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Quando as suas obsessões e compulsões começaram, mas ainda não tinham o nome, o que eram pra si?
Eram personalidade. Era a minha maneira de ser, porque quando começaram, nem era bem isso. Porque quando começaram eu era muito pequeno. É algo com que eu já lido desde pequenino.
Que idade é que tinha?
Sei lá, as primeiras recordações de algumas obsessões ou ideias com traços obsessivos já talvez seis, sete anos.
Ali na primária.
Sim.
Início da escola.
Sim.
E era exatamente o quê? Ou não era claro?
Não era muita coisa. Podia ser tudo e podia ser nada. Eu lembro-me, por exemplo: há pouco tempo a minha irmã contou-me uma história que eu não tenho recordação, que é desse período, e revela já muito os traços obsessivos. Eu morava nos Olivais, eu cresci nos Olivais em Lisboa. E era um bairro que nos anos 80 tinha uma forte comunidade de toxicodependentes que andavam pela rua, e cruzávamo-nos muitas vezes. E há um dia que eu chego a casa e começo a dizer à minha irmã que tinha encontrado uma seringa na rua e comecei a questionar se estava contaminada com alguma coisa, se estava doente, se aquilo me ia fazer mal e se poderia manifestar-se alguma coisa mais tarde, mas com um pormenor: eu nunca toquei na seringa. Eu nunca tinha tocado na seringa. Só que, como eu era tão pequeno, deixei a minha mente divagar, nem sequer pus em causa a lógica. E isso era já um traço obsessivo. Lembro-me de outras situações, porque eu sempre tive muitas questões relacionadas com contaminação, e infeções, e doenças. Eu lembro de uma vez de ter achado que pisei uma mancha de sangue no chão, na rua, e ir pra casa.
Achou que pisou, não pisou necessariamente.
Não sei. Agora já não sei, como é óbvio, que isto era um puto, mas na altura achei que seria. Mas a grande questão é que isto é a doença da dúvida, portanto a verdade nunca é encontrada, porque sendo isto a doença da dúvida, a partir do momento que eu coloco uma hipótese, pode ser qualquer coisa. Eu posso dizer: "Isto não me parece uma mancha de sangue", mas se me aparece aquela questão "e se é?", porque eu não tenho modo de confirmar se é ou se não é. E com isto pode ser outra coisa qualquer, eu nunca tive esse hábito, mas as pessoas que verificam várias vezes o gás, que verificam os pneus dos carros, a porta.
É sempre um "e se".
Pode acontecer isso. Há sempre um "e se". Fechaste bem? E se não fechaste bem? E a pessoa volta atrás. E agora, se por teres fechado, achaste que tinhas fechado e afinal abriste. E é um jogo mental muito cansativo, é uma pescadinha de rabo na boca.
E nessa altura em que ainda era muito pequenino, mas essas ideias fixas já andavam por aí, eram umas fases, eram umas coisas muito prolongadas, era permanente? Por exemplo, essa ideia de "eu vi uma seringa e será que eu tenho um problema?", isso pode ter lhe ficado na cabeça durante quanto tempo?
Eu acho que por ser criança, as ideias nunca se manifestavam durante muito tempo. Porque me entretia. Entretia-me com outras coisas, brincadeiras, brincava, tinha a escola. E a minha própria construção mental, o meu próprio desenvolvimento intelectual e mental, se calhar, não era o suficiente para eu ficar preso naquela ideia durante muito tempo. E como não era uma coisa que envolvia repetições, porque eu conheço casos de miúdos mais pequenos que já estão um bocadinho presos nesse registo das repetições ou de bater três vezes numa porta, ou seja onde for. Como eram mais registos de contaminação, eu tenho ideia que eram espaçados no tempo e podia variar, sei lá, não sei, não tenho ideia de quanto tempo é que variava. Sei que a pancada, como eu costumo chamar, a pancada mais forte que eu tive quando era pequeno, deve ter sido aí por volta dos sete, oito anos, em que há uma senhora que na televisão, ou melhor, na altura nós tínhamos a RTP um, RTP dois, e há uma vidente que se lembra de dizer que o mundo ia acabar nesse ano e passado um mês. E a RTP, como não havia nada para dar de notícias, lembrou-se que era bom publicitar, fazer uma notícia com o tema. Aquilo afetou-me de tal maneira que eu fiquei por aí um mês sem conseguir comer. Eu não conseguia engolir, porque eu próprio comecei a entrar num registo que também é muito típico, que é: e se eu me engasgo? Se eu me engasgo a comer? Se eu não consigo comer e se a comida fica aqui? Então entrei no registo de só comia iogurtes.
Coisas fáceis.
Coisas fáceis, e isso foi muito penoso para os meus pais, que não sabiam lidar com aquilo.
E contou à sua irmã da seringa, mas tinha esse hábito quando tinha uma ideia fixa, por exemplo, essa questão da vidente, partilhava com as pessoas da sua família?
Eu acho que partilhei, só que nos anos 80 ninguém tinha ansiedade Era esquisitinho. Ninguém era obsessivo-compulsivo, era parvinho. E eu entrava muito nesse registo. Entrava muito no registo de: "Epá, não penses nisso", que é a pior coisa que se pode dizer a alguém que sofre ou que lida com questões de ansiedade ou qualquer transtorno mental. Porque ninguém consegue fazer isso.
Quando começa por dizer que quando ainda não tinha o nome, era a sua personalidade, era aquilo que o António pensava ou que os adultos à sua volta pensavam?
Como eu não falava com ninguém, e depois fui crescendo, as ideias eram só minhas. Portanto, na realidade, eu achava que só eu é que era assim. E acho que misturava muito com a possibilidade de ser a minha personalidade. E por isso é que eu costumo dizer, aliás, é o título do livro que eu acabei de escrever, que se chama "Todos nós somos estranhos até percebermos que isso é normal". Porque se eu estou fechado nos meus pensamentos, se eu estou fechado nas minhas obsessões, nos meus medos, nas minhas ansiedades, se eu não partilhar isso com ninguém, é muito fácil que eu entre num registo de "eu sou maluco" ou "isto é meu", ou "eu sou assim". E não são, a pessoa não é assim. Simplesmente, a pessoa não partilha as suas ideias, não partilha os seus medos e não percebe que há mais pessoas que estão a passar pelo mesmo, provavelmente.
Que impacto é que isso teve na escola, por exemplo, na relação com as outras crianças? Tinha algum impacto?
Eu acho que não.
Como depois se entretinha com outras coisas e era só mais uma criança?
Eu acho que não, porque eu guardava muita coisa. Há muita coisa que eu vivi para mim, só. Eu era sociável, era o palhaço da turma, como é óbvio. Era brincalhão, era um aluno razoável. Eu acho que guardava muito para mim, eventualmente para a minha irmã, que era a pessoa com quem eu falava mais. E eu acho que até à faculdade, a coisa manteve-se mais ou menos discreta.
E sempre igual? Ou seja, eram sempre o mesmo tipo de ideias, de fixações ou o mesmo processo?
O processo é sempre igual.
Era sempre igual.
Eu acho que os processos são sempre iguais. O meu, com as minhas obsessões. Outra pessoa pode variar a obsessão, mas o processo é sempre o mesmo, que é a obsessão e a necessidade de querer responder a esta obsessão, a compulsão. A necessidade de procurar a resposta. Portanto, sei lá, já tive ideias de tudo, de contaminação, já tive ideias de tudo, porque parte sempre dessa premissa muito volátil que se chama "e se". A partir do momento que a gente coloca o "e se", abre a porta a tudo.
Mas quando vai ficando mais velho e, portanto, também já não é uma criança que se entretém com outras coisas e já tem uma consciência diferente sobre si próprio, fica mais difícil? Começou a ser mais difícil lidar com aquilo que lhe estava a acontecer e que não sabia que era normal, afinal, tendo em conta que outras pessoas teriam o mesmo?
Ficou, porque eu não gosto de dizer e acho que eu não sou obsessivo-compulsivo, nem sou ansioso, nem tenho depressão. E eu acho que todos nós somos uma construção de várias coisas. Todos nós fizemos um caminho que resulta num conjunto de experiências e essas experiências traduzem-se também em emoções e sentimentos, em transtornos, em mágoas, cicatrizes e muitas coisas boas, como é óbvio, também pelo meio do caminho. O que eu quero dizer com isto é que as questões da ansiedade, às vezes, a ansiedade não estava diretamente relacionada com o transtorno obsessivo-compulsivo. Tal como eu acho que o fato de eu ter tido uma falta de estrutura na minha família, resultante de várias questões, também contribuiu para que eu procurasse esse equilíbrio de outras maneiras e compensasse, por exemplo, através das obsessões, que é uma forma de eu tentar controlar. Portanto, eu acho que nós somos isto ao longo da vida. E eu quando cheguei à faculdade, tinha pedacinhos de várias coisas e começou a tornar difícil controlar, porque obviamente eu entro para a faculdade e entro para um mundo novo. Entro com uma responsabilidade diferente, começou a aumentar a ansiedade. A ansiedade começa a criar a necessidade de controlar. E então eu comecei a entrar num registo em que basicamente eu já quase que não saía de casa. Não conseguia sair de casa porque eu não era capaz de andar de autocarro, com medo de contaminação, de tocar nas coisas. Jantar fora era muito confuso porque verificava se o talher estava tudo limpo, se estava tudo organizado e se não estava, e do que é esta mancha e por que isto é uma mancha e por que isso só acontece comigo. E então entrei de tal forma, de um modo que me cansou de tal maneira que eu baixei os braços e percebi: "Eu tenho que procurar ajuda". E foi a primeira vez, para aí aos 18 anos, que fui ao psicólogo.
Nessa altura, houve alguém, que não o próprio António, que tivesse percebido o que podia estar a acontecer e que tivesse falado consigo sobre isso ou teve que ser mesmo um processo muito pessoal?
A minha irmã esteve sempre presente, porque a minha irmã está ligada à área da saúde, mas embora eu acho que ela também, porque não se falava. Eu acho que ela também não soubesse o que era. Mas obviamente, num dia de desespero que eu não consegui sair de casa, eu liguei à minha irmã a chorar, a dizer que eu não era capaz de sair de casa por essas situações. Foi a ela que eu liguei e eu percebi que precisava de ajuda. Mas esse processo acho que é sempre muito pessoal. É uma coisa que tem que partir da pessoa quando a pessoa começa a perceber que a sua vida está limitada de alguma maneira. Porque traços obsessivos todos temos. Sei lá, qualquer pessoa que está aqui presente nesta sala pode arrumar as cuecas por ordem pela cor e isso traz-lhe tranquilidade e não há problema nenhum. Agora, se ela sente que isso lhe limita a vida, se passa três horas a organizar as cuecas e as gavetas todas, ou se não é capaz de sair de casa sem fazer isso, isso aí já começa a apresentar um limite à sua própria organização do dia. E eu estava nesse nível, eu não me conseguia organizar, eu já não saía de casa e essa decisão, obviamente, teve que ser minha. Teve que ser minha de procurar ajuda.
As suas ideias fixas tinham sempre a ver com dano para si próprio ou para os outros?
Tive a ver com tudo. Já tive com dano a mim próprio, com os outros. Eu sei de onde é que vem, da minha história. É curioso. Eu consigo relacionar com a minha infância e com a história da minha família, porque é que eu tenho estas questões e cada um terá a sua própria história. Mas eu já tive, por exemplo, há uma muito engraçada, que eu acho piada às coisas agora, como é óbvio. Mas por volta dos 18, 19 anos, eu já tinha namorada, a Catarina. Nós já somos pessoas muito velhas. E eu não sei por quê, eu lembrei-me de um corte de cabelo que tinha feito há não sei quantos anos.
E o barbeiro cortou-lhe um bocadinho da orelha.
Me cortou a orelha. E isso, de repente, é um pensamento perfeitamente normal, mas de repente surge aquela vozinha chata que coloca a questão do demo, que é: "E se? E se aconteceu isto?" E eu sei que não é um pensamento real, provavelmente nem sequer plausível, mas a questão está lá. Nós temos tendência para atribuir significado aos nossos pensamentos.
Foi a ideia que podia ter apanhado uma doença infecciosa.
Sida, provavelmente.
Sida. Com esse corte.
Com um corte que ele me tinha feito, porque depois as associações, os estereótipos todos envolvidos, porque eu vivia nos Olivais, portanto era um bairro com muita gente esquisita.
Ligar com a seringa.
E com a seringa, portanto, muita gente esquisita e aquele barbeiro também vai lá muita gente esquisita, portanto alguém podia ter ido antes de mim, ser um toxicodependente. A cabeça tem muito... A criatividade é uma coisa incrível, para o bem e para o mal.
E isto preocupou-o quanto tempo?
Esta foi a questão que-- eu contei isto à Catarina, na altura, e ela obviamente estranhou. Ela não sabia lidar com isto, tal como eu não estava a saber, ela também não sabia. E ela estranhou a questão.
Nessa altura já tinha diagnóstico ou ainda não?
Não. Só tive diagnóstico aos 26, 27 anos, por aí. E a Catarina estranhou e não lhe fazia sentido a ideia, mas aquilo todos os dias estava na minha cabeça, porque depois começa a juntar-se a ideia de: "E se eu tenho? E se já contaminei a minha namorada? E se já contaminei mais pessoas? E eu treino, eu pratico artes marciais. Às vezes corto-me, às vezes há sangue misturado, eu não sou capaz. Tu estás a ser irresponsável". Tem muito o peso da responsabilidade. E obviamente, o que eu tive que fazer? Tive que fazer exames. E aqui há um pormenor muito curioso das questões da perturbação obsessiva compulsiva. É que eu fiz os exames, os exames obviamente vieram negativos, estava tudo bem, saúde espetacular. E há um momento de tranquilidade muito breve e começam a surgir logo outras questões. "E se o médico se enganou?"
"Isso não é o meu sangue".
"Isso não é o meu sangue". "E se só se manifesta daqui a ainda mais tempo?" Ou seja, aqui está a prova de que a questão não é a situação em si, é o modo como eu estou a lidar com ela.
E também não há uma resposta racional.
Sim, não é racional.
Há uma resposta racional no papel e não serve.
Sim, mas isso, o racional, não entra na equação. Porque isso é a mesma questão de alguém que acha que, como eu conheço, que tem que tocar três vezes numa parede, porque senão alguma coisa de mal vai acontecer. E isto causa extrema ansiedade e a pessoa em si sabe, obviamente, que aquilo não faz sentido nenhum, mas está lá a questão. "Mas vais arriscar? E depois se não bates e acontece alguma coisa e a culpa é tua", e a pessoa não é capaz de colocar isso em risco, porque a ansiedade que causa é tanta, o não fazer a ação é de uma ansiedade extrema. Então prefere manter aquele ritual que lhe traz calma. Só que isso aí depois começa a aumentar. Começa a aumentar as situações. Se tu fizeste isto para esta situação, se calhar é melhor fazeres também para aquela, porque senão também pode acontecer alguma coisa de mal. E assim, por exemplo, em relação ao meu caso, é que eu fui evitando situações. Evitava o autocarro, evitei o metro, começava a evitar sentar-me num banco na rua, começava a evitar estar em sítios com muita gente.
Até não sair de casa.
Até não sair de casa.
Sendo que podias estar em casa e a casa também tornasse um problema.
Obrigadinho, por me estares a lembrar isso agora. Muito obrigado. Sim, é óbvio.
E quando é que chega finalmente o diagnóstico? Vai a um médico? É um médico de família? É um psicólogo?
Isto foi aos 18 anos. Eu então já estava na faculdade e quando tive essa crise Que liga à minha irmã, foi ao psicólogo da faculdade, que era um psicólogo muito estranho, como todos os psicólogos. Eu estou a brincar, como é óbvio, porque o que seria de nós sem os psicólogos, a psicoterapia e a psiquiatria? Mas eu lembro-me que ele ajudou-me na minha desconstrução mental, mas não me explicou o que era. Ou seja, ele não me fez um diagnóstico. Ou melhor, ele terá feito o diagnóstico, mas não me disse o que era a questão, o que era a perturbação ou o que eu estava a passar. E eu lembro-me que eu fui a umas quantas sessões e ele fazia-me esquemas e explicava-me o meu modo de raciocínio, normalizava os meus pensamentos. Quando eu dizia, por exemplo: "Eu vou a um restaurante e se eu vejo uma colher com uma mancha, não sou capaz de comer porque acho que pode estar contaminada ou suja". E ele dizia-me: "Mas eu também acho que isso pode estar sujo. Eu se calhar também não comia. Não acho que faça mal, mas eu se calhar, provavelmente também não comia. É uma opção comer ou não comer, mas acho que não vem nenhum mal daí". Tentava normalizar e fazia uns esquemas de como é que funciona a mente. De como nós, respondendo a um pensamento, vamos estar a dar-lhe importância e como é que podemos quebrar esse ciclo. E eu acabei por deixar de ir a esse psicólogo. Já não me lembro porquê. Eu sei que ele ajudou-me e provavelmente eu tranquilizei-me e tive ali um período de calmia. E andei até aos meus 26 anos, talvez, ainda fiz outras terapias, mais alternativas. Havia uma que era suflerologia, com uma senhora alemã muito castiça, que tem a ver com respiração, que eu encontro validade naquilo, mas na altura eu só queria que me tirassem as ideias na cabeça e aquilo não fazia sentido para isso.
Mas foi procurando ativamente outras terapias?
Mais por incentivo da minha irmã.
Ok.
A minha irmã dizia-me: "Se calhar devias experimentar isto". E eu ia experimentando, mas nunca ficava lá há muito tempo.
E eram sobretudo coisas para combater a ansiedade?
Sim, para tentar combater a ansiedade e estes pensamentos obsessivos. E só aos 26 anos, já eu vivia com a Catarina, tive uma crise de tal maneira.
Essa do corte no barbeiro?
Não, essa passou, porque iam passando e iam surgindo outras, iam surgindo muitas.
Que eram muito frequentes, eram muito coladas. Resolvia-se um assunto e vinha outra ideia.
Sim, geralmente quando se resolvia era porque estava a ser substituído por outra coisa qualquer. Podia ser uma coisa mais leve, podia ser uma coisa mais intensa. Às vezes um período de trabalho ou de mais exames, se calhar, não me ocupava tanto a cabeça com questões obsessivas porque eu estava muito concentrado. Mas há questões que eu relato no livro, que hoje estão distantes e que eu me rio. Por exemplo, houve uma altura da minha vida que eu achei que era homossexual, o que é uma coisa perfeitamente normal. Podia ser e podia achar.
Nessa fase ainda?
Isto foi na faculdade. Porque um dia estava com um amigo meu que é homossexual, estávamos lá todos à conversa e eu nunca tinha tido problema nenhum. E a minha cabeça diz-me: "E se tu és homossexual e não sabes?"
Ideia fixa a partir daí.
Pumba! A partir daqui, esquece. Há um ataque de pânico, de ansiedade.
Não pelo facto em si, mas pela dúvida?
Pela dúvida. Só que o problema é que a partir do momento em que se assume a dúvida, é como se assumisse a realidade. Ou seja, deixa de ser dúvida e passa a ser realidade. Ou seja, eu não sei se sou homossexual ou não, eu sou e ninguém sabe.
E eu também não sabia. O António também não sabia.
E eu também não sabia. E então eu entrei num registo de: eu tenho que tirar isto da minha cabeça. Mas torna-se obsessivo por quê? Porque eu passei a questionar todas as minhas ações. Eu já vou explicar porque é que isto é muito engraçado, porque isto na altura não teve graça nenhuma. Os estereótipos que se criam na cabeça, eu comecei a pensar: "Será que eu tenho trajeitos? Será que eu ando de certa maneira?" Olhava para um homem: "Eu estou a gostar de estar aqui ao pé deste gajo, mas será por quê? É por eu estar a conversar com ele. Será que ele é bonito? Deixa-me tentar perceber se ele é bonito. Será que não é bonito? Porque é que eu gosto deste filme? É pelo ator, é pela história?" E isto 24 horas. Qualquer interação com um homem entrava neste registo. Tinha vários amigos meus homossexuais que eu acabei por contar esta história e eles riram-se na cara porque como eles costumam dizer, e passo a citar: "As bichas têm um radar". E eles todos me diziam: "Tu podes ser o que tu quiseres, mas não és homossexual".
Eles tinham a certeza que não.
Eles tinham a certeza e eu dizia: "Mas como é que vocês sabem? Eu posso ser e vocês não sabem". E eu já nem me lembro muito bem como é que esta ideia me saiu da cabeça.
Foi substituída.
Foi substituída pelo quê? Não sei, já não me lembro porque é que foi substituída. Mas porque é que eu acho que isto foi engraçado? Porque quando eu, anos mais tarde, comecei a ler muita coisa sobre o transtorno obsessivo-compulsivo e mandei vir livros dos Estados Unidos.
Ainda antes do diagnóstico?
Não, já depois do diagnóstico. Mas quando mandei vir esses livros, porque os livros eram livros técnicos e tinham muitos casos de estudo. A quantidade de pessoas que passou exatamente pelo mesmo processo mental que eu. É muito curioso como é que uma pessoa do outro lado do mundo tem exatamente os mesmos processos mentais que eu.
Sobre a sua orientação sexual.
Sobre a orientação sexual, sobre a religião, sobre a penitência, o pecado. Sobre uma questão que me aconteceu muito também, que é o provar dano Ou seja, eu ir na estrada e passar por uma lomba numa noite escura. Eu viajo muito, às vezes são sítios muito escuros lá nas aldeias, e bater com o carro numa lomba ou numa pedra e pensar: "E se era alguém estendido na rua e eu passei por cima? Ou se eu atropelei alguém e ia andar e eu estou distraído, estou a ouvir música?" Eu já cheguei a andar, a voltar para trás.
E a confirmar?
Para confirmar. E isto aconteceu algumas vezes. E depois vêm esses livros e falam de casos iguaizinhos ao meu. Há um livro que eu li, que gosto muito, que se chama "When in Doubt, Make Believe", "Na Dúvida, Acredita", que é um jornalista de rádio e a principal questão era exatamente esta, o provocar dano. Ele vivia constantemente com o medo de fazer mal a alguém e não se aperceber disso. Já me aconteceu, por exemplo, de estar num semáforo e refilar com alguém ou fazer uma ultrapassagem. Quando o sinal está amarelo e nós passamos e a pessoa vai à frente, começa a abrandar. Já me aconteceu passar à frente, num ato irrefletido, e começar a pensar, e a pessoa buzinar. E eu penso: "E se aquela pessoa se irritou comigo e tem problemas de coração, vai ter um ataque cardíaco, morre e a culpa é minha". E isto é em segundos que acontece. É uma questão de segundos.
Passa lá.
E então eu fico lá e às vezes abrando e fico a olhar para o carro da pessoa pelo retrovisor, a ver se ela está a respirar. Já cheguei a seguir um carro durante um tempo, que a pessoa deve ter estranhado. Portanto, pode ser tudo e mais alguma coisa. E é engraçado é perceber que não é um processo nosso. Qualquer que seja a ideia, já aconteceu de alguma maneira a alguém.
Mas passa por essa, tem uma crise maior.
A crise maior foi muito gira.
E acaba por ir, mas vamos a isso.
Psicólogo.
Essa crise maior.
Foi muito gira.
Muito gira?
Muito gira.
Isto é a esta distância, imagino.
Sim. Por ter sido a crise maior e na altura não teve graça nenhuma. A minha família é uma família alentejana e todos os natais a malta encontra-se no Natal e os meus tios do Alentejo trazem borrego, faziam esse borrego todo o feitio. Enchopado de borrego, borrego no forno, costelas de borrego e uma iguaria que pouca gente comia, que era cabeça de borrego no forno. E eu comia na altura. E de vez em quando eu experimentava comer a mioleira com pão e sal e pimenta, e era bom. E há um dia, um almoço normalíssimo, que eu estou a fazer isso com os meus irmãos, estamos a comer e pouco tempo depois cai-me o pensamento: "E se existe a doença das vacas loucas nos borregos e tu não sabes?" E eu: "Isto não faz sentido nenhum". Faz, porque nas vacas loucas também não sabiam. Portanto, começa a desenvolver-se aqui. Eu fico imediatamente mal disposto, já não sou capaz de comer mais nada.
Que idade é que tinha? 25?
Aqui já tinha 25, por volta de 25, 26. Estava lá uma prima minha veterinária, que me disse, curiosamente veterinária, e eu-
Ah, verbalizou isso.
Não, não verbalizei nunca desta maneira, mas comecei, porque é um bom tema de conversa de Natal, e a dizer: "Então e se as ovelhas tivessem a doença das vacas loucas?" Eu já não lembro como é que comecei, mas eu disfarcei o tema, porque por acaso a minha prima trabalhava muito com bovinos e caprinos. E ela disse que não fazia sentido nenhum, como é óbvio, mas não me tranquilizou, porque eu na minha cabeça: "Mas quem é ela? Que autoridade ela lá por ser veterinária não quer dizer nada". Eu lembro-me, nessa noite fui para casa, vomitei, estive dois dias sem dormir. Diarreia, completamente desregulado. E aí, obviamente, eu voltei ao registo "eu não posso, eu tenho que saber o que é isto". E foi pela primeira vez que eu usei o doutor Google, que só se usa geralmente quem é obsessivo ou tem questões de ansiedade, só usa para o mal, porque o doutor Google é sempre câncer ou Sida, é sempre uma doença terminal. Dói-me o dente, tumor. Já está. E eu pela primeira vez usei para o bem. Comecei a inserir, a fazer uma busca mais aprimorada dos meus sintomas, algumas palavras-chave que eu já não me lembro, mas sei que fui ter, e sobretudo em inglês, porque eu já sabia que em Portugal não ia encontrar nada. Sobretudo em inglês. E começo a ir parar a fóruns de OCD, obsessive compulsive disorder. E começo a ler coisas iguais à minha história. Doença das vacas loucas, homossexualidade, provocar dano, religião, infeção, Sida, tudo. E isso trouxe-me tranquilidade, como é óbvio, porque foi a primeira vez que eu percebi: "Eu não sou estranho. Há mais pessoas que estão a passar por isto". E a partir daí comecei então a procurar em português, já com o nome perturbação obsessiva-compulsiva, comecei a procurar em português e foi assim que eu fui ter ao meu psicólogo.
Marca essa consulta e é lá que é feito o diagnóstico.
É lá que é feito o diagnóstico.
Como é que lhe é explicado o diagnóstico? Houve alguma tradução?
Isso já são muitos anos, 14, pelo menos. Mas eu lembro que eu próprio já fui com o diagnóstico. Ou seja, não fui dizer: "Olha, eu tenho isto", mas "eu acho que é isto". E obviamente, tivemos duas consultas antes de ele me confirmar: "Sim, tem tudo para ter esse traço".
Nessas consultas, ele só o ouviu?
Sim, só me ouviu e fiz uns testes. Se me recordo, fiz uns testes também. Na altura, a perturbação obsessiva-compulsiva era do espectro da ansiedade. Eu acho que agora já não está nessa categoria Mas fez-me esse diagnóstico e aconselhou-me um psiquiatra para tomar medicação. Primeiro, para me ajudar no trabalho.
O diagnóstico, nesse momento, serve-lhe mais como alívio por finalmente ter um nome ou teve também o peso de pensar que isto também nunca se vai resolver totalmente?
Eu ainda hoje penso isso. Ainda hoje. Eu não acredito numa cura. Isto não é uma coisa derrotista, não tem a ver com estar conformado ou o que quer que seja, eu simplesmente lido no dia a dia, que é aquilo que qualquer pessoa devia fazer com a sua vida. Porque se eu entrar no registo da dúvida, nesse sentido: "Será que eu vou estar curado? Será que eu não vou estar curado?" Eu já estou a fazer uma projeção. E curiosamente, é das poucas áreas da minha vida onde eu não faço projeções, é na doença sobre projeções. Ou seja, eu limito-me a viver. "Ok, eu hoje estou a conseguir lidar com esta obsessão. Será que vou conseguir lidar sempre? Não sei, mas hoje estou". Curiosamente, eu acho que nunca entrei nesse registo "eu quero-me curar, eu quero ficar curado". Foi muito no "eu quero ficar melhor, eu quero estar melhor, eu quero aprender a lidar com isto". E foi assim que iniciei esse caminho.
E explicaram-lhe o quê? Que era uma ligação que estava cortada no cérebro?
Há várias componentes. Há uma componente genética que eu identifico claramente na minha família. O meu pai é obsessivo-compulsivo e não sabe. Mas é claramente. Neste registo que os americanos chamam puro obsessivo, eu tenho mais este registo puro obsessivo. Eu tive muito a questão de lavar as mãos também, mas isso foi fácil de resolver, porque é uma coisa física, palpável.
Até ao extremo de começar a ficar com as mãos feridas.
Mas depois de ir fazendo técnicas de exposição na terapia com o meu psicólogo, eu comecei a aprender a lidar. Portanto, fazendo determinados exercícios de reduzir, "ok, se lava 50, lava só 10". Tem uma toalha só para ti, em vez de te limpares as mãos numa toalha onde limpam todas as pessoas, começa por ter uma toalha só para ti. Todas as atividades que fazes em casa que consideras porcas e infecciosas, seja despejar o lixo, lavar a louça, etc, faz todas e lava só as mãos a seguir. Portanto, vamos aprendendo mecanismos, mas isto são coisas palpáveis. Agora, quando se é um puro obsessivo, as obsessões desenvolvem-se muito só na cabeça, tal como a história de "e se eu atropelei alguém?" É uma coisa que se desenvolve na minha cabeça. Eu não posso ir ad aeternum atrás da pessoa ver se a atropelei ou não. Até porque podem surgir outras ideias que são mesmo só na minha cabeça. O meu pai é muito este registo, puro obsessivo. A minha tia era obsessivo-compulsiva.
Diagnosticada?
Não.
Também não.
Ninguém se diagnosticava. A minha tia, muito querida, comprava a fruta, lavava a fruta peça a peça e metia no fruteiro. E depois lavava outra vez. Andava sempre com um fresquinho de álcool. Hoje em dia, ela é que é a sabia. Andava sempre com um fresquinho de álcool para lavar as mãos, para desinfetar tudo à volta. Portanto, há esta componente genética. Depois, há uma componente que vem obviamente do meu próprio desenvolvimento, que eu acho que tem a ver, como eu estava a dizer há pouco, com a estrutura, com a minha estrutura. A minha estrutura familiar, a minha falta de estrutura, falta de muita coisa que aconteceu naturalmente. Que me obrigou a compensar.
Protegia-se nessas compulsões, nessas obsessões?
Se me protegia, como? Sim, eu acho que é uma maneira interna de nós assumirmos o controle. É falacioso. Esse controle não existe. Ninguém controla nada, na realidade. Nós achamos que controlamos tudo e, por exemplo, a pandemia é a prova exatamente do contrário, quando ela surgiu. É uma tentativa de controle que não existe. E há essa componente, obviamente, que depois se caracteriza nos neurotransmissores. A informação está sempre repetida. Os neurotransmissores não funcionam de forma normal e então a informação é bloqueada e está sempre a ser repetida a mesma informação. E por isso é que se toma geralmente um dos primeiros medicamentos é a sertralina, que é um inibidor de recaptação de serotonina, que é essa molécula também associada à felicidade.
Quando lhe propuseram e quando lhe disseram que era preciso fazer medicação, até logo para começar, teve alguma resistência a isso?
Claro. Tragédia.
Por quê?
Porque sou maluco. Estão agora a tomar medicação porque eu sou maluco.
Sentiu logo esse estigma?
Claro que senti.
E falou sobre isso com alguém?
Já não me lembro, mas eu lembro que há um sentimento de derrota, tipo: "Fogo, vou ter que tomar e depois receitam um Xanax também, para SOS".
Só o nome já faz diferença.
A gente já conhecia. A gente diz: "Os Xanax. Agora vou tomar Xanax, estou mesmo maluco da cabeça". Depois tive que ir a um consultório de psiquiatria, falar com um psiquiatra. E o psiquiatra é o médico dos malucos. Estou tramado. Agora vou ao médico dos malucos.
Perguntava-lhe se tinha falado com alguém. Pelo contrário, escondeu isso de alguém? Por causa desse estigma?
Ou seja, não era uma coisa pública. Primeiro, porque eu não tinha uma vida pública como tenho hoje.
Diga às pessoas à sua volta, não é?
Sim, mas acho que não escondi. Não escondi, mas também não disse. Se me perguntassem o que eu estava a tomar, eu dizia, mas não foi algo que escondi. Eu acho que tomei uma decisão ali no meio deste processo todo, que foi quando eu disse aos meus pais que tinha esta questão: "Eu tenho esta questão, eu vou a um psicólogo, eu vou tomar medicação e estou me aborrifar para aquilo que vocês estão a pensar". E eu quando disse isto aos meus pais, e os meus pais ficaram muito sérios a olhar para mim, eu acho que aqui foi a primeira tomada de decisão de: "Não interessa, eu estou me aborrifar para o que os outros estão a pensar, porque isto não é sobre eles, é sobre mim. A questão é sobre mim". E depois, a própria desconstrução que foi feita ao longo dos tempos sobre a psiquiatria ajudou bastante. O meu psiquiatra desarmou-me logo simplesmente à primeira ou à segunda consulta, quando me disse: "Se tu tivesses um problema de hipertensão, não tomavas um comprimido todos os dias?" E eu: "Tomava". "Então por que não tomas também isto? Se é uma questão de saúde, se é uma desregulação que não foste tu que a provocaste, é uma desregulação do teu corpo". E eu acho que as pessoas muitas vezes não têm essa noção. As pessoas associam muitas vezes a cabeça como sendo elas e não como um órgão. Por quê? Porque é o cérebro que nós utilizamos para pensar e misturamos muito o cérebro com a nossa identidade. E nós não somos o cérebro, o cérebro é um órgão. É um órgão como é o coração. Se eu tomo um comprimido para o coração, por que eu não tomo um comprimido para o cérebro? Porque há aquela ideia falsa de: "Não, eu consigo resolver". Então por que o Salvador Sobral também não resolveu fazer o transplante? Por que ele também não disse: "Não, não preciso de transplante, eu resolvo isto sozinho". Ou por que uma pessoa quando parte o braço também não diz: "Não, não preciso de gesso. Eu foco e fé, eu consigo solidificar estes ossos". É a mesma coisa.
Tomou medicação durante muito tempo.
Eu estou a tomar neste momento.
Mas sempre seguido?
Não. Tomei talvez dois anos, Sertralina. Raramente recorri a Xanax.
Só se tinha SOS?
Sim, eu não sentia necessidade. No meu caso, não senti mesmo necessidade. Deixei de tomar, fiz o desmame normal. Mais tarde voltei a ter outras crises, voltei a tomar. Mas aí cometi o erro, aquele erro que é muito comum, que é: achei que eu é que poderia controlar a medicação.
Sentiu-se melhor.
Exato, que é um estigma disfarçado. Há a ideia de que nós vamos ficar dependentes da medicação e eu não quero ficar dependente disto. Por exemplo, uma pessoa que tem depressão não vai ter que tomar os comprimidos para o resto da vida. Se uma depressão for diagnosticada cedo, dentro do espaço normal, a pessoa faz a medicação e volta à vida normal, tal como quem tem um transtorno de ansiedade, se tomar a medicação e procurar resolver a sua questão, arranjar a sua própria maneira de lidar com aquilo, a medicação nem será sempre essencial. Eu tomei, deixei de tomar, voltei a tomar, deixei de tomar novamente, até que há um ano tive uma outra crise grande e claramente eu percebi: "Ok, está na altura, eu preciso aqui de uma ajuda. Baldei-me um bocadinho. Então preciso aqui de uma ajuda".
E a terapia? Quando foi nessa altura?
A terapia começou aos 26. Eu tenho sido sempre acompanhado pelo meu psicólogo.
Sempre o mesmo?
Sim, embora tive esse psicólogo, o primeiro.
Primeiro.
Tive uma psicóloga lá pelo meio, dentro das tais terapias que eu depois ia fazendo, tive outra psicóloga, mas que não gostei. Ajudou-me nalgumas coisas, curiosamente nada relacionado com o transtorno obsessivo-compulsivo, mas ajudou-me noutras questões, que eu só vim a perceber mais tarde. E este psicólogo foi o terceiro ou quarto. Trabalho com ele há 14 anos. Sempre tive terapia durante dois, três anos seguidos, praticamente semanalmente. Depois ia lá muitas vezes quase para fazer revisão da matéria, fazer cadeiras. Ia lá de vez em quando, quando sentia que estava a ter uma obsessão qualquer que estava a ter dificuldade de controlar, ia lá. Fazer um bocadinho de revisão da matéria.
Há um bocadinho falava das técnicas de exposição, o que é isso?
É uma terapia, dentro da própria terapia cognitivo-comportamental, no transtorno obsessivo-compulsivo e nas questões de ansiedade, as técnicas de exposição, as terapias de exposição podem ajudar muito, que é basicamente expor a pessoa de forma controlada. Ou seja, isto é uma coisa que só o terapeuta e a pessoa em questão é que podem chegar a essa conclusão, se conseguem fazer isso ou não, mas é expor as pessoas ao seu medo. E isto se passava às vezes até por questões mentais, por jogos mentais, como por exemplo eu ir no carro e achar que tinha feito mal a alguém, dessa questão, eu refilar com alguém e a pessoa refilar comigo e agora essa pessoa fica-
Tem um ataque cardíaco.
Tem um ataque cardíaco e passas a cabeça. Aqui, eu sabendo que isto é uma situação irreal, mas a ideia de estar presente é eu desconstruir a ideia. Por exemplo, é uma técnica, eu começar ou a exagerar a situação, assim: "Eu matei-o. Então e depois? E depois a culpa é toda tua. Então e depois? Eu depois vou preso, porque eu vou à polícia e vou me denunciar de certeza, e eu próprio vou dizer e vai ser uma tristeza. Então e depois? E depois as minhas filhas vão ficar sem pai, porque eu vou preso".
É tentar tornar a ideia tão ridícula que já nem o Antônio acredita nela.
De duas maneiras: ou ridícula, no sentido mesmo de Pode ser ridículo pela brincadeira, no sentido de: "Sim, atropelei, eu sou o famoso assassino de pessoas através de gritos", por exemplo, ou de tal forma que a própria cabeça cansa-se. Já temos tantas hipóteses que a própria cabeça é como se dissesse: "Desisto, não tenho cabeça para este caso". Isto é uma técnica mental, mas há coisas físicas, como por exemplo, o que eu estava a dizer de lavar as mãos. Uma pessoa que lava 50 vezes, comprometer-se que só vai lavar 20 e aguentar a ansiedade de não lavar as outras 20 ou 30. E perceber que a ansiedade vai até um nível, mas chega ali, baixa. Porque é isso que quem lida com questões de ansiedade ou uma perturbação obsessiva compulsiva tem dificuldade em fazer, é enfrentar a ansiedade. Eu uma vez vi num programa, há muitos anos, que era uma pessoa que não conseguia comer pizzas, porque achava que as pizzas podiam estar envenenadas, que alguém podia ter posto alguma coisa na pizza. E isto era um programa britânico, meio reality show, em que uma das técnicas de exposição dos terapeutas era exatamente a pessoa ter uma pizza numa festa, malta amiga para lhe dar força e ela a comer. Eu nunca vi ninguém comer uma fatia de pizza com tanto sofrimento. Eu assim: "Esta é a pior pizza do mundo". Deve ser muito má, mas coitada, a pessoa a sofrer.
Qual foi a coisa mais esquisita que fez para tentar forçar esse tipo de-
Atirar bolachas ao chão e comê-las, porque eu tinha medos de contaminação.
Qual chão?
Todos. Começou em casa e acabou na rua.
E isso era um sofrimento para si?
Claro, horrível. O engraçado é que começa no próprio de casa. Eu lembro-me que o meu psicólogo disse assim: "Olha, vais escolher um pacote de bolachas, as tuas favoritas". E eu: "Boa". "E o que vais fazer a seguir é: vais para casa e quando te lembrares, pegas numa bolacha e atiras a bolacha para o chão e comes". E eu: "Não, não vou". Mas qual a necessidade de eu estar a atirar bolachas para o chão e comer? E ele disse: "Uma pessoa sem estas questões não teria necessidade, mas tu tens essa necessidade para perceberes e lidares com a ansiedade, porque, em princípio, não haverá problema nenhum". E aquele "em princípio" fica sempre lá. E eu: "Tudo bem, vou fazer este exercício". Eu lembro que cheguei a casa e quando me lembro de fazer o exercício, estou na cozinha e tive sei lá, dois ou três minutos a olhar para o chão, encontrar o sítio mais imaculado possível do chão. E pego na bolacha e pus a bolacha assim, parecia que estava a pegar numa bomba. Assim muito devagarinho a bolacha, para tocar o mínimo possível, para não dar a esfregar, e meto assim a bolacha. E fico a olhar e só a sensação de ver a bolacha no chão e saber que ia ter que comer a seguir é horrível. Eu não consigo.
É físico? É nojo?
É físico, é ansiedade. Se já tiveste ansiedade, é o aperto na garganta, é as palpitações, é quase uma noção de perda de realidade. É os suores frios, as mãos a transpirar. E eu pego na bolacha, como e pensei: "Não senti nada especial". E eu: "Olha, fixe. Afinal eu consigo fazer isto". E de repente, lá vem a cabeça e disse-me: "Mas tu vieste da rua e tu não te descalçaste. E tu andaste aqui na cozinha. E por onde tu já andaste hoje? Sabes por onde é que andaste? Já viste o que é que pisaste?" Eu não sei como é que terei reagido, mas quase de certeza que eu tive que me sentar para não desmaiar, para não cair para o lado e aguentar aquela ansiedade. Mas acontece aquilo que obviamente é o normal. A ansiedade cresce, mas chega a um ponto que não passa daquele nível e começa a reduzir. E o objetivo destes trabalhos é exatamente isso, é nós percebermos que não vai acontecer nada.
A ansiedade é consequência, está no fim da linha, mas é também o gatilho?
Sim. Boa pergunta, porque eu acho que é de duas maneiras. A ansiedade pode ser o gatilho para o pensamento. Ou seja, a ansiedade pode ser o gatilho para que a minha cabeça valide o pensamento, porque se eu dou importância a um pensamento, uma coisa que me preocupa, dispara aquela ansiedade. Portanto, a partir daqui, o meu cérebro já assumiu que este pensamento é importante. Se este pensamento é importante, a partir daqui vai se relacionando. Depois, obviamente, está no outro extremo, porque desde encontrar todas as situações que se relacionam com essas, como por exemplo, quando eu pensava que a questão da homossexualidade, eu estar numa festa com amigos, provocava-me uma extrema ansiedade, porque eu sabia que a minha cabeça se calhar ia buscar ideias parvas. Andar de autocarro, eu sabia que andar de autocarro ia me provocar ansiedade. Mas a ansiedade pode ser o que junta o pensamento, o que dá importância ao pensamento.
Neste tempo que foi passando, nestes 14 anos, desde o diagnóstico, em que já teve terapia, já não teve, já esteve medicado, já esteve sem estar medicado. Quando vem uma crise, já consegue identificar por quê? É uma fase, por exemplo, em termos profissionais ou pessoais, de maior trabalho, de maior estresse?
Identifico Graças a várias coisas. Agora vou entrar na minha fase Gustavo Santos.
Vamos a isso.
Porque há muitas coisas que eu descurava que achava que não faziam sentido, como por exemplo a meditação ou o mindfulness. E hoje em dia eu compreendo a sua importância. A importância de parar, a importância de nós estarmos em silêncio, de estarmos com os nossos pensamentos e aprender a não lhes dar importância, a relacionarmos com eles, porque isso é um facto. É um facto científico, não sou eu que estou a dizer. Nós não controlamos os pensamentos, ninguém controla, mas podemos tentar fazer algo que é escolher aqueles a que damos importância. E essa é que é a grande diferença, porque podes ter um pensamento parvo e não lhe dar importância. Dizer: "Que parvoíce que é isto que eu estou a pensar." E segues a tua vida. Eu posso ter exatamente o mesmo pensamento e ficar: "O que eu estou a pensar nisto? Mas se eu estou a pensar é porque isto é importante." Ou seja, o mesmo pensamento pode ter vários caminhos. E o mindfulness, sobretudo o mindfulness, são pequenas técnicas que nos ensinam a estar em convívio com os nossos pensamentos e tentar não lhes atribuir importância.
O que é que faz mais?
O que é que faz mais, como assim?
Não, o que é que o António faz para conseguir esse estado? O que é que faz? Há pessoas que pintam.
Sim, eu faço desporto, procuro fazer desporto. Gosto de ler, embora seja muito preguiçoso, mas gosto de ler. Faço sobretudo desporto, caminho.
Coisas que lhe permitam essa pausa.
Sim. E faço mesmo práticas meditativas, 10, 15 minutos, tento que sejam todos os dias. Agora nas férias com três miúdas em casa é impossível. Espero que elas regressem à escola para eu voltar aos meus hábitos. Mas tento que seja de manhã e às vezes até faço um bocadinho de manhã e um bocadinho à noite. Mas o que é que isto permite? Isto permite que quando eu tenha uma obsessão, eu consiga identificá-la mais facilmente, para responder à questão. Eu consigo identificá-la mais facilmente e consigo não me relacionar tanto com ela. Isto não quer dizer que eu: "Ok, identifiquei, fixe. Vai-te embora." Não. Permite-me é que eu posso ter as sensações físicas, porque eu sou muito psicossomático. Eu se achar que tenho um problema na garganta, sou capaz de andar uma semana com dores na garganta.
Não lhe vai doer.
Mas a grande diferença é que eu antes, se calhar, pensava nisso e ficava: "Está-me a doer, se calhar tenho que ir ao médico. E porque é que isto não para de doer?" E agora eu sou capaz de me estar a doer a garganta e estou normal. Normal no sentido, não lhe estou a atribuir valor. Sinto e penso: "Está a passar."
Mesmo sabendo que pode ser só psicossomático.
Sim, e sei que pode ser psicossomático ou um sinal. Uma vez eu, quando era jornalista ainda, tive uma ideia que era: meti na cabeça que tinha um sinal, que tinha um problema. Tinha um sinal na perna, que tinha um problema qualquer, podia ser um tumor. Andei seis meses com uma dor na perna e depois desapareceu. Desapareceu porque eu pensei noutra coisa qualquer. Mas hoje em dia, se eu tiver isso, eu: "Ok, eu estou a pensar nisto." O sinal parece-te estranho? Não. Tem alguma coisa que aches necessidade de ir ao médico? Não, não me parece. E mesmo que tenha, vou deixar passar uns tempos e logo me relaciono outra vez com isto e sigo a minha vida. Isto vai-me continuar a doer, mas vou seguir a minha vida até perceber se é uma necessidade mesmo real ou não. Sou capaz de perceber que: "Ok, estou com uma crise, por que eu agora ando mais ansioso? Por que eu ando a dormir menos? O que eu estou a fazer diferente? O que eu alterei na minha vida para estar neste estado?" E geralmente, lá está, são questões de trabalho, mudanças de vida. Nesta altura, por exemplo, o podcast, um projeto novo, o setembro, que também é um mês de reinícios, a escola, o próprio trabalho, o reinício do trabalho, são tudo movimentos que podem despertar maiores obsessões. Então, eu sei que elas vão aparecer, eu vou tentar lidar com elas de forma tranquila e perceber mais tarde o que isto poderá ser ou não.
Teve alguma vez de recusar trabalhos por estar numa fase mais difícil ou teve que condicionar a sua vida profissional?
Não, mas já passei mal em muitos trabalhos por estar em sítios que não queria estar.
A atuar, por exemplo?
Sim.
E ter uma obsessão no meio de um espetáculo.
Eu desenvolvi uma pancada há uns anos com esferovite, porque achava que o esferovite inalado, que era muito perigoso e podia fazer mal e não sei o quê. E cometi o erro de ver coisas sobre esferovite e via pessoas a trabalhar com esferovite sem máscara e não sei o quê. Estes gajos estão mortos já. Mas fazia-me confusão. E eu vou fazer um programa de televisão na SIC, o "Lip Sync", em que eu faço de Elsa.
Certo.
E a neve era?
Esferovite.
Esferovite. Eu já não me lembro como é que disse, mas eu acho que aí já assumi, porque isto já foi muito recente, talvez dois, três anos, e eu assumi e disse: "Olha, eu não lido bem com o esferovite", que é uma coisa muito estranha de dizer a alguém. "Eu não lido bem com o esferovite, causa-me imensa confusão." Não fui muito dentro da questão, porque as pessoas depois encontravam: "Mas por quê?" Parece que é um bocado diva, não é? Mas eu disse: "Olha, eu não lido bem com o esferovite, isso faz-me muita confusão. Se pudermos evitar o esferovite". E claro: "Estás a ver, produção de televisão? Não." A gente já comprou o esferovite. Está preparado para o esferovite. Tens de ter esferovite". E ele: "Então meta o menos possível, porque faz muita confusão". Não só não puseram o menos, como puseram mais. Eu internamente estava de rastos.
E os dias a seguir?
Nesse momento, como o meu crescimento já era outro.
Conseguiu lidar.
Não só consegui lidar, como eu vejo o engraçado das situações.
Funcionou como exposição.
Sim, um bocadinho Gustavo Santos, no sentido de é engraçado como eu tenho esta questão e esta questão me aparece à minha frente. E nós podemos ver sempre estas questões. E não é preciso uma pessoa acreditar em Deus, no universo, pode ser uma pessoa muito pragmática, ateu, não tem nada a ver com isso. Eu posso enfrentar uma situação de duas maneiras. Por exemplo, em relação ao esferovite. Eu posso evitar o esferovite e está tudo bem, estou numa altura em que não sou capaz de lidar com isto, ou posso enfrentar o esferovite e ver isto como uma oportunidade. Uma oportunidade para perceber em que ponto é que eu estou nas minhas questões. Em que ponto é que eu estou nas minhas obsessões. Um teste. E é isto que eu tento aplicar no meu dia a dia, quando enfrento situações que me preocupam, tenho esta análise de: "Ok, como é que eu estou hoje, primeiro? Estou capaz de poder enfrentar isto? Se estou, sim, senhor, vamos lá ver". Depois passo o teste ou não passo o teste, mas sobretudo hoje em dia, resultado do mindfulness, de ler muito. Hoje em dia, se eu estou numa obsessão que não consigo lidar com ela, eu não me vitimizo. Não me vitimizo nem fico a pensar aquela questão: "Mas por que eu? Isto está-me sempre a acontecer". Simplesmente não consigo. É como o Ronaldo, o Ronaldo não marca golos, todos falha golos em frente à baliza. Às vezes joga bem, outras vezes joga mal. É exatamente a mesma coisa. Às vezes consigo, outras vezes não.
E na vida pessoal, o aparecimento de crianças impede algumas rotinas, já percebemos, é preciso que elas agora vão para a escola para isso mudar, mas até nas próprias obsessões, o medo do dano nelas, imagino.
Sim.
Delas próprias.
Deixá-las cair.
Como é que isso foi para si? Chegar ao momento em que tem uma filha, tem outra filha e de repente tem essa responsabilidade também.
O próprio ter várias filhas é uma obsessão. "Não consigo, tenho que ter mais, tenho que ter mais do que esta. Não pode só duas, não, porque depois vai acontecer algum azar, tenho que ter mais outra".
Mas teve obsessões em relação a elas?
Sim. Quando era muito pequeninas, do deixar cair e parece que vou deixá-la cair. E se eu a deixo cair de propósito, quase como pensamentos de loucura. E por que é que isto causa ansiedade? Porque a pessoa sabe que aquilo não é real. Sabe que aquilo não faz sentido, mas o pensamento lá está. E aqui técnicas de exposição, trabalho de exposição, ou seja, eu ficar desconfortável, eu ficar com ela ao colo, ficar ali e tentar estar presente. Ou seja, eu estar com aquele medo, mas estar a apreciar o ser que está nas minhas mãos, a minha filha, e vê-la sorrir e sentir o calor dela e a pele, enquanto estou desconfortável, mas não responder àquilo que se está a passar na minha cabeça.
Ter começado a falar sobre isto publicamente e sobre o seu diagnóstico ajudou de alguma forma?
Eu faço sobretudo por dinheiro. Mentira, não ganho nada com isso. Aliás, o podcast estou a pagá-lo do meu bolso.
Mas ajudou no sentido de aquelas pessoas da produção do Lip Sync na SIC, se calhar já sabiam.
Devem estar a ouvir isto pela primeira vez.
Mas ajuda no sentido de se as pessoas já souberem.
Não, não tem a ver com isso.
Eu não sou tão esquisito.
Não, não tem a ver com isso. Já os meus espetáculos de stand up eu tinha muitas questões pessoais. Eu abordava muitas questões pessoais da ansiedade e das obsessões. E eu acho que foi algo que aconteceu naturalmente. E começar a falar foi, sobretudo, a necessidade que eu senti de dar às pessoas aquilo que eu não tive, ou seja, uma identificação. E isto não só em relação à perturbação obsessiva-compulsiva, porque eu não sou um perturbado obsessivo-compulsivo. Eu sou o António Ramos, que por acaso lida com questões obsessivas, por acaso tem uma depressão basal, eu tenho uma depressão que se arrastou já ao longo dos anos, é uma coisa profunda, mas que esteve sempre presente e que eu estou a procurar resolver, porque eu vou conhecendo cada vez mais um bocadinho sobre mim. E eu não sou estas coisas, eu sou tudo. Nós somos tudo. Tal como uma pessoa não é um bipolar. Ele lida com questões com a bipolaridade, não é a doença que o define. E, portanto, por isso é que eu faço e falo do que falo para que as pessoas, de algum modo, se identifiquem, não na perturbação só, mas às vezes em pensamentos, às vezes na ansiedade, nas atitudes. E o podcast que eu faço está muito relacionado com isso. Eu não levo lá só pessoas que lidam com questões obsessivas. Eu levo lá pessoas que, de alguma maneira Eu quero saber mais como é que elas lidam com determinadas situações pelas quais passaram. E a ideia é exatamente essa, para que as pessoas não se sintam sozinhas e percebam que somos todos malucos.
Muitas pessoas lidaram ou olharam pela primeira vez para a sua saúde mental agora com a pandemia, que expôs, para algumas pessoas, problemas que já tinham ou criou outros.
Sim.
O António temeu que a pandemia pudesse agravar alguma coisa na sua depressão basal, no transtorno obsessivo-compulsivo. Por exemplo, a questão da lavagem das mãos, já falámos sobre isso. Temeu que o facto de isso ser tão incentivado se pudesse tornar de novo uma obsessão para si?
É engraçado, porque eu quando lido com questões reais sou muito pragmático. Ou seja, se eu realmente achar que tenho um problema de saúde, e aquilo que eu aconselho a todas as pessoas, obviamente, é irem ao médico. Primeiro, na questão de saúde mental, aconselho obviamente ir a um psiquiatra ou a um psicólogo. Mas eu, por exemplo, se eu tenho uma questão, que eu acho que é mesmo uma questão de saúde que me chamou muito a atenção, eu vou ao médico e procuro resolver e não fico muito preocupado com isso. Ou seja, não entro num registo tão obsessivo. Quando surgiu a pandemia, a pandemia era uma situação demasiado real, então eu tornei-me pragmático. E curiosamente foi o que o meu psicólogo disse. Nós estávamos a conversar e ele disse que achava que ia haver dois tipos de pessoas a lidar com a pandemia. Pessoas que tivessem já questões relacionadas com a ansiedade. As pessoas que já lidavam com a ansiedade e que, tal como eu, aparece a ansiedade e é como se fosse a exposição de todos os seus medos. E então está aqui, é real, vamos tratar isto como deve ser, vamos lidar com a pandemia como deve ser. Ou as outras que iam panicar e extrapolar e exagerar ainda mais os comportamentos que já tinham. Eu inseri-me na primeira categoria, que tem depois um revés, que é quando passar a pandemia, se calhar posso ter tendência para voltar aos antigos hábitos. Mas a pandemia, eu acho que lidei até de forma relativamente tranquila, exceto nos momentos que eu acho que afetou todas as pessoas. As medidas a voltarem atrás, o cansaço, o estar em contacto próximo com alguém infetado. Eu tive a sorte de não ter sido ainda infetado, mas já tive que fazer quarentenas profiláticas.
Como foi fazer essas quarentenas?
Eu fiz uma relativamente há pouco tempo e assustei-me um bocadinho. Assustei-me porque foi demasiado real. As pessoas ficaram todas infetadas à minha volta, menos eu e a minha família. E outras pessoas. Ou seja, as pessoas com quem nós tínhamos lidado, que uma delas estava infetada e o núcleo dessa família ficou todo infetado. Depois outras pessoas à volta é que não ficaram. E nós estávamos incluídos nesse grupo. Mas foi essa sensação de: "E se eu tenho?" Entrei um bocadinho no registo do "e se". Mas como eu quando digo que estou noutro nível, não quer dizer que seja melhor do que ninguém, não tem a ver com isso. Agora em relação à minha compreensão da minha vida, eu já consigo distinguir certas coisas, então já sou capaz de relativizar e entro muito no registo de: "É o que é. Não vou fazer nada."
Nesse outro nível, já teve algum momento que lhe tivesse permitido dizer: "Eu já estou bem."?
Não, nunca.
E acha que vai ter alguma vez esse momento?
Não, mas eu não estou mal. Atenção, o estar bem, isto são hábitos de 35 anos. As pessoas às vezes querem ir ao psicólogo ou ao psiquiatra como quem vai ao dentista, que é abrir a boca e sai de lá curada, toda bonitinha. E aqui não acontece. Ao contrário, implica trabalho. É como ir ao psiquiatra e receitar e as pessoas tomam medicação e voltam aos seus antigos hábitos. Eu encaro a medicação como algo essencial para um equilíbrio físico, um equilíbrio biológico, mas eu tenho que continuar a fazer o meu trabalho, eu tenho que continuar a conhecer-me, tenho que continuar a perceber quais é que são os meus gatilhos, quais é que são os meus medos. Agora, há momentos em que eu estou bem. Eu neste momento, por exemplo, não estou assim muito bem. Mas não estou mal. Já estive pior há dois dias. Se acho que posso estar melhor? Acho que sim. Acho que posso estar melhor. Agora bem, não, mas acho que nem é esse o objetivo. Acho que sinceramente o objetivo é o caminho que se faz. Se nós estamos sempre à espera da felicidade, uma pessoa nunca a vive. É tão simples quanto isso. Se eu acho que a felicidade está naquela porta lá ao fundo, eu não sei se vou lá chegar ou não. Portanto, mais vale aproveitá-la no caminho até lá.
Obrigada.
Obrigado.