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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo. Boa tarde.

E hoje queres adaptar uma citação histórica que nos chega ainda dos tempos dos romanos e de Júlio César. É isso?

É, acho que é a versão só do Shakespeare. Acho que na altura não gravaram, portanto é capaz de não ter sido bem essa. Sim, mas as pessoas já vão chegar lá. A citação deve-se ao fato de já haver muito poucas figuras públicas que não declararam o apoio ao doutor Seguro nas presidenciais e agora também Cavaco Silva apoia o doutor Seguro. E como as outras figuras públicas que apoiam o doutor Seguro, também Cavaco Silva fez questão de o comunicar a toda a gente. Aquela história de que o voto é secreto, pelos vistos, é uma coisa do passado ou pelo menos foi interrompida nestas eleições. Nestas eleições, pelo menos, o voto é público e é anunciado com algum fervor, maior ou menor, mas sempre com algum fervor. E esta tendência para fazer estes anúncios, estas proclamações, acho que é apenas uma das características peculiares destas presidenciais. Outra característica particular é o fato de praticamente todos os apoios parecerem dar razão ao candidato que aparentemente ninguém apoia. O doutor Ventura e o Chega têm sobretudo crescido à custa do famoso discurso antissistema e por isso é curioso ver o tal sistema unido de forma quase unânime em volta do doutor Seguro. E ainda é mais curioso perceber a latitude do sistema, perceber de onde vai e até onde vai. Vai desde o professor Cavaco, como se vê agora, à doutora Catarina Martins, vai do doutor Portas ao doutor Rui Tavares, vai da líder da Iniciativa Liberal ao líder do Partido Comunista. É impossível que toda esta gente queira ou espere o mesmo de um presidente da República, acho eu. Mas é garantido, porque são os próprios a dizê-lo, que toda esta gente não quer o doutor Ventura em Belém. Custe o que custar. E neste processo estão, no fundo, a reconhecer implicitamente ou até explicitamente, que o doutor Ventura até pode ter razão quando diz que existe um sistema e que esse sistema tem tentáculos e que se junta para se defender do candidato que representa a tal ameaça ao status quo. Eu não estou a dizer que o doutor Ventura tem razão, estou a dizer que este empenho todo, este frenesi todo, tanta gente a se declarar contra ele, parece dar-lhe pelo menos alguma razão. E se calhar também dará ao doutor Ventura alguns votos que num contexto eleitoral mais suave, talvez ele não tivesse. O doutor Seguro vai com certeza ganhar as eleições, mas ganhará apesar desta enxurrada de apoios e não graças a eles. Eu acho que cada manifestação pública de apoio ao doutor Seguro, em princípio, vai acabar por beneficiar o candidato que essas manifestações públicas visam prejudicar. Acho que é esta a palavra. Eu posso estar enganado, mas uma quantidade razoável, eu acho que é minoritária, mas apesar de tudo, uma quantidade razoável de portugueses não gosta desta unanimidade e, além disso, não gosta que a unanimidade seja conseguida ou seja expressa à custa dos mais elementares princípios democráticos, porque salvo em casos muito excepcionais, que não acho que estejam aqui presentes, em democracia é tão normal e razoável votar-se num candidato como noutro qualquer. É normalíssimo alguém votar no doutor Seguro, como deveria ser normalíssimo alguém votar no doutor Ventura, mas parece que não é assim que isto está sendo entendido. Eu acho que, ao contrário do que muitos dos mais ruidosos apoiantes do doutor Seguro têm andado a garantir, votar no doutor Ventura não é um ataque à democracia, é justamente a democracia e a escolha livre dos cidadãos a funcionar. Um ataque à democracia é precisamente pretender que só há um voto possível, e um voto decente, e um voto civilizado. Insultar, ou no mínimo menorizar, mas muitas vezes tem sido pelo insulto mesmo. Insultar os que votam de maneira diferente é que é muito pouco democrático e isso paga-se. A fatura não vai chegar, com certeza, daqui a 15 dias, mas é provável que chegue um dia e nesse dia o sistema é capaz de verificar com espanto, com alguma surpresa, que uma maioria significativa de cidadãos, afinal, não querem que o sistema continue como até aqui. Eu não sei se o sistema mudaria com uma vitória do doutor Ventura, se calhar até não mudava. Não sei se mudar seria mau ou bom, não faço ideia. Agora, palpita-me que qualquer abanãozinho seria preferível a este consenso e, sobretudo, a esta presunção que está instalada. Mas vamos ver.

Obrigado, Alberto. E regressas amanhã também, Alberto.

Com certeza. Até amanhã, Ricardo.

O "Ideias Feitas" conta com o apoio do azeite Talismã.