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Ora bem-vindos. Vamos ouvir Nina Simone com "Backlash Blues", porque isto não passa na rádio. Nina Simone, "Backlash Blues". Isto não passa na rádio, comigo, Tiago Crispim, e também Gonçalo Correia e Diogo Lopes, como de costume. Como de costume, pela última vez, mas já falaremos disso mais à frente.

É verdade.

Ou não, nem por isso.

É a tal novidade que nós anunciamos no último programa.

Se calhar deixaremos para depois.

Deixamos. Hoje vamos às urnas, antecipadamente. Vamos falar de músicas com mensagem política, não que sejam as nossas visões do mundo.

Longe disso.

Mas músicas que representem e que nós achemos alguma piada e por representarem alguma mensagem política.

Seria mais simples, se calhar, dizer que são músicas que de alguma forma ou de outra abordam temas políticos, mas que nós as escolhemos só porque são boas músicas e nada mais.

Exatamente. Até porque para fazer política não há...

Exato, temos Vichy Soares.

Há poucas pessoas que estão com tanto jeito para isso como os políticos, portanto aqui interessa sobretudo-

Vamos então falar da primeira escolha, que foi aqui do Gonçalo Correia, "Backlash Blues", da Nina Simone.

Exatamente. Por quê este tema? Por duas ou três razões. Primeiro de tudo, porque os blues são um gênero musical muito ligado a questões de intervenção política, de posicionamento político sobre as coisas, sobre o mundo, sobre coisas tão cotidianas como as dificuldades de vida, as desigualdades sociais, a pobreza, tudo isso.

E uma realidade conhecida muito bem da Nina Simone.

Exatamente. Os blues que nasceram pouco depois do fim da escravatura, mas ainda por volta dessa altura, muito também com cantigas de trabalho. E esta "Backlash Blues" foi gravada pela Nina Simone e incluída no disco "Nina Sings the Blues", de 67. Acho que esta fase da segunda metade dos anos 60 é uma das minhas fases preferidas da carreira longa da Nina Simone. Foi o primeiro álbum dela para uma nova editora, a RCA Records. E é uma canção que está muito ligada à questão da luta pelos direitos civis, a que a Nina Simone viria a estar muito ligada neste momento. Ela era bastante radical até nas suas posições políticas, mais até, por exemplo, do que Martin Luther King. Era bastante mais próxima, talvez, de Malcolm X e de alguns advogados de uma luta.

Como Sam Cooke, também, por exemplo.

Exatamente. E a Nina Simone conhece melhor do que ninguém o sangue dos blues, a questão da pobreza, da dureza da vida. Ela nasceu numa família bastante pobre, acabou por conseguir singrar na música com bastantes dificuldades. A letra desta canção foi escrita por um amigo de Nina Simone, o poeta Langston Hughes, também muito ligado com o ativismo, e fala um bocadinho disso, de "aumenta os meus impostos, congela os meus salários, manda o meu filho pro Vietname, dão-me casas de segundo nível, mandam-me pra escolas de segundo nível, pensam que todos os tipos de cor são tipos de segundo nível". Portanto, tem muito esse posicionamento político aliado.

Então vamos passar à próxima?

Vamos, sim. Vamos para uma versão, de certeza, de uma canção que se tem ouvido muito nos últimos tempos, um bocado associada a uma série que tem feito bastante sucesso. Mas eu não queria revelar muito, vou vos deixar descobrir e ver se conseguem fazer a associação. Por isso, vamos ouvir e já dizem alguma coisa.

Tom Waits e Mark Ribot com "Bella Ciao".

É verdade. Aqui uma versão mais fora da caixa e relativamente recente também. Esta canção faz parte do álbum "Songs of Resistance", de 2018, ou melhor, que Mark Ribot lançou em 2018, mas que na verdade nasceu em 2011. Reza a lenda que todo este álbum nasceu precisamente nesse ano, no pleno apogeu do movimento Occupy Wall Street. Ribot fazia parte dos manifestantes que se entrincheiraram, de certa forma, no Financial District de Nova York, em protesto contra os bancos e a banca em si. E depois deu conta que havia muito poucas canções em inglês de resistência, de reivindicação. Assim como nós temos a música de intervenção, Mark Ribot achou que não havia nada disso no contexto norte-americano e por isso não foi de modos e decidiu traduzir e adaptar uma série de canções que já existiam noutros países. Esta é uma delas. E esta canção tem particularidade de ser muito associada, e corretamente, à resistência italiana da altura da Segunda Guerra Mundial, entre os anos 43 e 45, mais ou menos. Mas a verdade é que ela originalmente é do final do século XIX e nasceu primeiro com um nome diferente, nasceu com o nome "La mattina appena alzata". Basicamente, isto era uma canção que as mulheres trabalhadoras do campo cantavam, basicamente a lamentar-se dos trabalhos forçados de que eram alvos. Estamos a falar de uma zona de agricultura à volta do rio Pó, no centro-norte de Itália. Estas mulheres eram conhecidas como as mandinas, porque o trabalho delas era apanhar manda. E o que é a manda? A manda eram ervas daninhas. Por isso, basicamente, o que elas faziam todos os dias, do nascer do sol ao pôr do sol, era ficar atascada em lama ou em água até às canelas, a apanhar ervas daninhas, vergadas, debaixo do sol, da chuva, do que fosse. Veio um pouquinho daí e foi esta adaptação, mas acho que já sabemos o suficiente, se calhar, para passar para a próxima canção.

Muito ligado ao trabalho, é engraçado.

Exato.

Muitas destas canções estão muito ligadas a isso, a trabalhadores. A próxima canção também está ligada a trabalhadores, se formos a ver. Todas as minhas escolhas são músicas dos anos 70. Descobri isso agora, estava a pensar nisso. És um apaixonado pelos anos 70. Quando estavas a falar de música a começar no século XIX. Vamos ouvir a primeira versão dela, que é de 75. A letra que toda a gente conhece, que é já modificada, é de 1978. Estamos a falar de "Tanto Mar", a versão original de Chico Buarque, que vamos ter que tocar, e vamos assumir isto, vamos tocar do YouTube, porque não há em mais lado nenhum. Disso. Vamos ouvir e já sabem, desculpem lá a qualidade.

Fico contente enquanto estou ausente, guardo um cravo para mim. Eu queria estar na festa, pá, com a tua gente e colher pessoalmente uma flor do teu jardim. Sei que há léguas a nos separar, tanto mar. Sei também quanto é preciso, pá, navegar. Lá faz primavera, pá, cá estou doente, mando urgentemente algum cheirinho de alecrim.

Isto foi retirado do documentário do 25 de Abril, do Sérgio Tréfaut, e é a versão original. Estávamos aqui a comentar onde é que isto teria sido gravado. Eu só sei que a versão de 78 foi gravada com "Cálice" e "Apesar de Você".

Exatamente.

Não, diz que foi gravada apenas em Portugal. Tens razão.

Eu tinha ideia que isto teria sido gravado cá. Dois anos depois de 78, em 80, o Chico Buarque esteve no Avante!.

Em 78?

Em 80.

Em 80.

Em 80. Conta-se que deu um concerto até de graça, muito por afinidade pós-revolucionária, na altura, com o Avante!. Pelo que percebi, ele veio a Portugal, até teve um bocadinho a ver com a altura em que havia um semanário musical, que era o SET, que politicamente também tinha uma orientação de esquerda.

Bastante vincada.

Bastante vincada. E tinha também muita relação, por causa disso, com a MPB, com a Música Popular Brasileira, e estabeleceu ali a ligação entre o Avante!, Chico Buarque, Portugal, Chico Buarque, portanto, deu esse concerto.

E é engraçado que fales desse festival, vamos juntar aqui duas escolhas minhas. A banda que eu escolhi para seguir o Chico é uma banda italiana de rock, prog, jazz, avant-garde.

Algo por aí.

Algo por aí. A banda esteve, se não foi no primeiro, foi na segunda Festa do Avante, eu acho que foi em 76, na primeira Festa do Avante. Depois foi feito um documentário em Itália. Engraçado que em Portugal ninguém tem grande conhecimento, acho que isto não é muito espalhado, mas foi um documentário chamado "Parigi Lisbona", que era sobre uma tour que a banda italiana fez.

Que culminou aqui.

Sim, e houve coisas gravadas aqui, eles têm um álbum ao vivo, supostamente com coisas gravadas na Itália, em França e também em Portugal.

Ok.

A música que eu vou escolher tem uma mensagem política, mas todas as músicas deste grupo têm uma mensagem política, eles chamam-se Area, ou o nome grande é Area International Pop Group.

Ok.

Ok.

Mais difícil de procurar.

Só para enquadrar, tinha um muito estranho vocalista, que era Demetrio Stratos, de origem grega.

É um ótimo nome, parece um nome de super-herói.

É nome de cantor. Que depois gostava muito de experimentalismo, obviamente, já vão perceber, e chegou a fazer um disco só sobre cantos guturais, para perceberem.

Era aquilo que tu estavas a falar há bocado.

Exatamente. E acho que sem mais demoras, vamos ouvir "Cometa Rossa", dos Area.

Como e tu clivou-se, o estômago aos dois pedaços. Como e tu clivou-se, a boca que fugiu. Abriu os olhos na liberdade.

Vamos para intervalo, voltamos já a seguir.

Segunda parte de "Isto Não Passa na Rádio", como sempre com Diogo Lopes, Gonçalo Correia e eu, Tiago Crispim. Estamos a falar sobre músicas com mensagem política, não necessariamente as nossas mensagens políticas. Aliás, necessariamente não as nossas mensagens políticas. É mais isso. E Gonçalo, esta segunda parte, a primeira escolha é tua.

A primeira escolha é minha. Vamos ouvir "Foi a Trabalhar" de Sérgio Godinho, um tema do disco "De Pequenino se Torce o Destino", de 1976.

Levanto-me, acordo cedo. Vou pra um trabalho que pra mim não tem segredos. A minha vida não é pra tirar o lixo. Não sou coisa, nem sou bicho, nem sou carne pra canhão, não. Quem me usa não me merece. Só merece o meu desprezo quem abusa da minha força e da minha competência, até mesmo da impaciência de dar de comer aos meus filhos. É a trabalhar que a gente paga o jantar, mas foi a trabalhar que a gente fez a faca pro cortar. É a trabalhar que a gente paga o jantar, mas foi a trabalhar que a gente fez a faca pro cortar. É a trabalhar que a gente paga o jantar, mas foi a trabalhar que a gente fez a faca pro cortar. É a trabalhar que a gente paga o jantar, mas foi a trabalhar que a gente fez a faca pro cortar. E se hoje ainda viva vai mal. Quem me domina tem os seus dias contados. A minha luta não é sozinho que a faço, tem tantos no mesmo passo, braço a braço, somos muitos. E à noite quando adormeço, é como fazer a viagem de regresso num outro dia, um amanhã mais libertado, com as correntes no passado e a certeza no futuro. É a trabalhar que a gente paga o jantar, mas foi a trabalhar que a gente fez a faca pro cortar. É a trabalhar que a gente paga o jantar, mas foi a trabalhar que a gente fez a faca pro cortar. É a trabalhar que a gente paga o jantar, mas foi a trabalhar que a gente fez a faca pro cortar. É a trabalhar que a gente paga o jantar, mas foi a trabalhar que a gente fez a faca pro cortar. É a trabalhar que a gente paga o jantar, mas foi a trabalhar que a gente fez a faca pro cortar. É a trabalhar que a gente paga o jantar, mas foi a trabalhar que a gente fez a faca pro cortar. É a trabalhar que a gente paga o jantar, mas foi a trabalhar que a gente fez a faca pro cortar.

"Foi a Trabalhar", Sérgio Godinho.

"Foi a Trabalhar".

"De pequenino se torce o destino".

Exatamente. Eu gosto bastante deste tema do Sérgio Godinho, gosto também do disco. Nós já falámos aqui um bocadinho de trabalho, de Campos de Arroz, do Blues e tudo mais. Acho que isto tem muito a ver com a angústia do trabalhador. Há aqui mensages políticas, obviamente, o Sérgio Godinho nunca escondeu o seu posicionamento político de resistência

Ao Estado Novo e de filiação à esquerda. Mas esta angústia do trabalhador acho que pode ser sentida por qualquer pessoa. Depois, cada trabalhador terá a sua angústia ou haverá pessoas com um posicionamento mais liberal que se queixarão de pagar muitos impostos, haverá outras que se queixarão das desigualdades salariais, eventualmente, num determinado local. Mas essa angústia acho que é comum, o trabalho é uma coisa bastante presente na vida de toda a gente.

Sim, é um tema que ele explora várias vezes. Estava aqui a pensar no Campo Líder, ele tem o "Arranja-me um emprego". Campo Líder é de 79. E também segue os mesmos temas da classe.

Sim, da classe de trabalhadores. Era precisamente o que eu ia dizer, porque se formos a ver, grande parte, pelo menos a ideologia de esquerda mais preponderante, digamos, e se calhar mais extremada, falamos do eventual socialismo ou do comunismo, como lhe queiram chamar, é sempre associada aos trabalhadores. À máxima do trabalhadores do mundo, uni-vos. Ou seja, o tema do trabalho está sempre muito presente e acaba por ser a origem de uma série de problemas que depois todas estas ideologias se propõem a tentar resolver ou colmatar. Mas é engraçado porque, por exemplo, essa questão do trabalho também serve muito para o discurso. Por exemplo, há partidos novos que surgem que estão muito centrados na questão dos impostos que cada um paga. Podíamos ter ido aqui, por exemplo, para a "Taxman" dos Beatles, também com essa queixa de eventualmente classes mais altas, dos impostos elevadíssimos que pagam. Portanto, é tudo uma questão de ângulo.

Vamos agora aos Estados Unidos com o Diogo Lopes.

É verdade. Vou vos levar aos Estados Unidos, precisamente para a década de 40, com o Woody Guthrie e a canção "This Land Is Your Land". Acho que a podemos ouvir agora e já falamos um bocadinho sobre ela. Muito fofinha esta canção. Não sei se vocês concordam.

Um clássico.

Exato. Não seria difícil imaginar uma série de crianças pequenas a cantar isto. E a verdade é que nem é preciso imaginar, porque de facto isso acontece mesmo. Esta canção ainda hoje continua a ser ensinada às crianças do ensino primário nos Estados Unidos. Mas voltando um bocadinho atrás, há que dizer que ela foi lançada em 1945, apesar de ter sido gravada um ano antes. E este Woody Guthrie é uma figura marcante, não só da música norte-americana.

Do folk.

Exatamente. Mas também é uma figura marcante na própria história e no tecido social dos Estados Unidos nesta altura. Por ter atravessado todo o período da Segunda Guerra Mundial e todo aquele ambiente polarizante entre esquerda, direita, fascistas e comunistas, sempre foi uma pessoa muito politizada, mais inclinada para a esquerda, ao ponto em que a guitarra que ele costumava tocar tinha a mensagem "this machine kills fascists" escrita.

Esta máquina mata fascistas.

Exatamente. E sobre esta canção em particular, já foi feita imensas vezes, tem imensas variantes. Uma delas, por exemplo, foi com a falecida Sharon Jones & The Dap-Kings, que aconselho muito a ouvirem também, que é muito gira. Mas basicamente esta canção fala um bocadinho sobre as desigualdades sociais que se viviam nos Estados Unidos nesta altura, em que o país ainda recuperava um bocadinho da grande crise dos anos 20. Há duas versões, em 40 e 44, sendo que há alterações nas letras muito subtis. Mas no meio disto tudo, o mais giro é que quando Guthrie decidiu entregar e registar esta canção como sendo sua, ele escreveu uma mensagem que é mais ou menos como: "Esta canção está ao abrigo dos direitos de autor pela lei número xxx, por um período de 28 anos, e qualquer pessoa que seja apanhada a cantá-la sem a nossa autorização vai se transformar na nossa grande amiga, porque nós estamos nas tintas para o que vocês fazem com ela. Nós escrevemo-la, publicamo-la, cantamo-la e agora vocês fazem o que quiserem com ela". Por isso é uma partilha à grande e acho que é engraçado. É bom ver a coerência nas posições depois traduzida nos negócios.

E vamos voltar à nossa história. Um grupo com José Mário Branco, Afonso Dias, João Lisboa, João Lóio, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Francisco Fanhais, Manuel Freire.

É uma superbanda.

É um supergrupo.

Um supergrupo de intervenção.

Dos tempos do PREC. Chama-se Grupo de Ação Cultural, Vozes na Luta GAC. Não se pode ser mais politizado que isto logo no nome. Surgiu depois do 25 de Abril, claro. Teve vários períodos, acabou em 78, influenciou bastante, por exemplo, a Brigada Victor Jara. E por causa de toda esta história, eu sempre tive este sonho de passar isto na rádio. Isto, de facto, não passa na rádio.

O Tiago está aqui ao abrigo da Fundação Make a Wish.

Exatamente. Associação 25 de Abril apoia.

Isto é uma coisa que não passa na rádio e faz parte da nossa história. É interessante. Se calhar, é a música mais agressiva em português que eu me lembro. Se calhar não é.

Eu diria que não é.

Isto pode passar na rádio. Chama-se "A Cantiga é uma Arma".

A cantiga é uma arma. Eu não sabia. Tudo depende da bala e da pontaria. Tudo depende da raiva e da alegria. A cantiga é uma arma de pontaria. Há quem cante por interesse, há quem cante por cantar. Há quem faça profissão de combater a cantar. E há quem cante de pantufas pra não perder o lugar. A cantiga é uma arma. Eu não sabia. Tudo depende da bala e da pontaria. Tudo depende da raiva e da alegria. A cantiga é uma arma de pontaria. O faducho, o choradinho de tavernas e salões. Semeia só desalento, misticismo e ilusões. Canto mole em letra dura nunca fez revoluções. A cantiga é uma arma. Contra quem? Contra a burguesia. Tudo depende da bala e da pontaria. Tudo depende da raiva e da alegria. A cantiga é uma arma de pontaria. Se tu cantas a reboque, não vale a pena cantar. Se vais à frente demais, bem te podes engasgar. A cantiga só é arma quando a luta acompanhar. A cantiga é uma arma contra a burguesia. Tudo depende da bala e da pontaria. Tudo depende da raiva e da alegria. A cantiga é uma arma de pontaria. Uma arma eficiente, fabricada com cuidado. Deve ter um mecanismo bem perfeito e oleado. E o canto, como a arma, deve ser bem fabricado. A cantiga é uma arma. Contra quem, camaradas? Contra a burguesia. Tudo depende da bala e da pontaria. Tudo depende da raiva e da alegria. A cantiga é uma arma de pontaria. A cantiga é uma arma contra a burguesia. Tudo depende da bala e da pontaria.

"A Cantiga é uma Arma", Grupo de Ação Cultural, GAC. Para mim, a grande piada disso é ter esta quantidade de gente famosa, destes músicos, que são músicos bons e consagrados, todos juntos numa espécie de supergrupo, superpolitizado.

É mesmo. E nessa altura, eu acho que nem sequer existiam ainda supergrupos, por isso é muito provável que talvez tenhamos sido pioneiros nisso.

Algumas letras eram escritas por Manel Alegre, por exemplo, também, deste grupo.

Um grande defensor da liberdade.

Para dizer uma coisa que é muito importante, acho eu, neste programa, deixarmos claro, que é: tivemos alguma dificuldade e tentámos.

Nós tentámos mesmo.

Encontrar música que representasse politicamente todos os espectros.

Todos os espectros políticos, exato.

E não é muito fácil. E também porque passamos aqui por períodos de criatividade musical interessantes e que quisemos destacar, como é óbvio. Se temos uma música de um Chico Buarque, atrevo-me a dizer, não vamos deixar dia passar.

Claro que sim.

Dito isto, vamos para um gênero musical completamente diferente.

Sim, se calhar, não sei se acaba por ser uma estreia aqui neste programa.

Eu acho que será.

Talvez seja, mas quem estiver aí desse lado não se assuste com o que vai ouvir, porque vamos ouvir hip-hop português, na voz de Sam the Kid, com uma canção que é bastante autoexplicativa para o nosso tema de hoje. A canção chama-se "Abstenção", faz parte do álbum "Sobretudo", que saiu em 2001, mas depois foi reeditada em 2004. E eu escolhi esta música mais porque ela mostra aqui uma mensagem diferente da grande maioria das canções politizadas. Ou seja, ela nem pede uma coisa ou defende outra, ou luta por uma e pede outra. Ela basicamente diz que não quer participar na política, não quer participar nisso e depois passa a enumerar de uma forma até bastante

Bastante fundamentada e reivindicativa na sua forma, mas que vale a pena prestar atenção às palavras e à forma como elas nos são apresentadas. Por isso, divirtam-se, se calhar.

E acho que vamos terminar o programa com esta música, mas Gonçalo.

Ia só dizer que apesar de haver músicas, obviamente, que escolhemos mais ideológicas, como a do Grupo de Ação Cultural, há questões muito práticas, por exemplo, o "Babela Tchau", que teve origem nos campos de arroz, nos trabalhadores. Ou, por exemplo, a Backlash+, que defende uma coisa que não é propriamente de esquerda ou direita, que é não haver discriminação racial. Acho que é bastante consensual em todo o espectro político, democrático, pelo menos. Portanto, não tem esse posicionamento, são questões práticas e algumas bastante evidentes.

Vamos ficar então com a abstenção de Sam the Kid.

"O povo unido jamais será vencido. O povo unido jamais será vencido. O povo unido jamais será vencido. Não sou licenciado, nem recenciando, com paciência dado a parecer alguém credenciado com moral que me faça votar, me faça lutar, me faça notar e faça chutar a campanha eleitoral. Por enquanto é só comédia, money manipula os media que se excedem a assustar o nosso povo com medo. Eu não voto, eu boicoto urnas, criam horas noturnas, sei que é o meu futuro, mas não vou acordar cedo pra pôr um voto nulo ou eleger um chulo ou um charne. Ou quem governe só com charme, mas no mês dá um terno. E tropeçam, mal começam quando quebram a promessa, não me peçam o interesse, vocês não se interessam, não preciso de reflexão, eu já estou decidido, eu só voto na verdade e não a vejo em nenhum partido. A minha previsão é o privilégio garantido para um puto num colégio neto de algum conhecido. Eu sou a percentagem que a sondagem nunca mostra. Eu sou a mente exausta da miragem mal composta. Eu sou a indiferença e a insatisfação. Eu sou a anticomparência, eu sou a abstenção. Pra mim tudo isso é defeito, é de facto imperfeito e o respeito vem de fato, boy, eleito logo. Pra mim é mais um cromo que só me vai dar um défice, só me vai dar a fome quando eu só quero é paz. E se eu levo isso a peito é saber ler saloio, não se apoia. Eu sou conforto no aborto, liberdade de escolha, mas só oiço é palavras sem ações, ponho-me uma rolha e acabo com a brincadeira, putos, arrebento a bolha. A linguagem não é crua, entende mais morse. Eu nunca vos vi na rua, a não ser em outdoors. Sou duro, o discurso é coincidência, todos querem presidência pra ter nova residência. É a minha impressão, o meu desabafo. Neurónios memorizam na televisão toda a gafe e o staff limpa-vos a boca dos beijos que não convencem. Vocês vencem, já não pertencem ao povo, pensem um pouco e comecem do início de novo. Alterem e tirem os sacrifícios do povo. Eu devolvo a indiferença pra foder partidos e blocos, eles é que estão em alta, a gente anda aqui a contar trocos. E eu sou a percentagem que a sondagem nunca mostra. Eu sou a mente exausta da miragem mal composta. Eu sou a indiferença e a insatisfação. Eu sou a anticomparência, eu sou a abstenção. Tu és justiça, fustiga que nos pisa a voz. É o que nos diz a pesquisa dos juízos vós. Alguns dizem que o povo unido não será vencido e aí não duvido. O povo unido jamais será vencido. O povo unido jamais será vencido."

O pai era um homem inteligentíssimo.

Sam the Kid, esta é uma versão um bocadinho editada da música, ela depois estende-se, tem vozes, tem a voz do avô de Samora Mira.

Sim, tem uma introdução e um final do avô.

E vamos para a última música. Para a semana, quero só dizer já que somos quatro, junta-se a nós Nelson Ferreira, mas para já vamos ficar com a última música deste programa.

A última música, "People's Faces", do último disco da rapper, poeta, cantora, escritora Kate Tempest, britânica. Um tema onde a mensagem central é: o país dela pode estar a despedaçar-se, as rendas estão caríssimas, todos esses dramas de quem vive diariamente num país como o Reino Unido, mas há qualquer coisa que pode salvar as pessoas no meio disto, que é os rostos dos outros. Aí a Kate Tempest encontra uma espécie de consolo.

Ficamos com "People's Faces", até para a semana.

Até para a semana.

"It's coming to pass. My country's coming apart. The whole thing's becoming such a bumbling farce. Was that a pivotal historical moment we just went stumbling past? Well, here we are, dancing in the rumbling dark, so come a little closer, give me something to grasp. Give me your beautiful crumbling heart. Another disaster, catharsis, another half discarded mirage, another mask slips. I face off with the physical. My head's ringing from the love of the stars. There is too much at stake here. And too much depends on the fragile wages and extortionate rents here. We're working every dread day that is given us. Feeling like the person people meet really isn't us. Like we're gonna buckle underneath the trouble, like any minute now the struggle's gonna finish us. And then we smile at all our friends. It's hard. We got our heads down and our hackles up, our backs against the wall. I can feel you aching. None of this was written in stone. There is nothing we're forbidden to know. And I can feel things changing. Even when I'm weak and I'm breaking, I stand weeping at the train station 'cause I can see your faces. There is so much peace to be found in people's faces. I saw it roaring. I felt it clawing at my clothes like a grieving friend. It's said there are no new beginnings until everybody sees that the old ways need to end. But it's hard to accept that we're all one and the same flesh, given the rampant divisions between oppressor and oppressed, but we are, though. More empathy, less greed, more respect. All I've got to say has already been said. I mean, you heard it from yourself when you were lying in your bed and couldn't sleep thinking, couldn't we be doing this differently? I'm listening to every little whisper in the distance singing hymns. And I can, I can feel things changing."

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