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Quando é que percebeu que as coisas que sentia e o que estava a viver não eram só aquilo que nós às vezes desvalorizamos como as agruras da vida e as dificuldades da vida, mas podiam ser sintomas de uma doença?

Eu pessoalmente acho que não tenho a noção nem do momento exato, nem sequer se fui eu que dei conta disso. Utilizando aí nesse pedacinho que foi dito, as agruras da vida que talvez pudessem levar para aqui ou para acolá. Eu acho que fiquei mesmo fechado nessa redoma de que se calhar era uma coisa da vida, se calhar era uma coisa que eu tinha que sofrer ou que eu tinha que levar comigo para onde quer que fosse. As pessoas que me rodearam, sobretudo as de sangue, as mais perto, essas é que começaram a ter verdadeiros sinais de alerta da minha parte, sem eu dar conta, e por consequência, devagarinho, tentaram me levar para que eu desbloqueasse essa espécie de casca de ovo. Eu acho que quando tudo começou a acontecer, eu criei, utilizando a mesma expressão, uma casca de ovo completamente sólida e deixei-me lá estar dentro.

Que sinais eram esses?

Isolamento, angústia e ansiedade, que eu hoje à distância fico a achar como é que é possível alguém conseguir lidar com isso.

Por causa da intensidade ou por ser muito frequente?

Por ambas. Pela intensidade e pela constância, ou seja, pela quantidade de vezes que isso acontecia. Dou-te assim um exemplo. Eu não sei se isto poderia ser avaliado ou medido numa unidade qualquer. Eu cheguei a clicar-me para trabalhar. Tenho quase ideia, não absoluta, mas deve lá ficar muito perto, pelo menos é esse o meu sentimento, de que não se passava nada comigo e que ninguém de fora, ou seja, sem tanta proximidade assim ou tanta intimidade, que pudesse se aperceber de alguma coisa. Eu fazia o trabalho e mal acabava o trabalho, utilizando um termo de gíria, eu panicava. Panicava, mas assim ao ponto de eu não saber o que é que queria fazer a seguir, para onde é que tinha que ir a seguir, com quem é que eu queria estar a seguir, se sozinho eu estava bem, se acompanhado eu estava bem. Eu cheguei a fazer telefonemas, por exemplo, para a minha irmã, a seis, oito quilómetros de distância, a ver o prédio dela e a falar com ela para me tentar acalmar, e ela a tentar me acalmar. E isto é muito fora, porque eu não sei explicar. Ainda hoje não percebo como é que a nossa mente, porque isto tem a ver com mente, não tem a ver com mais nada. É lógico que depois traz pormenores físicos. Mas é esta máquina estranhíssima que muda as imutes em permanência e que por mais que tu não queiras, é nesses caminhos mais obscuros, se assim se pode dizer, em que tu te encontras e é para onde ele te leva.

E além da ansiedade e da angústia em relação às coisas, quando se tem uma depressão, tem-se também sempre uma tristeza? A ideia que nós associamos à depressão como um momento triste, a tristeza está sempre lá?

Eu disse um sim tão assertivo, porque estou a falar de mim. Eu não sei se no conjunto-

Sim, no seu caso, claro.

Eu não sei se no conjunto é o mesmo que se passa com outros seres que infelizmente passaram ou passam por um dano desses. Porque não é uma coisa por iniciativa, não é uma tomada de posição ou decisão. Sem se dar conta, já estás lá. E por isso eu não te consigo responder, porque eu não tenho mesmo ideia de que resposta pudesse dar a isso.

Quanto tempo é que esteve dentro dessa casca de ovo? Muito tempo? Estamos a falar de meses, anos?

Um ano e qualquer coisa.

Em que as coisas vão crescendo, ganhando intensidade?

Sim. A ideia que eu tenho é que pelos relatos que me são dados. Eu acho que durante, eu não digo a totalidade, imagina um ano e quatro meses, um ano e seis meses a atravessar esta situação. Eu não acredito que ela tenha começado da mesma maneira como acabou. E entretanto, pelos meios, todos eles, fossem eles quais fossem, ele também foi alterando, ou seja, o estado, digamos assim. E eu não te sei dizer, porque Porque é tudo relatos de fora. Eu pessoalmente senti cada vez mais querer o isolamento. Esse isolamento trazia-me a ansiedade e a angústia, deixava-me extremamente nervoso. Começava a ter os chamados ataques de pânico, ter ataques de choro, inclusivamente a pensar nas coisas mais estranhas que o ser humano pensa. Acho que tem essa janela aberta.

A pensar em desistir.

Em desistir, sim. É uma janela que está aberta para todos nós. Essa é a ideia que eu acho que já tinha e hoje, francamente, para mim é assumida. É o livre-arbítrio, tu escolhes bem ou mal. Tu escolhes o bem ou escolhes o mal, ou seja, no sentido figurado ou romântico, eu ponho uma janela. E até porque tens uma janela muito bonita atrás de ti. Mas só salta quem quer. Derrapa-se muito, escorrega-se muito. Tem-se momentos que parecem de grande coragem, no sentido de pensamento. Mas desde o pensamento à concretização de algo que tenha a ver com desistência. Ao mesmo tempo que é uma linha tão ténue, é uma linha que ao estar lá faz-me lembrar, porque é a minha área, televisão. Trinta segundos em televisão, numa branca, parece que é uma semana que não se abre a boca e que não se diz nada. Mas aquilo fica lá. Está presente, tu consegues visualizar, consegues inclusivamente dramatizar a coisa. Consegues guionar. Se eu fizesse assim, assim. A quem é que eu causo mais danos? A quem é que eu causo menos danos?

Quando se pensa em suicídio, porque estamos a falar de suicídio, pensa-se também nisso. E é isso que às vezes pode travar alguém que esteja perante essa ideia, pensar nos danos que vai causar a outras pessoas. Pensou na sua irmã, por exemplo? Já falou aqui dela.

Sim, pensei na minha irmã. Especialmente pensei, no momento em que foi, pensei em três pessoas específicas: pai, mãe e irmã. Apesar de amar a minha sobrinha de paixão, não estava a fazer parte da equação, no sentido de que a intensidade de laço maternal ou paternal estava presente nestas três unidades: pai, mãe, irmã. Até porque ela é mais velha do que eu. Provavelmente eu iria magoar mais pessoas, como é óbvio, ou iria entristecer mais pessoas. Mas eu acho que a dada altura, um dos inputs internos é pensarmos em nós. Eu próprio. Mas queres ou não queres? Vai ser bom ou não vai ser bom? Tu próprio vais sofrer. É tão estranho como uma imagem mais larga, mais abrangente. Eu sofria. Eu estava em sofrimento. Fosse qual fosse, eu não vou agora identificar, porque se calhar eu nem sei identificá-lo. Mas ao mesmo tempo traz outro sofrimento, que é tu próprio ao pensares em querer acabar com aquele sofrimento, mas se calhar estás à procura de um outro para se sobrepor àquele. Tudo bem que ele tem um final mais curto. Porque se formos a vias de facto, fosse qual fosse o sofrimento de tomar essa decisão, ele em pouco tempo eventualmente acabaria. O outro não. O outro era, conforme temos estado a falar, meio duradouro, é intermitente, volta, cresce, desaparece, volta novamente, vem mais intenso, vem menos intenso, chora-se mais, chora-se menos, isolamo-nos mais, isolamo-nos menos.

Esse sofrimento, especificamente, a ansiedade, a angústia, a tristeza, o isolamento e imagino que ao mesmo tempo a solidão, que impacto é que depois tem na vida prática do dia a dia? Era funcional?

Não. É completamente estapafúrdio, como diz a minha filha. Não faz absolutamente sentido nenhum. Daí eu sofrer mais. Conforme disse há pouco, eu não sei como é que eu fiz, mas eu sei que quando era para trabalho, eu chipava-me. Eu conseguia fazer ali uma coisa qualquer, mas com uma velocidade para todos os níveis. Uma velocidade de "onde é que é?" Uma coisa que nós brincamos muito em set: onde é que eu me ponho, o que é que eu digo, o que é que eu faço? Ação. Estou aqui, fiz isto, disse isto. Está feito. Muito obrigado, bom dia. E a minha velocidade de chipar para entrar e fazer, era a mesma velocidade que eu necessitava que quando acabasse, eu saísse, porque eu ali não estava bem. E basicamente era não querer dar o flanco. É uma espécie de uma falsa carapaça. Há carapaças que nos deixam fortes e resistentes a uma quantidade de coisas, independentemente de nós sofrermos um dano qualquer, seja ele emocional ou físico, mas tentamos nos aguentar e ela está lá para isso mesmo, para contrabalançar, para equilibrar. Aqui não, aqui era completamente falsa, porque mal tu me dissesses: "Então pronto, Vítor, está feito. Adeus". Eu antes de sair, ela já tinha ido. Eu já saía sem ela. Eu não a levava comigo.

Essa carapaça, criou-a e vestia-a por quê? Pelo estigma? Porque não queria que as pessoas percebessem?

É provável que seja por aí. Por causa mesmo do princípio daquilo que tu disseste e que eu respondi, que é não quis dar o flanco, não quis dar a parte fraca. Eu sabia que não me sentia bem, mas não queria que ninguém soubesse. Não queria que ninguém detetasse. Não queria que ninguém me dissesse nada. Eu acho que em várias áreas, não sei se isto é uma doença, se é uma debilitação, cientificamente eu não sei que nome chamar, mas há pessoas que em vários momentos da vida, por outras razões, passam por coisas parecidas ou semelhantes. Das coisas mais irritantes que existem pro lado de cá, seja eu ou seja quem quer que seja, é muitas das vezes estar a ouvir coisas com as quais não nos identificamos, com as quais é tão claro para nós: "É tão fácil falar de fora", mas não queres trocar.

Que tipo de coisas?

"Não estejas assim. Sério? Vai espairecer, vai dar uma volta". Dar uma volta? Eu cheguei a sair dias e dias a fio. Hoje não sei como é que seria o preço a que está o gasóleo. Eu acho que tinha ido declaradamente à falência em dois meses. Mas eu cheguei a fazer viagens de me meter dentro do carro e de repente quando dava conta estava em Lagos, estava em Faro, estava em Coruche. Eu cheguei a andar aqui na Marginal, a fazê-la três, quatro vezes. Lisboa, Cascais, Cascais, Lisboa, Lisboa, Cascais, a fumar cigarros. E se tu me perguntares: "Mas lembras-te de mais alguma coisa?" Há poucas coisas que eu me lembro.

Há um borrão nesse período?

Há uma espécie de um borrão. Eu lembro-me de estar a conduzir e querer refletir ou querer fazer introspeção. E a dada altura não é isso que acontece. Cada vez parece que empola mais aquela bolha de veneno. E depois vêm as crises de choro. E depois estás num dos cenários idílicos para os tais pensamentos estranhíssimos. No sentido de mudar qualquer coisa, que é olhares e: "Podia ser ali, podia ser ali, posso acelerar um bocado mais, posso travar, posso guinar de repente". E nunca aconteceu, mas tantas vezes que visualizei tudo. Fiz os meus desenhos.

O trabalho nessa altura era um refúgio ou era uma obrigação?

Era uma obrigação.

Dolorosa?

Muito. Era isto que eu te estava a dizer, era tão estranho. Houve uma altura que morei aqui nos apartamentos do conhecido Hotel Equador. Eu acordava de manhã, chorava à berrante, tomava banho, saía, metia-me dentro do carro, ia trabalhar. Durante o caminho, chorava imenso. Antes de lá chegar, se não conseguisse controlar antes, ficava dentro do carro até tirar tudo de cima de mim, como se fosse pó. Estava um fumador compulsivo e o cigarro estava a ser o escape. Era fumar dois, três cigarros de seguida, parecia que aquilo me trazia alguma coisa. Era entrar: "Bom dia", "Bom dia", "Bom dia", vestir, maquiar, maquiar, maquiar, fazer, fazer, fazer, ir embora, voltar a fazer o mesmo processo. A tentar escapes. Um deles que eu tentei, mas até isso é tão estranho. Houve uma altura que me enjoou. Era a bebida. Eu era capaz de beber aquilo que se calhar hoje durante um mês ou dois não bebo.

Sozinho?

Sozinho.

Em casa?

Sim. Não é há quem diga, é uma verdade. Serve para quê? Na verdade, não serve para nada. É dispendioso.

Adormecia ou durante um bocadinho adormecer no sentido de adormecer essa dor.

Lógico.

E às vezes, literalmente, que também ajuda.

Ora lá está. E nesses momentos, eram os momentos de libertação. O que é que aconteceu? Nada, eu estava a dormir. Isto porque não tinha nada comigo, ou seja, não tinha acompanhamento. Eu não estava com um médico, eu não estava medicado, eu não tinha consultas de psicologia.

E havia alguém com quem falasse?

Não, porque eu fugia. Toda a gente que quisesse falar comigo era por telefone. "Então, está tudo bem?" "Está." Aí é ainda mais fácil, não é? Porque é à distância. Salvo quando alguém queria ou tentava fazer uma videochamada. Mas é fácil desistir da mesma. Uma coisa completamente escorreita de falar simplesmente ao telefone, em que se veste aquela boneca, em que se diz sim, e depois tens 50 mil desculpas. "Então, mas vamos jantar." "Esta semana não posso." Mentira. Podias fazer até três jantares por dia. Podias marcar três jantares, um às 20:00, um às 23:00 e outro à 00:00 e conseguia estar com três pessoas ao mesmo tempo ou juntar as três ao mesmo tempo. Quando eventualmente isso acontecia, acho eu, para um ou outro mais próximo, são conversas redutoras. Redutoras para mim mesmo, sobre mim mesmo, de mim mesmo, que a dada altura ainda ajuda e empola as tais observações do lado de lá, que são feitas de coração, que são feitas com o máximo de atenção e de responsabilidade, digamos assim, porque é essa a vontade do ser humano que está do lado de lá é: sai daí, mas só enterra mais, só carrega.

Porque cria a percepção de "ninguém me compreende, ninguém sabe o que eu estou a viver".

Não.

E ninguém me pode ajudar?

É isso. E mais, se calhar ainda ponho outra coisa. Noutro sentido, eu acho que fiquei com isso um bocadinho. Quando alguém às vezes debita muito texto no sentido de querer orientar ou querer dar uma dica. Está bem, mas diz-me como é que se faz. É um segredo.

E ainda melhor, nos meus sapatos.

Não é? Faz para mim. Se é assim tão fácil, é estalar os dedos, então estala lá os dedos. Olha que bom, estou bem. Não é verdade. E acho que não é verdade, não é só para mim, acho que não é para ninguém, porque não existe essa magia do lado de lá em nenhum outro ser humano. Percebes? De clicar os dedos e pronto, estás curada. Estás bem, podes seguir. Lembras-te de alguma coisa? Não, não é o que acontece. No meu caso, em pessoas em quem depositas mais confiança, que gostas mais, que mais intensidade emocional e sentimental tens.

Que tem mais espera.

Exatamente. Ainda se torna pior, porque a dada altura ficas a pensar: "Então, mas eras tu mesmo. Tu é que tens como resolver isto, porque eu já percebi que não, não sei o que é, não sei porque é, não sei como é que se faz". Não, nada. É um não. É os nãos e os se, eu acho. Fica-se muito nisso. E se? Que é mentira, que nunca traz resposta nenhuma. E o não, que é o tal chavão, que é o princípio da negação. A negação não é só porque se diz não, é o princípio para mim, eu vejo assim. Depois a partir de aí é que é um não declarado. É um não em permanência.

Muito por causa de alguns papéis que desempenhou, sobretudo na televisão, o público tem uma imagem de si de alguém muito bem-disposto, muito simpático. Isso torna tudo pior?

Completamente. Atravessando uma fase destas, que não desejo a nenhum ser humano, aliás, nada de mau eu desejo a quem quer que seja. Já é complicado lidar com isso, porque, como se diz agora, uma figura pública ou alguém que aparece em permanência no quadradinho é um ser humano. Ponto. Tem sangue igual, tem os órgãos iguais, sente quase tudo à semelhança. Depois cada um tem o seu estereótipo, digamos assim.

Dói igual.

É. Já é complicado por causa disso mesmo, porque há dias bons, há dias maus, há dias mais estressantes, há dias em que estamos muito felizes, há dias em que estamos um bocadinho mais tristes, há dias em que fomos magoados, há dias em que magoamos. E isto tudo leva a uma quantidade de pensamentos de resolução, mas estamos no nosso perfeito cenário de máquina de calcular científica. Resolvemos tudo. São equações, nós resolvemos tudo. Aqui não, aqui existe, entre aspas, uma debilitação. "Ok, está a acontecer, então e agora?" "Não sei." E quando tu te começas a fechar cada vez mais, mais complicado se torna, porque cada vez vês menos a luz ao fundo do túnel ou a máquina de calcular científica ou o que quer que seja, ou a cábula para resolver a situação. E isso torna-se intenso ao ponto de levar, sobretudo, para aquelas três situações, que eu acho que são as piores, que é a ansiedade e a angústia, que para mim não são iguais, porque a ansiedade é o que traz, a dada altura, o clique ou a mola para um ataque de pânico. Porque é um palpitar, é uma coisa que não se controla, a dada altura não se controla mesmo. A angústia é mais Na linha da tristeza. É o semblante que fica para baixo, é o não esboçar sorrisos e ter vontade sequer de sorrir. Há uma moscadinha de rabo na boca, eu acho.

Perdeu trabalho por causa disto?

Ia perdendo. Mas mesmo no final, disto ser o Vítor Emanuel sozinho, até alguém deitar a mão ao Vítor Emanuel.

Por que ia perdendo? Porque não conseguia estar funcional? Porque não conseguia corresponder?

Exatamente. Porque eu, dois dias antes de ir concretizar esse trabalho, que já estava fechado e que eu tinha sido contratado, eu tenho o apagão. Dois dias antes.

O que é o apagão?

Eu tinha um amigo ao meu lado, que ainda hoje, se falarem disso ao pé dele, a lágrima calha. Ele achou que eu estava morto. Ele diz que me viu azul. E eu apaguei-me. Eu tive um shutdown.

Foi um desmaio?

Foi um desmaio como eu nunca tive na vida. Eu lembro-me de me sentir mal, dizer a ele que me estava a sentir mal e a partir daí, lembro-me que comecei a vomitar. E depois, a dada altura, eu próprio despejei tudo quanto era líquidos e sólidos que eu tivesse, por todo o sítio onde pode sair, foi por onde saiu.

E isso era uma demonstração física daquilo que mentalmente estava a viver em termos de saúde mental?

Foi o que me disseram. A Tânia Ferreira, que foi a médica que me apanhou, ela me disse que nós somos uma máquina tão especial, tão exemplar, que quando alguns de nós têm a sorte dessa mesma máquina funcionar como funcionou para mim, é a maravilha. É a sétima maravilha, que é: "Ele avisou-te. Uma, duas, três. Ele, o corpo. Então antes que aconteça alguma coisa mais penosa, mais gravosa, eu vou tratar de ti. Queres ver? E desliga tudo. E depois a partir daí é como se fosse uma reaprendizagem".

O que é que aconteceu nesse dia? Tem esse desligamento geral e precisa de cuidados médicos. Teve cuidados médicos logo nessa altura?

Logo manhã. É um processo super hiper rápido. Voltando só um bocadinho, quase ao início. Se eu dava conta ou não dava conta, não, eram as pessoas que estavam de fora, nomeadamente mãe e pai. E a uma altura, mãe é mãe, como se costuma dizer, apertou tanto comigo, que fez de maneira que eu fosse ver a minha médica de família, que já não via há imenso.

Antes desse apagão?

Antes desse apagão. Foi três dias antes. Ou seja, até este apagão, imagina, temos aqui três episódios fantásticos, que são horríveis. Conseguimos a consulta, eu vou ver a doutora Isabel.

Como é que ela a convenceu? Disse-lhe que o Vítor tinha um problema ou foi mais subtil, como as mães às vezes são?

Convencer-me a mim?

Sim.

Da maneira como a minha mãe consegue, neste tipo de situação, dar uma volta, que é pôr a lágrima no olho.

Faz lá isso à tua mãe.

Não é? Pôr a lágrima no olho. Eu não posso estar a fazer isto. Ela não merece.

Mas a sua mãe disse-lhe o que achava que se passava consigo? Disse-lhe que achava que havia um problema? Falou sobre algum dos seus sintomas? Essa conversa, quando há o alerta para: "Olha, tu podes não estar a ver um problema, mas há um problema", é como? É específica, é detalhada?

Não, é muito básico, é muito isso: "Eu acho que tens qualquer coisa e eu acho que tens que resolver, porque aquilo que te está a acontecer e da maneira como tu te comportas e o que se está a passar à tua volta". E porque nós sentimos, porque éramos capazes de jantar três vezes por semana, nomeadamente. Era e é hoje em dia icónico o almoço de domingo. E eu em permanência estava sempre a desaparecer, não estava presente. Entre outras coisas, entre fazer as conversas mais curtas do mundo, que seria um título para um livro ou para um filme. "Está tudo bem?" "Está tudo bem." "Precisas de alguma coisa?" "Não, está tudo bem." "Então e queres falar?" "Não, está tudo bem." "Então?" "Não, está tudo bem. Boa noite." Isto jamais era uma conversa que algum dia eu tivesse tido com a minha mãe ou que hoje em dia eu tenha com a minha mãe. Foi nesta fase que eu tinha este tipo de conversas. E ela conseguiu, sem o fazer de propósito, como é óbvio, conseguiu me levar pelo lado emocional, porque mesmo naquele marasmo todo em que eu me encontrava, olhar para ela e vê-la a chorar e a demonstrar: "Eu não sei fazer nada, eu não te sei resolver a situação, eu não te sei tratar, eu não te sei pôr bem, eu não sei. Vamos lá". E fomos. Fiquei sozinho com a médica, ficamos a falar, falei, falei, falei, chorei. Não pergunto o que é que eu lhe disse Não faço a menor ideia. Sei que saí de lá com um rolo de medicamentos e que ela fez uma análise curta, por carinho, porque eu sei que a Dra. Isabel gostava de mim como ser humano e vice-versa, independentemente dela ser médica e eu ser o que sou. E lembro-me que o meu pai sentou-se comigo, fomos a uma farmácia para aviar a receita. Aviámos a receita. Eu tinha o meu carro ali naquela zona. Ele tinha o carro dele ao pé da farmácia, porque nós tínhamos chegado, porque eu fui com eles. Ele olhou para mim e não proferiu uma palavra. Eu disse-lhe: "Então adeus". E fui-me embora e meti-me dentro do carro e nesse dia comecei eu a tomar as minhas coisas, aquilo que ela tinha dito para eu tomar. E tomei. Não te sei dizer o quê. No dia a seguir-

Mas deixe-me só ficar só um bocadinho nessa consulta. Apesar do borrão, do blur que está em cima desse momento, houve um diagnóstico? Tem ideia de lhe ter sido dito: "Você tem uma depressão, há aqui uma questão para resolver", ou não de todo?

Não, de todo. Imagine, na minha vontade de crer, e eu tenho a impressão que o borrão é por causa disso, na minha vontade emocional de não querer que a minha mãe passasse por aquilo, eu fui. Mas eu acho que estive lá dentro, independentemente de eu conhecer a pessoa e ter confiança com a Isabel. "Despacha lá isto que eu caminho embora".

Então chega com os medicamentos a casa e toma-os direitinho?

Eu penso que sim. A dada altura pus isso em questão. Nunca se conseguiu identificar.

Não sabe se eram ansiolíticos?

Eu sei que tinha antidepressivos, tinha ansiolíticos, tinha SOS. Eu não sei se pode dizer marcas desses todos, até porque depois esse continuou lá mais à frente. Há um que me ficou na memória, que se chama Victan, que era um SOS, que era um sublingual. Depois tinha outro que ficou na história para mim, não te sei dizer o nome, mas era a estrelinha, que era um antidepressivo, esse eu sei que era, que era forte. Tanto que eu depois no desmame, eu tive que chegar até um quarto de comprimido. Não poderia ser a metades nem de um dia para o outro. Só quando fiz um mês ou um mês e meio de um quarto de comprimido é que então eu larguei esse comprimido na sua totalidade.

Então nesse dia, três dias antes do apagão, começa a tomar os comprimidos.

Tomar os comprimidos às horas que eram.

E não teve nenhum problema com essa ideia de agora tomar comprimidos para eu ser maluco?

Não. Eu desde pequenino que me dizem que eu sou maluco. Por isso, eu acho que se calhar por estigma ou não, por tatuagem interior ou não, a história de me chamarem maluco fosse por passar por uma situação parecida ou semelhante, ou algo que tivesse a ver com o parecer louco ou deslocado. Nunca me faz sentido. É como há pequenez. Eu sei que não sou um homem grande. Sou capaz de ter tido o que é chamado agora o bullying um pouco na minha escola primária, mas eu não me lembro de ter algum problema com o meu tamanho muito cedo. Bem resolvido. Sou pequeno. Chego onde os outros chegam. E muitas das coisas eu até achei sempre muito mais divertido, porque eu era muito mais veloz, conseguia me dobrar e baixar muito mais depressa. Por isso nunca fui por aí. O chegar mais alto fisicamente, não se consegue à primeira, consegue-se à segunda, o que quer que seja. Mas voltando à história.

Os medicamentos não eram estigmatizantes.

Não.

Mas não foi contar ou foi contar a pessoas "estou aqui a tomar"?

Não. Eu nunca contei a ninguém. Só depois, no episódio do terceiro dia, é que as pessoas mais perto ficaram a saber e sabiam que depois eu teria que fazer aquele processo, que foi um processo de oito meses ou nove meses. Eu acho que não chegou a um ano.

E ainda tentou perceber quando há o apagão, se os medicamentos podiam ter tido alguma influência, se o podia estar a tomar mal?

Essa foi a questão. Que nunca ficou como eu ia dizer ainda há pouco. Não se chegou a essa conclusão. Devido também ao apagão, que me fez um clean de uma quantidade de coisas, porque a essa primeira toma mal eu chego. Eu sei que depois à noite, isto foi durante o dia, à noite eu teria que fazer uma toma qualquer também, e isso eu fiz. De manhã fiz novamente a toma, depois fiz a toma à tarde. Isto no segundo dia. Faço a toma à noite e quando faço a toma à noite, é nessa altura que estou a sair. E eu ia para um evento para Lisboa, para Santas. Não interessa agora entrar em pormenores. E vou com esse meu amigo. E vamos bem. Paramos aqui nas bombas da A5, jantamos uma coisa rápida chamada McDonald's, bebemos Coca-Cola Chegamos ao sítio, estacionamos, fumámos um cigarro. Eu tenho a sensação que eu aí estava a querer ficar mais solto ou estava meio dopado. Sei que ainda fizemos ali umas brincadeiras e a dada altura avançamos para ir para o espaço e eu faço assim nos bolsos: "Ops, carteira. Abre-me aí o carro." E ele abre-me o carro. Eu fui à porta do pendura, dobrei-me, tirei a minha carteira. Eu gosto de carteiras pequenininhas, por isso meti no bolso, fechei a porta, estou a começar a querer sair do pé do carro e encosto-me ao carro e digo assim: "Eu não me estou a sentir bem". "Não te estás a sentir bem? Mas magoaste-te, entalaste, alguma coisa?" "Não, espera. Não estou a sentir bem." E foi uma espécie de um elástico, de efeito consequência, se assim se pode dizer. Eu sei que comecei a ficar muito nauseado, muito mal disposto. A dada altura tentei encontrar um sítio, porque percebi que era isso mesmo que ia acontecer. Segundo ele me diz, eu vomitei quatro ou cinco vezes, onde a dada altura eu já tinha em putos, porque estava de joelhos ou de cócoras. Tinha em putos que parecia que tinha molas, puxava não saía nada. Era tipo bilis, aquelas coisinhas estranhíssimas e amargas. E a dada altura o meu organismo começou a ficar cada vez pior e eu a dada altura

Desmaiou, apagou.

Apaguei. E depois lembro-me de o ter ao pé de mim. Estava uma amiga nossa, que estava como apresentadora desse evento, que ele agarrou no meu telemóvel e ainda lhe ligou, porque ele sabia que ela estava lá dentro. Para ver se ela conseguia também fazer alguma coisa. Tenho os dois ao pé de mim, a falar comigo. Ela não podia mais porque tinha compromissos. Eu disse: "Não há problema nenhum". Ele ficou a olhar para mim: "Mas como é que é?" Eu não me conseguia mexer. A dada altura começou a chegar mais gente e eu estava mais ou menos visível. Ele chama-me à atenção e ajudou-me a arrastar. Fiquei quase como deitado atrás do carro. Ficámos ali. "Mas queres que eu chame uma ambulância?" "Não quero". Mas queria entrar para dentro do carro, não conseguia. Foi uma azáfama, até que eu consegui entrar dentro do carro e fiquei nos bancos de trás deitado. Ele disse: "Não, eu vou chamar a ambulância". E a dada altura eu estava numa intermitência qualquer, não sei se era pequenos desmaios, o que quer que seja. Sei que passado muito tempo, ele diz que eu tinha insistido variasssimas vezes: "Leva-me para casa". E chegou uma ambulância. Isto era uma sexta-feira à noite ou um sábado. Se este tipo de entrevistas serve para alguma coisa, em questões de passar ou não passares, este apontamento também gostava que servisse para alguma coisa. Nem tudo o que acontece na noite tem a ver com drogas, ou com bebida, ou com más índoles.

Achou que quem o viu naquela situação automaticamente pensou-

Eu tenho uma imagem de estar deitado com a cabeça pendurada nos bancos de trás e ter uma ambulância ao lado e ter alguém assim à janela: "E então, estás bem ou não estás bem?" Eu lembro-me desta imagem e eu acho que isto não se faz. Eu não o faria. Primeiro, porque passa por uma espécie de pseudo julgamento. Segundo, porque acho que se eu estava desequilibrado, ali também existe um desequilíbrio, especialmente sendo quem é e executando a função que tem que executar, que é ajudar, salvar, proteger, digo eu.

Sentiu esse estigma não associado à saúde mental, mas sentiu esse estigma até das pessoas que estavam ali para ajudar.

É. Foi estranho. Até que o meu amigo que estava a perceber e sabe que eu essas coisas, é algo que me faz ferver. Disse: "Não, mas espera lá". Chegou ao pé de mim e eu lembro-me que o agarrei e disse-lhe: "Eu não quero, manda-o embora, leva-me para casa". E fomos para casa. Eu não me conseguia levantar. Eu de cada vez que me levantava ou tentava, parecia que o mundo redopiava à velocidade que ele redopia, mas eu estava a conseguir visualizar. Chegamos ao prédio onde eu morava na altura. Ele ajudou-me a subir, meteu-me no elevador, abriu-me a porta de casa e eu saí cuspido para o meu quarto e conforme entrei, assim fiquei. Depois só sei os apontamentos. Os apontamentos foram: ele ficou na minha casa até às 4:00, 5:00 da manhã, onde eu não proferi palavra nenhuma, onde ele só ia confirmar se eu estava a respirar ou não. A essa altura, porque é amigo da família, ligou para a minha irmã e disse: "Teu irmão não está bem, aconteceu aqui qualquer coisa. Eu já não sei o que hei de fazer, mas eu também tenho que ir para casa. Eu daqui a bocado tenho que ir trabalhar, preciso de ajuda". A minha irmã saiu de casa dela, veio para o pé de mim, tinha um horário um bocadinho mais longo e os meus pais tiveram que ficar a saber também do que se estava a passar, porque a dada altura a minha irmã teve que ligar para os meus pais e disse: "Vocês têm que vir para casa do Mano e têm que ficar com ele, porque eu também tenho que ir trabalhar e passa-se aqui alguma coisa". Quando eles chegaram, eu continuava A imagem que eu tenho é uma imagem romântica. É como se a minha cabeça fosse um saco de plástico com água e tinha um peixinho lá dentro. Por isso qualquer movimento que tu faças, tudo mexe. Por isso, deitado era onde eu estava e era assim que eu tinha que estar. E nesse momento, ou seja, estamos a entrar a caminho do terceiro dia. Eu não me lembrava que depois tinha que ir trabalhar, que tinha esse projeto. Os meus pais ficam comigo, tentam me dar de comer, de cada vez que eu comia, vomitava. Até que a minha mãe lembra-se de me começar a fazer perguntas de mãe: "Mas olha, mas tens compromissos? Tens aí uma agenda? Posso ajudar, ver alguém que se possa ligar ou isto ou aquilo?" Até que a dada altura começo a me lembrar que tinha qualquer coisa. "Tenho qualquer coisa". E lembro-me da pessoa que me contratou e digo à minha mãe: "Agarra no telefone e liga pra ele e diz que vai tudo correr bem, que eu amanhã estou lá, que eu só estou é muito mal disposto hoje, mas que amanhã está garantido", porque supostamente eu deveria estar agora a falar com ele pra combinarmos as coisas todas e acertarmos horários e onde é que era, como é que eu tinha que ir, se eu tinha que levar alguma coisa extra ou não. E a minha mãe liga. E eu sei que ele não o fez por mal. Isto é o que a minha mãe me conta. Começou a querer falar com ele pra explicar: "Olhe, veja lá com o Vítor, coisa não sei o quê". Ele: "Mas o que é que se passa?" Até que do lado de lá, entre aspas, salta-lhe a mola, diz assim: "Mas você não está a fazer um trabalho de mãe". O qual a chocou a ela. Mas ainda bem que ele o fez, porque isso causou este input em duas horas, que foi a minha mãe ficar nervosa, perceber o que ele queria. Eles falaram e que era o quê? Ambulância já. E ele vai já pro hospital, não se sabe o que é, mas a parte profissional dele era: "Eu preciso desse homem amanhã". Ponto. E era um trabalho grande e estava muita coisa em questão, não só financeiramente para todos, mas no sentido profissional, estava muita coisa em jogo. E passado duas horas, tenho a ambulância à porta. E eu entrei no hospital de Cascais à uma e qualquer coisa, sete horas da tarde, e saí depois às quatro da manhã, qualquer coisa assim do gênero, já pelo meu pé. Tinha ligeiros ataques de pânico. Não sentia ansiedades, não sentia angústias, mas já estava a ser medicado, mas tinha pequenos ataques de pânico. Então como é que eu fui trabalhar? Fui trabalhar no outro dia de manhã, banhinho tomado, barbinha feita, o meu pai a conduzir, a minha mãe atrás de mim, a dar-me a mão e eu sossegadinho e a concentrar no caminho todo pra onde é que ia, chegar-se, ir buscar um bocadinho daquela carapaça, que também já era meu apanágio, e começar a trabalhar. Os meus pais ficaram o tempo que puderam. Isto foi num espaço aberto e num espaço comercial grande. Então de quando em vez, imagina estarmos a trabalhar aqui, mas alguém daquele lado poder ver. Então passavam pra eu saber que eles estavam lá.

Dava pra estarem sem serem demasiadamente impositivos.

Exatamente. Só pra me darem segurança. E eu a aplicar-me, a fazer as coisas. E depois quando eles já não puderam mais, eles tinham que sair, tinham que sair embora, veio a minha sobrinha. E tenho imagens brutais de filme de cinema. Tinham uns tapetes rolantes e umas escadas rolantes, e de vez em quando lá vinha ela e fazia-me assim, tipo: "Pró tio. Tio, eu tô aqui. Eu sei que sou mais nova, mas eu tô aqui".

Que idade é que tinha na altura o Vítor?

Isto foi há 11 anos, por isso tinha 39, 40. Por aí. Porque eu tô com 50.

Não se nota nada.

Obrigado. Não, foi algures por aí. Teve de ser 11.

Esse momento absolutamente extremo foi o início da sua cura.

Foi, porque eu sou salvo, como eu costumo dizer. Aliás, nós fizemos amizade. Adoro a Tânia Ferreira, que foi ela que me apanhou.

No hospital de Cascais, quando vai de ambulância.

No hospital de Cascais, mais nova do que eu. Sabia precisamente o que é que estava a falar. Nós fizemos amizade. Ela chegou a ir já ver espetáculos meus. Eu cheguei a ter logo no início muitos convites. Eu vinha aqui ao hospital, até porque sou aqui da zona. Sou daqui, não moro aqui na zona. Ia almoçar com ela, almoçávamos lá na zona dos médicos e tal, lá no refeitório deles.

E ela quando o apanha na urgência, percebe que aquilo não é só um problema físico, uma indisposição, uma gastroenterite, uma coisa qualquer, não é?

Ela tirou a bitola, como eu costumo dizer, quando falou com a minha mãe. Porque comigo ela só falou depois de. Mas quando eu digo depois de, já lá muito mais à frente. Eu depois de chegar ao hospital de Cascais, eu tenho ali um momento, por exemplo, em que eu não sei se me apaguei ou se me puseram a dormir. Eu sei quando acordei, eu tinha intravenosas com medicação e eu não sei se estava a desidratar-se ou não, porque até houve uma altura, cada vez mais próxima disto, eu cada vez comia menos. Eu cheguei a 59, 60 quilos, que pra mim, que Que fui desportista até aos 25, 26, era impensável. E mais, com a maturidade da idade, não é maturidade emocional, mas de idade. Ou seja, eu já não era um jovem, já não tinha 20 anos, por isso também tens alguma tendência a ganhar um bocadinho mais de peso ou isto ou aquilo. Eu nunca tinha estado assim. Aliás, eu lembro-me quando entrei nesse projeto que estávamos a falar, durou quatro dias, não chegou a uma semana. Eu tinha o guarda-roupa todo escolhido por mim, porque tinha sido antes, já tinha havido provas. E se as coisas me estavam em bom, ficaram-

Largas.

Largas. "Mas trocaram o casaco dele?" "Não, mas agora era o blazer." "Não, mas ele agora tem que fazer isto com este casaco, depois a seguir é que é o blazer." "Mas está bem, se calhar o casaco, mas veste lá o blazer." "Mas o blazer está igual." Coisas dentro deste género. Ou seja, onde a manga, porque estava mais franzino, as camisas que em vez de ficarem justinhas, já parecia que estavam largaronas. As calças que não necessitavam de cinto, tinham que levar cinto. Foi incrível.

O que mudou a partir desse dia? Vamos falar, por exemplo, no tratamento. Continuou a tomar os mesmos comprimidos que tinha começado a tomar? Houve algum ajuste?

Não.

Passou a ter um acompanhamento mais especializado? O que aconteceu a partir daí?

O que aconteceu a partir daí foi a felicidade desta Tânia, que deu direito à amizade e que a dada altura, quase que houve uma terapia psicológica em relação à coisa, porque de quando em vez nós falávamos, falávamos ao telefone, encontrávamo-nos. Eu cheguei a vir aqui ao hospital, como estava a dizer. A medicação, pontualmente, poderia ter sido ou não acertada. Não consigo especificar agora porque não me recordo. Mas a coisa começou a funcionar muito bem para o meu lado. Ou seja, os ataques de pânico era a única coisa que de vez em quando me dava. O resto, não, o resto eu comecei a desenvolver. Ou seja, eu ao final de um mês, dois, comecei a aceitar um convite para jantar.

Porque se sentia com mais energia, com menos angústia.

Com menos angústia.

O que se começa a sentir quando se começa a fazer um tratamento para uma depressão? É o quê? Começa-se a sentir que eu hoje, se calhar, sou capaz de fazer isto. É isso?

Eu acho que ainda é mais interior, que é, no meu caso, eu nem dava conta. Hoje, se calhar, até consigo fazer isto.

Eu estou a fazer isto. Estou para fazer isto.

Está bem. Como se diz bem depressa, e não passar cartão. Telefonavas-me: "Olha, Vítor, estou a pensar, queres te encontrar? Vamos jantar." "Está bem." Ops, eu disse está bem?

E demorou muito tempo? Tem noção disso? Eu sei que já passou muito tempo, mas tem noção do tempo?

Um mês e qualquer coisa, até este tipo de coisas, eu começar a degustá-las, sem saber que as estava a degustar. "Oi, está a acontecer qualquer coisa." E depois, a dada altura, passou a ser uma normalidade. Mas não podia faltar a medicação. Houve, pontualmente, aquele dia em que nós não fazemos no horário certo ou que havia o esquecimento, e aí eu sentia uma espécie de um travão de mão. Literalmente, "oi, aqui um peão, por quê?"

E nunca fez de propósito?

Não.

Às vezes há a tendência de pensar: "Estou bem, se calhar não preciso tomar isto". Nunca lhe aconteceu?

Não, porque antes de eu chegar a uma fase dessas, tive estes qui pro quo.

Que o avisaram.

Que me avisaram: "Não podes". Tu já viste. É que é do dia para a noite. Tu deitas-te esquerda e acordas completamente direita. É mesmo: "Vítor, não faças". E lá fui e não fiz. A estralinha, como eu lhe chamo, era o comprimido dos meus sonhos, que era o comprimido que eu nem dava conta. Isto acontecia, por exemplo, era um comprimido de toma noite, a seguir à refeição. Às vezes eu estendia só um bocadinho mais, porque como já estava bem, imagina se estivéssemos aqui a falar, mas chegava àquela altura: "Espera, tenho que ir tomar a estralinha". Ia tomar a estralinha, e eras tu que me dizias no dia a seguir: "Tão giro". Estavas a falar e de repente . E eu adormecia.

E nesse tratamento bastaram os medicamentos ou fez terapia mesmo? Ou bastava-lhe a terapia que ia fazendo com a médica com quem acabou por fazer?

Bastou. Para mim bastou isso.

Mas sentia que às vezes as conversas eram terapia?

Sim, eu percebia, até porque havia sempre o momento em: "Então e agora diz-me lá. E estás-te a sentir bem? Como é que está a tua cabeça? Pensas para ali, pensas para acolá? Em relação àquilo que estás a tomar, lá mais à frente, sentes que se calhar agora eram dois, se calhar só um. Este aqui passamos para metade. Se calhar este já não está cá a fazer nada, queres experimentar aqui uma semaninha para ver se a coisa funciona ou não funciona? Olha, como é que estás com o Victan?" O Victan está no bolso. Porque eram os ataques de pânico, os ataques de pânico eram terríveis.

Era aquele que tomava em SOS.

É, os ataques de pânico eram terríveis.

E quando chega o momento de deixar Todos os medicamentos? Dá medo?

A mim não me deu, porque estava na fase da minha vida de mais uma mudança, de mais um extra, de mais um inserimento no meu hardware, que é a mãe dos meus filhos. E pouco antes de eu acabar com a medicação, houve um bater de pestana, porque eu já ia a jantares. Porque eu já ia a jantares. Tão engraçado. Porque senão eu acho que não tinha acontecido nada. E foi uma das pessoas que quando começou a haver o interesse mútuo de que se calhar iria existir uma relação, teve que haver partilha de coisas.

"Eu estou a passar por isto".

"Eu venho daqui", tipo o gás. "Eu venho daqui e vou para ali, mas vou para lá". Isto já era eu a fazer a brincadeira. Eu tenho muito esta mania, às vezes, para fugir às coisas.

A vida levou ao buraco onde esteve, mas também foi essencial quando voltou a acontecer a vida para sair desse buraco. Conjugou-se tudo nessa altura.

É uma maneira de ver, e é uma maneira muito bonita e se calhar a mais prática e a mais valiosa ou a que mais validade tem ir por aí.

Mas porque fez o seu próprio trabalho?

Eu acho que numa determinada altura, sim, eu fiz o meu trabalho. E o meu trabalho foi o quê? Foi no shutdown e no apagão. Eu quando me reergui, comecei por aceitar tudo aquilo que me era dito, nomeadamente pela Tânia. Quando a Tânia chegou ao pé da minha cama, a um determinado momento, para me tirarem as intravenosas e para fazer uma pequena conversa comigo, que não te sei dizer o que foi, mas sei que foi uma pequena conversa. E que antes de me dar alta, ou seja, lá mais à frente, imagine se calhar isto meia-noite, uma coisa qualquer assim do gênero, depois às 04:00 ou às 05:00, porque a dada altura os meus pais tinham avisado, nomeadamente a minha mãe: "Ele tem que ir trabalhar". Quase como se fosse uma cortisona da vida ou um ópio da vida. "Dêem-lhe qualquer coisa, ele depois pode cá voltar", mas de repente a ideia era safar isto. E é verdade que no meu meio nós às vezes fazemos estas loucuras. Tanto a nível físico como a nível vocal, embora lá resolver isto e que aí-

Como a infiltração nos futebolistas. É uma infiltração rápida.

Deixou o muscle on, embora lá, mas depois às vezes os dividendos não são bons a colher. Mas nós fazemos isso. E a dada altura, tenho a impressão que este era o cabeçalho de menu é: "Dê lá aí uma bomboca, ponha-o lá assim, ele vai, depois ele volta cá e depois a gente trata disto". Mas não, a coisa correu bem e ela quando me deu alta, disse: "Isto que eu te vou passar é uma prescrição, tem que ser feita como deve ser. Tu não podes levar isto a brincar. Isto não é brincadeira. Tu tiveste este aqui", é quando entra a tal explicação que eu dei há bocado. "Tu tiveste uma felicidade fantástica e maravilhosa, no bom sentido e para o lado bom, que foi, ele avisou-te, ele foi teu amigo, foi devagarinho. Quando tu já não quiseste, ele impôs a sua vontade, mas também te correu bem, porque podia ter sido..." Imagina que aquilo me acontece, era eu que ia conduzir. Os danos podiam ter sido complicadíssimos. Imagina que eu estou encostado a uma varanda, uma coisa qualquer assim do gênero. Tudo aquilo que me tinha passado pela cabeça, whatever, o que quer que seja. Naquele momento, sem eu querer, a coisa podia se dar. Imagina que eu venho a descer umas escadas. O que quer que seja, tudo podia ser completamente diferente. Caso eu, que sou eu, o meu segundo eu, o meu interior, assim: "Eu vou tratar de ti, que é gerir. Gosto tanto de ti que te vou apagar as luzes". E apagou.

Porque levou tudo tão a sério a partir daí, foi isso que foi fazer o seu trabalho.

Levei a sério o que ela me diz. "Toma a medicação, vamos falando. Depois se quiseres mais coisas, coisas extras no sentido de acompanhamento". Imagina, umas consultas com terapia, psicologia ou psicoterapia ou o que quer que seja, ou até meditação. Só que depois a dada altura eu pensei assim: "Não".

Não era o seu caminho.

Não era o meu caminho. Isto está a funcionar. Quando entramos naquela parte que é engraçada, que estávamos a falar que é: "Olha lá, e destes não queres tirar um? Queres experimentar só esta semaninha? Só para veres como é". E depois isso a dada altura é uma alegria, porque é quase aquela imagem que tivemos ainda há bocado. Tu ligavas-me assim: "Está bem, que horas?" Quando desligávamos. Eu disse assim à Sara: "Oi". Porque supostamente, imagina, no último ano e meio ou um ano e quatro meses, se calhar fizeste-me quatro convites.

Sempre com "não".

Não. Eu próprio sabia que tinha negado. Assim: "Olha, deixa ir".

E agora? Tranquilamente ou aprendeu que convém sempre manter um olho por cima do ombro? Não vá alguma coisa destas voltar a acontecer.

Nunca pensei nisso, que é engraçado. Mas é provável que no meu subconsciente eu faça algo assim do gênero.

Está atento a sinais seus? Está atento em não se colocar em determinadas situações?

A segunda. Eu acho que essa é que foi uma das grandes aprendizagens. Já era uma das coisas que eu gostava: não dar importância demasiada às coisas que não me interessam, às coisas que eu não gosto e às coisas com que eu não concordo. Todas elas, no sentido de eu me conseguir defender e conseguir manusear o que digo e por que digo assim. Não é de corpinho bem feito e é porque sim. Não, eu não me meto numa confusão, ponto. Mas não me meto numa confusão porque não gosto de confusões, não gosto de gritos, não gosto de confronto físico, não gosto de confronto verbal. Não gosto, ponto. Se tenho o meu direito de escolha, o meu direito de escolha é: sai fora. Não quero. "Mas podias." Não. Para criar, para construir, para edificar, eu não preciso de entrar numa frente dessas. Eu consigo fazer de uma maneira muito mais brilhante, harmoniosa, muito mais satisfatória, muito mais sorridente, com a tal imagem que ainda por cima, como já tu disseste, tu és conhecido como o brincalhão, como o bem-disposto. Então não quero. Faz lembrar um bocado aquela história de clown: "Olha que giro, estás a ver este abismo? Salta que eu depois vou a seguir". E o palerminha saltou. Pronto, já não volta. Não, eu não quero isso para mim. Eu não quero. Então não estou. Salvo raras exceções, no sentido que realmente, naquilo que está ao teu alcance, tu teres que intervir para segurança de terceiros ou por uma coisa qualquer. Agora, ir à procura, não, não quero. Isso e outras coisas. Por exemplo, eu sei que lido mal com uma coisa que é comum a quase todos os mortais: a falta de poder. A falta de poder, de resolução. Eu posso resolver para mim mesmo, virando costas ou não, tentando intervir fisicamente, no sentido de, por exemplo, trazer livros para aqui.

Mas esse poder é sempre limitado.

É limitado, é redutor. Vou-te dar um exemplo. Lido mal, foram quase duas noites sem dormir. O que aconteceu com esta menina, com a Jéssica. Mas aquilo que aconteceu com a Valentina, aquilo que aconteceu com 300 mil crianças, se calhar só neste país. Não estou a descurar dos outros. Ainda agora saiu uma notícia daquele menino que fez mudar a lei na Inglaterra devido aos maus-tratos. Violência gratuita, monstruosa e bárbara para com uma criança que de repente fica sem pernas. Este tipo de coisas faz-me confusão, mas eu não tenho poder. Não tenho poder de resolução. Vou falar. Eu falo, faço um post, faço uma carta aberta, mas às vezes ainda me revolta mais, porque não faz nada. Ou por outra, eu não vejo acontecer nada. Estamos no século XXI. Sou pai. Mesmo não sendo pai, coisa que já me faria confusão, porque sempre fez.

O fato de ser pai, entretanto, que não era naquela altura, também lhe deu uma espécie de nova razão para não se permitir voltar a passar por aquilo?

Aí potenciou. Foi o milagre dos milagres. Mas isso eu vi, mal a minha Noah nasceu, eu tenho a impressão que ao final de uma semana, eu olhei para mim mesmo no espelho, como se costuma dizer: "Tu não és o mesmo". A dada altura, eu interessei-me tanto, mas isto acho que é do senso comum e eu já ouvi relatos parecidos ou semelhantes. Eu quando soube que ia ser pai-- há uma frase, não sei se é popular, se é só gíria, que é: "Queres ver que tu agora também estás a sentir as dores e o parto da mulher".

Também engravidou.

Eu engravidei. Eu tive más disposições, eu tive dores nos rins. Para tu teres uma ideia, a última ecografia que a Noah foi fazer, a barriga estava, paia, assim deste tamanho. Íamos ver a última ecografia da Leonor. E eu saí de casa e disse: "Não, eu conduzo". E a dada altura, quando cheguei ao carro, começou-me a doer tanto que eu andava mais grávido do que ela. Foi ela que levou o carro para o hospital, foi ela que me ajudou a sair do carro e fomos os dois fazer a ecografia. E ela é testemunha. Aliás, a médica quando viu assim: "O que se passa?" E ela a gozar comigo. "Não sei, doutora, se calhar também deve ser agora, deve estar a última semana, deve ser mais dia, menos dia".

A paternidade é então uma coisa que o muda e que o deixará mais atento para isto não acontecer de novo.

Não posso. Há quem acho que não concorde muito com aquilo que eu vou dizer agora, mas para mim faz parte tudo aquilo que essas pessoas eventualmente possam dizer, faz parte também esta parte que eu vou dizer agora, que é: eu tenho um dever para com aqueles dois seres. Eu tenho o dever de os guardar, de os salvaguardar, de os fazer crescer, de os levar até onde eu puder e até quando eu puder.

E isso obriga-o a cuidar de si.

Porque senão acontecem coisas tão terríveis como aquela que eu falei ainda há pouco e dentro desse espectro acontecem mais uma quantidade de derivados. E se eu os quis, é para isto, por isso eu tenho esse dever para com eles.

Muito obrigada.

De nada.