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Nem tudo o que vem a rir é bola. Traz nesta estreia a antena do Observador, Domingos Soares de Oliveira, o administrador do Benfica, com quem vamos falar sobre milhões de mercado, os mails e os processos judiciais e por que o Benfica não comprou um craque como os adeptos estavam à espera depois da venda de João Félix. Mas antes vamos olhar para a jornada. Ora Bruno Roseira, editor de desporto do Observador. Jogada rápida aqui no arranque deste programa com o que aconteceu na liga esta jornada, que ainda não terminou.

Sim, é um bocado chato por rótulos, mas agora é a melhor maneira. Ao Benfica ponho o rótulo de eficácia. Foi o primeiro jogo onde fez dois remates à baliza, em quadrados com a baliza, dois gols. Não é normal ver um jogo do Benfica onde o guarda-redes adversário, neste caso o Moreirense, não faz uma única defesa e acaba por perder o jogo. Ao Foco do Porto, o rótulo da gestão. Marcou dois gols e fechou a loja, com uma situação aqui e ali, mas fechou a loja. E o Sporting que anda à procura do rótulo da vitória, sendo que até agora os sete primeiros jogos oficiais já foram o pior arranque desde o 25 de abril. Não sei se haverá alguma revolução ou não. Vamos ver o que é que vai acontecer hoje com o Famalicão.

Ora bem, Mariana Fernandes, e lá por fora, depois de uma semana europeia, destinos diferentes nas equipes portuguesas.

Sim, o Benfica a perder na jornada de arranque da fase de grupos da Liga dos Campeões com o Leipzig. E o Benfica que vive nesta altura uma bipolaridade de discursos. Com Luís Filipe Vieira e Rui Costa a dizerem que o clube tem um projeto europeu a curto e médio prazo e depois Bruno Lage a fazer muitas poupanças na hora de escolher a equipe, ainda que ele tenha dito dias depois que não fez poupanças, achou apenas que aquela era a melhor equipe para jogar contra os alemães. O Porto a ganhar ao Young Boys na primeira jornada da fase de grupos da Liga Europa. Sérgio Conceição assumiu que o objetivo da equipe tem de passar pela vitória na Liga Europa, tendo em conta que tinha dito na altura da eliminação com o Krasnodar, que a equipe ia estar logo à partida desviada daquilo que era o seu rumo natural, que era estar presente na Liga dos Campeões. O Sporting perdeu com o PSV, provavelmente o adversário mais difícil do grupo. O Braga foi à Inglaterra garantir uma importante vitória contra o Wolverhampton num Espírito Santo que está a sofrer com as dores de crescimento, de jogar de três em três dias, de estar nas competições europeias. E o Guimarães perdeu com aquela que seria também a equipe mais acessível. Tem a vida muito dificultada neste grupo da Liga Europa.

Ora bem, e Bruno, hoje temos entrega de prêmios, "The Best", prêmios entregues pela FIFA, que vão distinguir os melhores do mundo e um dos destaques é Cristiano Ronaldo.

Sim, mas como a imprensa espanhola está tão sossegadinha hoje, já se percebeu que entre Ronaldo e Messi vai ganhar Van Dijk. O que não deixa de ser curioso, porque se nós olharmos para aquilo que foi este prêmio, em 91 ganha o Matthäus, que nós recordamos como defesa, mas que nesta altura jogava como médio e até próximo dos avançados. Temos em 2006 a vitória do Cannavaro, porque a Itália é campeã do mundo, mas mesmo assim com muita contestação, e hoje vamos ter, em princípio, a vitória de mais um defesa. Existe aqui um outro dado curioso, de 2007 até hoje, estamos a falar em 12 anos, o Ronaldo e o Messi só uma vez cada ficaram fora do pódio, hoje vão outra vez marcar fora do pódio. Deixa-me só dizer que, e isto não tem a ver com patriotismo e com o facto de não ganhar o Ronaldo, para mim, o The Best hoje, não sei se vai ser entregue ou não, está só nomeada, mas é para Silvia Greco. A Silvia Greco está nomeada para o The Best aficionado e é basicamente a mãe de uma criança invisual que lhe relata todos os jogos no estádio. Para mim, isto é o The Best.

Ora muito bem, agora tempo para as figuras da semana. Aqui destacamos as figuras da semana e do fim de semana desportivo. Bruno Roseira, esta semana trazes os destaques com o Ás, o Joker e a carta fora do baralho, se podemos chamar-lhe assim.

É verdade. Mas vamos começar pelo Ás. O Ás é Jorge Jesus, que é sempre um ás. Ainda para mais agora que chegou à sua zona de conforto, que é estar a ganhar e ao mesmo tempo já andar picado com as arbitragens, com o Tite. Agora o Renato Gaúcho, treinador do Grêmio, com quem vai disputar a meia-final dos Libertadores, também já se está a meter com ele. Ele agora sim conseguiu chegar à zona de conforto. E conseguiu com mérito desportivo. Sete vitórias seguidas, um recorde no Flamengo, nunca tinha ganho sete jogos seguidos no campeonato. Teve, não neste jogo com o Cruzeiro, mas no último com o Santos em casa, o Maracanã de pé, e não é propriamente a coisa mais fácil do mundo, porque normalmente quando o Maracanã fica de pé é porque o treinador é para ir embora. Seja de pé dentro do estádio, seja depois cá fora, é porque o treinador é para ir à vida. Ele conseguiu mudar um pouquinho esse paradigma. Três grandes mudanças aqui que eu identifico: estabilizou a equipe em termos defensivos, acho que foi o principal segredo até. Recuperou um jogador, o Willian Arão, que tem a curiosidade de ter sido a primeira bronca que ele dá num treino e ainda por cima com os jornalistas todos a ver, aquilo foi um encanto para eles. E, por outro lado, recuperar o Gabriel Barbosa, que está a ser, de facto, o grande goleador do Campeonato Brasileiro.

No Joker, vamos para as modalidades.

Sim, para o Frederico Morais, por duas razões. Por um lado, a conquista da vaga olímpica que ele consegue no Mundial de Surf, ficou em sétimo lugar, mas conseguiu já garantir uma vaga olímpica que tem o simbolismo de ser a primeira vez que o surf está nos Jogos Olímpicos em Tóquio, em 2020. Ele tinha perdido um pouco esse hype depois de ter saído do circuito mundial. Não só garantiu essa qualificação, como ainda conseguiu agora ganhar a prova de qualificação dos Açores, o que o coloca nesta altura em posição para subir novamente ao circuito mundial, que é uma espécie de primeira divisão do surf. Acho que merece todo o destaque esta semana.

E quem é que fica de fora nesta carta?

Fica a seleção de voleibol, porque perdeu uma oportunidade de fazer história por ponto. Isto é um pouco aquele fado lusitano do morrer na praia. Ou seja, em vez de estarmos a chorar pela derrota em si, por termos sido eliminados por um ponto, acho que devemos estar a chorar porque fomos eliminados. Porque esta seleção tinha qualidade suficiente, não só para repetir a vitória da Grécia contra a Romênia, como pelo menos para perceber que estava a um ou dois pontos de seguir em frente até aos oitavos, provavelmente perderia com a Rússia, mas não deixaria de ser um marco histórico na sua carreira.

Ora aí está. Ás, joker e carta de fora já estão, agora vamos aos três toques E aqui é tempo de olharmos para os números, nas estatísticas está a Mariana Fernandes. Vamos a esses três toques desta semana. Começamos por?

Começamos com o Bruno Moreira, o avançado do Rio Ave, um avançado de 32 anos. Marcou na vitória do Rio Ave contra o Belenenses nesta jornada, no sábado. Marcou nos últimos três jogos do Rio Ave, num arranque de campeonato em que, no início, eram Taremi e Rhonald a assumir aqui um protagonismo mais ofensivo na equipa de Carlos Carvalhal. Agora é Bruno Moreira, que está a cumprir a segunda temporada no Rio Ave, depois de ter estado no Paços de Ferreira e de também ter passado pelo CSKA na Rússia e até pelo futebol tailandês. Mostra que pode ser um dos destaques de uma equipa de Carlos Carvalhal, que é preciso recordar que está em quarto, apenas atrás do Famalicão, do Benfica e do Futebol Clube do Porto. Portanto, primeiro toque, Bruno Moreira.

E o segundo, vamos para um treinador.

Um treinador, João Henriques, o treinador do Santa Clara. Depois do jogo com o Porto ontem à noite, em que os açorianos se queixaram muito de um lance com o Uribe e com o Fábio Cardoso, em que o jogador do Santa Clara ficou a sangrar e abriu a cabeça. João Henriques apareceu então na Flash Interview a defender que lances como este não podem passar impunes, porque a cabeça do jogador não abriu sozinha, disse o treinador. Referiu ainda que equipes como o Santa Clara também têm objetivos e também precisam de pontos, isto claramente num toque, num aviso às equipes de arbitragem. E deixou ainda um recado a Fernando Santos, eu acho que isto aqui é o destaque também, garantindo que Marco, que é o guarda-redes do Santa Clara, fez uma grande exibição contra o Futebol Clube do Porto e, na opinião do treinador, está no top cinco de guarda-redes no mundo a jogar com os pés. Portanto, depois de Cláudio Ramos ter sido convocado pra Seleção Nacional por Fernando Santos, João Henriques aqui a deixar o aviso ao selecionador de que Marco também pode estar nas contas.

Um jogador, um treinador, falta um clube, SAD.

Um clube e um jogador. E aqui o toque é negativo, portanto o Belenenses e o Licá, depois de uma temporada passada até positiva, em que o Belenenses consegue terminar em nono, depois de todo o turbilhão interno e da divisão entre clube e SAD, consegue ter uma temporada positiva, surpreendentemente positiva, com Silas ao comando. Nesta altura estão em 14º lugar com apenas cinco pontos, portanto uma vitória, dois empates e três derrotas. Voltaram a perder este fim de semana com o Rio Ave, como já tínhamos dito anteriormente. Silas já saiu, deu entretanto uma entrevista onde disse que a relação com o presidente Rui Pedro Soares não era a mesma desde janeiro, justificando aqui um pouco uma saída a mal do Belenenses. A equipa só tem três gols marcados e nenhum é de Licá, que o ano passado e nas últimas épocas tem sido a grande referência ofensiva do Belenenses. Portanto, toque negativo esta jornada e desde o início do campeonato para o Belenenses e para Licá.

Ora aí está. Agora vamos entrar no túnel. E aqui sim, Bruno Roseiro. Este é aquele espaço, já tínhamos falado sobre isso, que eu gosto sempre, traz sempre algumas coisas picantes. Bruno, quais é que são os pormenores e aquilo que estes túneis nos vão trazendo, estes túneis do futebol, neste caso?

O primeiro túnel, ou o primeiro filme do túnel, não é o Bruno Fernandes a pôr o pé às portas, mas tem a ver um pouco com fair play. Ou seja, por um lado, o Benfica no ano passado decidiu, em termos internos, adotar um discurso de fair play, acabar de vez com a guerra aberta que havia com o Futebol Clube do Porto, até porque a questão dos e-mails acabou por esvaziar um pouco com o tempo, e começou a haver essa preocupação de adotar um discurso positivo. Aquilo que se viu na jornada passada foi a primeira vez que existe um lance duvidoso, que neste caso não é bem duvidoso, foi favorável ao Futebol Clube do Porto, como o próprio VAR Vasco Santos acabou de admitir, de um pênalti mal assinalado contra o Portimonense. A verdade é que apareceu a conta do Twitter do Benfica logo a dar sinal e a falar desse lance. Não deixou de ser curioso que, em termos internos, bem ou mal resolvido, este fim de semana já não houve nada. E havia um lance claramente que podia ser falado, que é aquele lance em que o Uribe atinge com o cotovelo o Fábio Cardoso, parece-me demasiado evidente. Depois pode-se colocar ou não em causa se é expulsão, se é pênalti, etc. A mim o que me faz confusão é: é impossível passar ao lado daquele lance. Passou-se ao lado daquele lance e também o Benfica já passou ao lado. Portanto, parece-me que aquilo que houve no jogo com o Portimonense foi mesmo um espasmo e parece-me que não é por acaso que isto aconteceu. Por outro lado, o Sporting também foi a mesma coisa. A seguir ao jogo do Boavista, quis defender o Bruno Fernandes atacando a arbitragem pelas sucessivas faltas que teria cometido. Eventualmente até poderão ter alguma razão com o aparecimento das imagens do Bruno Fernandes a pôr o pé às portas, etc. E com algumas mensagens que estão ali, nomeadamente a maneira como ele passa pela estrutura do futebol, Frederico Varandas, Hugo Viana, Beto, como se nada se passasse. Está agarrando o telemóvel claramente a perceber que eles estavam ali, mas ia pro autocarro. O que não quer dizer que esteja zangado com eles, mas isso aconteceu. A verdade é que já recuaram também um pouco e já vieram assumir que o Bruno Fernandes é um símbolo, já pediu desculpa por aquilo que fez e que quem passou as imagens será penalizado. Ou seja, não deixa de ser curioso, quer o Benfica, quer o Sporting, tiveram a tentação de fugir ao discurso que havia em termos internos, mas já recuaram uma jornada depois para aquilo onde querem estar, que é um discurso sem tocar nas arbitragens e a puxar pela parte positiva do futebol.

Agora temos aqui um outro túnel, mas este já é de há uns anos, que é a sucessão de Pinto da Costa. Quando chegamos a esta fase, começam a surgir assim umas figuras que normalmente são sempre as mesmas.

E acabou por ser quase por dominó. Se nós repararmos na cronologia que existiu, foi André Vilas-Boas primeiro a assumir que um dia gostaria de chegar à presidência do Futebol Clube do Porto. Depois o Vítor Baía aqui na nossa rádio a admitir também que estará sempre presente num futuro do Futebol Clube do Porto e pra aquilo que for necessário. E agora o António Oliveira também a dizer que se for necessário, estará sempre disponível para o futuro do Futebol Clube do Porto. Eu acrescentaria ainda duas figuras, Alexandre Pinto da Costa, filho do atual presidente, e Antero Henrique, que as pessoas andam esquecidas, mas que já saiu do Paris Saint-Germain e nesta altura também está sem fazer nada Não deixa de ser curioso, esta semana Pinto da Costa vai apresentar a sua recandidatura. E em termos internos, há aqui um dado ainda mais curioso que é: não existe uma espécie de preparação para. Olhando para aquilo que foi o Benfica, por exemplo, quando entra Luís Filipe Vieira, onde Manuel Vilarinho acaba por abrir um bocadinho a porta e o caminho a Luís Filipe Vieira, e olhando também para aquilo que costuma haver no Sporting dentro do possível, ou seja, uma espécie de sucessão, parecia quase uma dinastia durante 15 anos, no Futebol Clube do Porto é ao contrário e Jorge Nuno Pinto da Costa passa ao lado de todas estas entrevistas e não está propriamente a preparar terreno para ninguém.

O que é certo é que todos eles se apresentam, estão disponíveis, dão o peito, mas nenhum deles quer ir contra o Pinto da Costa. Ou seja, nenhum deles diz: "Eu vou lá à luta, vou esperar que ele desista."

Porque era a mesma coisa do que ir contra uma instituição. Isso aí nunca corre bem. Portanto, percebe-se aquilo que cada um está a fazer. Agora, que vai haver uma luta de galos, isso vai, ninguém tem nenhuma dúvida.

Mas vão todos esperar que o lugar fique vago primeiro para lutar depois.

Pois, com certeza. Lutar contra uma instituição é a mesma coisa do que lutar contra uma estátua, não vale a pena, porque a estátua vai sempre ganhar e Pinto da Costa é uma estátua para o Futebol Clube do Porto.

Muito bem, seguimos agora para a próxima história. Isto tem a ver com Sporting, viagens, Malásia, o que nos trazes aqui no minuto?

Muito resumidamente, o Sporting esteve na Malásia através de um administrador da SAD e um outro dirigente responsável pelo desenvolvimento económico internacional. Estiveram reunidos com Vincent Tan, que é o dono do Cardiff. O encontro foi num hotel em Kuala Lumpur. A conversa passou, por um lado, pela tentativa de estabelecer parcerias que possam beneficiar em termos financeiros a SAD, por outro também, e como sempre, apresentar o projeto de formação para tentar criar algumas parcerias. Entretanto, e como a bola também nunca para, vá ou não à rede, posso também dizer que o Sporting nesta altura já está a perceber alguns treinadores que estão no mercado disponíveis, quais seriam as suas condições. Portanto, parece-me que a partir do momento em que existem contactos exploratórios com treinadores, podemos também dizer que Leonel Pontes vai depender muito do resultado do Famalicão, e isto é uma coisa que nos apareceu há pouquíssimo tempo.

Vamos então ver. Futebol Clube do Porto com a sucessão de Pinto da Costa, o Benfica e o Sporting com os tweets e aqui nesta novidade. Então Leonel Pontes a fazer contas para o jogo desta noite frente ao Famalicão, que precisa de ganhar para manter a liderança e o Sporting precisa de uma vitória para Leonel continuar na liderança do clube. Agora vamos marcar um Golo Fora. E neste Golo Fora procuramos atletas que se destacam lá por fora e por isso a Mariana Fernandes aqui de mochila às costas foi à Noruega onde descobriu um jogador que já vestiu, entre outras, a camisola do Benfica e agora é político. Explica lá aqui neste Golo Fora quem é este senhor.

Este senhor chama-se Nuno Marques, tem 38 anos, chegou a ser titular dos juniores do Benfica, ainda jogou na equipa principal do Estrela da Amadora cá em Portugal. Está na Noruega há 15 anos, mudou-se para a Noruega para jogar, representou três clubes na Escandinávia, terminou a carreira graças às lesões, teve uma lesão grave no joelho e acabou por pendurar as chuteiras. Tornou-se professor universitário, fez um bacharelato ainda cá em Portugal, depois tirou um mestrado, está neste momento a tirar um doutoramento. Entretanto, foi convidado para ser candidato às eleições autárquicas norueguesas, que decorreram na semana passada. Por isso, eu acho que a primeira pergunta que tínhamos de lhe fazer era: Nuno, como correram as eleições?

Correram bem, dentro do que eu tinha pensado. E claro, fiquei muito satisfeito com o resultado, ainda mais quando eu, no espaço de seis meses, de repente apareci como candidato e fiz um excelente resultado, não só a nível do partido, mas principalmente a nível pessoal.

Nuno Marques explicou ainda que nunca teve propostas para voltar a Portugal.

Concretas, nunca tive propostas. Depois, claro, a partir de 2008, 2009, com a tal crise financeira, é que eu me fui apercebendo que a Noruega é realmente um país muito bom, especialmente para quem tem dois filhos pequenos como eu e para quem quer ter uma vida profissional flexível e que dê para conciliar com tempos livres, especialmente para ter qualidade de vida com a família. Portanto, propostas concretas, digamos, infelizmente, nunca tive durante estes anos todos em que cá estou na Noruega.

O antigo jogador falou ainda sobre as diferenças entre o futebol português e o futebol norueguês.

Antes de mais, há mais respeito. Não é mais respeito, há respeito entre os adversários, entre todos os atores envolvidos neste mundo de futebol, jogadores, treinadores. Aqui não há dirigentes, não se vê um único polícia nos estádios de futebol, entre árbitros, jornalistas. É outra cultura, é outro ambiente, não dá para comparar. Claro, em termos técnicos, Portugal está muito mais à frente. Mas eu tive uma carreira bastante engraçada e nunca me faltou nada. E fui respeitado e respeitei adversários, colegas e pronto, é outra cultura.

E finalmente, era possível em Portugal um antigo jogador ser convidado para integrar a lista eleitoral de um partido?

Impossível. Para além do mais, sendo eu estrangeiro aqui. Acho engraçado vermos programas televisivos, por exemplo, sobre futebol, são poucos os ex-futebolistas que fazem parte desses debates. Muitos deles são políticos, nunca jogaram futebol. Mas depois vamos ver debates políticos, é só políticos lá estão. Portanto, em Portugal, o que aconteceu comigo e tem acontecido comigo é impensável, antes de mais por ser estrangeiro. E depois pelo meu background, o meu historial, nunca tive ligado à política, pronto, apareci assim do nada. E fiz a eleição que fiz, tive os resultados que tive. Portanto, demonstra que a democracia aqui na Noruega é diferente e as pessoas são mais ativas politicamente, exercem mais o seu direito de cidadania.

Nuno Marques, aqui a dar-nos o seu testemunho depois de 15 anos na Noruega, ele que foi para lá na altura com um projeto que seria de dois a três anos. Entretanto ficou, apaixonou-se pelo país, casou, tem dois filhos e não tem propriamente nas suas perspetivas regressar a Portugal.

Bom, e agora é tempo de notícias. Atualizamos a informação numa síntese agora há meia hora, já passaram três minutos. A seguir junta-se a nós Domingos Soares Oliveira, o administrador do Benfica. Queremos saber como estão as contas no Clube da Luz. Segunda parte do "Nem Tudo o Que Vem à Rede é Bola" com Bruno Roseiro, editor de Desporto do Observador, Mariana Fernandes, jornalista de Desporto e comigo aqui Aníbal Rebelo, depois de termos feito uma primeira parte onde já falámos do resumo da jornada com os destaques, os números e também as principais figuras da semana. Agora vamos à entrevista com Domingos Soares Oliveira, administrador da SAD do Benfica, o homem por detrás das contas do Clube da Luz e há mais de uma década o grande responsável por toda a estratégia de recuperação financeira do Benfica. É por aí que vamos começar então pelos números. Bruno Roseiro, o pontapé de saída é teu.

Obrigado antes de mais por ter aceito o nosso convite. Ainda se recorda há 15 anos as receitas do Benfica? Hoje estamos a falar de uma receita de 300 milhões de euros. Ainda se recorda em 2004, por exemplo?

Recordo-me perfeitamente, eram receitas na ordem dos 45 milhões de euros, com uma situação de prejuízos, com capitais próprios a roçar o negativo e com variantes de vez em quando, tínhamos capitais próprios negativos, outras vezes positivos, mas enfim, uma situação muito mais complicada do que aquela que temos hoje.

Eram claramente zeros a menos em comparação com o universo de hoje.

Eram zeros a menos comparando com a situação atual, mas era uma situação que de alguma forma, em termos proporcionais relativamente aos outros grandes clubes europeus, a diferença digamos em termos percentuais mantêm-se, o que quer dizer pela positiva, que conseguimos crescer ao mesmo ritmo que os grandes clubes europeus e quer dizer pela negativa que os gaps que existiam em termos de volumetria, de valores absolutos, são maiores hoje do que aqueles que existiam na altura.

Consegue fazer essa recuperação, ou seja, o Benfica vai conseguir fazer essa recuperação. Na altura, quando chegou ao Benfica e olhando para esses números, pensou que conseguiria colocar o Benfica onde está agora, em termos nacionais, e agora como é que o Benfica vai recuperar e vai alterar essa diferença em relação àquilo que são os tubarões europeus?

Nós sabíamos que a recuperação seria impossível, portanto, sendo objetivos, não há forma de recuperar essa diferença, porque os cinco grandes mercados europeus têm um volume de receitas televisivas que são insuperáveis para um clube português. E portanto, nunca tivemos a ambição de conseguir ultrapassá-los em termos de valores absolutos. Queríamos duas coisas. Primeiro, queríamos crescer ao mesmo ritmo do que eles, portanto, se o mercado cresce e cresce a dois dígitos, nós também teríamos que crescer a dois dígitos. E segundo, queríamos fazê-lo sem comprometer a situação patrimonial, ou seja, teríamos que encetar um processo de geração de lucros, que é uma coisa menos relevante nos outros clubes, que nos permitisse chegar à situação que temos hoje. Portanto, esse foi o caminho que percorremos, que foi investimento e forte investimento numa fase inicial em pessoas, depois numa segunda, pessoas e património, eu diria, depois, enfim, já noutras vertentes mais ligadas à componente desportiva. Os resultados estão à vista, eu acho que os seis anos de lucros, e até diria, antecipo, sete anos de lucros, porque este ano com a venda do João Félix, vamos certamente gerar também uma situação positiva. Sete anos de lucros com resultados desportivos de cinco campeonatos em seis épocas, obviamente que a estratégia que seguimos foi a certa.

Mas está centrada só na venda de jogadores, essa vinda de receitas?

Está também centrada na venda de jogadores, ou seja, se para hoje conseguimos fazer 300 milhões de euros, em termos de grupo, cerca de 200 são não jogadores, 210 mais precisamente, e depois 90 milhões são vendas de jogadores. Sem esses 90 milhões, nada disto seria possível. Ou seja, nós temos tido ao longo dos últimos anos uma receita média que se situa, enfim, a média deve situar próximo dos 80 milhões de euros em termos de vendas de jogadores E sem isso, obviamente que a situação seria uma situação negativa. Agora, como eu digo, não fazemos vendas de jogadores porque gostamos de fazer vendas de jogadores. Fazemos vendas de jogadores por necessidade de conseguir acompanhar esse ritmo de crescimento que os grandes clubes estão a tendo.

Mas então, nestes 300 milhões de euros de valor recorde, em que existem três saídas, três vendas de jogadores que são fulcrais, portanto, o Jovic, o Jiménez e também o Talisca, tirando e pondo de lado então essas vendas destes três jogadores, qual é que é o ponto fulcral para este valor recorde a que o Benfica chegou?

O ponto mais importante, aquilo que tem aumentado mais em termos das receitas, digamos, correntes, são os valores gerados com as receitas da UEFA. Aí houve um incremento significativo e, portanto, em certa medida, isso não é mérito do Benfica, é mérito do Benfica estar na Champions e conseguir beneficiar dessas receitas, mas na realidade não tem a ver com a atividade comercial que fazemos. Agora, as outras vertentes em termos comerciais, seja direitos televisivos, seja patrocínios, seja receita de bilhética, todas têm crescido. Portanto, não há aqui só um impacto de dependermos 100% da UEFA. Todas as receitas têm crescido e acredito que se a estratégia que temos em termos de mercados, nomeadamente mercados internacionais, o mercado chinês e o mercado americano derem certo, daqui a mais alguns anos teremos também o benefício dessa aposta que estamos a fazer agora.

Já levantou eu um pouco o véu, portanto, o sétimo exercício positivo com esta venda do João Félix, que não entra neste último exercício. Quando existem as negociações do João Félix, olha para ele só na parte desportiva, financeira? Alguma vez pensou que, por exemplo, estava ali a quarta maior venda de sempre do futebol?

Não, nunca pensamos a esse nível. Para nós, como eu disse, não é importante bater recordes em termos de vendas, quer dizer, gostamos de ser um clube respeitado em termos de vendas, ou seja, não queremos vender ao desbarato e não queremos que haja falta de respeito relativamente àquilo que são os nossos valores, tanto valores do próprio Benfica, mas também em termos de valores do nosso plantel. E nesse sentido, obviamente que batalhamos bastante e é um processo que é acima de tudo conduzido pelo presidente, e o presidente é um excelente negociador. Mas não houve essa preocupação de dizer nem sabia que era a quarta maior venda de sempre. Provavelmente não teremos nenhuma situação assim nos próximos tempos, mas teremos valores que são valores bastante importantes, porque como já referimos, naqueles que são os jogadores-chave, vamos sempre impor aquilo que é a cláusula de rescisão. E em relação àquilo que referíamos relativamente ao ano passado, essas três vendas que tivemos, duas delas eram jogadores que não estavam no plantel, que era o caso do Jovic e do Talisca. Aliás, os três não estavam no plantel, mas um estava por empréstimo fora há menos de um ano, que era o caso do Jiménez, e depois o caso do Jovic e do Talisca, que eram jogadores que para nós de alguma forma já não faziam parte da nossa estratégia. E é muito isso que queremos fazer, é tentar manter os melhores jogadores, tentar manter aqueles que fazem a diferença e aqueles, nunca vou chamar um jogador destes um mono, porque não é essa a expressão, mas aqueles jogadores que não são críticos dentro do nosso plantel, podermos efetivamente realizar uma boa venda com eles.

Ainda se recorda a primeira reação que teve quando lhe dizem 120 milhões e pronto? Imagino que não deva ser propriamente uma coisa.

Na realidade, nunca disseram isso. Se dissessem isso, provavelmente as negociações tinham acabado mais cedo, porque seria diferente. Mas enfim, recordo-me que ao longo de todo este processo, nos vários encontros que tenho com vários dirigentes de clubes europeus, e nomeadamente enquanto estive na direção da ECA, a maioria dos responsáveis dos clubes ingleses, até espanhóis, franceses, com quem falei, todos diziam: "É impossível". E nós dissemos: "Não sei se é impossível ou não, mas no fundo não faremos nenhum desconto relativamente a essa situação". E eu compreendo até aquilo que eles diziam, porque no fundo o João Félix, aquilo que aparecia de imediato era um jogador que tinha feito seis meses no plantel lá do Benfica e depois as pessoas podiam conhecê-lo um bocadinho melhor, mas basicamente é aquilo que eu digo, que estavam ali a comprar um futuro, em termos de uma linguagem económica. E é muito difícil para um futuro estar a pôr uma verba de 120 milhões em cima da mesa. Houve um clube, que foi o Atlético de Madrid, e com o seu presidente, que se destacou do ponto de vista de crença, e quando eu digo crença, é mesmo uma crença, eu estive com ele em várias ocasiões e ele acreditava de uma forma quase cega naquilo que era o valor do João Félix. E acho que o tempo já lhe deu razão e dará mais razão em termos futuros.

Eu recordo-me de uma história, por exemplo, a ver com o mercado. O David Luiz, por exemplo, foi uma questão de quase segundos quando é vendido. Havia essa dúvida se conseguia, se não conseguia, lá chegou o fax e foi vendido. Ao longo de 15 anos, recorda-se mais alguma história dessas de uma venda ou uma compra que tivesse sido feita mesmo ali no limiar, uma situação que ainda hoje se recorde?

Recordo-me mais de situações, ao contrário, de vendas que estiveram à meia-noite prontas para ser feitas e que depois não fechamos. Dada a sua antiguidade, já posso falar dela. A primeira vez que, creio que foi o Liverpool que manifestou interesse no Simão Sabrosa, estávamos numas instalações exatamente aqui ao lado da Rádio Observador, no escritório de um empresário, com o jogador pronto para entrar dentro de um avião, com o sogro do jogador, de alguma forma a tentar puxar e é compreensível que o negócio se fizesse. E andamos ali num processo para trás e para a frente até que chegou à 00:01 e, portanto, já se tornou impossível fazer o negócio. Mas há muitas histórias dessas, há muitas histórias em que nessas alturas, quando chega o dia 30, eu costumo até às vezes brincar que é o dia 32 de agosto, em que estamos ali numa guerra, numa batalha, e depois o negócio não se faz.

E nas compras? É difícil vender, são negociações complicadas, e comprar jogadores que tiveram até à última hora para entrar?

É muito parecido, porque há sempre duas coisas que fazemos. Uma é planear, e isso é a atividade principal, é planear com muito tempo de antecedência. Portanto, há compras que ficam decididas em janeiro, muitas vezes até que são realizadas em janeiro, e ao longo do ano vamos assumindo um conjunto de compromissos e com isso estabilizamos aquilo que é o plantel da próxima época. Depois temos outras duas situações, que são situações que controlamos menos. A primeira é se vêm aqui bater a cláusula de rescisão de algum jogador ou se fazem uma proposta, ou se chegam a um acordo e, portanto, de repente, à última hora, perdemos um jogador. E isso é a situação em que vivemos mais apavorados, que é a situação de dia 28, 29 de agosto, alguém chegar aqui com um cheque e nos tirar um jogador que para nós é crítico. E a segunda é as sobras do mercado. Eu recordo-me perfeitamente da situação do Jonas, que é um jogador que está desempregado e por isso é que conseguimos contratá-lo logo no início de setembro. Portanto, são oportunidades que aparecem e nós próprios dizemos: "Vamos esperar, porque efetivamente, no final do mercado vão aparecer aqui alguns jogadores que podem ser extremamente interessantes para nós ou não, mas vão aparecer jogadores e que os clubes se pretendem desfazer". E obviamente, um clube que se pretende desfazer de um jogador no fim do mês de agosto, o seu valor, e tivemos caso a nível nacional, o seu valor baixa significativamente, se calhar para metade daquilo que seria o seu valor no início do mês de agosto.

Mas com 120 milhões na mão, tendo em conta o mercado deste ano, não deveria ser o Benfica a ir já buscar e não esperar pelas sobras?

Sim e não. Sim, no sentido, ou seja, isso foi dito em termos internos e foi dito à equipa técnica e à equipa de scouting, todos a nível de conselho de administração e do departamento de futebol, todos sabiam que efetivamente este ano a nossa capacidade financeira era diferente dos outros anos. E eu não escondi. Quer dizer, nós tivemos e temos uma situação de caixa neste momento que é única. Nunca vivemos com um valor de caixa tão elevado quanto temos agora. O segundo aspecto é que, e isso eu acho que houve muita maturidade da parte da equipa técnica e da parte do departamento de scouting, não é comprar por comprar. É preciso que efetivamente quem venha, tenha valor que seja reconhecido e mais uma vez, também com outros exemplos, ir buscar aqueles jogadores que toda a gente se quer desfazer deles e pagar por esses jogadores pode não ser uma boa política, porque vão baralhar mais do que acrescentar valor. E este ano, basicamente aquilo que aconteceu foi que houve um extraordinário rigor por parte da equipa técnica e do departamento de futebol dizer: "Aquilo que temos é um valor seguro e, portanto, não vamos também nós entrar aqui numa política despesista que não faz qualquer sentido".

Mas ficou a faltar um craque, ou não?

Nós temos uma série de craques. Quer dizer, se estivesse aqui o Bruno Lage, tenho a certeza que ele, e ele tem feito muito a defesa do seu grupo de trabalho, de uma maneira muitas vezes até financeira, porque ele diz quanto é que nos teria custado ir buscar o jogador A ou o jogador B, que acabou de entrar para o plantel vindo da equipa B. Eu acho que nós temos craques. Agora, do ponto de vista de marketing, de uma estratégia de marketing, um grande craque muitas vezes faz a diferença. Eu recordo-me perfeitamente quando fomos buscar o Aimar ou quando fomos buscar o Saviola, que era um jogador já a entrar na sua fase descendente em termos de carreira desportiva, e o marketing beneficia muito disso. E nós temos no nosso plano estratégico que todos os anos deveríamos ir buscar um craque que seja um craque reconhecido. Põe-se outro problema, que é: e os craques reconhecidos querem vir para Portugal? E eu vivi essa situação, por exemplo, no caso do Barcelona, quando tentámos ir buscar o Silesen para o Benfica, falei com o presidente do Barcelona, falei com o diretor desportivo do Barcelona, não falei com o jogador, mas houve quem falasse com o jogador e com o empresário, e o jogador disse desde o princípio: "Eu quero estar numa das cinco ligas principais". E basicamente foi isso que fez toda a diferença.

Não é sexy a liga portuguesa.

Não é tão sexy quanto as outras ligas são. Enfim, seria capaz de atribuir aqui um grau de sexy em relação a cada uma das cinco ligas, e há umas que são mais do que outras, mas claramente que a liga portuguesa, neste momento, não tem visibilidade em termos externos, que torne os clubes portugueses suficientemente atrativos para trazer esses grandes craques para Portugal.

Nem com a presença do Benfica na Liga dos Campeões?

Mas esses clubes também estão na Liga dos Campeões. Quer dizer, o Benfica é um dos 32 clubes que estão na Liga dos Campeões e, portanto, das grandes ligas haverá, diria que provavelmente 15, 16, 17 clubes. Portanto, eles têm muita escolha para decidir aquilo que querem em termos do seu futuro.

Tem nesta altura duas conversas em aberto em relação ao naming do Estádio da Luz. Isto é um negócio que pode ficar fechado a curto prazo e está diretamente ligado com o aumento da lotação do estádio, que também tem sido um assunto em cima da mesa nos últimos tempos.

Não. Portanto, segunda pergunta, não, não há qualquer ligação entre o naming e o possível aumento da capacidade do estádio. Não tenho também uma expectativa de fechar a curto prazo, porque a história ensina-nos que efetivamente este tipo de negócios é um negócio que demora muito tempo a fechar. Não há em Portugal uma tradição de namings, ao contrário, por exemplo, do mercado inglês ou do mercado alemão, que tem uma tradição muito grande em termos de namings, mas mantemos as conversas em aberto, mantemos o interesse, temos feito visitas comerciais, os potenciais clientes mostram interesse. Efetivamente, é uma questão de acertarmos no valor e de acertarmos no parceiro.

E acha que esse pormenor, aqui falando um pouquinho mais em relação aos adeptos, o pormenor de em Portugal não ser tão tradicional o naming do estádio, pode desagradar mais aos adeptos? Porque a verdade é que os adeptos não olham tanto para o panorama financeiro, pelo menos numa primeira fase, não é?

É quase o contrário. Numa primeira fase, olham muito para o panorama financeiro. Eu recordo-me perfeitamente quando entrei no Benfica, não havia assembleia geral do clube audaçado que não se falasse sobre o passivo. E as pessoas, eu acho que ninguém sabe bem o que é o ativo, mas toda a gente falava do passivo. Portanto, há uma situação, quando os clubes enfrentam dificuldades e todos os clubes portugueses já passaram, uns continuam, outros já os ultrapassaram, os adeptos preocupam-se muito com essa situação. Uma vez que isso está resolvido, então começam a dedicar muito mais atenção à componente desportiva. Mas para se resolver os temas do passivo, é preciso, efetivamente, uma boa política do ponto de vista comercial e, portanto, a venda de um naming por um valor de milhões de euros é uma coisa que faz toda a diferença. Eu nunca senti numa assembleia geral uma resistência a dizer que o Estádio da Luz possa ser o estádio da marca X. Não quer dizer que as pessoas, no seu íntimo, continuem a referir-se ao estádio como Estádio da Luz ou Estádio do Benfica e não pela marca X. Mas aquilo que hoje é política de patrocínios no mundo do futebol, é uma política de geração de valor acrescentado, não pela exposição do naming, mas pelo aumento das receitas. Portanto, não é apenas porque a marca vai ter um valor acrescentado do ponto de vista de reconhecimento. A Emirates não precisa de mais reconhecimento conosco, como a Sacres também não precisa, mas é sobretudo do negócio adicional que conseguimos gerar para estas marcas que patrocinam o Benfica.

Tem também a questão do naming do Seixal em mãos. Aquilo que eu lhe perguntava era, dois anos depois das questões do E-Toupeira, dos e-mails, etc, sentiu um impacto que consiga medir? Ou seja, existe algum número que tenha afetado, digamos assim, o Benfica neste processo ou foi apenas isso só uma questão de reputação, sem qualquer impacto económico?

A saída da Caixa Geral de Depósitos, do naming da nossa academia, digamos, hoje Benfica Futebol Campus, é uma saída programada pela Caixa do ponto de vista de desinvestimento em termos publicitários a nível desportivo. Portanto, não afetou só o Benfica, afetou todos os outros clubes que eram patrocinados pela Caixa. Portanto, primeira questão, não há qualquer relação em relação aos processos judiciais que já enfrentamos, versa a decisão da Caixa. Aliás, com muito orgulho digo que todos os outros patrocinadores se mantiveram e isso é positivo. Relativamente ao impacto que esses processos tiveram, sim, efetivamente, do ponto de vista de trabalhos adicionais que tivemos, há um impacto significativo, mas não há uma correlação direta com o contrato de naming.

E agora vamos dar aqui uns minutos de desconto a esta entrevista. Perguntas rápidas, escolha múltipla. Mariana Fernandes, começas tu.

O que é que prefere em termos financeiros? Benfica campeão ou Benfica nas meias-finais da Liga dos Campeões?

Benfica campeão. Desculpe, mas a pergunta é, em termos financeiros, evidentemente, o Benfica nas meias-finais da Liga dos Campeões é muito mais relevante do que propriamente o Benfica campeão. Em termos daquilo que são os nossos stakeholders, que incluem todos os nossos sócios adeptos, mas até os nossos parceiros de negócio, o Benfica campeão nacional é muito mais relevante.

O que causou mais mossa ao Benfica nos últimos anos? O gol do Kelvin ou a questão do processo de e-mails?

O gol do Kelvin foi, e recordo-me perfeitamente desse momento, algo que nos afetou bastante, porque no fundo, digamos que atrasamos um ano aquilo que era uma estratégia já de sucesso desportivo. O processo dos e-mails foi um processo que nos deu bastante trabalho, ou seja, do ponto de vista de trabalho, o processo dos e-mails deu-nos muito mais trabalho do que propriamente o gol do Kelvin. O gol do Kelvin foi, digamos, travar para voltar a acelerar e depois entrar na caminhada vitoriosa que tivemos.

E depois de tudo aquilo que aconteceu, para negociar um jogador, por exemplo, prefere falar ao telefone, por WhatsApp ou jantar pessoalmente?

Prefiro jantar pessoalmente, definitivamente, mas já era assim no passado.

Prefere, nesta altura, pagar dois milhões de euros por um jogador por fazer ou 20 milhões por um jogador feito?

Cada pergunta é mais difícil que a anterior. Prefiro pagar dois milhões por um jogador por fazer, desde que efetivamente tenhamos a consciência do que esse jogador vai gerar no futuro.

E uma cidade, Paris ou Lisboa?

Lisboa. Apesar de ter vivido em Paris seis anos, mas adoro Lisboa.

Jogo na bancada ou no camarote?

Jogo na bancada.

Liga inglesa ou liga espanhola?

Liga inglesa.

Muito bem, terminamos então assim este nosso programa de hoje, o primeiro. Nem tudo o que vem à rede é bola. Obrigado, Miguel Sousa Oliveira. Foi o nosso primeiro entrevistado neste programa. Bruno, queres fechar o programa por hoje?

Dizer que esperamos que muito em breve possamos voltar a falar, nesta altura, provavelmente para discutir o sétimo exercício positivo e também o impacto de João Félix nas cotas do Benfica.

Muito bem, muito obrigado.

Está feito o convite. Nem tudo o que vem à rede é bola. Termina por agora. Bruno Roseiro, editor de esporte do Observador, Mariana Fernandes, jornalista de esporte e eu, Aníbal Rebelo, aqui nesta entrevista. Um programa de uma hora. Voltamos na próxima segunda-feira.