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Já a seguir. Jornal das 10, na Rádio Observador, com edição do André Maia. Bashar al-Assad saiu de Damasco, na Síria, à meia-noite, em direção a uma base militar na Rússia.
É a informação que está a ser avançada pela Axios. Não há certezas, no entanto, que o destino do presidente sírio tenha acabado por ser Moscovo. Bashar al-Assad é o chefe de Estado do país há mais de 24 anos. Fugiu, está em parte incerta depois dos avanços dos rebeldes sírios. É uma informação de última hora que vamos desenvolver nos próximos espaços informativos.
E entretanto, André, o primeiro-ministro da Síria pede eleições livres no país.
E mostra disponibilidade para diálogo com os rebeldes, que esta madrugada tomaram o controle de Damasco. Milhares de pessoas têm estado concentradas nas principais artérias da capital, gritam por liberdade. Ouvimos aqui o registro dessas manifestações. O anúncio da tomada de Damasco e do fim do regime de Assad foi feito através da televisão síria, numa declaração conjunta de vários líderes rebeldes, que ouvimos também aqui.
A cidade de Damasco foi libertada. O tirano Bashar al-Assad foi derrubado e todos os que estavam detidos injustamente nas prisões do regime foram libertados. O comando militar da Síria pede aos mujahidin e aos cidadãos que preservem as propriedades do Estado Livre da Síria. Vida longa a esta Síria independente e livre.
Os rebeldes a anunciarem a tomada de Damasco. Esta coligação rebelde é liderada pelo grupo fundamentalista islâmico Hayat Tahrir al-Sham. Contamos em direto nesta edição das 10 com Luís Tomé, diretor do Centro de Estudos de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa, professor também nesta instituição, a quem agradeço desde já a disponibilidade para se juntar a nós. Bem-vindo, Luís Tomé, bom dia. Gostava de lhe perguntar, em primeiro lugar, sobre esta declaração que ouvimos aqui, também neste anúncio, na tomada de Damasco e neste anúncio do fim do regime de Assad feito na televisão síria. Fala-se aqui numa Síria livre. Podemos finalmente falar nisso, numa Síria livre, ou ainda estamos longe de chegar a essa conclusão, tendo em conta que ainda é muito cedo para sequer tirar conclusões?
Bom dia. É uma Síria livre do regime Assad. Bashar al-Assad que está no poder desde 2000, antes tinha estado quase 30 anos o pai dele, o Hafez. Portanto, uma Síria aparentemente livre de Assad, parece que está. No entanto, nós temos um grupo principal que tem raízes na Al-Qaeda, aliás, esteve com a Al-Qaeda, esteve com o Estado Islâmico, depois combateu enquanto braço da Al-Qaeda, combateu o Estado Islâmico, desde 2006 rompeu formalmente com a Al-Qaeda e tem vindo a proclamar uma mensagem mais inclusiva. Mas eu diria que estamos longe de poder supor, por um lado, que o regime de Assad cai para ser substituído por um só grupo dominante e mesmo que seja este, o HTS, o grupo líder desta nova Síria, não controla parte substancial do território onde há outros grupos que se opõem aos jihadistas, porque aparentemente o HTS cortando os laços com a Al-Qaeda não deixa de ter as mesmas motivações ideológicas jihadistas. Por isso é que nós vemos hoje mesmo e nesses últimos dias, quer a Al-Qaeda, quer grupos filiados no Estado Islâmico, a elogiar o progresso, o avanço dos chamados rebeldes contra o regime de Bashar al-Assad. Mas nós temos mais grupos combatentes e mais atores externos a participar nisto. E eu não daria sequer como fim definitivo que a Rússia e o Irã, que são dois grandes atores que saem claramente derrotados e, portanto, há uma alteração drástica da balança de poder na região, na Síria em particular, não diria como adquirido que não vão tentar reverter a situação.
É um dia amargo para Vladimir Putin, tendo em conta que a Rússia tem estado também ao lado de Bashar al-Assad?
Não tenho qualquer dúvida. Há vários que descrevem esta queda do regime de Assad como uma bofetada na face de Vladimir Putin. É bom recordar que foi pelo apoio da Rússia e do Irã, com as milícias xiitas, inclusivamente, e em particular o Hezbollah, que Bashar al-Assad sobreviveu até agora na longa guerra civil que vem desde 2011. O que nós assistimos agora é um abandono claro destes dois grandes apoios externos, três, se juntarmos o Hezbollah. É bom lembrar também que a Rússia tem duas importantíssimas bases na Síria há muito tempo, uma base naval em Tartus, que é a grande base naval que vem desde os anos 70 e que ganhou importância de quando a Rússia se quis reprojetar para o Médio Oriente e para África, no Mar Negro, e tem uma base aérea perto de Latakia. Portanto, o destino destas bases e de que forma é que isto implicará, parece-me que, obviamente, de forma negativa, na projeção de influência da Rússia para o Médio Oriente, para o Mediterrâneo e para África, há aqui um claro recuo e ainda por cima pode ferir a confiança na Rússia de outros parceiros espalhados pelo globo. E obviamente há também aqui um claro recuo estratégico do Irã. O Irã tinha construído toda uma linha de influência que vai até ao Mediterrâneo, o eixo da resistência. O regime de Bashar al-Assad era um pilar essencial que ligava Ao Líbano, onde está o Hezbollah e agora vamos ver que repercussões podem sair deste emaranhado de forças, de presenças externas e de influências nesta nova Síria, que pode facilmente cair novamente numa guerra civil muito violenta e no caos e pode contagiar países vizinhos. Um deles é evidentemente o Iraque, o outro é naturalmente o Líbano. Portanto, eu diria que aqueles que estão satisfeitos com a queda do ditador Bashar al-Assad depois de tanto tempo de guerra civil e tanta violência, conviria sermos prudentes, porque por um lado nós podemos ter um monstro ainda pior, jihadista, e podemos ter uma Síria engalfinhada num caos de múltiplas frentes com influências externas, portanto vai causar ainda mais morte e destruição no país que vem sendo destruído desde 2011.
Luís Tomé, para fechar a nossa conversa e também talvez para que os nossos ouvintes percebam de forma mais prática o que é que pode estar em causa neste momento na Síria. Normalmente estamos habituados, quando há estas quedas de regime, a olhar para quem derruba o regime como os bons. Vamos deixar assim de uma forma mais simplista. Sei que é complicado fazê-lo. Podemos dizer que neste momento é fácil dizer que uns são os bons e outros são os maus? Há aqui realmente um lado mais positivo que está a derrubar um regime ou é tudo demasiado ambíguo?
Não podemos fazer essa dicotomia e já pagámos muito caro quando numa fase inicial da guerra civil se fez essa dicotomia. Se nós recuarmos ao início da guerra civil na Síria, em 2011, houve uma enorme complacência de muitos atores externos, países árabes, Israel e em particular países ocidentais, achando que quem se opunha e estava a combater contra Bashar al-Assad eram verdadeiros democratas. E o facto é que nós acabámos passivamente por ajudar a criar um monstro bem pior, que teve vários rostos, a frente Al-Nusra da Al-Qaeda e depois em particular o Estado Islâmico, que como sabemos controlou grande parte do território quer da Síria quer do Iraque. Ora, neste momento, aparentemente o grupo mais forte, pelo menos no sentido de que liderou vários outros grupos, mas foi o que liderou esta ofensiva até Damasco, o HTS, tem as raízes nesses grupos jihadistas, tem essa mesma ideologia, embora procure passar nos últimos tempos uma mensagem diferente. E portanto, se a substituição do regime de Bashar al-Assad for por este grupo apenas a liderar toda a Síria, nós podemos ter uma situação bem pior para a segurança internacional no seu conjunto. A questão é que a Síria, até aqui, tem estado dividida em várias parcelas e portanto este HTS estava muito limitado à região de Idlib, avançou Alepo, agora Damasco, mas nós temos uma outra zona controlada pelos curdos, que representa uma parcela significativa do território a norte, e temos uma outra zona onde aliás os Estados Unidos também têm uma base. E depois não é claro qual é a verdadeira relação entre os vários grupos apoiados pela Turquia e este HTS. A Turquia sempre assumiu o apoio a alguns grupos que estão na zona de fronteira com a Turquia, mas sempre negou até hoje o apoio ao HTS e a esta ofensiva. E o interesse imediato da Turquia é que os três milhões de refugiados sírios que saem da Turquia regressem à Síria. Agora, que relação vai ter este HTS com os países vizinhos, a começar pela Turquia ou com o Iraque, e depois com os outros grupos que estão no país, e ainda há células do Estado Islâmico. Nada disto é claro e portanto conviria não sermos muito otimistas, porque a situação é muito complexa e neste momento totalmente em aberto.
Luís Tomé, agradeço a disponibilidade para ter estado conosco neste Jornal das 10. Professor, também diretor do Centro de Estudos de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa, esteve aqui conosco neste Jornal das 10 a tentar ajudar-nos a perceber aquilo que se passa na Síria com a queda do regime de Bashar al-Assad iminente e com o líder do Estado sírio desaparecido nesta altura. Terá saído de Damasco, na Síria, à meia-noite em direção a uma base militar na Rússia.
E André, Donald Trump diz que Bashar al-Assad fugiu da Síria porque os russos deixaram cair o apoio ao regime.
Na plataforma social Truth, o presidente eleito dos Estados Unidos afirma que a Rússia quis deixar de proteger Assad. De acordo com Donald Trump, a Rússia perdeu o interesse na Síria por causa do conflito na Ucrânia. O republicano diz mesmo que Putin já não queria proteger o regime sírio porque tem mais de 600 mil soldados feridos ou mortos na Ucrânia, numa guerra que, diz Donald Trump, nunca devia ter começado.
E precisamente Donald Trump dá hoje a primeira entrevista televisiva depois das eleições norte-americanas.
O presidente eleito dos Estados Unidos vai ser entrevistado na NBC News quando forem 15h30, hora de Lisboa, no programa Meet the Press. Trump vai ser entrevistado pela correspondente da Casa Branca, Kirsten Welker. Até agora, o presidente eleito tem comunicado apenas através da rede social que criou, Truth Social, e através também de comunicados de imprensa. De acordo com a Agência EFE, Donald Trump vai falar sobre os planos políticos, as taxas a importações também, também a eliminação dos planos de combate às alterações climáticas e ainda a onda de deportações de migrantes que anunciou.
Em França, Emmanuel Macron aproveitou a reabertura da Catedral de Notre Dame para reunir com Donald Trump e Volodymyr Zelensky. O presidente ucraniano fala num encontro positivo.
Em que, diz, se falou apenas e só do futuro da Ucrânia. No Palácio do Eliseu, a reunião começou por ser só entre Trump e Macron, com Zelensky a juntar-se mais tarde. Ora no final do encontro, o presidente ucraniano afirmou que os três líderes concordaram em trabalhar juntos.
Foi uma reunião muito positiva e construtiva. O ambiente foi bom e foi importante termos falado. Falámos sobre a Ucrânia, apenas sobre a Ucrânia, o povo ucraniano e formas de o apoiar. Falámos da força dos ucranianos, da sua capacidade de resistir a toda esta invasão e agressão russa. Todos queremos paz.
Donald Trump enalteceu o espírito francês de Emmanuel Macron por ter reunido os três líderes. Explica que foram discutidas algumas estratégias no momento em que o mundo está louco.
É uma honra estar aqui. Passámos um bom momento juntos. Foi um encontro e um trabalho conjunto de muito sucesso. Falámos sobre estratégias defensivas e ofensivas numa altura em que parece que o mundo está um bocado louco. Iremos falar sobre isso.
Donald Trump, depois da cimeira que reuniu o presidente norte-americano, o presidente francês Emmanuel Macron e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, foi o primeiro encontro entre o novo presidente dos Estados Unidos da América e o chefe de Estado da Ucrânia.
Uma cimeira realizada antes da cerimônia de reabertura da Catedral de Notre-Dame, em Paris. Ontem reabriu aos líderes, hoje, André, reabre ao público.
Cinco anos depois do incêndio que destruiu parte da estrutura, foram precisos mais de €700 milhões para a recuperação do edifício. Ontem, mais de 40 chefes de Estado e de governo estiveram reunidos na cerimônia de reabertura, bem como várias dezenas de figuras internacionais. A representar Portugal, esteve a secretária de Estado da Cultura, Maria de Lurdes Craveiro. Esta manhã, em Notre-Dame, vai ser celebrada uma missa na presença de 150 bispos franceses e estrangeiros. A reabertura ao público está marcada para às 18h30.
Por cá, na política nacional, Pedro Nuno Santos acusa o governo de liderar para minorias.
Em declarações no final do jantar do PS, a pretexto do centenário de Mário Soares, o secretário-geral do partido considera que o executivo liderado por Luís Montenegro tem estado particularmente preocupado com os mais favorecidos.
Que o combate é contra a extrema-direita radical, mas é contra também uma direita conservadora, que usa e fala em nome da classe média, mas sempre para governarem para uma minoria. E este governo não perdeu muito tempo. Depois de distribuir o excedente que herdou dos governos do PS, aquilo que tem feito é governar para uma minoria da população.
Neste discurso, Pedro Nuno Santos deixou ainda um aviso ao CHEGA. O PS vai voltar a derrotar os extremismos. Também a filha de Mário Soares deixou recados à extrema-direita. Isabel Soares lembra o legado do pai no combate à ditadura, critica o que diz ser uma direita ressabiada, que nunca teve coragem de se bater. Com Mário Soares, diz a filha, não passavam.
Devemos, pois, ter orgulho nesse combate pela liberdade e a democracia e não deixar que se reescreva a história desse tempo, esquecendo, omitindo e até distorcendo muitos factos e acontecimentos por uma direita ressabiada que nunca teve a coragem de se bater. Se o meu pai fosse vivo hoje, estou certa que estaria na primeira linha do combate contra esta direita revanchista, contra o populismo, contra o discurso do ódio, a xenofobia, as desigualdades cada vez maiores entre os muito ricos e os que nada têm.
Isabel Soares, a recordar o legado do pai na luta pela democracia.
Este sábado ficou marcado precisamente pelas celebrações do centenário de Mário Soares, que foi condecorado a título póstumo.
Uma distinção atribuída pelo Presidente da República com o Grande Colar da Ordem de Camões, numa cerimônia que foi acompanhada pelo jornalista do Observador, João Costa Campos.
100 anos de Mário Soares, ex-presidente da República e ex-primeiro-ministro, padrinho da democracia portuguesa. A marca que deixou está ainda bem presente, em especial no PS de Pedro Nuno Santos.
A tarefa de Mário Soares ainda não está acabada. Nós ainda temos de completar as liberdades, as liberdades todas.
Na Fundação Calouste Gulbenkian, que acolheu a cerimônia do centenário, liberdade foi repetida vezes sem conta. Uma ideia reforçada por António Costa, presidente do Conselho Europeu.
Que a nossa liberdade não seria inteira sem a coragem de Mário Soares.
Um homem que até entre aqueles que dele discordavam, recolhia um respeito inabalável. É o caso de Cavaco Silva.
É uma figura maior da política portuguesa. Fomos adversários políticos, mas tivemos sempre relações cordiais e de respeito mútuo.
Ajudou a democratizar o país e abriu a língua portuguesa e Portugal ao mundo. Marcelo Rebelo de Sousa reconheceu-o a título póstumo.
Agradeço à Isabel e ao João, agradecendo na pessoa deles, a Mário Soares, aquilo que ele foi. Vou entregar nas vossas mãos as insígnias do Grande Colar da Ordem de Camões, fazendo-o com muita honra, em nome de todos os portugueses.
As altas figuras do Estado a relembrar o legado de Mário Soares, um homem que queria um Portugal para todos.
Há uma certeza que sempre tive. A verdade não pertence em exclusivo a ninguém e não há nada que substitua a tolerância. Este é um dos meus grandes princípios.
Um trabalho do jornalista João Costa Campos, que esteve a acompanhar as cerimônias do centenário de Mário Soares, onde estiveram presentes vários representantes políticos. Luís Montenegro esteve ausente. À Fundação Calouste Gulbenkian deslocaram-se o presidente da República, António Costa e também alguns presidenciáveis, como Mário Centeno. Desta vez, Cavaco Silva também esteve presente, ele que não participou na sessão solene no Parlamento.
Dezoito minutos para lá das 10h00, André Maia, vamos a outras notícias em destaque.
No desporto, o Futebol Clube Porto empatou ontem a um golo com o Famalicão. É o quinto jogo consecutivo fora de casa sem ganhar, sendo que no final do jogo a equipa azul e branca voltou a ser assobiada e insultada pelos adeptos. Houve mesmo objetos a serem atirados aos jogadores e ao treinador Vítor Bruno, que no final da partida, na conferência de imprensa, admitiu que não gostou da reação dos adeptos portistas. Os Dragões ficam a dois pontos do Sporting, ainda líder do campeonato, e com os mesmos pontos do Benfica, que tem menos um jogo. O Benfica que venceu ontem o Vitória Sport Clube por 1x0, com golo de Akturkoglu. O Benfica tem assim a possibilidade de ultrapassar o Sporting, caso vença o jogo que tem em atraso. Marcelo Rebelo de Sousa inicia amanhã uma visita de Estado. A viagem surge a convite dos reis Willem-Alexander e Máxima. O presidente vai passar por Amsterdão, Haia e Delft, numa visita de dois dias aos Países Baixos, acompanhado por membros dos partidos portugueses. Marcelo Rebelo de Sousa vai encontrar-se com representantes da comunidade lusa no país.
Jornal das 10, edição do André Maia.