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O podcast Noite de História tem o apoio do Pingo Doce. Neste terceiro episódio do podcast Noite de História recebemos Mário Cordeiro, que foi precisamente jurado deste prêmio de literatura infantil, mas que é nosso convidado não na qualidade de júri, mas de autor, pediatra e avô. Olá, Mário, bem-vindo e muito obrigada por ter aceitado o convite.

Olá, eu é que agradeço. Obrigadíssimo.

Uma outra curiosidade é que o livro vencedor desta edição conta precisamente a história de um avô, o avô Mário, e de um neto, mas que não é a sua história, Mário, por isso queremos conhecê-la hoje.

Eu tenho vários netos. E também me chamo Mário, mas isso está bastante por aí.

Não é esta a história. Vamos então falar da importância que as histórias infantis têm na sua relação com os seus netos. O que mais o fascina, Mário? A atenção que desperta neles ou o próprio Mário Cordeiro ser, juntamente com os mais novos, transportado para uma outra realidade?

Eu acho que as histórias infantis e o contar histórias é sempre um momento fantástico para quem conta e para quem ouve. E, no fundo, todas as histórias, quer as mais antigas e os contos tradicionais e histórias tradicionais que têm durado gerações e gerações, eu diria mesmo algumas milênios, que algumas vêm até da China mil anos atrás. Quer as histórias mais recentes, quer até, o que é muito importante, episódios da vida de cada um. Dos avós, por exemplo, contarem aos netos, numa altura em que as gerações estão cada vez mais distantes, é muito atrativo e no fundo estamos a falar de transmitir experiências de vida de uma forma agradável, que interessa muito às crianças. Não há ninguém, aliás, não apenas criança, mas qualquer pessoa, quando se diz: "Queres ouvir uma história?" Imediatamente a pessoa diz que sim.

É a curiosidade.

Logo. Ou, por exemplo, até numa sua versão mais reduzida, mas que é igual: "Vou te contar uma anedota". Não há ninguém que não diga: "Então conta, não contes". Toda a gente diz: "Conta lá". Mas uma anedota é uma história. Com data, mais ou menos, não interessa. Mas de qualquer forma é uma história, uma historieta, uma história. É a transmissão de algo.

Mário, a leitura tem um papel fundamental na relação entre avós e netos. E se por um lado o uso também há de ter a sua graça ao perceber-se das diferenças que os separa. O que se ensina e o que se aprende, Mário, com uma geração de intervalo?

Eu acho que com uma geração de intervalo, há o seguinte: os avós, e falo isso numa generalidade, obviamente, porque haverá casos particulares diferentes, mas os avós têm alguma tranquilidade em relação aos netos, a tempo que não se sentem, e ainda bem, tão responsáveis pela sua educação como os pais.

O Mário Cordeiro é pediatra. Isto tem um bocado a ver com aquela ideia dos avós estragam os netos com mimos. É isso?

Não, eu acho que o mimo nunca estraga ninguém. Acho que às vezes o que pode estragar é o excesso de mordomias e de bem-estar material exagerado, etc. Ou de não se educar, tornando as crianças uns reizinhos, uns tiranosinhos. Mas se não for o caso, eu acho que, por exemplo, os avós transmitirem a sua própria experiência, ter mais calma. Acho que os avós, na sua relação com os netos, através das histórias ou através da partilha de conversas, acabam por ter mais calma a contar as coisas. Os pais são mais operacionais e mais pragmáticos, por razões óbvias. Porque um avô pode estar a passear com o neto e dizer: "Vamos ali agora à esplanada e vou te contar uma história", os pais não têm tempo para isso. É: "Vamos fazer para casa, tem que fazer o jantar, tem que tomar banho e os trabalhos de casa".

O Mário tem também os seus filhos, como é que era com eles?

Eu, por acaso, com eles sempre me preocupei muito em contar histórias, porque eu gosto de contar histórias também. Eu gosto de escrever. Talvez porque tenha lido muito. Sou de uma geração em que havia um canal de televisão e eu nem tinha televisão em casa. Portanto, lia imenso e até vivia ansiosamente o dia em que a papelaria local ia ter o "Livro dos Cinco", o último que tinha saído, ou depois os policiais da coleção Vampiro.

Agora está a fazer-me viajar no tempo também.

E comecei a ler muito cedo e até livros, digamos, clássicos e que me formaram muito. "Os Miseráveis", por exemplo, que li em francês aos 16 anos, foi um livro que me marcou imenso do ponto de vista de formação social. Eu acho que as histórias que os avós contam aos netos, que um cínico diria: "Ah, mas isso foram outros tempos". Eu sou completamente da ideia, mesmo quando às vezes pessoas de mais idade dizem: "Ah, no meu tempo". Eu digo: "Desculpe-se, o seu tempo é hoje. O tempo de hoje e hoje, concretamente, em que temos 8000 milhões de pessoas a viver, neste momento o tempo é de todos. Não há o meu tempo. O meu tempo é o tempo da minha vida. Todo. Desde que nasci até que venha a morrer". E esse tempo, digamos, que os avós falam, às vezes até com ar de nostálgico, transmite uma sabedoria imensa, porque nós temos imensa informação, é uma overdose. Eu vejo que vocês quando precisam pesquisar alguma coisa, é um banho de milhões de sites e de coisas.

E em segundos.

Eu não vos invejo a tarefa de ter que fazer uma triagem entre tudo.

O que aparece.

Todo cão e gato, aliás, vai dizer alguma coisa sobre o assunto, mas não há dúvida que há outra coisa que é o conhecimento e outra que é a sabedoria. E a sabedoria resulta dos anos de vida. E, portanto, até a contar a mesma história, seja lá do que for, pode ser a história da Bela Adormecida ou da Patrulha Pata, mas, no fundo, estamos a contar de uma maneira diferente, com uma visão diferente. E os avós têm a sabedoria dos muitos anos vividos, da experiência dos anos de vida que acabam por moldar um pouco até a opinião sobre as coisas. Às vezes de um modo não necessariamente bom, às vezes até de um modo depreciativo, negativo, triste. Todavia, é uma maneira de contar histórias e de recuperar muita coisa da chamada tradição oral. Porque se há muita história escrita, e é verdade, também é verdade que as crianças não leem muito ou leem cada vez menos, e que há muita coisa que não está escrita e que acaba por ser transmitido como experiência de vida. E como nós temos uma vida, todos nós, tudo o que podemos apreender dos outros acresce à nossa própria vida. No fundo, vivemos mais tempo, digamos, ao ouvir as histórias contadas por outros.

E o Mário Cordeiro tem alguma história preferida que lhe tenha sido contada pelos seus pais ou até mesmo avós e que depois contou aos seus filhos e netos?

Sim, o meu avô morreu quando eu tinha oito anos. O único avô que eu conheci, o outro morreu antes de eu nascer. Contava histórias da sua própria vida. Ele tinha estado na Grande Guerra, tinha estado em África e depois na Flandres, em vários sítios. Contava-me histórias desse tempo e também como era um grande amante de ópera. Eu lembro-me de ser miúdo e dormir em casa dele e ele punha trechos de ópera e depois contava a história das óperas, que eram sempre trágicas, mas emocionantes ao mesmo tempo. E ele contava-me numa versão própria para uma criança com cinco, seis, sete anos. E eu ficava com aquelas histórias e com a música e associava uma coisa à outra e ao momento de estar ali com a minha avó e com ele, e era todo esse caldo, todo esse conjunto que fica. E com os meus filhos, por exemplo, arranjámos uma personagem que era o Presuntino, que era um menino que fazia umas asneiras. E claro, depois havia sempre uma moral da história em que o menino era apanhado nas suas mentiras, nas suas invenções, enfim, tudo o que fazia de asneira.

Tão bom.

O menino Presuntino acabava sempre por armar-se em esperto, e saía nas contas furadas. Mas é engraçado, porque depois havia vários. Era o menino Presuntino e tinha duas irmãs, que era a Fiambrina.

Depois vai-se construindo a família. Vai-se criando mais personagens.

Histórias o mais rocambolescas possível. E o que é engraçado é que depois a dada altura, eu dizia assim: "Hoje estou com uma branca, não estou com imaginação". E eles diziam: "Então hoje o Presuntino fazia isso". E contavam no fundo, coisas que os amarguravam ou asneiras que tivessem feito na escola. Hoje o Presuntino na escola deu um pontapé a um colega.

Portanto, transportavam para a ficção aquilo que aconteceu na realidade.

No fundo, os Presuntinos eram eles, obviamente. E é muito bom contarem as histórias desse tipo para os pequenos.

O Mário dizia há pouco que os miúdos, os mais novos, têm cada vez menos o hábito e o gosto pela leitura. Como pediatra e avô, e também como pai, como é que se incentivam as crianças a ganharem esse gosto pela leitura? É porque atualmente é tão mais comum vermos as crianças agarradas a ecrãs.

É engraçado, porque quando são mais pequeninos, no jardim de infância, até leem bastante. As educadoras leem livros e têm contacto físico com livros. E há uma pletora de livros infantis, felizmente, e até acessível.

E o Pingo Doce tem livros incríveis.

Tem coleções. E é um preço completamente acessível a toda a gente. Mas a questão é que muitos dos pais depois não leem. Eu acho que há ali uma fase de transição entre os sete, oito e depois já a adolescência, em que os livros passam para segundo plano, substituídos pelos ecrãs, e acabam por ser vistos por muitas pessoas e muitos adultos também, como uma coisa do passado. Assim como, antigamente se usava a máquina de escrever e agora se usam os teclados de computador. É visto da mesma forma. Antes usava-se o livro, agora usa-se a informação de ecrã. Não tem nada a ver. Se houve coisas que evoluíram, obviamente, para nos tornar mais fácil e rápido a execução. As máquinas todas, incluindo a máquina de escrever, evoluiu para computador. Ora, o livro não, o livro é insubstituível.

É o cheiro, o toque.

É toda a parte olfativa e tátil que é importante os pais forçarem um pouco, enfim, insistirem dentro dos parâmetros educativos com as crianças para que leiam, reservam uma parte. Porque mesmo com histórias muito épicas, é um momento calmo, ao passo que os ecrãs são sempre, mesmo com coisas calmas, excitantes pela sua natureza.

Sim, e terminar, Mário.

Levaram-me a um programa de muitos dias, que é a indigência da disciplina de língua portuguesa. Gramática. E eles gramam a gramática e aprendem a diferença entre um superlativo absoluto, sintético e analítico, mas o interesse pelos livros não lhes é dado. No fundo, é imposto a leitura dos Maias ou outras coisas, em que eles preferem hoje ver o filme e depois responder às perguntas do teste e acabam por não ter um gosto pelo que é o escrever, o ler e o consequente falar melhor. Infelizmente, eu acho que a cadeira de português ou a disciplina de português devia ser totalmente diferente e é um atentado à leitura o que se faz na maior parte das escolas, infelizmente, desde o primeiro ao décimo segundo ano.

E por isso é que existem podcasts como este. O tempo passou a correr.

Exatamente. Temos que provocar e felizmente, o Pingo Doce também tem esta iniciativa, na qual eu pude colaborar durante três anos e que eu acho que é muito bom, porque ajuda as pessoas a interessarem-se por escrever e depois por comprar os livros e ler.

Sem dúvida. O tempo passou a correr, estamos a chegar ao fim deste penúltimo episódio. Mário Cordero, gostei muito de conversar consigo e de ouvir as suas histórias. Muito obrigada por partilhar a sua experiência e boas histórias em família. Um bom dia para si.

Obrigado.

No próximo episódio da "Noite de História", vamos continuar a falar sobre a forma como uma boa história infantil contribui para o desenvolvimento dos mais novos. Com o apoio do Pingo Doce, incentivamos a leitura desde tenra idade e partilhamos histórias na primeira pessoa sobre a importância que o gosto pelos livros deve ter desde cedo. Eu sou a Maria João Simões. Obrigada pela companhia. Até ao próximo episódio. O podcast "Noite de História" tem o apoio do Pingo Doce.