Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Não se fala de outra coisa: do espetáculo que David Guetta deu no domingo, no Parque Papa Francisco, em Loures. Estiveram lá mais de 35 mil pessoas, mas o artista não deve estar muito feliz, porque apesar do concerto ter sido memorável, segundo quem lá esteve, as páginas dos jornais e as redes sociais encheram-se de críticas e centenas de fotografias e até vídeos sobre o caos que foi sair do recinto do espetáculo. Milhares de pessoas tiveram de esperar uma hora e meia até conseguirem sair. Houve quem tivesse descrito a cena como uma situação de terceiro mundo. Um frequentador habitual de concertos e até de concentrações de motards, que normalmente associamos a muita confusão, diz que em 20 anos nunca viu uma coisa tão perigosa. A página de Instagram da produtora responsável pelo evento, Saudade, encheu-se de críticas. Há quem escreva que não basta trazer nomes conhecidos. A organização tem também a responsabilidade e a obrigação de planear a mobilidade, os acessos e as saídas. Isto não é um detalhe, não é um pormenor. Produzir um espetáculo de classe mundial e falhar no básico é transformar o entusiasmo do público numa experiência de frustração, que foi o que aconteceu. Isto diz quem escreve, quem esteve lá. Houve várias ambulâncias a prestar assistência, pessoas a sentirem-se mal, imenso pó, crianças no meio daquela confusão. Há quem escreva que a determinada altura a multidão começou a empurrar-se porque toda a gente estava concentrada num único ponto de saída.
E só havia um ponto de saída?
Parece que havia dois, mas depois estava tudo a afunilar para ali. Depois enquanto se difocava.
Se havia má orientação, iam todos para o mesmo sítio.
E depois as pessoas começam a ficar ansiosas, começam a ficar impacientes, a querer acelerar, não conseguem. Criou-se aqui mesmo uma situação perigosa. Ontem de manhã, a organização acabou por fazer chegar à comunicação social uma declaração em que se podia ler: "Desde as entradas à operação no recinto, à qualidade das atuações e dos serviços disponibilizados, o balanço foi muito positivo. Para que tudo acontecesse da melhor forma, estiveram envolvidos mais de mil profissionais, num trabalho de enorme articulação entre a organização, equipas de produção e todas as entidades competentes. Temos consciência de que no final da noite, o processo de saída do recinto não decorreu com a fluidez que todos desejávamos e lamentamos os constrangimentos sentidos por quem esteve presente. Em eventos desta dimensão, que concentram dezenas de milhares de pessoas num curto espaço de tempo, existem sempre desafios operacionais que importa analisar e melhorar." Mas eu confesso, acho que todos nós, depois de vermos aquelas imagens, ficamos de pé atrás.
A pergunta é: por que não fizeram isso antes?
Isso antes. Sim.
Já houve outros grandes eventos naquele espaço, sem registo disto.
E tenho a noção de que iam estar lá 35 mil pessoas.
E já estiveram mais nos outros eventos.
Já estiveram mais, exatamente.
Não há desculpa. Na minha opinião, o problema é que se desvaloriza porque não aconteceu nada de grave. Há uma certa desvalorização.
Até um dia acontecer.
Claro, porque podia ter acontecido. Vi algumas imagens.
As imagens são dificéis, a pessoa até fica com uma certa ansiedade só de olhar.
Basta uma situação de pânico, alguma comoção que ocorra.
Que aquilo fica fora de controlo.
Exatamente.
As pessoas estão todas tipo enlatadas, em sardinhas.
Uma multidão é um animal que começa a respirar sozinho a partir do momento em que há um problema. E já vimos noutras situações e noutros contextos, situações muito graves ocorrerem.
Era como o Paulo falava há pouco. Outros exemplos que temos no passado.
Há dois meses também houve queixas, talvez não concentradas na dificuldade em sair, no tempo demorado.
Mas que as pessoas estavam apertadas.
Lá dentro já estava muito apertado. Só que depois não havia água.
A Susana Peralta escreve um artigo no Público só sobre isso e o susto. Nem se desfruta do espetáculo.
Claro.
E depois sabendo disto que acontece, vais para um próximo evento desta natureza, já vais um bocadinho ansioso.
A outra pergunta que eu faço, obviamente que a responsabilidade primária é dos promotores, das empresas que organizam, mas eu estive a ver, há seis entidades públicas que têm que fiscalizar estas coisas previamente: o IGAC, que é a Inspeção-Geral das Atividades Culturais, as Câmaras Municipais têm a licenciar o espaço, o recinto e por aí fora, a Proteção Civil, que tem que aprovar os planos de segurança e emergência.
Exatamente.
E depois há a ESA e a SPA, questões ligadas à música, obviamente, e a direitos de autor, e depois a Agência Portuguesa do Ambiente, por causa das questões ambientais e dos impactos sonoros. Mas não há fiscalizações prévias, não há planos de saída e de evacuação, até de emergência.
Era a haver.
Pois, foram aprovados? E foram aprovados como? Não funcionando, como se vê.
Tu dizes isso, Paulo, e é verdade que a IGAC consegue ser muito rigorosa, por exemplo, na fiscalização a coisas Um pouco inócuas, como a classificação etária do espetáculo.
Que é uma coisa que já não existe faticamente.
Mas há uns tempos era muito rigorosa nessa aplicação e depois quando estás a falar de multi-dois, não parece haver o mesmo tipo de rigor na fiscalização.
E aqui também houve o problema com a água, porque diz que não havia água para encher as garrafas que apenas entravam sem tampa, portanto, por causa de segurança.
E por causa das marcas que querem divulgar.
À chegada havia uma fila cerca de dois quilómetros, portanto, isso tudo não foi só no final que correu mal, parece que foi todo o evento.
As questões comerciais associadas, que é para dar o exclusivo à marca da água e à cerveja, levam depois ao impedimento das pessoas, muitas vezes, levarem líquidos. E os líquidos são importantes.
Eu não fico com vontade de ir a um concerto agora nos próximos dias.
Olhem, onde não falta rigor na avaliação de tudo o que tem a ver com espetáculos é em Cingapura. E os Massive Attack que o digam agora, porque os membros da banda britânica foram detidos pela polícia em Cingapura. Por quê? Porque exibiram uma bandeira da Palestina durante um concerto que deram lá no país. Isto foi na semana passada. Os dois principais membros da banda ergueram a bandeira em palco, gritaram: "Palestina livre". O público acompanhou-os nesse grito também, nesses slogans. Depois foram detidos e interrogados separadamente, com alguns membros também sujeitos a buscas nos quartos de hotel. Foram-lhes apreendidos os passaportes de forma temporária. Os Massive Attack garantem que não imaginavam, de facto, que o ato de exibir a bandeira da Palestina pudesse ser considerado um crime ou uma violação de leis pelas autoridades de Cingapura. Emitiram um comunicado depois, dizem que grande parte do auditório dos espetadores entoou espontaneamente cânticos de Palestina livre. Dizem eles no comunicado depois, sem se deixar intimidar, que essa expressão espontânea, por si só, poderia violar as leis de censura do governo de Cingapura. A polícia em Cingapura, obviamente, tem outra leitura. Diz que as ações da banda poderiam potencialmente prejudicar a harmonia racial e religiosa de Cingapura, onde as bandeiras estrangeiras e emblemas nacionais não podem ser exibidos em público sem autorização. Cingapura é um país pesculado, digamos. E eles em Cingapura adotaram esta posição firme em relação às declarações públicas sobre a guerra do Médio Oriente. Em 2023, o Ministério do Interior, o equivalente ao Ministério da Administração Interna, emitiu um comunicado na altura a desaconselhar a exibição e o uso público de artigos relacionados com a guerra entre Israel e Gaza. No fundo, eles não querem ter nada a ver com aquilo, não se querem meter naquilo. Um porta-voz da polícia disse também na sexta-feira que os dois membros da banda não têm agora permissão para voltar a Cingapura, portanto, esqueçam lá concertos. E em abril, já agora, aqui um registo mais recente, o vocalista dos Massive Attack estava entre as mais de 500 pessoas detidas pela polícia britânica em Londres, neste caso, durante um protesto contra a proibição do Palestine Action, que é uma organização classificada no Reino Unido como terrorista. Portanto, há aqui um empenho também na causa. Obviamente, só que em Cingapura as regras são mais estritas.