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Imaginem ganhar a loteria, mas em vez de dinheiro, calma, o prêmio é um lugar para descansar eternamente.
Eternamente? Espera aí.
Disse assim?
É mesmo, olha, grandes figuras históricas nos cemitérios.
É um jazigo.
Ah, pois, isso dá a pensar.
O prêmio é um jazigo?
É mais ou menos. É a hipótese. A Câmara Municipal da capital francesa lançou esta loteria. O prêmio é um túmulo nos cemitérios históricos de Paris, lugares onde estão enterrados nomes como Jim Morrison, dos Doors, o escritor Oscar Wilde, a cantora Édith Piaf, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir. Olha que boa companhia.
Que luxo!
Que luxo!
Dá vontade de morrer.
Exato, certeza absoluta.
Só por causa disso vou já. A Câmara diz que o objetivo é preservar e restaurar túmulos antigos que estão degradados, ao mesmo tempo que oferece aos moradores da cidade a oportunidade de garantir um espaço num dos locais mais emblemáticos e visitados do mundo, precisamente por causa destas figuras que lá estão.
Pessoas vão aos cemitérios ver túmulos.
São três.
Eu vou sempre.
Tu dizias isto há uns tempos. Já foste a estes?
Aliás, há já uma indústria do turismo funerário. Recomendo-vos um livro que saiu há pouco tempo de Rafaela Ferraz, que se chama "Portugal de Morte a Sul". Muito interessante.
A Fundição Francisco Manuel dos Santos, não é?
Não sei se ela publicou outro antes. Este está na Quetzal, muito bom. Recomendo.
Mas bem, são três os cemitérios escolhidos: Père-Lachaise, o mais famoso de todos, onde estão Morrison, Wilde e Piaf, o Montparnasse, conhecido por abrigar Sartre e Beauvoir, e Montmartre, onde descansa, por exemplo, o pintor Edgar Degas. Ao todo, são 30 túmulos disponíveis, 10 em cada um destes cemitérios. Mas há um mas: o prêmio vem da loteria, mas não é totalmente gratuito. Não é só morrer. Não basta morrer.
Não é só morrer e ganhar o prêmio.
Os vencedores vão ter de comprar o túmulo por cerca de €4 mil e ainda assumir os custos do restauro. Depois, podem alugar o terreno do cemitério por um período definido. Há opções de 10 anos por cerca de €1 mil, ou direito perpétuo, que pode chegar aos €17 mil. Pode parecer uma despesa grande, mas para muitos parisienses, esta é mesmo uma oportunidade única de repousar entre figuras lendárias da música, da arte, da literatura e ainda contribuir para a preservação do patrimônio histórico da cidade. A inscrição na loteria custa €125. Está aberta até 31 de dezembro. Para nós não pode ser, que é só para os parisienses.
A malta paga para eventualmente entrar num sorteio para ter essa honra.
Exatamente.
Exato.
Muito bem, grande negócio.
Só há 30 lugares.
Claro. É impressionante que há pessoas que pagam pra isso.
Elas pagam, claro.
E pagam e não pagam pouco. Mas é interessante ver.
As pessoas são muito estranhas mesmo.
Eu prefiro o eterno descanso numa lotaria a sério, daquelas em que o prêmio é não trabalhar.
O eterno descanso em vida.
Numa rede, a ler um livro.
O eterno descanso depois da morte, enfim, vale o que vale, mas por alguma razão isto acontece.
Eu acredito que a companhia seja muito boa.
E a vizinhança silenciosa, isso tudo.
Em princípio, Paulo, temos de ter.
E que não incomodem muito. É verdade.
Pode ser que deixem lá umas flores quando forem visitar o Jim Morrison.
Até por engano. Agora já aquilo está cheio, agora deixei aqui uma flor.
Bruno Vieira do Amaral. Mais oui.
Mas eu não sou parisiense.
Então não pode.
Não pode ser. Que chatice.
Muito bem, vamos para coisas mais terrenas, não necessariamente menos polêmicas, porque o Comitê Olímpico Internacional está a preparar-se, de facto, para tomar uma decisão transversal a todas as modalidades e afastar todas.
Transversal é a palavra certa.
Exatamente. E afastar todas as atletas transgênero, cá está, das categorias femininas dos Jogos Olímpicos. A notícia é do The Times e o organismo olímpico pode anunciar a decisão já no início do próximo ano e incluí-la nas regras nas próximas edições dos Jogos Olímpicos de Inverno e de Verão. Até aqui, qual era o regime? O COI, o Comitê Olímpico Internacional, entregou a decisão a cada uma das modalidades, às federações de cada modalidade, que têm a liberdade para decidir sobre a participação de atletas transgênero nas respectivas competições, ainda que defendendo que as mulheres transgênero só podiam competir com níveis reduzidos de testosterona, ou seja, sendo submetidas a medicação hormonal. A nova presidente do Comitê Olímpico, Cristie Coventry, foi eleita em março e tinha prometido durante a campanha que iria proteger as categorias femininas, cá está ela a dar estes passos agora. Houve um relatório clínico médico do Comitê Olímpico que foi apresentado esta semana e que defende esta medida. De acordo com esse relatório, existem provas científicas de que alguém que nasceu biologicamente com o sexo masculino terá sempre vantagens físicas, mesmo que tenha realizado tratamentos de supressão hormonal durante vários anos. O mais provável é que o COI anuncie o afastamento total e transversal de todas as atletas transgênero, a começar por aplicar a medida nos Jogos Olímpicos de Inverno, que estão marcados para fevereiro, em Milão e Cortina, portanto, em Itália. Ao longo dos últimos anos, as federações têm decidido. A Associação Mundial de Rugby foi a primeira a afastar as atletas transgênero do rugby feminino, isto logo em 2020. E a decisão do COI deve incluir também as atletas com diferenças no desenvolvimento sexual, ou seja, aquelas que nasceram biologicamente com sexo feminino, neste caso, mas que têm alterações hormonais, níveis de testosterona considerados acima da média para uma mulher ou mesmo alterações no sistema reprodutor ou nos órgãos genitais. Não sei se vem aí polêmica, porque estes temas são sempre fratrantes.
Sensíveis.
São sempre polêmicos.
Fratrantes, sensíveis.