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Leiria, são 9 horas da manhã. As notícias com Carla Jorge Carvalho. E numa altura em que começam a ser dados os apoios aos afetados pelo mau tempo, a Câmara Municipal de Leiria pede mais ajuda do governo. Lamenta que a responsabilidade pela atribuição dos apoios tenha recaído sobre a autarquia.

É o apelo da vice-presidenta da Câmara Municipal de Leiria. Anabela Graça assume que a autarquia não consegue dar resposta aos pedidos de apoio em tempo útil, se não tiver o apoio do governo central. Pede, por isso, simplificação dos processos e mais intervenção do governo.

As habitações das pessoas têm que ser reconstruídas, há candidaturas, e recaiu sobre nós também essa responsabilidade. A responsabilidade da CCDR, a responsabilidade do governo, foi-nos transmitida. No meio de uma tragédia, sentimos que aconteceu-nos isto. Isto é quase que uma onda gigantesca de trabalho em que é muito difícil dar resposta. Isto exige muito tempo e as pessoas não podem perder tempo.

As pessoas não podem perder tempo. A vice-presidente da Câmara de Leiria revela que grande parte das escolas do concelho foi fortemente afetada e deixa, por isso, também um apelo ao ministro da Educação.

Precisamos que o Ministério da Educação, e o senhor ministro da Educação já afirmou isso quando esteve aqui em Vieira de Leiria. Nós tínhamos escolas que não estavam, em termos da prioridade do Ministério da Educação, para ser qualificadas e eu penso que o senhor ministro está sensível a que é urgente, porque neste momento nós aqui no concelho temos duas escolas de segundo e terceiro ciclo praticamente destruídas.

O retrato deixado aqui por Anabela Graça, a vice-presidente da Câmara de Leiria, que esteve na última hora aqui conosco na Rádio Observador.

A Marinha Grande, um dos concelhos mais afetados pela depressão Cristina, ainda não recebeu um único cêntimo dos apoios prometidos pelo governo.

Foi o que nos revelou o autarca Paulo Vicente. Na Marinha Grande, muitas estruturas ficaram completamente destruídas e para as recuperar, diz o autarca, ainda não recebeu qualquer ajuda do governo.

Até hoje, 30 dias após esta tempestade, a Marinha Grande ainda não recebeu um cêntimo por parte do governo. E só em despesas, que nós já contabilizamos com esta tempestade, já lá dão perto de sete milhões de euros.

Num orçamento anual de...?

Com a revisão ao orçamento, 70 milhões.

E é por isso 10% do orçamento municipal do ano gasto na recuperação do Conselho da Marinha Grande. Na mesma linha, o presidente da Câmara da Batalha, André Sousa, pede mais celeridade ao governo para aplicar o PTR. Garante também que os municípios ainda estão a fazer o levantamento dos estragos.

Eu acho que é importante que os municípios façam, e estamos a fazer esse levantamento, para que não haja valores por alto e depois os municípios tenham que andar a arranjar projetos para executar. Temos que fazer esse trabalho, estamos a fazer esse trabalho neste momento. O que nós queremos depois do governo? Que a resposta seja rápida. Nós estamos aqui para trabalhar, os municípios estão aqui como parceiros do governo, mas efetivamente precisamos depois que o dinheiro chegue de forma rápida.

André Sousa, o autarca da Batalha, que esteve também na emissão desta manhã da Rádio Observador ao lado do presidente da Câmara da Marinha Grande.

Uma das zonas mais devastadas pela passagem da tempestade Cristine foi precisamente a Praia da Vieira.

Não houve restaurante ou bar da frente de praia que não ficasse destruído e foram os voluntários que ajudaram, num primeiro momento, nos trabalhos de limpeza. O repórter Luís Soares está a esta hora na Praia da Vieira. E Luís, apesar das marcas, o cenário que aí encontras hoje é muito diferente daquele que tu próprio encontraste aí há um mês.

É um cenário muito mais limpo do que aquele que havia precisamente há um mês, ainda que essas marcas da destruição sejam ainda bastante visíveis, quer no percurso entre Leiria e a Praia da Vieira, quer aqui na própria Praia da Vieira, com ainda muitos telhados sem telhas, muitos equipamentos destruídos, muitas placas no chão, muitas árvores derrubadas, muitas árvores partidas. É esse o cenário ainda, mas claro, muito mais limpo depois de há um mês também esses voluntários terem aqui estado para ajudar nesses trabalhos de limpeza num primeiro momento aqui na Praia da Vieira. Comigo tenho a Isabel Domingues, é dirigente da Associação para o Desenvolvimento Sociocultural da Praia da Vieira. Bom dia, Isabel.

Bom dia, Luís.

Isabel, um mês depois da tempestade, já se começa a viver com alguma normalidade aqui na Praia da Vieira?

É assim, normalidade não é a totalidade da questão, é um adaptar a uma normalidade pós-tempestade. Neste momento, temos que pensar que efetivamente temos que voltar à normalidade. Esta tem que ser focada para o desenvolvimento da Praia da Vieira, o ajudar todas as pessoas da Praia da Vieira, obviamente também de toda a região de Leiria, mas uma vez que estamos a falar da Praia da Vieira, ajudar nesta construção para que sim, voltamos a uma normalidade que neste momento ainda não se faz sentir, porque existe, tal como o Luís acabou de referir, muitos telhados ainda por arranjar, muitas coisas por fazer.

A própria energia, as comunicações têm voltado com

Exatamente. A forma de comunicarmos. Penso que só há dois dias é que podemos dizer que temos comunicações mesmo na Praia da Vieira, o que tem levado também a conseguirmos já movimentarmos algumas tarefas e conseguir chegar mais às pessoas. Por isso, acredito que a nova normalidade vai existir, mas calculo que só daqui mais uns dois meses.

Vai demorar tempo. Os prejuízos aqui foram muito grandes, Isabel?

Sim, foram demasiado grandes. Se formos verificar, aqui foi a entrada da tempestade Kristen. Neste caso, nós até chamamos que parecia um furacão em tempo de guerra. Basta ver ali todos os cafés e as esplanadas, já para não falar nas casas particulares, mas estamos a falar naquilo que move também o turismo e a vinda das pessoas à Praia da Vieira, como restaurantes, que têm todos na margem esplanadas de mar que ficaram completamente destruídas. E se formos ver todas elas em frente ao mar, os hotéis, as residenciais, tudo foi devastado. Outras casas, por exemplo, que estão à beira mar também foram pintadas e a areia ficou lá colada. Não há uma única casa na Praia da Vieira que não tenha prejuízo, seja telhados, seja stores.

E perante isso, como é que acha que pode ser o verão aqui na Praia da Vieira? Será um verão normal ou nem por isso?

Eu acredito e tenho fé que as pessoas continuem a vir à Praia da Vieira para fomentar e trazer, no fundo, uma economia estruturada para que a praia consiga.

E as estruturas estarão preparadas nessa altura?

Essa é que é a grande questão. Nós estamos a três meses do verão e é um espaço muito curto de tempo para as pessoas conseguirem. Primeiro, porque, como sabemos, a região toda ficou afetada e a mão de obra não é tão fácil de conseguir arranjar. O que quer dizer que quando há falta de mão de obra para reconstruir, a coisa leva mais tempo e não é tão célere como pensamos.

De resto, este fim de semana houve muita gente que veio aqui com o sol, veio aqui à Praia da Vieira e há imagens da Praia da Vieira muito cheia já este fim de semana. Para além dessa vinda de pessoas, também a própria associação tem, nesta altura, uma recolha de fundos também para ajudar para aquilo que for necessário.

É verdade, e eu agradeço, em nome da associação e de todas as pessoas da Praia da Vieira, nós somos filhos do mar, filhos de peixeiras e de pescadoras, que venham novamente à Praia da Vieira, como vieram neste fim de semana, que façam viver novamente a Praia da Vieira, voltar a uma normalidade. Já tivemos, infelizmente, esta tempestade, mas que temos a oportunidade para crescermos, para transformarmos e reerguermos a Praia da Vieira com sempre mais gente. E agradeço a todas as pessoas que voltem e agradeço também.

Para terminarmos, Isabel.

Sim, exatamente. Então, para terminar, Luís, eu gostaria de fazer um apelo, que era efetivamente as pessoas visitarem a Praia da Vieira, virem passar férias e apoiarem este crowdfunding da ADPV, por forma a nós também podermos ajudar as pessoas da Praia da Vieira.

E é possível também através da página da associação perceber como é que se pode ajudar, Isabel. Muito obrigado, Isabel Domingos, da Associação para o Desenvolvimento Sociocultural da Praia da Vieira, a fazer aqui um ponto de situação um mês depois da tempestade.

E com esta ideia muito clara, Luís Soares, isto é uma adaptação, não é o regresso à normalidade.

Carla, há ainda um rasto de estragos causados pela passagem do mau tempo. Há casos pontuais a ser resolvidos de falta de eletricidade.

É o que admite a EDP ao Observador. Empresas e famílias ainda estão a ser afetadas. Há um mês, o mau tempo deixou cerca de 1 milhão de pessoas sem eletricidade. O efeito foi sentido principalmente em Leiria, onde pelo menos 200 pessoas continuam sem luz. Isto apesar de ontem a EDP garantir que a energia já tinha sido reposta a 100% em todo o país.

E na política, a tomada de posse de António José Seguro como presidente da República vai durar não um, mas dois dias.

Dois. O programa vai ser alargado a Arganil, Guimarães e também ao Porto, com iniciativas que refletem as prioridades do mandato de Seguro, de acordo com uma informação divulgada pela Agência Lusa. Depois da posse formal perante a Assembleia da República, marcada para 9 de março, António José Seguro vai abrir os Jardins do Palácio de Belém à população e vai depois ter um encontro com jovens numa universidade em Lisboa. Dia 10, o presidente prossegue o programa noutras regiões, passa pela aldeia de Murícia, no Conselho de Arganil, Coimbra, uma das localidades mais afetadas pelos incêndios do verão passado. Termina o dia com um concerto na cidade do Porto.

São agora 09h10, Carla, que outras notícias marcam esta manhã de sexta-feira?

O PSD a estranhar as intervenções mais recentes de Passos Coelho. Dentro do partido, existe a tese de que o ex-primeiro-ministro ainda quer ter um futuro político, informação apurada pelo Observador, que ouviu vários membros do PSD que têm diferentes opiniões sobre as mais recentes intervenções públicas do ex-primeiro-ministro. Paulo Cunha aconselha outro recato a Passos e diz que as recentes intervenções não são compagináveis com o que fez no passado. Marcelo Rebelo de Sousa está em Bruxelas para se despedir das instituições europeias. Tem encontros marcados com a presidente do Parlamento Europeu, com a presidente da Comissão e com o presidente do Conselho Europeu, António Costa. Numa nota publicada esta manhã no site da Presidência, pode ler-se que o chefe de Estado vai abordar vários assuntos, incluindo os apoios à reconstrução de Portugal depois dos estragos causados pelas tempestades. Bill Clinton é hoje ouvido pela Câmara dos Representantes do Congresso dos Estados Unidos, no âmbito da investigação em torno de Jeffrey Epstein. É a primeira vez que um ex-presidente é obrigado a depor perante o Congresso norte-americano. Entre os ficheiros divulgados sobre o homem acusado de tráfico sexual, estão várias fotografias que mostram Bill Clinton ao lado de Epstein. Passa amanhã um mês desde o início da tempestade, que segundo a Proteção Civil, provocou a morte de 15 pessoas. Ao longo do dia de hoje, João, contamos a história de vida de cada uma destas pessoas.

E nesta hora trazemos a história de Ricardo Teotósio. Morreu com 38 anos.

Aos sete anos, soube que a mãe tinha esclerose múltipla e, por isso, assumiu desde cedo grandes responsabilidades em casa. Aos 10, ajudou até o pai a construir a casa onde viviam. Foi ele que lixou as portas e ajudou também os pedreiros. Fundou com um grupo de amigos da terra o Clube Motard Os Arruaceiros de Carvide. Aos 25, conheceu Joana, foram pais em 2018 e casaram pouco depois.

Trabalhava na construção civil e fazia pequenos reparos em casa de amigos sem aceitar qualquer dinheiro.

Precisamente. A solidariedade de Ricardo foi posta à prova nos incêndios da região de Leiria em outubro de 2017, quando esteve na linha da frente no apoio. Na madrugada da tempestade, Ricardo e o pai foram surpreendidos por uma forte rajada de vento que arrancou o portão de casa e fez o anexo desabar em cima deles. O pai resistiu, mas Ricardo não.

A história de Ricardo Teotósio está publicada no site do Observador. É um artigo sobre as histórias inesquecíveis das 15 vítimas que a tempestade levou. Um trabalho do jornalista Pedro Jorge Castro.