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É hora de mais um Não Se Fala de Outra Coisa, Luís Soares.
Ora, quem diria que as redes sociais seriam consideradas viciantes?
Eu lembro-me sempre daquela senhora que tinha 90 anos, que fumava desde os 20 e dizia: "Nunca fiquei viciada."
A Meta e o YouTube foram condenadas a pagar uma indenização de 2,5 milhões de euros para uma jovem utilizadora, por problemas de saúde mental relacionados com o uso de plataformas dessas empresas. A jovem de 20 anos acusou as plataformas de utilizarem mecanismos de design viciantes, com impacto direto no bem-estar psicológico, sistemas que terão contribuído para problemas de depressão, dismorfia corporal, pensamentos suicidas. O advogado argumentou que a Meta e o YouTube tinham conhecimento dos efeitos nocivos das plataformas sobre menores, mas optaram por privilegiar o lucro em detrimento da segurança dos utilizadores. Ambas as empresas rejeitam as acusações, claro está, contestam essa ideia de que as plataformas sejam viciantes, sublinhando a implementação de ferramentas de controle parental e também restrições de conteúdo destinadas a proteger precisamente os utilizadores mais jovens.
Não as tornam menos viciantes, por isso.
Exatamente. Esta notícia fez-me lembrar um texto que por acaso tinha visto há dias, que foi publicado aqui no Observador, da Sofia Teixeira, que pergunta exatamente por que o scroll infinito das redes sociais é tão viciante. E por quê? Por exemplo, porque quando fazemos uma pesquisa no Google e chegamos ao fim de uma página, temos que avançar para outra. Isso não acontece nas redes sociais, nunca chegamos ao fim da página. Nunca há fim. Há sempre um novo conteúdo a ser carregado, há mais vídeos, mais fotografias, mais publicações, um fluxo contínuo que nos mantém a consumir conteúdos durante mais tempo. Há um especialista que fala neste texto, Joaquim Fialho. Ele explica que este scroll infinito ativa gatilhos psicológicos ao mesmo tempo, vários gatilhos, recompensas imprevisíveis. Às vezes aparece algo interessante, às vezes não.
Sim. Mas quando não é interessante, lá está, scroll, não é? Passas logo ao próximo.
Para além disso, as redes sociais personalizam o feed com base no comportamento prévio, o que significa que o conteúdo que nos vai aparecendo é cada vez mais ajustado às nossas preferências.
O famoso algoritmo.
Exatamente, e por isso é cada vez mais difícil de ignorar aquilo que vemos e mais fácil de consumir. E tudo isto cria o que o especialista chama de ciclo de reforço, ou seja, a pescadinha de rabo na boca. Quanto mais consumimos, mais preciso se torna o feed, mais probabilidade há de continuarmos a consumir, porque o cérebro vai interpretando isto como sinal de recompensa, gerando a sensação de que é só mais um pouquinho.
É como um jogo. Na verdade, há uma dimensão lúdica neste hábito de nós estarmos sempre ali a fazer scroll, porque parece que há de sempre aparecer alguma coisa, é como jogar na raspadinha. Comprar uma raspadinha.
Há de sempre ser melhor. É na próxima.
Mesmo que estejamos a passar ali por uma série de conteúdos que não nos dizem nada ou que não nos interessam, algum até nos causa algum incômodo, porque o algoritmo não quer saber. Desde que nós prestemos atenção.
Ficamos ali uns segundos.
Uns segundos, a partir daí, reforça-se. Mas há essa ideia: a seguir é que vai aparecer alguma coisa que me interessa mesmo.
Ora bem, e que estratégias podemos usar para evitar este vício?
Isso é que interessa.
Eu não quero.
Definir limites claros de uso, horários.
Eu tenho isso no meu, sim.
O que ajuda a transformar um comportamento automático numa escolha consciente, desativar a reprodução automática, remover notificações não essenciais ou utilizar a versão web em vez da aplicação, porque criamos ali pequenos atritos que facilitam a decisão de parar. Quanto mais dificuldade houver, mais facilmente paramos. O objetivo, diz este especialista, é devolver controle ao utilizador e assim criar uma relação equilibrada em que é a tecnologia que serve o utilizador e não o contrário.
É preciso ter força de vontade.
É claro que sim.
Mas lá está, como já disse, não é fácil.
Não é nada fácil. Charles de Batz-Castelmore.
Perdão?
Sabem quem foi este senhor? Não sabem?
Não.
E se eu disser D'Artagnan?
D'Artagnan.
Eu ontem estava a ouvir as notícias das 20:00, aqui no Observador, com a Rita Camarneiro e com a Vanessa Cruz, e no final elas contaram esta história que eu agora trago aqui. Não se fala de outra coisa. Fala-se de outras coisas, mas também se fala muito disso.
Também se fala muito disso.
Disso o que se fala? Fala-se da possível descoberta dos restos mortais de Charles de Batz-Castelmore, que terá inspirado Alexandre Dumas a personagem de D'Artagnan, que entretanto é muito mais famosa do que o seu modelo original. Este senhor que terá inspirado o D'Artagnan foi espião e mosqueteiro. Era uma espécie de braço direito do Rei Sol, Luís XIV, e morreu. O D'Artagnan não se sabe, mas ele morreu durante o Cerco de Maastricht, nos Países Baixos, a 25 de junho de 1673, e acredita-se que ele terá sido sepultado numa igreja local e sempre motivou em muitos arqueólogos o desejo de encontrar os restos mortais de uma figura que acaba por estar ligada à história da cultura popular, e acabou por estar na literatura, no entretenimento, no cinema. Este mistério tem mais de três séculos, e agora há arqueólogos neerlandeses que dizem que poderão ter encontrado mesmo os restos mortais desse senhor. Sabia-se que ele tinha sido morto com um tiro de mosquete, havia essa informação, e que terá sido atingido na zona da garganta por uma bala, era uma pista, e agora foram encontrados restos mortais, os ossos, não se sabia de quem, mas numa igreja desta zona de Maastricht, a igreja de Saint Peter and Paul, e um dos arqueólogos disse que ficou tudo em silêncio quando encontraram o primeiro osso. E porque não só encontraram os ossos, como encontraram também uma moeda francesa. Eu não sei se encontraram também um chrome do Dartacão. Podia ser mais um indício. E a moeda indica que seria uma pessoa de estatuto elevado. E depois, há um ferimento de bala também neste esqueleto, na região das costelas.
Há indícios.
Houve um arqueólogo que se entusiasmou e disse logo: "Não, é de certeza, eu estou muito contente, porque ando à procura do túmulo do D'Artagnan há quase 30 anos, de certeza que é esse." Houve outro que foi um pouquinho mais cético e disse: "É preciso fazer agora os testes da ADN, vão se fazer esses testes e compará-los com os descendentes da linha paterna do senhor Charles de Batz-Castelmore e só depois de ter esses resultados é que haverá confirmação se se trata mesmo do homem que inspirou o D'Artagnan. Portanto, fãs de D'Artagnan, de Dartacão e de tudo mais, a atenção é esperar um pouquinho pelos testes para saber.
Esperem um pouquinho.
É, esperem um pouquinho sentados.