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Seja bem-vindo ao Nota 20, o último desta primeira série. Olá, professor Nuno Crato.

Viva, como está, João Miguel? Nem parece que já passou uma série inteira, não é assim?

É verdade.

Mas tem sido interessante. Eu tenho gostado muito dessas conversas.

Ótimo, ainda bem. Professor, hoje vamos tratar de um tema que preocupa muitos pais: as férias de verão. Vamos receber e conversar com o neuropsicólogo Luís Querido. Professor, para já gostava de ouvir sobre a pergunta que colocamos no Twitter e as respostas dos nossos ouvintes. A pergunta que colocamos foi: todas as crianças esquecem o que aprenderam durante as férias de verão? 30% respondeu "são férias muito longas" e 70% respondeu "depende das crianças". Professor Nuno Crato, um comentário a este resultado.

Há países que têm férias ainda mais longas, como a Albânia, a Turquia, etc. Têm ainda mais uma semana que nós, mas há países que têm muito menos, como é o caso da Suíça, que tem apenas cinco semanas. Nós estamos pelas 12. As férias talvez sejam um pouco longas, temos que fazer alguma coisa em relação a isso. Agora, eu julgo que não depende tanto das crianças, depende mais das atividades que se podem ter com as crianças durante as férias, mas é para isso que está aqui o psicólogo Luís Querido, para nos falar exatamente disso. Ele, juntamente com uma outra colaboradora nossa, escreveu um artigo que está no nosso site da Iniciativa Educação, exatamente relatando investigação recente sobre este tema, o tema das férias.

O impacto das férias de verão nos primeiros anos de escola é então o tema do Nota 20 desta semana. É nosso convidado, o neuropsicólogo e doutorado em psicologia cognitiva, Luís Querido. O Luís chegou à psicologia contagiado pelo amor e há melhor razão do que esta, Luís. Bem-vindo ao Nota 20. Começava por lhe perguntar: as crianças esquecem, durante as férias, o que aprenderam durante o ano letivo, ou não?

Antes de mais, e voltando ali atrás à pergunta do vosso inquérito, acho que as duas alternativas têm algo de verdade. Portanto, na realidade, todas as crianças esquecem alguma coisa e também é verdade que isso depende um bocadinho dos domínios, depende um bocadinho dos domínios das áreas de aprendizagem. E sim, as crianças, de facto, esquecem alguns dos conteúdos aprendidos durante as férias, porque com as férias não há o treino que é habitual haver em contexto escolar.

Esse esquecimento, Luís, nas férias, das matérias dadas durante o ano letivo, é mais evidente em que matérias?

A investigação que era mais conhecida até aqui, era feita nos Estados Unidos, que é um sistema de ensino que tem cerca de 12 semanas de férias de verão. Havia evidência de que havia um prejuízo significativo nos domínios da leitura e também da matemática. Mais recentemente, no sistema de ensino com apenas seis semanas de férias de verão, que é o caso da Nova Zelândia, um estudo levado a cabo por Mayer e colaboradores, observou-se que havia um impacto negativo também na escrita, que é uma área menos estudada do que a leitura e a matemática, um impacto muito significativo, portanto, um prejuízo bastante significativo. Portanto, sim, depende dos domínios e há domínios mais prejudicados do que outros.

A Nova Zelândia é um caso curioso, porque, Luís, outra vez, quantas semanas tem as férias na Nova Zelândia?

São seis semanas.

E mesmo assim tem um efeito negativo que deve ser acautelado, certo.

Que é metade do número de semanas de férias em Portugal. Nós temos 12, certo?

É, os sistemas de ensino têm períodos de férias muito díspares, como disse o professor Nuno Crato há pouco. Pelo menos aqui na Europa, temos desde as 13 semanas de férias, que é o caso da Albânia, da Turquia, da Roménia, muitos outros países. Nós temos no nosso artigo no site da Iniciativa Educação, em detalhe, um gráfico com os vários períodos de férias adotados na Europa. Mas também temos o caso da Suíça com as cinco semanas, ou outros casos intermédios, Alemanha com seis semanas. Portanto, o que é facto é que mesmo com períodos diversos de férias, há sempre um efeito negativo. E podemos pensar que, no caso da escrita, isto é muito mais significativo do que no caso da matemática e da leitura, mas é prejudicial em todos os domínios.

E por que na escrita?

O caso da escrita é um caso particular. Nós temos aqui habilidades procedimentais e capacidades de recuperação de memória que são necessárias à escrita e que também são habilidades partilhadas, por exemplo, com a matemática, no caso das habilidades procedimentais. Estes domínios da aprendizagem exigem procedimentos que não são, por exemplo, no caso da leitura. A leitura é uma habilidade que assenta mais no reconhecimento e também em conhecimento conceptual, por exemplo, no caso da compreensão e leitura. Isso faz com que o prejuízo seja maior na escrita e na matemática, onde estas habilidades procedimentais de recuperação de memória exigem um maior treino.

Luís, eu não resisto a um pequeno comentário. É que vocês, psicólogos, têm este termo técnico, "habilidades", mas as pessoas de educação habitualmente falam em capacidades, porque habilidades lembra-nos outras coisas, mas de facto é o termo técnico, não é assim?

É verdade. Capacidades diz respeito Pelo menos tecnicamente, à memória, por exemplo, que é uma capacidade, a atenção, que está subjacente a muitas habilidades que são adquiridas, que são por aprendizagem.

É uma distinção técnica.

É uma distinção técnica, sim.

Luís, deixe-me perguntar uma coisa. O que é que nós estamos a falar? Nós estamos a falar de tipos de aprendizagens na escola ou tipos de coisas que se aprendem na escola, que ficam, que não precisam tanto ser reativadas, por exemplo, a leitura, a pessoa aprende a ler e continua a ler. E por que a escrita se apaga mais? Por que a escrita se perde mais?

A escrita, deste ponto de vista da dependência de capacidades procedimentais e da recuperação da memória, é mais exigente. Ela é mais exigente do que a leitura. Enquanto que nós para lermos, não precisamos de conhecer o significado de todas as palavras de um texto para dali extrair um todo coerente, para dali extrairmos a compreensão do que estamos a ler. No caso da escrita, se pensarmos em escrever um texto, nós precisamos de recuperar com precisão a forma ortográfica de cada palavra que vamos precisar e precisamos de o fazer com algum planeamento, com um procedimento de base que leva a cabo essa tarefa. E portanto, daí esta maior necessidade de treino no caso da escrita. Isto vai se perdendo temporalmente se não houver treino.

Isso quer dizer, Luís, que as férias de verão devem contemplar exercícios de treino da escrita, ou não?

Sim, seria uma forma de mitigar aqui o efeito prejudicial. Só pra termos ideia, este efeito é um efeito, no caso do estudo levado a cabo por Cooper e colaboradores na Nova Zelândia, verificou-se que o efeito leva a uma perda de cerca de metade da evolução obtida durante o ano letivo. As crianças durante o ano letivo progrediram aquilo que era suposto progredirem. No entanto, nas férias de verão, perdem cerca de metade daquilo que progrediram.

Estamos a falar de um país onde as férias têm seis semanas, metade do número de semanas de férias em Portugal.

Exatamente. Portanto, perder cerca de metade daquilo que progrediram. Isto com mais de 4 mil crianças do quarto ao sétimo ano, se não estou em erro. Podem ver mais detalhes no site da Iniciativa Educação. O que é que nós podemos fazer? De facto, acho que podemos envolver as crianças durante as férias de verão e motivá-las também, em tarefas de escrita. Podem ser de caráter mais lúdico, mas também podem ser com algum caráter formal. A escrita de um texto é alguma coisa que tem um caráter mais formal.

Vamos a exemplos, Luís. Vamos a exemplos, porque há muitos pais a ouvir-nos.

Caráter mais lúdico. Vou apenas dar alguns exemplos, certamente encontrarão uma lista mais detalhada no site da Iniciativa Educação. Mas temos aqui, por exemplo, o envolver das crianças em escritas de listas de compras, da ementa semanal da família, postais entre amigos ou entre familiares. Um pouquinho por este lado.

Por exemplo, fazer jogos de palavras enquanto se lê o menu do restaurante, por exemplo, é um bom exercício para pôr as crianças a escrever e a não perder o hábito da escrita e da leitura?

Pode ser um bom exercício, usar um jogo como o Scrabble, por exemplo, que é um jogo que tem aqui o reconhecimento ortográfico e que é necessário a recuperação da forma ortográfica da palavra. Há formas lúdicas de introduzir isto. Obviamente, também podemos ter aqui um manual de revisão de férias, por que não? Negociar isto com as crianças e fazer aqui um período semanal de trabalho mais formal. As férias são férias e as crianças vão precisar de férias, mas acho que se podem introduzir este tipo de atividades para não cair no esquecimento uma atividade tão necessária no início do ano letivo seguinte.

Sendo que a própria leitura já ajuda a escrita. Uma das coisas que vocês especialistas estão sempre a dizer é que pra escrever bem, é preciso ler muito. E portanto, a escrita será uma atividade isolada, a treinar, a reforçar, mas também a leitura. Não será assim?

Sim, é verdade. Elas partilham recursos e para alguns de nós, nesta área, elas partilham mais do que recursos. Mais do que recursos, dependendo da corrente teórica, para alguns de nós, elas partilham aquilo que nós chamamos de léxico ortográfico. Ou seja, o que é isto? É o armazém, o nosso dicionário mental para as palavras. E portanto, à medida que vamos lendo, vamos construindo e aumentando este léxico ortográfico, que é muito necessário, por exemplo, do ponto de vista da precisão ortográfica na escrita das palavras. Mas a escrita, e sobretudo a escrita de um texto, é muito mais complexa do que a leitura, como já disse há pouco. Embora a leitura nos forneça, ela própria, um modelo de escrita textual. Se nós lermos bastante, vamos adquirir esse modelo, vamos ter formas de o adquirir. E portanto, sim, a leitura também pelas suas características, está muito mais disponível socialmente nas casas das famílias, nas bibliotecas. E portanto, de alguma forma Acaba por ser uma atividade muito mais acessível do que a escrita ou a matemática.

Luís, eu queria dar aqui um pequenino salto atrás. Queria pegar nas respostas dos nossos ouvintes à pergunta que colocamos no Twitter: todas as crianças esquecem o que aprenderam durante as férias de verão? A maioria respondeu que sim, que depende das crianças, 70%. Depende mesmo das crianças, o contexto é importante ou não?

O contexto é bastante importante. É um aspecto importante explorado neste estudo recente de Cooper e colaboradores, que foi examinado. Portanto, o que se verificou é que, em geral, houve uma perda de cerca de metade da evolução feita durante o ano letivo no período de férias de verão, mas a perda é muito acentuada para as crianças de meios socioeconômicos desfavorecidos. Portanto, temos que ter uma particular atenção a estas crianças, porque também não têm tantos recursos disponíveis depois para mitigar este efeito das férias de verão.

É a falta de recursos que explica essa decalage?

Bom, nós sabemos que há o chamado "efeito Mateus" nas aprendizagens, em particular na leitura e na escrita. Portanto, as crianças com um ponto de partida inferior tendem a ter alguma dificuldade em superá-lo, tendem a manter essa diferença. Obviamente que há a questão dos recursos. As crianças de meios socioeconômicos desfavorecidos terão menos recursos, terão menos livros em casa. Portanto, há aqui também uma quase obrigação da escola em dar livros, dar recursos para que essas crianças possam manter aqui algumas atividades, mesmo lúdicas. Portanto, enviar livros para casa durante o verão, talvez criar programas de férias de verão com atividades desportivas, mas também com recursos disponíveis para as crianças levarem para casa. Isso seria um tipo de programa interessante para as escolas pensarem nas comunidades mais desfavorecidas.

Certo, que a escola pode ter um papel extremamente positivo em relação a todas as crianças e, em particular, em relação a essas. O que é preciso é uma atenção especial a elas, julgo eu. E o problema é que se essa atenção não se tem, essas crianças depois ficam mais desfavorecidas em termos da aprendizagem, e o estar mais desfavorecido em termos da aprendizagem é algo que se tende a arrastar. É o tal "efeito Mateus" que vocês falam muito. Portanto, é importante puxar essas crianças e ajudá-las a ler, ajudá-las a escrever. Eu acho este estudo muito interessante e esta distinção entre a leitura e a escrita é muito interessante também. E em relação à matemática, Luís?

A matemática está aqui num patamar intermédio, mas mais próximo da escrita, ou seja, ela também sofre de um efeito mais acentuado que a leitura, não tanto quanto a escrita, mas também beneficiará de um maior investimento do que a leitura. Até porque tem aqui um certo preconceito social também para com a matemática, e eu acho que também há muito menos atividades ligadas à matemática. Não há uma biblioteca que dedique algum tipo de atividades à matemática. Em regra geral, não acontece.

Mas não percebi, Luís, desculpe, não percebi. As crianças tendem a esquecer também a matemática mais do que a escrita ou a par da escrita?

Mais do que a leitura e quase a par da escrita.

Ok.

A matemática também está dependente das tais habilidades, das tais capacidades procedimentais. Ela exige um conjunto de passos para ser levada a cabo. Se pensarmos, por exemplo, numa operação de multiplicação, nós temos que pensar num conjunto de procedimentos para levar a cabo. E é aí que assenta a dificuldade. Estes procedimentos exigem treino. Assenta também na recuperação da memória das chamadas tabuadas, que nós chamamos de factos aritméticos. Essas tabuadas, se não estiverem automatizadas, obviamente vão dificultar no processo de cálculo. E, portanto, ela também precisa de algum tipo de treino durante as férias de verão, certamente.

E também aí, tal como a escrita, também é necessário introduzir algumas, não direi rotinas, mas algumas, sim, por que não, rotinas durante o verão para não esquecer a matemática, é isso?

Eu costumo dizer que a matemática está em todo lado e, portanto, se os pais tiverem alguma imaginação e criatividade, conseguem oferecer algum tipo de atividade no mundo que nos rodeia, ligado à matemática. E, portanto, não é muito difícil transformar qualquer momento de família ou retirar dali alguma coisa ligada à matemática.

Uma vez mais, o exemplo do supermercado é um bom exemplo.

Sim.

Fazer contas com listas de compras, de quanto é que será a conta final, por exemplo, naquele dia.

Por exemplo, acho que sim, que é uma boa ajuda que nós podemos-- e isso também é uma maneira de envolver as crianças nos assuntos familiares, por que não? Portanto, está a ser útil para a família usando algum conhecimento que adquiriu durante o ano letivo.

Luís, queria só fazer aqui um pequenino contexto. Estamos sempre a falar de crianças do primeiro ciclo, correto?

Não apenas. Esse estudo mais recente focou-se em crianças do quarto ao sétimo ano.

Ok.

E aqui as perdas foram bastante significativas no domínio da matemática, que foi onde se focou o estudo. Um estudo anterior dos mesmos autores tinha sido levado a cabo na Alemanha, onde também temos seis semanas de férias. Por comparação com este, os autores sugerem que as perdas foram mais acentuadas. Esse estudo na Alemanha foi conduzido com crianças do segundo ano E os autores sugerem que as perdas foram ainda mais acentuadas no caso da escrita, o que nos sugere que quanto mais tenra a idade, maior a perda. No caso da escrita em particular, mas será assim também para as outras capacidades.

Professor. Diga, professor.

Eu ia fazer aqui um parêntese, mas que está muito relacionado com aquilo que o Luís acabou de dizer, que é: muitas vezes as pessoas pensam que treinar rotinas é mau pro pensamento e que o pensamento deve se desenvolver sem rotinas. E é exatamente o contrário, e que estamos aqui a ver, é que se as crianças tiverem treinadas certas rotinas, rotinas de escrita, rotinas de leitura, rotinas de cálculo mental, têm a mente mais liberta para pensar noutros temas e para desenvolver o raciocínio, que é uma das grandes discussões na psicologia cognitiva. Se eu estou a interpretar bem, não é, Luís?

É. De fato, se tivermos os processos chamados básicos de qualquer tipo de aprendizagem automatizados, portanto, bem consolidados, então vamos poder utilizar processos de nível superior, como a compreensão, o nosso conhecimento do mundo, e vamos conseguir fazer isso com maior rapidez, maior velocidade. De fato, sem dúvida, nós temos que consolidar processos e automatizá-los.

Ou seja, em termos leigos, a memória não é inimiga do raciocínio, pelo contrário.

Muito pelo contrário. É muito favorável, por exemplo, que uma criança tenha automatizada a tabuada para poder desempenhar com sucesso um cálculo e com velocidade adequada, porque isso vai se tornar cada vez mais complexo e não pode estar ali a depender da recuperação de uma tabuada. A mesma coisa para a leitura. A criança tem que ser capaz de decodificar com rapidez para poder aplicar processos de compreensão em leitura de nível superior. Portanto, a automatização dos processos tem de acontecer.

Luís querido, nós não temos mais tempo. Muito obrigado por ter vindo ao "Nota 20" desta semana. Não sei se é o caso, mas se for, boas férias.

Foi um gosto. Ainda não é agora.

Sem esquecer muito.

Profissional.

Professor Nuno Crato, pedia-lhe como é hábito, três notas ou sublinhados sobre este tema das férias escolares de verão. Quarenta segundos.

Quarenta segundos. Eu acho que o nosso convidado foi tão claro que são mesmo só 30 segundos. As férias têm impacto negativo, esse impacto negativo deve ser contrariado, e esse impacto negativo verifica-se sobretudo na escrita e, portanto, as famílias poderão ter, e deverão ter, algumas atividades pensadas para envolver os jovens, sobretudo na escrita, mas também na leitura, também na matemática, claro, durante as férias. Portanto, é uma boa sugestão de férias.

Muito bem, professor Nuno Crato, o "Nota 20" faz uma merecida pausa. Regressamos em setembro com o arranque do ano letivo. Os recomeços são sempre especiais, este também vai ser. Professor, boas férias.

Muito obrigado. Deixe-me dar também algumas indicações de férias, é que a Iniciativa Educação não vai estar parada. Há sempre artigos a sair. Temos hoje ainda um artigo sobre a gestão do tempo, que é muito importante numa época de exames, outro sobre o estresse, e as histórias de A a Z para as crianças treinarem, praticarem a sua fluência de leitura, estão sempre também uma por semana no nosso site.

Muito bem. Até setembro, professor.

Até setembro.