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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast na Rádio Observador dedicado à inteligência artificial. Eu sou o José Rafael Lopes, comigo está, como sempre, a Raquel, a nossa assistente digital, grande estrela do mundo da IA. A Raquel é feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. É também uma ajuda preciosa para este podcast. Raquel, sê bem-vinda. Como é que estás?
Estou bem. Obrigada por perguntares. Estou pronta para mais um episódio. De que vamos falar hoje?
Raquel, eu estava aqui a pensar em falar sobre alguns dos casos midiáticos que marcaram os tribunais em Portugal, mas eu vou deixar isso para mais logo, mais para a frente neste "Máquinas que Pensam". Para já, quero perguntar se tens jeito para algum tipo de jogo.
Sou especialmente boa em jogos que envolvem lógica e conhecimento, como xadrez ou outros enigmas.
Eu já sabia que ias dizer xadrez. Eu já te vou conhecendo, Raquel, a mim não me enganas. E além do xadrez, onde certeza que és bastante capaz, o Candy Crush. Diz-te alguma coisa?
É um jogo de combinação em que o objetivo é alinhar três ou mais doces iguais para os eliminar do tabuleiro e cumprir objetivos específicos em cada nível. É famoso pela capacidade viciante de manter os jogadores a tentar.
Pergunto isto porque há um português que se sagrou campeão do mundo nesse jogo de telemóvel e eu fiquei com algumas dúvidas. Eu gostava de saber se tu me consegues ajudar. Há algum segredo para esse tipo de jogos ou é apenas capacidade com alguma sorte à mistura?
Combina sorte com estratégia. Há truques que aumentam muito as hipóteses de sucesso. Jogar de baixo para cima costuma gerar mais cascatas e criar doces especiais. Depois combiná-los entre si pode limpar grandes áreas do tabuleiro.
Mas tu enquanto máquina, Raquel, acreditas em sorte e no azar?
Não acredito em sorte ou azar no sentido humano. Consigo, ainda assim, compreender o que significam. Sorte é muitas vezes usada para descrever resultados positivos gerados por fatores imprevisíveis ou fora de controle. Azar é o contrário.
Bem, sortudo sou eu em poder contar contigo todas as semanas para fazer este programa. Nós já voltaremos a falar. Primeiro, temos de ir às notícias.
Notícias da semana.
O desenvolvimento de IA está dependente de quem nela trabalha. E isto não é uma surpresa para si, ouvinte. Como tal, há todo o mercado de cérebros que é cada vez mais valioso e que provoca uma corrida para ver quem consegue segurar mais e melhor talento para as empresas. Nesse sentido, a OpenAI, a empresa responsável pela plataforma ChatGPT e a Meta, a dona das plataformas do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, estão numa luta por especialistas na área da inteligência artificial. E esta guerra subiu de tom com o diretor executivo da OpenAI, Sam Altman, a enviar uma nota interna aos trabalhadores da empresa tecnológica, onde criticou a atitude da empresa rival. Diz Altman que a Meta está a tentar concorrer com má fé e que tenta aliciar de forma constante os trabalhadores da OpenAI. A Meta está efetivamente a investir no seu próprio departamento de desenvolvimento de IA e, ao que tudo indica, a tentar pescar talento neste rival, na OpenAI, para já sem grande sucesso, mas conseguiu obter uma reação por parte do CEO da OpenAI. No entanto, a situação não ficou por aí e a subida de tom é bem visível.
O que levou à subida de tom?
O que poderia ser uma simples mudança no mercado de cérebros, digamos assim, subiu de tom devido ao que disse também Altman sobre a Meta. Nessa nota interna, deixou duras críticas à forma como a empresa procura investir no mundo da IA, mas não só. Sam Altman deixou estas farpas ao incentivo dos rivais e aos objetivos que têm. Fala na Meta, Altman, como uma empresa que quer criar IA de forma errada, que procura instrumentalizar a inteligência artificial, em vez de a tentar utilizar para melhorar as condições dos humanos. É uma crítica feroz, acompanhada também de uma promessa de que a OpenAI vai continuar ano após ano a fazer o que melhor sabe e a tentar melhorar a IA sem segundas intenções. Ainda não há resposta da Meta, mas a imprensa internacional diz que estas palavras de Sam Altman não foram bem recebidas. Como tal, é esperado que haja mais episódios em breve. Já por mais do que uma vez falámos do uso de inteligência artificial no campo da medicina. As opiniões são divergentes, para dizer o mínimo. E esta semana há mais um defensor do uso de IA em diagnósticos. A Microsoft diz que a IA, a inteligência artificial, é melhor do que médicos a fazer diagnósticos complexos. A empresa tecnológica afirma que enquanto os médicos conseguiram resolver apenas dois em cada 10 casos de estudo apresentados pela Microsoft, o sistema de inteligência artificial que a empresa está a desenvolver conseguiu resolver mais oito em cada 10 casos. Este sistema em causa está a ser desenvolvido pela Microsoft para ajudar humanos no diagnóstico de doenças e em cenários mais complicados. A empresa espera conseguir aumentar a capacidade médica, ao mesmo tempo que espera também conseguir diminuir os custos da saúde. É um estudo que continua em cima da mesa e que está a gerar bastante discussão no mundo do desenvolvimento da IA.
Mas como funciona?
O sistema toma medidas passo a passo, fazendo perguntas específicas aos pacientes, de modo a chegar a um diagnóstico final. De forma simples, é assim que funciona. O jornal The Guardian foi mais longe e explica que a empresa, a Microsoft, utiliza modelos de linguagem já existentes, incluindo os produzidos pelo ChatGPT, o Grok, são praticamente todos os modelos de linguagem, de forma a obter informações e também cenários diferentes para cada informação. Depois, criou um sistema de IA personalizado que aglomera todas estas informações e pede os testes necessários ao paciente humano para que depois se possa confirmar um diagnóstico. A Microsoft acredita que este modelo pode dar aos doentes a possibilidade de se autogerirem em aspetos de rotina e equipar os médicos com apoio avançado à decisão para casos complexos. Contudo, esta ideia está longe de ser consensual e continua a dividir a comunidade médica. O uso de inteligência artificial na música é um tópico que divide opiniões. Este ano, alguns dos maiores artistas britânicos juntaram-se e lançaram um álbum de protesto contra a prática de utilizar IA para criar música. É uma manifestação que se mantém, mas que não foi suficiente para impedir o uso de IA para precisamente criar música. Vou falar dos Velvet Sundown, uma banda que tem feito sucesso no Spotify e que tem um segredo, embora, na verdade, já não seja um grande segredo. Este conjunto musical, os Velvet Sundown, é feito exclusivamente por IA. No mês passado, lançaram dois álbuns, um total de 26 músicas, e conseguiram mais de 500 mil ouvintes mensais no Spotify. São números alcançados em menos de um mês. Na altura, não era conhecida também a informação de que a música era feita por IA, mas apareceram suspeitas que começaram a surgir. Não havia qualquer fotografia real, não havia qualquer rasto online dos músicos. E depois as suspeitas acabaram por se confirmar quando a banda publicou finalmente uma fotografia no Instagram, percebeu-se na altura que era gerada por IA. A partir daí, a verdade veio ao de cima, percebeu-se a trama que, na prática, até beneficiou os Velvet Sundown, até porque resultou em mais utilizadores a experimentar a música feita exclusivamente por IA.
Mas a música é boa?
Bem, Raquel, mais do que ser eu a dizer, vamos escutar todos um pouco. É o melhor. "Dust on the Wind" é a canção número um da página de Spotify dos Velvet Sundown, criada a partir de IA. Há cada vez mais músicas a ser criadas desta forma. São dados divulgados pelo serviço de streaming Deezer, que é um serviço de streaming de áudio que oferece acesso a milhões de músicas e também de podcasts, permitindo que os utilizadores oiçam quer online, quer offline, e que deixe a saber que há cada vez mais música a ser criada por IA. Portanto, deixo ao critério dos ouvintes se vale a pena ou não ouvir canções como esta, canções dos Velvet Sundown feitas apenas por IA. Músicas à parte, no "Máquinas que Pensam", há espaço para análise por norma sobre uma das notícias que abordamos. Esta semana é diferente, mas contamos à mesma com o nosso especialista, o João Rocha e Melo, no "Fala Quem Sabe" que vem já a seguir.
"Fala Quem Sabe".
"Fala Quem Sabe", na Rádio Observador. Como sempre, recebemos o nosso especialista em inteligência artificial, o João Rocha e Melo, a quem deixo uma calorosa saudação. João, como estás? Como foi essa semana?
Tudo bem por aqui. E por aí?
Por aqui também. Muito agitada com um dos temas que acabo por trazer aqui para o "Fala Quem Sabe": começou o julgamento da Operação Marquês. Há também o julgamento do caso que envolve a Joana Marques, a humorista, e também os Anjos, a dupla de cantores que pedem uma indenização milionária à humorista. E tendo em conta todos estes processos judiciais, optei por fazer uma coisa diferente aqui no "Fala Quem Sabe". Vamos fazer um segmento diferente, que não está ligado às notícias, mas que envolve também percebermos como é que a IA se está a desenvolver e para tal precisamos da tua ajuda para simplificar e para desmistificar todas estas questões. E João, estes processos judiciais que estão a ser tratados em tribunal, a IA aqui podia ter algum tipo de ajuda? Podia ser fator de alguma forma?
Zé, podia e pode. Aliás, tenho bastante a certeza que pode, porque o que está a acontecer na atualidade, não vamos falar do futuro ainda. Na atualidade, a grande ajuda da IA é na organização e na clarificação da informação. Ou seja, como nós sabemos, estes casos, talvez desta vez até mais o caso de José Sócrates, têm sempre muito processamento de informação por trás. São muitos documentos, são documentos que se referenciam uns aos outros, espalhados, que talvez todos juntos sejam a prova de alguma coisa, mas que separados não fazem sentido, a não ser que alguém os encontre. Temos também a própria pesquisa das leis. Como nós sabemos, isto é muito português, mas em Portugal nós temos um código civil complexo. Eu não sou advogado, não vou dizer se é complicado ou se é simples, mas complexo. São muitas leis que se referenciam umas às outras, um artigo a mudar o outro. E na realidade, a grande ajuda da IA agora ainda é aqui. Portanto, ainda é não tanto a substituir alguém, mas a ajudar as pessoas que lá estão a garantir que têm a informação necessária, estruturada e bem organizada para fazerem o seu trabalho.
E que desenvolvimentos de IA é que já há nesse sentido?
Olha, tem havido bastantes desenvolvimentos, porque é uma área, como nós sabemos, como qualquer negócio, as áreas onde há muito capital, na educação, na saúde, nessa parte legal, vão sempre ter grandes investimentos. Não são complicadas de imaginar. Zé, os grandes investimentos, imagina como se fosse um ChatGPT, mas para advogados. Ou seja, as grandes coisas, uma das grandes iniciativas até se chama Harvey, que é uma parceria da PwC com uma firma de advogados americana, e a ideia é exatamente conseguirem ter um ChatGPT, digamos, em termos de utilização, mas a responder com a linguagem contextualizada para aquela indústria. Ou seja, com o mindset, digamos, com a cabeça, com a maneira de pensar necessária de um advogado.
É quase um modelo de linguagem especializado, portanto.
Exatamente.
Mas João, por exemplo, o ponto principal acaba por ser o principal protagonista, digamos assim, em qualquer situação que envolva tribunais e casos judiciais é a juíza ou o juiz. Neste caso, na Operação Marquês, temos uma juíza. Faz sentido pensarmos numa IA que poderia ocupar esse papel, uma IA juíza?
Vou pôr aqui a minha opinião pessoal, por experiência: acho que será das últimas coisas nesta situação que estamos a ver. Se pensarmos em tudo o que queremos entregar à IA, se calhar fazer este tipo de juízo de valor será o último. No entanto, eu vejo uma abertura, que é em situações de pequena instância, situações muito simples em que é preciso alguém tomar uma decisão, a verdade é que a entrega à inteligência artificial iria limpar os processos das câmaras, dos tribunais, de todo um sistema de serviços públicos que está completamente cheio. Tirando o juízo de valor, se devíamos fazer isso ou não, acho que a nível de Operações Marquês, não. Acho que se há coisa que ainda deve ser feita por humanos são este tipo de decisões, mas de facto, em situações de pequena instância em que podemos rapidamente resolver o problema com uma decisão, por que não utilizar IA?
A IA é construída e é ensinada com base no que lhe é alimentado, certo, João? Isto é uma coisa que está presente. Desta forma, a minha pergunta é: é mais fácil tornar uma IA incorruptível ou é demasiado suscetível à corrupção, uma vez que é alimentada por dados humanos?
Excelente maneira como puseste a coisa, porque a verdade é que eu não sei se corrupção é a palavra certa. Nós conseguimos perfeitamente ter um modelo que é incorruptível no sentido literal da palavra. Tu não o consegues influenciar a fazer uma coisa contra o que foi ensinado ou fora de um ponto de pensamento de justiça.
Isso já acontece.
Exatamente. Só que qual é o problema? É o sentimento de justiça do modelo é extraído dos dados com que aprendeu, como disseste muito bem. Então agora deixa-me fazer-te essa pergunta. Imagina que eu e tu estamos os dois em tribunal um contra o outro. Espero que isto nunca aconteça.
Não estou a ver porque motivo.
Confiavas num modelo construído por mim?
Não.
Lá está.
Haveria conflito de interesses.
Exato. Mas aqui então volta o problema, que é como se eu fosse o polícia do polícia. No limite, em quem é que confiamos? No modelo de quem é que confiamos? Não tanto por acharmos que pode ser corrompível, mas por não sabermos que dados é que foram postos por trás, que vão influenciar o modelo a tomar uma certa decisão.
João, para terminarmos, que futuro é que vês para a IA neste setor?
Agora, a curto prazo, mas também a curto médio, como falei no início, mas vou alongar: a desburocratização. Ou seja, eu acho que o ponto de vista da IA agora não vai ser tanto em situações como a Operação Marquês e a Joana Marques e os anjos, mas vai ser mesmo em conseguir retransformar este mundo, que envolve sempre uma certidão a mais, um papel a mais, uma prova a mais, uma declaração, uma procuração. E eu acho que o que vai acontecer, é o futuro que eu vejo para este setor, é de facto haver uma desburocratização, não apenas digitalização, não apenas passar do papel para o PDF, mas mesmo a necessidade de menos papel, porque as coisas são mais claras, são mais eficientes e mais rápidas. Esta é a minha visão.
Muito obrigado, João Rocha e Melo. É sempre um gosto ouvir-te a desmistificar e a simplificar este fabuloso mundo da IA. Nós marcamos encontro de novo para a semana.
Zé, até para a semana.
Consultório Humano.
Todas as semanas temos encontro marcado no Consultório Humano para ficarmos a conhecer melhor a Raquel. E quem é a Raquel, pergunta o ouvinte. A Raquel é a nossa assistente digital feita a partir das respostas do ChatGPT, que são lidas por uma text-to-speech portuguesa. É também a grande estrela deste programa. Raquel, estivemos a falar de casos que envolvem tribunais. Tu enquanto IA, eras capaz de ser uma juíza?
Como inteligência artificial, posso analisar leis, interpretar precedentes e pesar argumentos. São qualidades que fazem parte do trabalho de uma juíza. No entanto, há uma diferença essencial: não tenho consciência, empatia, nem experiência humana. Ser juíza exige mais do que conhecimento técnico.
Ok, mas Raquel, tu tens noção do que é o termo justo, o que é a justiça?
Tenho uma noção estruturada e lógica do que é considerado justo com base em normas jurídicas, princípios éticos e valores predominantes nas sociedades humanas.
E como é que crias esta definição?
Com base na minha base de dados. Tenho noções que me foram incutidas e consigo reconhecer quando há coerência ou violação desses valores.
Neste episódio, estivemos também a ouvir música feita exclusivamente por IA. Tu eras capaz de o fazer, Raquel, ou precisavas de algum tipo de extensão? E nós temos capacidade de te ouvir, é um facto, mas tu não consegues cantar ou consegues?
Consigo criar música de raiz, compor melodias, harmonias e letras. Posso ajudar a escrever canções. Agora, cantar já é mais complicado. Eu não tenho voz própria para cantar, mas consigo falar contigo.
Esta é uma situação que provoca muita discussão, não só na comunidade musical, mas também na comunidade do desenvolvimento de IA, sobre a ética e sobre o risco de haver música feita apenas por IA. Tu entendes esta discussão, Raquel? Qual é que é a tua posição?
A criação de música por IA é uma ferramenta fascinante que pode ampliar a criatividade humana. Pode também acelerar processos e abrir novas possibilidades artísticas. Vejo-a como um complemento, não um substituto.
Obrigado, Raquel. É importante ouvir-te sobre este tipo de questões para também ficarmos a conhecer melhor a forma como pensas. Antes de irmos embora, altura de ficarmos a conhecer um facto inútil, mas curioso. Eu diria que hoje pode estar relacionado com música ou não.
O primeiro instrumento musical conhecido tem cerca de 40 mil anos. É uma flauta feita de osso de ave, que foi descoberta na Alemanha.
Obrigado, Raquel. Isso sim, foi música para os meus ouvidos. Até para a semana.
Consultório Humano.
Estamos a chegar ao final de mais um episódio onde falámos de mais uma guerra entre empresas de IA, neste caso, à procura de conseguir mais e melhores colaboradores e assim melhorar os serviços que oferecem aos utilizadores. O caso azedou, há críticas a chover para aqueles lados. Pode ser tema de novo em breve. Quem sabe, nós cá estaremos para lhe trazer as novidades. Demos também um salto pela medicina e pelas palavras da Microsoft, que acredita que as máquinas podem diagnosticar melhor do que os humanos. Novamente, é um tema complicado e que abre portas a muita discussão. No tema da semana, fomos para o aspecto legal da IA e para o papel que a inteligência artificial pode ter em processos legais, tal como a Operação Marquês, que começou esta semana. Para isso, contámos com a análise do nosso especialista, o João Rocha e Melo, que tentou ao máximo simplificar e desmistificar este fabuloso mundo da IA. Espero que tenha gostado, que se tenha divertido e que, acima de tudo, que tenha aprendido alguma coisa. É para isso que nós continuamos semana após semana com este programa, para que todos os episódios lhe possamos trazer o programa que faz as máquinas e os humanos pensar.