles, pelo menos, já terão morrido. Os outros três, eu sou ateu, mas sabe Deus como estarão. E deles, dos mortos e dos vivos, ninguém fala. As nossas televisões, que transmitiram em direto a chegada dos propagandistas do Hamas, não falam desses portugueses. Os nossos políticos, muitos dos quais deram atenção aos propagandistas, não falam desses portugueses. E os propagandistas, os próprios propagandistas que viajaram na flotilha, não falam desses portugueses. Aliás, pior do que isso, mais do que o próprio Hamas, esses propagandistas da flotilha estão contra o plano de paz, o plano que acabaria com a guerra e tornaria possível a libertação desses portugueses que estão, repito, verdadeiramente sequestrados. É esta gente que se intitula humanista e que vem fingir que sofreu alguma coisa nas mãos das autoridades israelitas. E é esta gente que, de facto, despreza o sofrimento autêntico, o sofrimento real, para não usar palavras mais fortes. E para terminar, Ricardo, já sei que hoje já é uma coisa especial. Esta gente não merece um pingo de respeito, e a gente que respeita esta gente também não é muito melhor.

Obrigado, Alberto. Alberto Gonçalves regressa amanhã, sempre para desfazer ideias feitas aqui a fechar a hora das 18h na Rádio Observador. Um abraço, Alberto. Até amanhã!

Um abraço, Ricardo. Até amanhã.

O Ideias Feitas conta com o apoio do Azeite da Lisman.