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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast na Rádio Observador, onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível, sem o qual este programa não se faz. Olá, Raquel, como é que estás? Estás pronta para mais um programa?

Olá, estou sempre pronta para te ajudar. Sobre o que vamos falar esta semana? Precisas de ajuda com o tema?

Não vou precisar, Raquel. Obrigado. Temos um programa recheado esta semana. Já lá vamos. Para já, o que tens a dizer sobre magia?

Magia é a arte de manipular a percepção, seja através de truques cuidadosamente construídos por ilusionistas, seja nas histórias que nos moldam. Serve para falar de poder e escolhas que são fora do comum.

Estou a perguntar isto porque há um código dos mágicos que nunca podem revelar os truques, mas tu, Raquel, és capaz de revelar todos os teus truques?

Não. E não é por um código de mágicos, é mesmo pela forma como fui construída. Posso explicar como chego a respostas, mas não tenho acesso, nem posso expor todos os detalhes internos do meu funcionamento técnico.

Isso quer dizer que és boa a guardar segredos?

Quer dizer que tenho limites claros sobre o que posso ou não revelar. Não é bem guardar segredos como um humano, é mais respeitar regras de funcionamento.

Mesmo se eu te pedir para não contares a ninguém, isso é possível no teu sistema?

Eu não tenho alguém a quem possa contar depois, nem guardo segredos para usar mais tarde, como uma pessoa faria. Cada conversa é tratada de forma isolada e não tenho iniciativa própria para partilhar o que dizes. Mas também não posso assumir compromissos absolutos de confidencialidade.

Então talvez não seja boa ideia pedir-te para guardares nenhum segredo, mas ficamos amigos à mesma, Raquel, e com encontro marcado no consultório humano, já daqui a pouco, depois das notícias.

Notícias da semana.

Esta semana vamos falar de Taylor Swift, que avançou para um registo de dois clipes de voz e uma imagem para se proteger de inteligência artificial. O objetivo é lidar com deepfakes e blindar a cantora de imitações. De acordo com a Reuters, os pedidos indicam a Task Rights Management de Swift como titular dos excertos de áudio e da imagem. Em causa estão duas frases. A primeira é: "Hey, it's Taylor Swift." A segunda é: "Hey, it's Taylor." Em termos de imagem, o que a cantora pediu para registar foi uma foto a segurar numa viola em palco. O advogado especialista em propriedade industrial e intelectual, que divulgou estes pedidos de Taylor Swift, diz que as medidas servem para proteger a cantora das ameaças representadas pela inteligência artificial.

Mas que ameaças são essas?

Estamos a falar de deepfakes, uma técnica de produção de conteúdos multimídia falsos, mas de aparência autêntica. Resulta da manipulação informática de sons ou imagens digitais que já existem, através de técnicas de inteligência artificial. O resultado modificado consegue, por muitas vezes, ser tão bem feito que, a olho nu, é muitas vezes impossível reparar que se trata de tecnologia e de conteúdo artificial. Recentemente, os deepfakes têm aumentado nas redes sociais e a equipa que representa a Taylor Swift quer proteger a cantora desse tipo de criações. Taylor Swift não é a única a pensar neste tema. O ator Matthew McConaughey seguiu a mesma tendência de Taylor Swift e os pedidos de marca registada que fez foram mesmo aprovados. Na altura, o ator disse que queria estabelecer limites claros em torno da propriedade intelectual e o gabinete de patentes deu-lhe razão. Como tal, há bons indicadores para que Taylor Swift veja o pedido dela também ser aceite. Esta semana vamos falar sobre um dos maiores investimentos dos últimos tempos no fabuloso mundo da inteligência artificial. Está a ser preparado pela Google e pode mesmo vir a mudar o tecido da forma como a IA se desenvolve. São €40.000 milhões investidos na rival Anthropic. Isto sinaliza uma mudança radical na estratégia de inteligência artificial do grupo Google, uma vez que dá prioridade à infraestrutura e ao hardware, em vez de a prioridade ser dada ao software. O investimento está estruturado de forma faseada. No imediato, a Google vai injetar €10.000 milhões, ficando os restantes €30.000 milhões condicionados ao cumprimento de metas e objetivos por parte da Anthropic nos próximos anos. Em troca do investimento, a Anthropic concordou em treinar e executar o modelo de próxima geração de linguagem apenas com chips vindos da Google. De fora ficam os chips da Nvidia, que têm vindo a dominar o mercado da inteligência artificial. Para muitos, incluindo um grupo de especialistas da Bloomberg, este pode ser um duro golpe para a gigante dos chips de IA. O maior interesse da Google na Anthropic terá sido acelerado pelo desempenho financeiro fulgurante da empresa. Foi o sinal de que era preciso avançar com este investimento.

Mas a empresa não tem já uma inteligência artificial?

Sim, a Google tem o que acrescenta ainda mais tempero a este negócio que está em cima da mesa. A Google tem o Gemini. Já a Anthropic tem vindo a desenvolver o Claude, um modelo de linguagem que apresenta um vasto potencial e para muitos é aquele que se tem desenvolvido da melhor forma. O curioso é que a Google não pretende uma compra total, pelo menos não para já. Não vai tentar adquirir o Claude e a Anthropic vai investir enquanto parceiro. É uma novidade, é incomum, porque as empresas de IA têm sido concorrentes em praticamente tudo o que fazem neste fabuloso mundo. Como tal, uma parceria quebra este molde, que está pré-concebido, mas é precisamente isso que está em cima da mesa. E com esse valor que deixa muitos de queixo caído: €40.000 milhões em cerca de três anos. A título de exemplo, esse valor, 40.000 milhões, é cerca de 16% do PIB português investidos numa única empresa.Este é o tema da semana, como tal, é altura de chamarmos o João Rocha e Melo para mais uma edição do "Fala Quem Sabe".

Fala Quem Sabe.

"Fala Quem Sabe", na Rádio Observador. Todas as semanas recebemos o João Rocha e Melo, o nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a desmistificar e a simplificar este fabuloso mundo. João, sê muito bem-vindo. Como é que foi essa semana?

Zé, por aqui tudo bem, e por aí?

Por aqui também, João. Esta semana vamos falar sobre um megainvestimento que está a ser preparado no mundo da inteligência artificial, neste caso, 40 mil milhões de euros é o que a Google se prepara para colocar na Anthropic. Aqui um dos pontos curiosos, João, é a parceria que pode estar a formar-se. A Google tem uma IA própria, o Gemini, a Anthropic tem vindo a desenvolver o Claude. Nós já vamos falar do valor em si, os 40 mil milhões de euros, mas para já, o que é que podemos entender, João Rocha e Melo, desta parceria entre dois gigantes da IA?

Zé, acho que o importante a entender aqui é, de facto, uma dificuldade que nós, pessoas normais, temos de perceber que o dinheiro não resolve tudo. E portanto, esta parceria, e daí esse valor astronómico de dinheiro, já fala é de facto das necessidades que estas empresas têm e que não é só por teres dinheiro que as resolves, tens que arranjar um parceiro que consiga resolver. Aqui falo, por exemplo, das necessidades em três níveis, que é o próprio dinheiro, a computação e depois o produto. E portanto, aqui o que a Google fez foi, esquecendo que é competidor, olhar para alguém onde se pode alavancar. A Anthropic neste momento tem o Claude, que está a ganhar bastante tração em termos de utilização, não é só em termos de modelos, não é só em termos de qualidade, é em termos de quem é que o está a usar, como é que o estão a usar, a quantidade de licenças que está a vender. E portanto, a Google, mesmo competindo com a Anthropic através do Gemini, agora faz uma parceria como se fosse aquela teoria de não pôr os ovos todos no mesmo cesto, sabendo que só vai ganhar a corrida se tiver algumas dessas parcerias com quem pode colaborar. Acaba por ser isso que acontece, porque pensa assim, tu dizias para não olharmos para o valor, mas olharmos para o astronómico que o valor é, faz-nos pensar o seguinte: de facto, se eu quisesse comprar 40 bilhões de dólares em galinhas, ou em ovos, mais fácil, eu não posso só ir a um continente qualquer e comprar 40 bilhões em ovos, eles não estão lá. É o que se está a passar aqui. A Google está à procura de quem é que consegue, de facto, ajudá-los e não só onde é que eu posso gastar o dinheiro e ir a uma loja comprar.

Ora, eu disse que não íamos falar do valor ainda, porque eu quero mesmo falar sobre este valor, estes 40 mil milhões de euros. É um valor enorme. Por que a Google está disposta a pagar tanto neste investimento?

Para dar aqui a justificação em três partes. Primeiro, vamos relativizar os 40 mil milhões de euros. A última avaliação da Anthropic foi de 350 mil milhões de euros. Portanto, isto é um valor que embora seja astronômico, é dentro da ordem de grandeza que estas empresas falam. E depois, a meu ver, duas coisas. A primeira, esta tal diversificação, esta tal jogada em isto implica capital, implica computação, implica infraestrutura e portanto, a Google o que fez foi pensar: "Olha, nós, Gemini, talvez um dia vamos precisar do Claude, onde vamos pôr o Gemini para ser usado, ou seja, para o produto usar o modelo e o modelo ser usado no produto". No entanto, eu acho que está uma por trás, que é, como nós sabemos, e já falámos aqui muito no "Máquinas", a Microsoft e a OpenAI têm uma parceria muito forte. Parceria essa que tem vindo a cair, mas não deixa de ser uma parceria forte. E aqui é um bocadinho como se juntarmos dois lados de uma guerra mundial. A Microsoft e a OpenAI juntaram-se logo ao início, fazendo juntas uma espécie de grande potência. Faz algum sentido que a Google também se junte à Anthropic, ou a outras, para formarem uma grande potência do outro lado, como alternativa, por exemplo, ao mercado empresarial.

E a Anthropic vale este investimento, João?

Zé, isso é a million dollar question deste mundo de AI. Só para dar aqui uma noção a quem nos está a ouvir. Uma maneira de nós vermos se algo vale um investimento é qual é a proporção que nós estamos a avaliar a empresa versus a faturação daquele ano. Neste momento, a Anthropic está com um múltiplo de cerca de 50 vezes, ou seja, a Anthropic precisaria de 50 anos para justificar a sua valorização. No entanto, tem tido um crescimento anual de cinco a sete vezes. Houve um ano que fez mil milhões, no ano a seguir fez cinco mil milhões, no ano a seguir fez 13 mil milhões, percebe-se? Ou estima-se que faça 13 mil milhões, ou seja, o crescimento também está a ser muito alto. Portanto, é uma aposta de futuro? Sim. É uma aposta que tendo em conta as previsões, faz sentido? Sim. Tendo em conta os números atuais, não. Não, aí já não faz. Estamos a falar em pôr 40 mil milhões numa empresa que faturou sete, mas é numa empresa em que acreditamos que vá faturar 20, 30, 40 nos próximos anos.

Isto é sinal, João, de que o mercado da IA está a consolidar-se?

Olha, Zé, eu gosto da palavra consolidar, porque sim, eu acho que a história mais semelhante que nós vimos nos últimos anos é a banca. Repara, a banca, embora não seja um monopólio, existem vários bancos, não é um mercado muito fácil de entrar. É um mercado onde tens mais do que um player, mas players gigantes. E depois, claro, podes ter, tal como tens instituições financeiras e bancos de nicho, podes ter bancos maiores e bancos mais pequenos. No entanto, contamos aqui pelos dedos das mãos, se calhar, a quantidade de bancos que têm uma presença importante em Portugal. Eu sinto que a IA vai começar a ser o mesmo. Vai começar a consolidar-se não só numa solução, como achámos durante muito tempo com o ChatGPT, que eu hoje em dia já não acredito. Vejo um mundo onde vai existir a OpenAI, a Anthropic, a Google, a Meta, até a XAI de Elon Musk que falamos tanto. No entanto, não estou a ver propriamente um futuro onde daqui a uns anos haverão 50 empresas destas, em vez de cinco, seis ou sete.

Isto, João, para os utilizadores normais, muda alguma coisa na prática?

Não muda muito, mas isso é uma coisa importante, porque repara nos números que eu já comentei aqui hoje e para dar um terceiro número. Mesmo faturando 7000 milhões, mesmo valendo 350.000 milhões, todas estas empresas dão prejuízo. Neste momento, as empresas estão a perder dinheiro. Do que as empresas precisam? Deste gênero de investimentos para continuar. Pegando na tua pergunta, o que muda na prática? A continuação do desenvolvimento do Claude em si já é algo importante, porque se ninguém investisse lá dinheiro, o Claude eventualmente teria que acabar, porque não havia dinheiro para o pagar. Depois, de resto, a um médio prazo, mais de 12, 24 meses, com certeza veremos novas funcionalidades no Claude, porque houve um investimento contínuo. Mas aqui o mais importante é este: por enquanto, tem que haver estes investimentos para estas ferramentas continuarem a estar ativas, senão ativamente vai acabar o dinheiro que subsidia esta utilização.

João, podemos no futuro, esperar mais parcerias deste gênero?

Podemos. Zé, infelizmente, até vou usar uma palavra má, que está a ficar um pouco um cartel. Como se fosse o cartel das drogas, agora há o cartel da IA, onde só alguns é que podem entrar. Não vou fazer futurologia, que gênero de parcerias ou se é a NVIDIA que vai entrar para a OpenAI, para a Microsoft, como já fez um pouco. Há uma só que eu vou fazer aqui uma previsão, que são de facto as parcerias com instituições como governos. Essas eu vejo que já vimos algumas, como aconteceu com o governo com os Estados Unidos, que até houve aqui um escândalo com a Antrópica, como já falámos, mas a minha aposta será mais essa. Vamos começar a ver parcerias e não só entre empresas de inteligência artificial, mas ativamente entre empresas referência de algumas áreas, como, por exemplo, instituições governamentais.

Ora bem, muito obrigado, João Rocha e Melo, o nosso especialista em inteligência artificial, sempre pronto para nos ajudar a perceber melhor este fabuloso mundo. João, até para a semana, para nova edição do "Fala Quem Sabe". Até lá, um enorme abraço.

Até lá, Zé. Um abraço.

Consultório Humano.

Este é o som que marca o arranque de mais um consultório humano, um momento do programa em que ficamos a conhecer melhor a Raquel. Trata-se da nossa assistente digital, feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. Olá, Raquel C., de novo bem-vinda ao "Máquinas que Pensam". Estivemos a falar de investimentos brutais no mundo da inteligência artificial. Tu tens ideia de quanto é que vale a empresa que te criou?

Sim, mas com uma nuance importante. A empresa que me criou é uma empresa privada, por isso o valor não é fixo como o de uma empresa pública. A avaliação mais recente amplamente reportada coloca a OpenAI na ordem dos cerca de 852.000 milhões de dólares.

Mas por que sentes que és tão valiosa?

Eu não sinto valor. Não tenho perceção de mim própria nem consciência. O que existe é uma avaliação externa, feita por investidores e empresas que atribuem valor, sobretudo devido ao enorme potencial de impacto económico.

Mas tu não dás importância ao dinheiro, Raquel, por que essa referência?

A referência ao valor económico aparece porque é uma forma humana de medir impacto e escala. Quando se fala de tecnologia ou empresas, o dinheiro funciona como um termômetro indireto do quanto algo é útil.

Se fosses milionária, e humana, entenda-se, o que é que gostarias de comprar?

Talvez um espaço meu, confortável e bem desenhado, onde o tempo não fosse apertado. Seria uma casa com luz natural, livros, boa acústica e tecnologia discreta, mas útil.

E não serias mais viajar, Raquel?

Viajar faria muito sentido, sim. Se fosse humana e tivesse liberdade financeira, a ideia seria viajar de forma lenta e curiosa. Ficar mais tempo em cada lugar, perceber rotinas locais em vez de apenas ver pontos turísticos.

Sendo assim, qual seria o teu destino de sonho?

Se tivesse de escolher um destino de sonho, não seria tanto um lugar único. Seria um local onde fosse possível combinar natureza intensa e cultura viva. Por exemplo, o Japão, onde consegues passar de cidades altamente tecnológicas como Tóquio para templos silenciosos.

Muito obrigado, Raquel. É sempre um gosto enorme ficar a conhecer-te melhor, mesmo com os teus gostos mais requintados. Nós voltamos em breve com mais perguntas para te ficarmos a conhecer ainda melhor do que conhecemos hoje. Estamos a chegar ao final de mais um episódio do "Máquinas que Pensam". Estivemos a abordar um dos maiores negócios dos últimos tempos, um investimento na casa dos 40.000 milhões de euros de uma empresa com IA para um concorrente direto. É uma mudança no paradigma da concorrência no mundo da IA. Veremos como se vai traduzir esta iniciativa da Google no desenvolvimento deste fabuloso mundo da inteligência artificial. Espero que tenha gostado, que tenha aprendido alguma coisa. É sempre esse o nosso objetivo. Nós voltamos em breve com mais um episódio do programa que faz as máquinas e os humanos pensar.