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Se olhar para trás, para mesmo antes do diagnóstico, consegue identificar os primeiros sinais do transtorno bipolar ou não?

Talvez, sim. Eu fui diagnosticado relativamente tarde. Bastante tarde, bastante mais tarde do que podia ter acontecido. Tinha talvez 30 anos, portanto há 10, um pouco mais de 10. Quem eu estou mentindo? Há 14.

Já foi um pouco mais.

Tenho 34.

Mas só por aí.

E não foi nenhuma surpresa, foi até um dia muito feliz para mim.

Nós já vamos a esse dia.

Sim.

Mas se olhar para trás.

Sim.

Que idade é que teria quando?

Quando começamos a refletir sobre a nossa diferença em relação aos outros meninos. Portanto, eu diria 15 anos, talvez.

Mas qual era essa diferença? Os sinais eram o quê? Eram variações de humor? Era a maneira como se relacionava com pessoas?

Nós quando estamos a crescer, pelo menos é a minha experiência, é muito difícil perceber onde é que somos diferentes dos outros meninos. Porque não conhecemos a realidade dentro da cabeça, a vida interior dos outros. Eu sabia que era diferente. Era sempre o palhaço da história toda. Era muito mais efusivo que as pessoas todas à minha volta. Era tratado um pouco como diferente. "Ele é especial, coitadinho".

Sério?

Sim, não, coitadinho, não. Não era coitadinho.

Mas na escola havia essa-

Sim, em todo lado. E depois, quando começo a conhecer a vida interior dos outros através dos amigos. Então aos 15 anos, começamos a falar muito destas questões e quando isso começou a fugir um pouco ao meu controle, quando deixou só de ser uma coisa, ser mais divertido que os outros, ou ser mais-

Expansivo.

Expansivo do que os outros, e começou a aparecer a parte negra disso tudo. Aí comecei a perceber que havia alguma coisa que talvez não estivesse bem e não fosse boa.

Como é que lidava, até com a perceção de que as pessoas o tratavam de forma diferente?

Achava normal. Eu sentia-me diferente das outras pessoas. Não no mau sentido.

No bom sentido.

Sim, achava-me especial.

E isso muda quando começa a ter a perceção, a partir dos 14, 15, que há de fato uma diferença e provavelmente não percebia bem porquê?

Muda quando isso começa a ser um vidro à frente na comunicação com os outros. Eu acho que se calhar tenho que explicar algumas coisas sobre ter a bipolaridade, muito resumidamente. Eu não sou médico. Isso agora é coisa da pandemia, todo mundo diz: "Eu não sou médico, mas eu acho que sei". Está mentira.

E eu li um artigo.

Mas a bipolaridade, assim em traços gerais, todos nós temos flutuações de humor diárias, mensais, anuais. As pessoas que são bipolares têm-nas muito mais acentuadas do que as pessoas que não são bipolares. Por isso é que aquelas coisas do todos somos um pouco bipolares, só pode ser dito por alguém que não é bipolar, porque vai muito para além dessas flutuações. São flutuações muito marcadas. Do que eu sei sobre isso, há pessoas que têm a fase maníaca, como se chamava antigamente, mais acentuada, e outras pessoas têm a fase-

Que é uma fase de euforia, de grande agitação.

Sim, que são geralmente essas pessoas que têm internamentos em hospitais, que têm surtos psicóticos, que têm episódios de alucinação, por exemplo. E depois há as pessoas que têm a fase depressiva mais marcada, que é o meu caso. E que significa que se afunda a coisas muito negras. É muito diferente da depressão clínica e a principal diferença é que na depressão clínica, não sei se vou dizer algum disparate, há geralmente uma causa.

Uma razão.

Uma razão.

Um gatilho.

Ou se perde alguém, ou acontece alguma desgraça, ou se tem dúvidas existenciais. Na bipolaridade, por ser uma questão física, é um desequilíbrio químico do cérebro, não tem qualquer razão. E as pessoas antes de ser diagnosticadas, um dos grandes motivos de sofrimento é escavar e não se encontrar lá rigorosamente causa nenhuma. E é também um sofrimento pessoal e às vezes até perplexidade de quem está à volta. Aparentemente: "Mas por que esta tristeza ou esta desadequação?" Também já podemos falar do que eu acho de ser desadequado.

Nessa idade ainda, nessa fase, tinha esses momentos de depressão? Ou era sempre o palhaço?

Os momentos depressivos, que tive talvez grandes e prolongados, talvez cinco ou seis na minha vida antes de ser diagnosticado e medicado, não eram fases de mania, mas eram os outros picos que se notavam mais. E começar a perceber que cansava as outras pessoas, que me cansava a mim, que chegava ao fim do dia destruído, cansado, não me conseguir ouvir. Ainda tenho um pouco disso às vezes. De ser uma existência que era muito cansativa para mim e para as pessoas que estavam ao meu lado. Ou seja, quando isso começou a deixar de ser só divertido e Interessante para os adultos até, e começou só a ser uma coisa que entrava a comunicação, quando o mundo à volta começou a tentar calar-me.

Isso era mais impactante na escola e na relação com os amigos ou em família, por exemplo? Quem é que lidava pior com isso?

As figuras de autoridade, claro, ou seja, a família e a escola. Só que depois, não sei se era a bipolaridade, sempre foi tudo muito amoroso ao mesmo tempo. E tinha graça. Os adultos tentavam chegar ali, tipo: "Isto se calhar é mesmo assim, é melhor nós aprendermos a lidar com isto".

E naquela fase juntava-se alguma rebeldia também? E por isso é que as figuras da autoridade tinham alguma dificuldade ou era só mesmo essa intensidade permanente?

Eu custo-me um bocadinho falar disto, porque uma coisa é falar de mim, outra coisa é falar de outras pessoas, mas tive na adolescência uma relação um bocadinho mais especial com a minha mãe, mais complexa, que eu hoje olho para trás e penso que também não é fácil lidar com isto, pensar: "Isto agora qualquer coisa aqui que de facto não está muito bem". Mas na escola eu não era propriamente rebelde, como não era malcriado. A minha indisciplina tinha a ver com esta coisa que eu faço até hoje e hoje pagam-me. Eu faço profissionalmente tudo aquilo que os adultos me diziam para não fazer. Tudo o que os professores dissessem, eu desmontava, que eu faço profissionalmente, basicamente. Desmontava, pegava em todas as frases que eles diziam e isso claro que é muito disruptivo de uma aula. Mas não era propriamente rebelde, não passei essa fase.

Quando passa a ter consciência de si próprio, até com a consciência de que cansava as outras pessoas e até a si próprio, é que se calhar começa a ter os outros momentos, os momentos mais depressivos. Em algum momento, isso foi uma questão em termos médicos, por exemplo, de tentar perceber se tinha uma depressão?

Sim.

Ou foi lidando?

A minha família, a minha mãe, é impossível não falar, que é um assunto resolvido entre a minha mãe e eu, mas viveu um bocadinho em negação. Havia umas tentativas de: "Bem, vamos lá ter que ver isto" e fomo a psicólogos. Mas foi complexo para a minha mãe. E eu acho que consigo perceber um bocadinho, não consigo lidar com isto agora. Os meus pais divorciaram-se . Mas é verdade, os meus pais divorciaram-se quando eu era muito criança e a minha mãe volta a casar quando eu tenho mais ou menos 14 anos e aí a coisa estabilizou familiarmente. Mas vivemos estes anos sozinhos os dois. E portanto eu percebo que era muito complexo e a minha mãe era bastante nova. Coisas que nós só vemos mais tarde. E pensou: "Eu não consigo fazer isto tudo ao mesmo tempo".

Portanto, ela própria também teria a percepção de que havia um problema.

Sim, até porque a área profissional da minha mãe não está muito longe disso e portanto era praticamente impossível, sem uma grande dose de negação, perceber que havia ali qualquer coisa que não estava certa. E, portanto, em vez de me guiar por um caminho, fomos desbravando caminhos novos. "Agora, então vamos por aqui, então abrimos mais uma estrada aqui, então tiramos mais esta cadeira aqui do caminho. Pronto. Então abrimos aqui esta parede, temos aqui um buraco. Queres passar antes por esta parede?"

Para não fazer aquele.

Em vez de irmos dizer: "Não, se calhar tens que passar pela porta". E portanto fomos assim andando. Qual é que era a pergunta?

Não, e vão andando.

E portanto há umas tentativas, mas rapidamente estas conversas passaram a ser uma coisa mais com amigos. São amigos que me acompanham desde essa altura.

E essas conversas com amigos, durante quanto tempo é que elas foram acontecendo antes de o levarem a procurar ajuda médica? Essas conversas com amigos, a minha pergunta, na verdade, é quão concretas é que elas eram. Havia uma discussão, de facto, sobre: isto é um problema de saúde mental?

Sim, havia. Havia e com nome. Eu desde os 15, 16 anos eu achava: "Eu acho que sou bipolar".

Mas tinha o nome para isto?

Tinha.

Por que tinha esse nome? Como é que chegou lá?

Porque eu sempre me analisei muito, analiso muito e mesmo essas conversas com amigos, eu era daquele gênero de pessoa que vamos analisar tudo. Porque tinha uma curiosidade enorme em perceber o mundo todo à minha volta. Então falava muito com um grupo muito selecionado de pessoas, não era com todos os amigos.

Claro.

E analisar aquelas coisas todas. Não sei se tinha já pensado nisso, mas o amor ou os desgostos amorosos foram sempre o catalisador dessas descobertas do lado negro da força. Porque, sobretudo quando se é adolescente, os desgostos de amor são uma coisa muito forte. Mas houve ali uma altura que eu percebi: isto vai para além disso, isto é completamente incapacitante.

Como é que era uma dessas fases?

É supertriste.

Difícil, sim. Como é que seria um dia seu, nessa altura da adolescência e dos desgostos de amor ou até mais tarde, antes do diagnóstico, numa fase depressiva? Quando estava numa dessas fases, como é que era um dia para si?

A partir do momento em que tenho mais ou menos autonomia na vida. Eu fui viver sozinho desde os 16 anos, que é uma coisa que não é muito comum. Quer dizer, dependia completamente da minha mãe. Lá está aquelas coisas: "Vamos então abrir aqui uma parede, estava a ser complicado". Então tinha o meu próprio apartamento.

Para tentar ajudar no relacionamento.

Sim, foi sempre: "Vamos tentar. Então pronto, vamos fazer isso". E tinha o próprio apartamento, ou seja, comida, não tratava de nada. Tinha um quarto um bocadinho mais longe do resto da casa, para ser mais fácil. E ainda andava no liceu, portanto isso era incrível. Era lá onde fazíamos as festas todas.

Era algo incomum.

Foi muito divertido. Ainda hoje é um grupo de amigos, que é o grupo daquele apartamento. Podia ter corrido fragentemente pior, não correu assim muito mal. A partir do momento em que acaba o liceu, assim que eu posso, era isolamento total. Não gosto de partilhar essa parte. É um isolamento total.

Portanto, quando ficava numa dessas fases, ficava em casa.

Isolo-me. Sim, isolo-me completamente. Ainda que, por exemplo, eu acho que isso é um quadro típico, um bocadinho mais crescidinho, continuava a sair à noite. Ninguém conseguiria dizer como é que eu tinha passado os dias. Saía à noite, continuava a ser mega divertida, a pessoa mais divertida do mundo, mas depois o resto do dia é trágico. São pensamentos muito negros.

Passava o dia na cama, sem comer, sem interagir, sem fazer nada, sem ler um livro, sem ligar a televisão, era assim?

Muitos dias assim.

E por que essa necessidade depois de sair à noite e pôr uma máscara e estar tudo bem? Fazia um esforço para isso ou até era natural?

Eu precisava de sair dali. E é uma fase onde as pessoas saem à noite, as pessoas daquela idade, 20 anos, saem à noite. Era possível estar ali e sair à noite. É uma forma de convívio social que não requer muita conversa. Diz-se umas larachas, dá-se a dançar um bocado, bebe-se uns copos, a música está alta, ninguém me ia perguntar, não tinha que falar muito. Nunca tinha pensado muito por que isso acontecia.

Nessa fase, falava com esses amigos com quem depois até chegou ao diagnóstico, antes do diagnóstico, falava quando essa fase estava a decorrer ou só falava sobre isso depois?

Depois. Isso é uma coisa que mantenho até hoje. Claro que é preciso explicar que com a medicação, tudo isto é reduzido, limitado e controlado, não se volta a cair. Pelo menos no meu caso, não volto a ter esses momentos. Com a terapia também, que a terapia é uma coisa que é preciso fazer até o final da vida. Mas quando não estou bem, não gosto de falar com ninguém. Classicamente, não atendo o telefone, cumpro outras funções. Vou trabalhar, se for preciso. Se puder não ir, prefiro não ir.

Agora.

Agora, sim.

Mas na altura isso era possível?

Não.

Estava minimamente funcional ou não de todo?

Não.

Totalmente incapacitante.

Sim, era.

Na altura trabalhava ou passou por fases?

Passei muito tempo sem trabalhar. Sim.

Por causa disso?

Sim. Quer dizer, não se percebia muito bem por quê, porque não era bom da cabeça, provavelmente. Eu vou viver fora, desisto do curso que estava a fazer, estava a estudar Direito, desisti e fui viver fora. Eu estive a viver fora cinco anos. Aí foi mundo novo que se abriu. Tudo era novo, tudo era diferente, conhecer novas pessoas. Mantive sempre uma relação muito forte com a minha mãe, com a minha família e com os meus amigos de cá. E foi uma fase, é dos 23 aos 28, foi uma fase muito formativa. Só que a própria vida e aquela idade convida a isso. Nós todos andamos a experimentar altos e baixos.

Era fácil confundir com só a vida normal a acontecer.

Sim. Aliás, um dos dramas destas coisas que afetam, que não são doenças físicas, não sei se lhe chamo uma doença, mas esta característica que é a bipolaridade. Eu levei anos a fio a pensar, depois já do diagnóstico, o que é que é em mim, quem é que sou eu e quem é que é a bipolaridade. E passei anos a fio. Como é que eu seria se não fosse bipolar? O que é que neste comportamento é bipolar? Será que eu tinha desistido do curso se não fosse bipolar? Será que eu teria voltado de Amesterdão, ido para Amesterdão, se não fosse bipolar? Será que a minha relação com a minha mãe? E há um dia que estou a tomar duche, quando eu tenho sempre as minhas epifanias, e cheguei à conclusão, é porque eu não durmo há muito tempo, que não é possível separar uma coisa da outra.

Porque o Hugo é uma pessoa com uma doença bipolar, ponto.

Claro, porque tudo o que contribua para a nossa personalidade é indissociável. Não se consegue tirar.

É a mesma coisa que dizer: "Se isto não me tivesse acontecido, eu era assim".

Exato. Se a minha avó tivesse rodas, era um Rolls Royce.

Era um camião.

Portanto, isto sou eu e não trocava por nada. Deve ser uma chatice não ser bipolar, não sei, nunca experimentei, mas não trocava por nada. Mas é um momento super importante de tentar perceber o que é que é a bipolaridade. Que é quase como se dissessem: se eu conseguisse eliminar a bipolaridade, quem é que sou o verdadeiro eu? E isso é uma violência que a própria sociedade às vezes faz em relação às pessoas que têm estas características.

Nas fases depressivas, era assim De novo, antes do diagnóstico e do tratamento, e nas fases ditas maníacas, era como? Como é que eram os dias nessas fases?

Sem nunca ter tido episódios de surtos psicóticos e isso tudo. É uma canseira muito grande. Era muito altamente criativo, escrevia 10 filmes na cabeça, 10 livros na cabeça todos os dias, não parava um segundo de pensar, dormia muito pouco.

O que é dormir pouco? Dois, três, quatro?

Passar dias sem dormir.

Dias sem dormir?

Sim, passar dias sem dormir. Todos aqueles clássicos que se faz, gastar dinheiro em coisas absurdas, estar sempre a fazer coisas. No meu caso, ter atividade criativa intelectualmente. Romantiza-se muito a bipolaridade, porque se fala da Virginia Woolf, do Oscar Wilde, do Van Gogh.

E de muitos criativos que tinham, e têm, transtorno bipolar.

Mas a bipolaridade não faz de ninguém gênio, nem é sempre canalizada para a criatividade. Há pessoas que limpam a casa toda de alta a baixo ou pintam as paredes todas. Portanto, nem tudo é canalizado.

Nunca lhe deu para isso?

Não. Graças a Deus.

Era mais pra questão da criatividade, de ter sempre.

Sim. Só que nunca conseguia fazer rigorosamente nada. Aliás, eu começo a minha vida profissional, a séria, das coisas que eu gosto de fazer, aos 30 anos, depois de diagnosticar e depois de estar medicado.

Porque não chegava ao fim das coisas?

Não se chega ao fim de nada. Eu às vezes sinto que com a medicação, sou um bocadinho menos criativo, pensava eu.

Limita-o um bocadinho isso.

Só que consigo fazer coisas. Se calhar tenho um bocadinho menos ideias, mas sento-me e elas aparecem feitas. E digo assim: "Se calhar, tem graça pôr as coisas em prática".

As coisas passaram a ter um princípio, um meio e um fim. E naquelas fases isso era impossível?

Sim. Eu nem sei se é importante as coisas serem concretizadas. Claro que eu estou a falar isto tudo de um lugar de imenso privilégio de poder ter tido esta experiência. Estive dois ou três anos sem trabalhar. A minha mãe ralhava-me, mas nunca passei fome, nunca vivi na rua, como calculo que aconteça a quem não possa ter essa experiência.

Sem isso, poderia ter sido, de facto, uma fase muito mais dramática antes do diagnóstico.

Eu acho que claro. É muito comum nas pessoas que durante a fase, chamemos de maníaca, apesar de não ser o termo clinicamente correto, fazem essas coisas do gastar o dinheiro todo ou beberem muito, ter coisas que façam a vida dela descambar. Depois a fase depressiva acrescenta todas essas questões e pelo menos já estão a chorar.

Tem uma razão.

Exatamente. A vida toda, de repente, desaba à sua volta e eu essa parte não tive. Ou não tive muito, que a minha mãe de vez em quando disse: "Se calhar tens que ir trabalhar, tens que arranjar um trabalho".

Por que que isto tem um nome tão cedo? E tinha, pelo menos, a convicção de que sabia aquilo que tinha. Por que vai ao médico tão tarde? Por que demora tanto a sentar-se em frente a um profissional e a pensar: "Tem de haver uma maneira". Houve uma fase de acomodação à ideia de que era assim e pronto? Entrou também um bocadinho em negação?

Eu acho que as mensagens que se recebe em relação a este tipo de diagnósticos são estigmatizantes. Pode ser que não seja, como se dar um nome a uma coisa fosse negativo. A partir do momento em que fores lá buscar o papel, toda a tua vida tem de mudar e temos que começar a tratar isto de outra maneira. Não mudou rigorosamente nada e tudo o que mudou foi para melhor.

Mas o Hugo sentia esse estigma?

Talvez, mas isso é tudo olhando para trás. Quando dizem assim: "Pode ser que não seja, se calhar não." Tudo isto é uma mensagem negativa. E de facto fui tentando, há sempre aquela coisa do: "Afinal consegui. Pronto, agora está mais ou menos controlado." E eu vou procurar ajuda, talvez na quinta ou sexta, teria que pensar para ser mais concreto, mas não é interessante. Depressão muito grave. Não é depressão, mas esses momentos negros muito graves.

Esses momentos duravam quanto tempo?

É quase difícil me lembrar, mas meses, não estamos a falar de dias. São fases mesmo, fases da vida.

E à quinta ou sexta é que pensou...

Penso que percebi. Imagina, passou a quarta, passou a quinta. É preciso dizer que a idealização suicida está lá sempre.

Tinha sempre, eram realmente negras?

Sim, mas a idealização suicida, eu não sei explicar isto, eu vivo com ela desde pequeno. Eu acho que penso nisso todos os dias, só que é como, quase me rio. Se eu disser assim: "Entreguei-me para entregar o artigo para o Observador", por exemplo, chego para o Tiago. "Vou me matar." Mas é quase uma graça, faz tão parte da minha vida.

Mas passa-lhe pela cabeça.

Sim, é a primeira solução para todas as coisas.

Mas nessas fases era um bocadinho mais presente?

E foi se agravando. Ou seja, há uma fase, eu ainda estou em Amsterdão, onde penso nisso muito a sério, onde arranjo até um método Muito clean. E lembro-me de pensar: "Eu não posso fazer isto à minha mãe. Não posso fazer isto à minha mãe". E na altura sentir: "Que horror, nem isto posso fazer". Ainda foi um drama acrescido.

Nunca chegou ao momento de tentar.

Nunca tentei. Mas era uma coisa muito real. E foi horrível, porque eu pensei: "Não posso fazer isto à minha mãe, não posso fazer isto à amiga X". Um grupo muito pequeno de pessoas que iam ficar com a sua vida-

Eram sempre os outros.

Sim. E a última, antes de eu procurar ajuda, foi quando já nem isso me interessava nada. Pensei: "A minha mãe que lide com isso, eu não quero saber disso pra nada. A minha amiga X lide com isso, isto é a minha vida, não consigo, não quero mais". Eu acho que o que me salvou nessa altura foi a enorme curiosidade que eu tenho em ver o que eu consigo fazer com as cartas que me foram dadas. Só que há um dia onde eu penso: "Eu tenho que ir tratar disto agora, porque tenho 30 anos, a própria força física de aguentar isto vai se gastando". E eu pensei: "Eu não vou aguentar isto outra vez aos 40. Se eu não tratar isto aos 50, vou morrer. Não aguento."

A perceção de que haveria um momento em que já não contava à mãe, já não contava aos amigos, já não contava uma série de coisas.

Já era pacífico. Nunca fiz nenhuma experiência, nunca me tentei, mas sentia aquele vulcão que nós sentimos de fazer alguma coisa, e que quase me levantei do sítio onde eu estava sentado uma data de vezes e pensei: "Uau, isto agora não está fácil". E há um dia, de facto, que me encontro com a minha mãe pra irmos tomar o pequeno-almoço e a minha mãe pergunta: "Está tudo bem?" E a minha resposta sempre foi: "Está". Naquele dia resolvi dizer não. E pronto, foi quando tudo começou a melhorar o tratamento.

Nessa altura estava numa dessas fases depressivas?

Sim.

E conseguiu verbalizar que não estava bem?

Sim, foi a primeira vez que pensei: "Eu preciso de ajuda". E devo dizer que nesse dia à tarde foi a minha mãe tratou de tudo.

Marcou uma consulta?

Do catering, das flores. Estava tudo impecável.

Preparou as coisas todas pra primeira consulta.

Não, sim, marcou uma consulta numa terapeuta que me acompanha até hoje e num psiquiatra péssimo, que me ia matando ainda mais.

Qual é a primeira consulta que tem? Com a terapeuta ou com o psiquiatra?

Foi com a terapeuta. Sim.

Lembra-se desse dia?

Lembro-me perfeitamente.

Como é que foi?

Eu lembro-me de chegar. Eu tinha ido ao psicólogo mais miúdo e nunca tinha feito terapia. E, portanto, eu cheguei um farrapo humano. E a minha terapeuta, que é uma mulher incrível e superinteligente. E o que é fundamental na terapia é a relação que se estabelece com o terapeuta, mais do que outra coisa qualquer. Claro que a competência profissional é importante.

Funcionou logo?

Funcionou logo. Porque eu disse: "Eu não sei sequer por onde é que hei de começar". Muitas pessoas têm resistência a ir à terapia, um bocado também por isso, que pensam: "Não sei por onde é que hei de começar, não sei o que é que hei de dizer". E um bom terapeuta ou uma boa terapeuta explica que vai essa própria pessoa guiar. E, portanto, ir na primeira consulta de uma pessoa que está um farrapo. Aqueles primeiros cinco minutos, quando se vai ao cabeleireiro. Então vamos cortar aqui. E foi mais ou menos isso que ela fez. Um terapeuta não é um médico, portanto ela tem muito cuidado ao falar da bipolaridade, do diagnóstico, que não é médico.

Mas falam logo nessa primeira consulta?

Falamos. Não, não falamos. Aliás, ela foi percebendo que eu estava a ter um diagnóstico errado no psiquiatra que me estava a seguir e com muito cuidado, disse: "Eu aconselho a procurar um outro psiquiatra".

Então, nessa primeira consulta com a terapeuta, não há nomes, não é?

Não. E há um momento, há um catalisador incrível. No final, ela disse: "Bom, então pra semana voltamos a ter outra sessão". Eu disse: "Não, pra semana não, eu tenho que voltar amanhã".

E ela?

Espera, deixa eu fazer uma pausa. Estou-me a lembrar dessas coisas, não tem nada a ver chorar, mas é porque estou cansado. Não durmo há muitos dias, foram três meses de ensaios. Desculpem.

Não tem problema nenhum.

Se calhar não vou conseguir contar. É muito simples a história. Bom, e ela diz-me assim: "Não. Eu estou aqui pra si uma vez por semana". E aquilo foi, desculpem outra vez, isto não tem vergonha nenhuma. Aquilo foi perceber que-

Mas ficou zangado na altura?

Não, percebi. Ela percebeu-me e se calhar eu precisava de alguém que me dissesse: "Não, chega. Vamos tratar disto."

Agora há aqui alguém a mandar.

Mas quem manda aqui sou eu. Com ela até hoje.

E teve uma componente de alívio, de perceber que alguém tinha tomado o leme e que havia alguém a mandar e que havia alguém com um plano.

Sim. Eu acho que isso acontece a toda a gente, quando acha que não está a ser capaz de controlar qualquer coisa dentro de si, ter alguém que diz: "Não, vamos tratar disto".

E vai ser assim.

Sim. Até porque a forma como a minha família, até os meus amigos, foi sempre muito accommodating. Foi sempre muito-

Encontrar.

Sim, foi sempre seguir aquele caminho, que é uma forma ótima também. Não houve violência ou exclusão, essas coisas horríveis que acontecem a tantas pessoas. Mas foi muito importante ouvir aquele não naquela altura.

Antes da segunda consulta, vai ao psiquiatra ou o psiquiatra vem muito mais tarde?

Foi tudo simultâneo.

Foi tudo na mesma altura. Quando vai ao psiquiatra, há logo uma conversa sobre diagnóstico ou não?

Aquele psiquiatra era uma besta, que um dia eu até hei de refletir, e já conheço mais histórias com esse homem. Acho que devia ser denunciado. Eu não tenho pachorra pra ter essa guerra, mas fez uma consulta de cinco minutos onde eu estava a tentar Falar e ele disse: "Você está com uma depressão muito profunda". Medicou-me com oito remédios diferentes, porque quando há certas coisas, tem que se tomar depois uma data de outras coisas. Eu vivi, ainda tive talvez seis meses até a minha terapeuta me dizer que eu tinha que procurar outro.

E tomou esses medicamentos?

Tomo tudo, sim. Vive-se como um zumbi. É muito grave medicar um doente bipolar com antidepressivos. É com estabilizadores de humor, é com outras drogas que se trata.

E o Hugo que achava que sabia o que tinha, em nenhum momento disse ao psiquiatra: "Eu acho que eu não tenho isso".

Sim, ele disse: "Não tem nada, onde é que foi buscar isso?" Mas eram consultas muito rápidas. E eu pensei: "Este homem precisa de me ouvir". E chegou um dia que eu disse assim: "Olha, eu vou me matar". Ele ficou assim parado e disse assim: "Vai se matar como?" E eu disse: "Olha, eu vou me matar com os remédios todos que me receitou".

Porque já é isso que está acontecendo.

Tipo, ouve-me. E ele ficou assim bocado apanhado e disse assim: "Está aí com alguém fora?" Eu disse: "Sim, está ali o meu padrasto". "Não se importa de chamá-lo?" Eu disse: "Não". E meu padrasto é uma pessoa incrível. E ele disse: "Se calhar agora é melhor ele não ficar sozinho durante o próximo dia", até para eu não perder a carteira profissional, deve ter provavelmente pensado. E eu depois conto esta história na terapia, nessa tarde, ela disse: "Vou recomendar-lhe outro psiquiatra, até vou recomendar uma pessoa que eu não conheço pessoalmente". Ela depois contou-me que era um especialista em bipolaridade. Fui a essa consulta e agora vai parecer aquele momento da: "E a minha vida mudou. Isto, de facto."

Mas mudou, de facto.

Mudou. Então, foi uma consulta que não teve rigorosamente nada a ver com a outra. Foi uma consulta que durou mais de duas horas, onde estivemos à conversa.

Era um daqueles psiquiatras que fazia terapia por deformação profissional, por ter percebido que-

Sim, porque é a especialidade dele. E o que tem graça, eu só soube isso tudo depois, a minha terapeuta quis lhe falar um bocadinho de mim e dizer: "Eu desconfio que"-

Passar o dossiê.

Sim, ele disse: "Eu não quero ouvir rigorosamente nada sobre ele". E então foi um dos momentos mais importantes da minha vida, porque ele faz às tantas, além da conversa toda, fez uma espécie de checklist gigantesco do já sentiu isto, já sentiu aquilo, sentiu isto, sentiu aquilo. E eu, que também não sou propriamente burro, nós percebemos que estamos a ser alvos de um checklist e percebemos que estamos a dar as respostas todas, certas ou erradas, conforme se considere. E aquilo que podia ser uma coisa horrível, foi uma coisa altamente libertadora.

Alívio?

Mais uma? Sim, também. Eu tive 100 perguntas. Sim, também.

Porque finalmente alguém tinha percebido.

Claro. E no fim, foi uma experiência ótima. Foi mesmo ótimo. É quase: "Vamos passar agora para a fase seguinte. Como é que isto se faz? Como é que isto se não é trata, mas é como é que isto se..." Porque foi isso que ele disse: "Tem que ser acompanhado, tomar uma medicação para o resto da sua vida, tem que fazer terapia para o resto da vida". Não sei se ele disse para o resto da vida, parece ser uma coisa mais dramática. E que conseguimos controlar isto.

Isso não lhe deu alguma revolta? Apesar do alívio de sentir que já havia alguém ao comando do leme, já havia um plano, já estava diagnosticado. A ideia de por que eu tenho que lidar com isto para o resto da minha vida? Não lhe deu alguma revolta?

Não. Como é que eu hei de explicar? Eu tenho a noção que aquilo que falávamos, ou seja, que a bipolaridade é o que me faz ser diferente das outras pessoas, eventualmente especial, não mais especial do que ninguém, diferente. E como volto a dizer, não trocava isso por nada, portanto, tem esta parte. Mas chato é que tenho que tomar os remédios.

Mas aprendeu a fazer esse caminho. Na altura já era assim, já tinha essa ideia de: "Ainda bem que eu sou assim, isto não é necessariamente mau".

Consigo controlar as partes menos positivas dessa coisa. Eu faço anos na véspera de Natal e as pessoas dizem sempre: "Que chatice, só recebes um presente". Nem sequer isso é verdade. Eu adoro fazer anos na véspera de Natal, é o dia mais especial do ano. Adoro. Eu nunca fiz anos noutro dia. Portanto, eu não sei quão especial é fazer anos dia 3 de abril, mas não deve ser muito. Ver se alguém faz anos Portanto, mesmo que eu recebesse só um presente, mesmo que durante uma data de tempo não tinha jantar de anos com os meus amigos, e o jantar de anos é sempre o jantar da consoada. Só uma vez é que foi a lampreia de ovos o meu bolo de anos e eu disse à minha mãe: "Isto nunca mais se repita."

Há limites.

E faz uns bolos hipotéticos, dá sempre umas coisas ótimas.

Mas era o seu dia de anos e pronto.

Eu não trocava por nada fazer anos num dia que está toda a gente em festa. Eu acho maravilhoso fazer anos na véspera de Natal, acho mesmo.

E a perspectiva é a mesma.

Não sei como é que as outras pessoas são dentro da cabeça, mas se isto é o preço a pagar por viver dentro desta cabeça que eu gosto mesmo de viver cá dentro.

É nesse momento que começa a fazer, já vamos voltar à questão da terapia, mas começa a fazer um tratamento mais ajustado ao diagnóstico correto. Em nenhum momento resistiu à medicação, que é uma coisa que às vezes acontece na questão da saúde mental, uma resistência ao medicamento.

Sim, houve uma fase, vamos dizer 10 anos. Houve uma fase que Que deixei de tomar.

Por quê?

Foi uma fase muito curta. Porque sobretudo um deles faz-me dormir muito. Ou seja, ele equilibra o meu sono.

E dava-lhe jeito dormir menos?

Dava. Como eu disse antes, passa-se dias sem dormir, sem necessidade física de dormir. O cansaço está lá, mas não há a necessidade de dormir. Ou então passa-se muitas horas a dormir, depois no contraponto. Acontece o mesmo com a comida, com uma série de coisas desse gênero, com a força física de fazer coisas. Estes remédios fazem uma coisa que eu nunca consegui fazer, que é: eu durmo a hora que eu quiser, porque se eu tomo o remédio, meia hora depois estou a dormir. E portanto, se eu quiser me deitar às 20:00, às 20:30 estou a dormir. Portanto, consigo controlar melhor a minha vida. Só que tem uma janela temporal de atuação que eu tenho que dormir sete a oito horas. Isto nem sempre é compatível com o ritmo de uma pessoa moderna.

Mas além desse medicamento que lhe permite dormir, que é uma coisa importante para o equilíbrio, a base desse tratamento é manter as variações químicas no cérebro equilibradas, não é?

Sim, eu tomo dois. Parece que estamos as velhas a falar. Eu tomo um de manhã.

E meio à noite.

Não, mas são dois estabilizadores de humor. O de manhã, de fato, é o mais importante e o outro é para regular, sobretudo o sono, porque é muito comum na bipolaridade ter estas flutuações de necessidade de dormir. Mas agora aconselhado. E às vezes acordava com umas mocas de sono gigantescas, onde levava horas a conseguir voltar a pensar, que é uma coisa que eu não tenho. Eu agora estou sem tomar esse da noite, mas acompanhado. E a minha vida mudou. Ando a dormir pouco, não é brilhante, mas também porque preciso, estou a fazer muitas coisas ao mesmo tempo. E eu tenho uma rubrica diária na rádio.

Muito cedo de manhã.

Como?

Cedo de manhã.

Cedo de manhã. E portanto, gostava de ter tempo de escrever na véspera, ando sem tempo. Portanto, acordo um pouquinho mais cedo antes de ir pra rádio, por volta das 05:00, e acordo com a rubrica toda escrita na cabeça. Portanto, eu sei que estive a escrevê-la enquanto estava a dormir. Essa parte, esses remédios tiram um bocadinho.

Sim. Perde essa capacidade.

Pois, é que essa capacidade perde-se.

Já disse pelo menos uma vez que a terapia salvou-lhe a vida, literalmente. Foi porque desapareceram as ideações suicidas e essas fases se atenuaram e atribui isso à terapia?

Atribuo à terapia e à minha terapeuta, em particular. À terapia em geral e à minha terapeuta, em particular. Quero lhe mandar um grande beijinho, se ela estiver ouvindo, e vai ouvir com certeza. Não desapareceram e nada disso desaparece.

Ok, não desapareceu totalmente.

Não. Aprende-se a lidar com isso. E talvez o maior tesouro que a minha terapeuta me deu foi: um dia ela dá-me como exercício, como trabalho de casa, eu conseguir identificar o momento em que sei que já fui pro lado negro da força.

Em que há um desequilíbrio.

Sim, em que já fui. E conseguir identificar esse momento, conseguimos trabalhar a partir daí, deixar de ouvir, quando eu digo vozes na cabeça, é figurativo, não ouço vozes na cabeça, mas aquela sabotagem do: "Tu és uma porcaria, tu não vales nada, não aguento a minha vida, não aguento viver", todas essas coisas, que baixam com a medicação, isso é mais controlado. E era fundamental eu conseguir encontrar o momento em que sei que isso vai começar, para pensar: "Este dia vou esquecer, este dia vou banhar sol".

E identifica isto de forma clara?

Não, eu pensei: "Isso é impossível, porque aquilo é um processo, aquilo é uma coisa que demora tempo, é uma coisa que só se percebe quando já se está mergulhado". E ela dizia: "Não, vá pensar, você consegue encontrar o momento, reflita e consegue encontrar". Eu pensei: "Esta mulher enlouqueceu, afinal quem é maluca é ela, não sou eu. Eu pelo menos estou medicado". Não sei se pensei assim, talvez sei, mas pra rir. Nós rimos muito na terapia. Parece que isto é tudo uma coisa super negra.

Não é trágico.

Eu tenho uma personagem que é uma psicoterapeuta e ela às vezes diz: "Olha, eu não sou essa personagem". Depois rimos muito. E eu a pagar. Enfim. E eu vou pra casa, começo a pensar e identifiquei exatamente o momento, vou contar, que é quando eu começava a fazer xixi no lavatório.

Entrava na casa de banho e instintivamente ia ao lavatório.

Sim. E foi engraçado pensar: "Claro, é quando eu já percebi que já fui". Tem uma explicação simples, que depois percebi. O lavatório está mais à mão quando entra na casa de banho, tem estado em todas as casas que vivo, e em termos de altura, é mais prático para os homens. Aconselho todos os homens experimentarem. Do que uma sanita. Está mais alto.

Isso significava que já nem se dava ao trabalho.

Já desistiu de viver, exatamente. Não quer saber, é mais prático. Mas isto era tudo inconsciente, é só o primeiro passo pra desistir de viver, pra deixar de trocar de roupa, deixar de fazer essas coisas que é muito associado também a essas, custa me dizer doenças, mas essas características mentais ou problemas de depressão. É comum, deixa de tomar banho. Porque tem a ver com a vida em geral, deixa de ser importante, está se tão ocupado dentro da cabeça, que é muito difícil dizer: "Toma um ducha e vamos dar uma volta". Então, apetece viver, isso não me diz nada.

Qual ducha?

Claro. E a partir do momento em que identifiquei-

E acontece sempre? De todas as vezes.

Sim.

Sempre essa situação de entrar na casa de banho.

Claro. Só que hoje aquilo ficou campainha. Não acontece muitas vezes, até porque a medicação, como eu já disse, controla isso. Mas se eu entrar na casa de banho e olhar para o lavatório, penso assim: "Pronto, então hoje vamos tirar o dia de folga, não quer dizer que não faça coisas, e não vou ouvir nada do que eu próprio estou a achar sobre mim próprio. E vou fazer outras coisas. Vou à praia, se for inverno, vou fazer esqui se for no verão, porque de facto não sei onde é que vai ser. Vou fazer outra coisa.

Tenta logo contrariar aquilo que já sabe que vai ser um dia tendencialmente depressivo, que seria assim.

Mais do que depressivo, um dia de sabotagem.

De repetir para si próprio: "Isto não é bom".

"Isto não é bom, a vida não é fixe".

Com esse controle, com a capacidade de antecipar essas crises, vamos dar-lhe esse nome, com os medicamentos, dos meses que antes duravam essas fases, agora duram quanto tempo, se acontecerem? Uns dias? Um dia?

Pode ser um dia, sim. Essas flutuações estão mais controladas.

E às vezes é preciso mudar alguma coisa na medicação ou não?

Nunca foi preciso até hoje. Quando nós estamos a falar disto, eu não estou sempre a pensar nestas coisas. Não estou sempre a pensar: "Sou bipolar, isto é da bipolaridade", não convivo. Respeito que há pessoas que isto é tão incapacitante, não conseguem não pensar nisso e não conseguem, quase como isto tome conta da sua vida. Não é o meu caso. Não estou sempre a pensar, não é assim. Mas aprendi a pensar: "Este dia não é um dia bom, mas dura um dia, no dia a seguir já está melhor". Percebo que são oscilações que talvez nem toda a gente tenha. E depois, com a medicação, consigo ter uma coisa mais fixe que é tristeza com motivos. Como sou uma pessoa, fico triste com coisas. Mas é bom saborear essa tristeza sem ser um desequilíbrio químico no cérebro.

Consegue tocar as várias emoções de um dia a dia normal.

Sem ser ou avassalador ou ser completamente absurdo, sem razão.

E ao contrário de antes ter um diagnóstico e de ter um tratamento, deixou de ser incapacitante. Ou seja, consegue manter-se funcional, trabalhar, a lutar contra isso, mas ainda assim funcional.

E depois as coisas completam-se, fazem uma parte da outra, porque a minha terapeuta dizia sempre: "Era ótimo que você tivesse uma vida mais regular, levantasse sempre à mesma hora, almoçasse. Para um bipolar, isso é importante". E eu não tinha. Portanto, a partir do momento em que comecei a fazer coisas, também a minha vida começou a se organizar mais. É engraçado. Tenho horários, a minha vida tem horários. É engraçado como pensar. Foi preciso estar equilibrado para a vida se equilibrar, porque a vida não ia trazer-me nada de volta. E isto leva-me a uma conclusão, que eu falava há pouco da inadaptação, e volto a dizer, falo de um lugar de privilégio de poder não ter sentido isso de uma forma muito dramática, com consequências graves. Grande parte da inadequação e do sofrimento deste tipo de características das pessoas ou doenças, quando são muito mais incapacitantes, é a parte negra que está dentro das pessoas e tudo à volta as faz sentir incapazes. Por que uma pessoa bipolar, que não consegue levantar-se da cama antes das 15h, isso é incapacitante? Porque o mundo não está preparado para aceitar pessoas que acordam às 15h. Isso não faz dessa pessoa menos válida, rigorosamente mais nada. As pessoas bipolares, se calhar, há um dia que têm que ligar a dizer: "Eu hoje não consigo ir ao escritório, não consigo sair da cama". Bipolares ou com outras questões. E o mundo não está preparado para isto, porque nem sequer precisamos de usar o argumento, porque essas pessoas dão contributo válido noutras coisas, mesmo que só cheguem às 10:00 e não cheguem às 09:00. Porque dar um contributo válido não é critério para absolutamente mais ninguém. Basta ir às finanças.

É uma contribuição válida.

Não têm só um emprego e uma vida as pessoas que dão um contributo válido. Nós não queremos uma sociedade onde isso seja um critério. Toda a gente tem que ter o seu lugar e isto não existe.

E isso é por incompreensão, seja com uma pessoa bipolar, seja porque a pessoa tem uma depressão, porque tem um burnout, é por incompreensão da sociedade e dos outros que desvalorizam de alguma forma isso.

É muito difícil. Não vale a pena ter discursos de raiva contra os outros, ou são racistas, ou são não sei o quê. Não interessa nada. É ignorância. E eu percebo que seja difícil quando se tem um cancro ou quando se amputou as duas pernas ou whatever, é uma coisa física. Olha-se e percebe-se. Não se vai dizer a uma pessoa, a um amigo com um cancro no pulmão: "Devias é ir correr uma maratona para limpar os pulmões".

Certo.

Até estar os pulmões, se calhar, até ficas a respirar melhor.

Mas às vezes dizem-se essas coisas a pessoas com uma-

Só se dizem, porque não é uma coisa física. Diz-se muito às pessoas com depressão clínica Toma um duche, sai de casa. Isso é uma violência o que se está a dizer. Para já, estás a atribuir uma culpa àquela pessoa. É porque não tomas banho e sais de casa que estás assim. E depois, de facto, olha-se para a vida das pessoas e diz: "Mas estás triste por quê? Vocês estão aqui na minha casa. Estás triste por quê? Tens os filhos isto, não sei o quê". Ou ficamos muito perplexos quando alguém com cinco filhos lindos se atira de uma falésia. Não se percebe muito bem. Portanto, há essa parte. E a coisa, se calhar, positiva da pandemia é como vamos todos fritar. Vamos todos fritar, como a minha rubrica.

Já estamos, aliás.

Se calhar vamos todos perceber: "Isto é assim? Que horror! Então afinal não basta nada tomar um duche e sair de casa". Estamos todos a aprender. Eu acho que um caminho a fazer, mesmo esta porcaria das redes sociais, estando toda a gente a chamar todos os nomes a toda a gente. Há gente que não é boa. Mas a maior parte das pessoas fala por ignorância e vamos sentar as pessoas um bocadinho e explicar-lhes porque não devem ser sexistas, porque não devem ser misóginas, homofóbicas, racistas. Fazer esta ponte. Já estamos tão despertos para estes problemas. Se calhar a parte da saúde mental é uma parte a que também temos que dar importância. É uma forma de ser diverso, é uma forma de ser diferente. A parte mais dolorosa da minha experiência tem sido amigos que perdi, por exemplo, por causa de uma série de características minhas. Isso é a parte mais triste. Mantive muitos, que são os mais preciosos. Mas houve muitas pessoas ao longo da vida-

Que foi perdendo.

Que fui perdendo porque eu não consigo atender o telefone, porque não me apetece ir não sei onde, porque há fases da minha vida, como agora, profissionalmente, estou aqui a falar, eu agora precisava de estar seis horas calado e fechado em casa. Já estive três horas a falar na rádio, agora estamos aqui a falar, ainda por cima de coisas muito íntimas. O contraponto é que tenho que estar calado durante muito tempo. Portanto, os amigos ligam para almoçar, eu não consigo atender, não quero ir almoçar. Eu percebo que é difícil numa amizade aceitar isto. E fui aceitando o bullying. Eu cheguei há muito pouco tempo que isto é uma forma de bullying inconsciente e de um sítio bom. Mas pessoas boas podem ser pessoas tóxicas. Nós todos sabemos isso na nossa vida. E há alturas onde temos que pensar: "Esta amizade é tóxica, esta pessoa é tóxica, está a me dar uma mensagem errada. Isto faz parte das minhas necessidades". Durante muito tempo tive amigos que me diziam assim: "Mas a tua necessidade de não atender o telefone, por exemplo, ou de não falar, não responder, não pode ser maior nesta amizade do que a minha necessidade de estar contigo e de almoçar contigo". E levei muito tempo a pensar: pode, e é, e vai ser. Mas é um caminho também, porque é preciso coragem, de certa maneira também, para fazer isto, porque pode-se perder pessoas na vida.

A sua profissão agrava isso, no sentido em que quando o vemos publicamente, vemo-lo a fazer humor com entusiasmo e com a sua gargalhada típica. E é difícil, até para quem o conhece e para alguns desses amigos, perceber por que a seguir a um programa em que esteve dessa forma, não quer ir almoçar comigo porque não está bem. Isso torna tudo pior.

Não. E nada daquilo é falso.

Não, digo para as pessoas para o compreenderem. Porque há um bocadinho a ideia de: "Mas esta pessoa é tão divertida, é tão feliz, como assim tem momentos de depressão?" É difícil às vezes compreender.

Sim, mas eu estou a falar de amigos que já passaram essa fase, que me conhecem melhor do que isso e que nem sequer exigem que eu seja divertido no dia a dia. Eu acho que tem um bocadinho a ver com falta de fazer essa ponte de perceber as características de alguém e o meu pecado daquilo que tu dizias há pouco, de eu não ter transformado isto numa característica identitária externa. Expliquei-me bem?

Sim.

Isto sou eu. Ou seja, estão a lidar comigo, não vou dizer: "Eu sou bipolar, portanto, eu preciso de não atender o telefone". Não tenho essa dinâmica. Às vezes, chego a dizer isto numa tentativa do: vamos lá falar do que está aqui. Também não gosto muito de o fazer.

Já falou há pouco sobre isto, aliás, logo no início da nossa conversa, das pessoas que dizem: "O tempo hoje está um bocadinho bipolar" ou "o meu chefe é um bocadinho bipolar". Isso irrita-o ou compreende que é só ignorância das pessoas?

Sim, é um bocadinho aquela conversa.

Porque acontece muito. Também acontece muito dizer: "Aquela pessoa parece que é autista".

Sim, claro. O discurso é importante. Estamos a viver esse tempo, de deixarmos de dizer certas coisas, porque é só pôr-nos na pele do outro. É simpático não ouvirmos coisas horríveis na televisão ou no discurso público, discurso político. Eu acho que há uma associação que escreveu para o Parlamento para pararem de usar a expressão bipolar no discurso político.

E autista.

E autista.

Como crítica.

Acho importante, mas acho Não deixa de ser acessório e às vezes esta coisa contribui até para esta coisa do: "Que maçada, agora não se pode dizer nada?" Também não me chateia. E dá-me margem no politicamente correto, que é uma coisa positiva, falando deste vigiar, de certa maneira, o discurso público, sobretudo dos agentes públicos. Dá-me a hipótese de poder dizer "atrasado mental", que é a minha expressão favorita. Adoro dizer "atrasado mental". Adoro dizer: "Sou um bocado atrasado mental". Acho ótimo. E também não está para dizer. Mas assim, então posso dizer, porque se alguém disser: "Não podes dizer atrasado mental", eu digo: "Tu não podes dizer bipolar", e diz. Portanto, é uma troca fixe.

Disse que isso é o mais irrelevante. No limite, será simbólico. O que acha que falta na forma como o país lida com as questões da saúde mental? Já percebi que tem a esperança, e não é só uma questão de esperança, acha que a pandemia, de facto, mudou a perspectiva das pessoas sobre a saúde mental. O que acha que falta na forma como o país lida com isso? Que não será só uma questão de perceção.

O país em termos de governo, Estado, isso é fundamental, dar-se mais valor à saúde mental. Como eu dizia há bocado, na bipolaridade, por exemplo, estamos a falar de uma doença, eu não sei se os números são gerais. O que eu digo se calhar não é muito exato, mas para uns 30% das pessoas não conseguem ter uma vida dita normal, funcional. Ter um trabalho, ter relações próximas. Lá está, por causa daquilo que nós há pouco dizíamos. Porque não conseguem arranjar trabalhos, ou porque não conseguiram, por exemplo, acabar a escola com sucesso ou fazer um curso superior. Whatever, por muitas razões. E um dos tratamentos, ou se quisermos, maneiras de aliviar, de controlar a bipolaridade, é, para além da medicação, que é gratuita em Portugal, a terapia, para sempre, pelo menos uma vez por semana.

A terapia não é gratuita.

De todo. Só uma pessoa rica é que consegue fazer isto. Nem a classe média, se calhar, aguenta fazer isto. Uma pessoa com um ordenado de, quanto é? 3.800 €, que é o ordenado base de um jovem.

Noutras contas.

Sorry.

Isso seria impossível, não é?

É muito difícil.

Logo à partida, há um entrave para um tratamento sério destas pessoas.

Isto tem que se perceber à partida. Há doenças como a esquizofrenia, por exemplo, é uma doença altamente incapacitante. Eu não sei se não é incapacitante a 100%. Ou seja, se toda a gente que tem esquizofrenia não passa por um período da vida. Lá está, não somos médicos, nem epidemiologistas. Mas isto tem que ser tratado. E a incidência de suicídios nas pessoas com este tipo de condições é gigantesca. Entre os jovens, entre os adolescentes, enfim, é tudo péssimo. Portanto, isto tem que ser tratado obrigatoriamente pelo Estado e depois nós todos lidarmos com mais amor. Mas eu acho que mais amor e mais compreensão é a chave para tudo.

É o mínimo, não é?

Sim, para aceitarmos a diferença, porque todos nós somos diferentes. Eu às vezes penso tanto aquela coisa dos refugiados e do discurso populista contra os refugiados, que é uma coisa que eu fico a pensar: como é que isto é possível? Não é fazerem, porque isso estão sempre a experimentar atirar o barro à parede. É isto ter eco, isto ter percentagens importantes. Não é só os refugiados e a discriminação em geral, eleger presidentes, eleger governos no mundo em geral, por todo mundo. Eu às vezes penso assim: toda a gente é refugiada de certa maneira, que eles são refugiados com menos sorte, mas nós todos somos refugiados fisicamente, dos nossos países, da nossa família, emocionalmente, amorosamente. Todos nós algum dia fomos refugiados no sentido figurado ou físico e todos nós gostaríamos de ter alguém que nos acolhesse em casa, que nos fizesse sentir em casa. Por isso é só ter um bocadinho mais de empatia e de respeito pela diferença.

É essa a chave para saber lidar com a saúde mental dos outros? É só ter um bocadinho de empatia?

Eu acho que sim. E de percebermos que todos nós temos alguma coisa que nos torna diferentes. E isso é bom. Toda a gente, mesmo quando a gente diz as outras pessoas, os outros, isso não existe. Cada pessoa isoladamente tem qualquer coisa que sabe que a torna diferente. É só pensarmos o que será que nos faz diferente. Se calhar em mim é isto, se calhar até nem é. Se calhar é outra coisa qualquer, que às vezes, ao tentar me encontrar a mim próprio, atribui à bipolaridade. Se calhar sou diferente por outras coisas quaisquer. Who knows?

Obrigada.

Obrigado eu.