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É preciso recuar a 1 de novembro de 1755, dia do grande sismo, para encontrar também o grande tsunami que atingiu Portugal. De lá para cá, há registro de apenas mais 15 tsunamis e nenhum deles com especial gravidade. Mas tal como acontece com os sismos, os cientistas não têm dúvidas de que uns e outros irão voltar a registrar-se no nosso país. Quando isso acontecer, o mar irá ganhar uma força extraordinária e, mediante o epicentro, irá deixar marcas severas nos quase 1000 km da nossa costa continental. Nos próximos minutos procuramos saber qual é o verdadeiro risco de tsunami para o continente e para as ilhas, que impacto terá na nossa costa e que zonas são mais vulneráveis, quanto tempo temos para nos proteger e de que forma está o sistema de socorro preparado para essa catástrofe. Está a ouvir o quinto episódio do podcast "Não é se, é quando", uma perspectiva nacional sobre os riscos e a preparação do nosso país para as catástrofes naturais. Este é dedicado aos tsunamis. Os cientistas consideram que só os sismos acima dos seis pontos na escala de Richter é que libertam energia suficiente para provocar um tsunami, razão pela qual Portugal tem escapado a esse desastre natural. E mesmo os mais fortes podem, por vezes, não ser uma ameaça. Veja-se o sismo de 1969, que apesar dos 7.9 na escala de Richter, provocou apenas ondas de 30 cm, mais no Algarve do que na restante costa. Num histórico em que 1755 se destaca pela destruição e número de vítimas, a dezena e meia de tsunamis entretanto registrados tiveram sempre intensidades baixas, no máximo quatro numa escala de gravidade que vai até aos seis. Dessas 15 ocorrências, oito foram provocadas por sismos, quatro por perturbações atmosféricas e três por deslizamentos de terras. Curiosamente, foi nessa última categoria, os deslizamentos de terras, que se registou a situação mais grave dos últimos 250 anos. O geofísico Rachid Almira, coordenador científico do Centro Nacional de Alerta de Tsunamis do Instituto do Mar e da Atmosfera e também investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, recorda o incidente registrado a 4 de março de 1930, na costa sul da Ilha da Madeira.
Na Ilha da Madeira, temos o risco de um tsunami causado pelos colapsos de vertentes na Ilha da Madeira, maior que o risco de um tsunami causado por um sismo. E temos exemplos na história. O exemplo de um evento que aconteceu em 1930, causou um tsunami que matou 20 pessoas na Ilha da Madeira.
As vítimas estavam na foz da Ribeira do Vigário, que foi invadida por uma onda de oito metros provocada pela derrocada de um penhasco em Cabo Girão. Um exemplo de que nem só os sismos provocam tsunamis.
Não todos os tsunamis resultam de um sismo. Isto é verdade, porque temos outras causas de tsunami, como deslizamentos de terra, colapsos vulcânicos, explosões vulcânicas, até temos o meteotsunami, que é um tsunami causado por alguns saltos na pressão atmosférica. Mas os tsunamis mais frequentes são os tsunamis causados pelos sismos.
Ainda assim, a verdade é que são os sismos fortes que podem provocar os tsunamis mais destrutivos. São eles que conseguem movimentar gigantescas quantidades de água.
Estamos a falar de sismos grandes, que conseguem causar tsunamis, sismos que deslocam uma camada da água do fundo do mar até à superfície, deslocar toda esta camada. O sismo vai deformar o fundo do mar e esta deformação é transmitida a toda a coluna da água. E depois, quando perturbamos alguma coisa, esta coisa vai tentar voltar ao equilíbrio. Aqui entra o campo de gravidade, por isso chamamos tsunami de ondas gravíticas, que vai tentar ganhar o equilíbrio e dali vai se propagar. Estamos a falar de algumas profundidades de 5 km da coluna da água, perturbada com uma energia enorme.
É a localização, a profundidade e a magnitude do sismo que irá determinar a força de um tsunami. Tendo como referência as coordenadas de 1755, não há dúvidas de que haverá estragos avultados.
Ondas que chegam à costa com 10 metros de altura, e 10 metros da altura do tsunami é diferente de 10 metros das ondas, tipo onda de Nazaré ou ondas de vento que estamos a ver, porque toda a coluna da água, o muro da água que mexe com a mesma força, a mesma velocidade, podemos falar que pode causar uma destruição enorme na costa portuguesa. Podemos fazer simulações numéricas da propagação da onda, dali vai a velocidade, e também estimar a altura da onda que pode chegar à costa portuguesa e ver a extensão da inundação em terra.
Saber o momento exato em que o sismo aconteceu é fundamental para tentar antecipar o comportamento de um eventual tsunami.
Para falar da velocidade, é útil para saber quanto tempo temos De alerta para um evento. A velocidade de um tsunami depende da profundidade a que a onda de tsunami se propaga. Quer dizer, no oceano profundo, tem uma velocidade que pode chegar até 800 km/h. Mas quando chega nas águas pouco profundas, perto da costa, a velocidade da onda diminui muito e a altura aumenta. Dali temos alturas grandes de tsunami perto da costa.
À velocidade a que viajam os aviões e mantendo como exemplo o grande sismo de 1755, é possível calcular a chegada do tsunami à costa.
Pode chegar à costa portuguesa em 20 minutos. Costa do Algarve, a Sagres, por exemplo, em 20 minutos, 20 até 30 minutos. Lisboa demora muito mais tempo. Podemos falar de 50 a 60 minutos até chegar a Lisboa. Este tipo de tsunamis de 1755 vai além de Portugal. Foi um tsunami transoceânico, quer dizer, foi observado no outro lado da costa atlântica, foi observado no Brasil, por exemplo, e nas Caraíbas. Vai além de Lisboa e Portugal, chegou à Inglaterra também.
E como é que nos apercebemos disto tudo? Como é que monitorizamos este nosso risco para, desde logo, termos tempo para nos proteger? Este geofísico marroquino, que se especializou em perigos naturais e tsunamis, explica que Portugal ainda só tem uma forma de ler os sinais que o mar lhe envia, os marégrafos instalados em terra. São ao todo 27, 20 no continente, quatro nos Açores e três na Madeira, e servem para medir o nível médio do mar e o comportamento das marés.
Para já, só temos os marégrafos costeiros. Quer dizer, só podemos monitorizar ou confirmar o tsunami quando chega ao primeiro ponto da costa onde temos o marégrafo.
Sem a capacidade de fazer estas medições ainda a alguma distância da costa, resta seguir com toda a atenção à atividade sísmica.
IPMA, em Portugal é responsável a uma escala nacional e uma escala internacional. Primeiro detectamos o sismo, depois avaliamos este sismo, se tem um potencial tsunamigênico. Aplicamos o que chamamos uma matriz de decisão, uma tabela muito simples, que estabelece uma ligação entre os parâmetros de sismo e o potencial tsunamigênico. E depois, começamos a monitorizar a rede marégrafica para confirmar ou não. E tudo isso com ligação com a proteção civil e também os parceiros internacionais como Espanha, Marrocos, França, Inglaterra e os outros países.
Tal como acontece com os sismos, também para o caso dos tsunamis, o Instituto do Mar e da Atmosfera não esconde alguma ansiedade pela conclusão do projeto, que pode melhorar significativamente a monitorização desses fenômenos. A renovação dos cabos submarinos de telecomunicações entre o continente e as duas regiões autónomas.
Os cabos submarinos que ligam Portugal continental aos Açores e à Madeira. O projeto que já autorizado é de equipar este cabo com sensores, sismômetro e sensor de pressão. Este sensor de pressão vai medir a pressão na coluna da água e assim podemos ter, ao longo do cabo, estações, por isso chamamos um cabo smart, que podem dar informação da variação na coluna da água, no oceano profundo, e assim podemos detectar o tsunami no oceano profundo, antes de chegar à costa.
Este projeto foi lançado em 2019, com orçamento de 150 milhões de euros e já com algum atraso face ao inicialmente previsto, poderá estar disponível lá para 2026 ou 2027. A Portugal também falta, diz Rachid Omira, uma estratégia nacional específica para tsunamis que combine a prevenção e o socorro. É verdade que nos últimos anos foram tomadas algumas medidas, sobretudo ao nível municipal, mas não chegam.
Boas iniciativas são boas, todas as iniciativas são boas. Se isso é suficiente, eu digo ainda não, porque precisa uma coordenação a uma escala nacional para usar mesmas medidas, usar mesma sinalética, por exemplo. Eu fiz uma pesquisa sobre isso e descobri que a sinalética é usada em Portimão, por exemplo, que é diferente da sinalética usada em Cascais.
Em bom rigor, não só Portugal como o resto do mundo só parecem ter acordado para o risco dos tsunamis em 2004, quando 230 mil pessoas morreram no Sudeste Asiático. Nessa altura, o tsunami atingiu 14 países e foi provocado por um sismo de 9.1 na escala de Richter, com epicentro em Ace, na costa oeste de Sumatra, na Indonésia. Só a partir daí foi dada verdadeira prioridade a esta matéria, reforçada, naturalmente, com o que aconteceu sete anos depois em Fukushima, no Japão. Foi aliás em 2011, ano do sismo, do tsunami e do desastre nuclear de Fukushima, que surgiu o primeiro plano de proteção civil português a incluir o risco de tsunamis. A variante faz parte do plano especial de emergência para sismos do Algarve, até hoje ainda o único a incluir essa catástrofe. Carlos Mendes, diretor nacional de Prevenção e Gestão de Riscos da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, admite que é preciso alargar a área abrangida por esse documento
O estudo mais detalhado que temos do risco de tsunamis é exatamente para a região do Algarve. Há estudos pontuais para algumas outras zonas do país. A área metropolitana de Lisboa tem um estudo detalhado para a componente sísmica, mas ainda não para a componente tsunami. Uma vez mais, tal como acontece para os sismos, a perspectiva é de que haja um alargamento desse estudo a toda a zona mais vulnerável. Aqui estamos a falar, grosso modo, da costa ocidental de Leiria para sul e, obviamente, a costa algarvia.
Para as autoridades, o socorro à passagem de um tsunami não é muito diferente daquele que terá que ser prestado depois de um sismo, mas há especificidades a ter em conta.
Estamos a falar, sobretudo, de meios que são necessários para a busca e salvamento em meio aquático. Estamos a falar de bombas de grande capacidade para retirar água de zonas que ficarem inundadas e que não é suposto estarem inundadas, mas ficarem inundadas pelo tsunami. Estamos a falar de maquinaria pesada para a remoção de destroços e de todo o efeito da propagação da onda, porque a onda pode se propagar largas centenas de metros, até mesmo quilômetros por terra adentro e, portanto, há a necessidade de recuperar o perfil normal da costa e ao mesmo tempo que se vai fazendo a busca e o salvamento de eventuais sobreviventes que possam ter lá ficado. Há, obviamente, aqui a necessidade também de ter mecanismos de busca e salvamento aéreo, porque pode haver pessoas que fiquem em pontos isolados, rodeados de água e que tenham necessidade de ter a sua evacuação por via aérea. Portanto, há aqui um conjunto de meios que obviamente terão que ser mobilizados, muitos deles oriundos através das suas próprias capacidades das estruturas militares, no que diz respeito, sobretudo, à busca em meio aéreo e à busca em meio aquático.
Não há um plano operacional nacional, mas existe doutrina teórica. Carlos Mendes lembra que em 2021 foi publicado o guia de referência para planeamento de evacuação em caso de tsunami, o manual técnico sobre como devem agir todos os serviços de emergência.
Foi publicada a doutrina nacional sobre a uniformização dos toques de sirenes, para que um cidadão que esteja a ouvir uma sirene que recomende evacuação em Lisboa, o toque em Lisboa não seja exatamente o toque oposto do de Portimão. Harmonização da sinalética, para que a forma como o cidadão é informado dos caminhos de evacuação seja o mais uniforme possível. Também a própria orientação para a forma como devem ser elaborados os planos de evacuação à escala local. O que se tem procurado fazer, na insuficiência de estudos mais detalhados para algumas zonas, é dar este padrão global de como é que a resposta se deve organizar para que a mesma seja feita de um modo tão homogêneo quanto possível, independentemente de estarmos em Vila Real de Santo António ou de estarmos na Marinha Grande.
Referências que não são vinculativas e que, como já aqui ouvimos, nem todas as autarquias seguem à risca. Já lá vamos, saber que municípios portugueses têm adotado programas de prevenção e alerta para tsunamis, mas antes, ainda aquilo que diz a avaliação nacional de riscos. De acordo com o documento de 2014, entretanto atualizado em 2019 e 2024, um tsunami equivalente ao gerado pelo sismo de 1755 irá afetar toda a costa sul e ocidental do continente, pelo menos até Peniche, bem como os estuários do Sado e do Tejo. Seriamente afetados serão todos os portos e marinas a sul do distrito de Leiria, edifícios e infraestruturas situados nessa faixa costeira, bem como embarcações, viaturas e equipamentos. A avaliação nacional de risco se estima que só por causa do tsunami se registem cinco mil mortos, mil feridos graves e dois mil desaparecidos. Mesmo apesar desta previsão oficial, nos quase mil quilômetros de costa do continente, são ainda muito poucos os municípios com programas dedicados a tsunamis.
Atenção, alerta tsunami. Alerta tsunami.
Lisboa, Cascais e Portimão têm sirenes de alerta como esta, colocadas nas praias e sinalética de evacuação até pontos de encontro seguros. Lagos tem a sinalética de risco e evacuação já implementada. Loulé e Sesimbra estão a preparar esquemas semelhantes e Setúbal optou por avisos visuais através de outdoors.
Attention, tsunami alert. Tsunami alert.
Sem um plano nacional para a costa no seu todo e porque não existe qualquer obrigação legal para que as autarquias tenham planos próprios, o que existe é o que resulta da iniciativa de cada Câmara. E nesse contexto, detalhamos a seguir um caso concreto. A título de exemplo, vamos até Cascais, cuja sirene temos estado a ouvir. Em Cascais, por iniciativa da autarquia, o trabalho específico de prevenção para tsunamis começou há exatamente 10 anos. Primeiro, com um estudo encomendado ao Instituto Dom Luís, da Universidade de Lisboa, onde fica muito claro o risco e as consequências de uma ocorrência destas para o conselho. Depois, com a criação de um sistema de aviso e alerta de tsunamis, que ao longo do tempo foi sendo coordenado com a Proteção Civil Nacional, a Câmara Municipal de Lisboa e ainda a Área Metropolitana de Lisboa, neste último caso, já numa lógica mais abrangente, envolvendo todo o estuário do Tejo. Daí resultou a instalação de sirenes e de sinalética para evacuação, mas também diversos programas de sensibilização da população nas escolas, no comércio, na hotelaria e nas zonas balneares. Rui Ângelo, diretor do Departamento de Proteção Civil da Câmara de Cascais, conhece bem os cenários e a sua gravidade.
Nós sabemos que as zonas mais costas, com uma cota inferior a 20 metros relativamente à altura do mar, serão potencialmente afetadas. Temos zonas já tão definidas, até por um estudo que o município encomendou a uma universidade, a Baixa de Cascais, a Baixa do Estoril. Temos até já previsto, tendo em conta precisamente este limiar da cota dos 20 metros, as zonas que são alagadas, que serão atingidas. As previsões apontam que a água pode ir até o início da Avenida de Sintra, ou seja, é a parte de Cila Baixa, toda de Cascais, que ficará afetada pela onda de tsunami, mas depois, rapidamente, temos uma cota muito superior indo para a zona da Fortaleza, e que na igreja já é considerado um ponto seguro, aliás, onde nós temos o nosso ponto de encontro que já está à cota de 20 metros. O problema aqui é mesmo a enseada que faz a Baía de Cascais, onde temos uma praia, logo está em cota zero do mar, mas em redor sobe rapidamente. Portanto, é exatamente entre a Baía de Cascais e o Estoril que temos cotas mais baixas. O que nós sabemos é que as zonas mais planas são aquelas, obviamente, que são as afetadas em primeiro lugar. E aí temos logo a questão do areal. Temos as praias, um sismo que se for às três da manhã no inverno, tem um impacto diferente, se for às três da tarde num dia de verão com a praia de Carcavelos com 15 mil pessoas. Temos hotéis em Linha de Costa, temos clínicas, temos centros de idosos ou os designados lares de idosos na Linha de Costa, temos a universidade em Carcavelos, temos aqui uma magnitude enorme de espaços de habitação, de espaços de lazer, espaços de saúde, infraestruturas críticas.
Como já ouvimos neste podcast, um tsunami provocado por um sismo idêntico ao de 1755 irá chegar à região de Lisboa em menos de uma hora.
Um número certo não temos, ninguém nos dá e nem a ciência tem essa capacidade de nos dar. Temos um intervalo estimativo, pode ir entre 15, 30 minutos, 45 minutos. Portanto, eu gosto de pensar que não teremos mais do que 30 minutos para nos prepararmos para o efeito. Se for 45 ou uma hora, é melhor.
Rui Ângelo explica o que irá acontecer assim que houver a confirmação de um sismo forte, capaz de provocar um tsunami.
A partir do momento em que nós somos informados, nós Proteção Civil de Cascais, ativamos as sirenes, quer com recurso à internet, tendo essa capacidade de plataforma, ou não tendo internet disponível, porque pode ter havido um sismo previamente ou coincidir com outra questão, temos uma mala com sistema TETRA de comunicações rádio, que é eficiente, porque é autónomo de todo o sistema até de dados móveis. Portanto, ativamos as sirenes e a primeira prioridade é assegurar imediatamente a evacuação da orla costeira daqueles que for possível, porque serão menos pessoas a ter que socorrer, caso se concretize depois o tsunami. Todas as praias têm a sinalética, porque se nós apelamos a que as pessoas façam evacuação, saindo das praias e mesmo da Baixa de Cascais, do Estoril, as pessoas vão encontrar a sinalética desses percursos até aos pontos de encontro.
Ao longo dos seus quase 30 quilômetros de costa, o Conselho de Cascais já tem seis sirenes instaladas. Coordenadas e com a mesma sonoridade que as duas instaladas em Lisboa.
Atenção, alerta tsunami. Alerta tsunami.
As sirenes não fazem milagres. O grande objetivo das sirenes é avisar até quem está mesmo na orla costeira, nas praias, nos paredões, até porque as sirenes estão vocacionadas precisamente para sul. Nós temos um vento predominante norte em Cascais, portanto, nós com a sirene não vamos avisar o bairro que está a 500 metros da praia. O objetivo das sirenes é mesmo avisar quem está nas praias.
E porque o risco de tsunami não influencia o processo de concessão de licenças de construção, as câmaras podem, ainda assim, forçar a adoção de práticas preventivas. Entre os destinatários das ações de sensibilização têm estado numa primeira linha os hotéis, as largas dezenas, para não dizer centenas de unidades hoteleiras que existem no Conselho de Cascais. O responsável pela proteção civil daquela autarquia revela dois procedimentos concretos que são sugeridos a essas unidades.
Essencialmente são duas grandes medidas mitigadoras, que é um tipo de alarme distinto de incêndio para tsunami, porque mesmo o turista, se ouvir o alarme de incêndio, pode ir para a porta do hotel. Se existir um alarme de tsunami, tem que ir para o ponto seguro, que pode ser a 300 metros do hotel. E depois aos abrigos em altura. Uma evacuação de um incêndio urbano, normalmente até para o piso zero de um hotel, se estiver para a orla costeira, para de tsunami, e pessoas, por exemplo, com mobilidade mais reduzida, é ir para uma cota superior do hotel, porque se o hotel tiver robustez física, aguenta o embate da onda e ficam seguros no piso superior. E, por exemplo, nós temos vários hotéis até na orla costeira, que têm terraço, onde fazem eventos, e que pode ser, de facto, um ponto seguro, que é acima da cota dos 20 metros, aguentando o edifício o embate.
O período de retorno dos tsunamis, tão longo ou mais do que o dos grandes sismos, gera uma falsa sensação de segurança, de que não é coisa que aconteça com facilidade ou pelo menos que vá acontecer enquanto por cá andarmos. Para quem vive na costa, é, no entanto, importante pensar nisso, olhar para o território, para os equipamentos preventivos, caso existam, bem como para a informação disponível sobre o assunto.
O que eu diria que tem que haver é também cada família, cada prédio, cada negócio, perceber qual é o seu plano de resposta ao risco de tsunami. Tem de se criar aqui quase como que um movimento nacional, como surgiu para o incêndio rural, depois de Pedrógão Grande e dos incêndios de 15 de outubro, foram dois grandes incêndios no mesmo ano. O problema é que o risco de tsunami não está presente na vida das pessoas. E portanto as pessoas não têm essa tendência de fazer esse plano. E portanto, reforço, para concluir, seria cada família, cada negócio, ter um plano de resposta ao risco de tsunami específico à sua realidade.
É fundamental perder algum tempo a pensar que não é se, é quando.
O podcast "Não é se, é quando" tem a assinatura do jornalista Celso Paiva Sol. O tratamento sonoro é dos estúdios Billy Boom Sound Design.