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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador. Olá, Miguel, bom dia.
Bom dia, cá estou, sim, senhora, no meu posto.
Estás no carro, não estás?
Não estou nada no carro. Estou no carro o quê?
Está no posto emissor.
No posto emissor.
Sim, daqui das Forças Armadas.
É parecido. Quem é o teu bom de hoje, Miguel?
O bom de hoje é José Manuel Bolieiro, o presidente do Governo Regional dos Açores. Deu uma entrevista aqui ao Observador e falou sobre as Lajes. Estivemos a falar muito sobre as Lajes por causa do 10 de junho, e ele disse o seguinte: "A presença dos Estados Unidos nas Lajes é dissuasora de quem queira pôr em causa a nossa soberania." Nos dias de hoje, esta é uma afirmação contraintuitiva, porque toda gente acha que a boa moda é cortar relações com os Estados Unidos por causa do Donald Trump, é o novo império do mal. Mas José Manuel Bolieiro tem as ideias muito arrumadas na cabeça, eu vou citá-lo: "Sabemos bem quem são os nossos aliados e os que não são e, pelo contrário, são ameaça. Não temos dúvida quanto a essa matéria. Conhecemos bem os nossos adversários, conhecemos bem os nossos aliados." E realmente, não vale a pena lutar contra a geografia. E gostando mais ou menos de Trump, a presença de Portugal no Atlântico não pode existir contra os Estados Unidos. Por isso, não vale a pena ter fantasias ou acharmos que somos todos Pedro Sánchez. No momento em que os Estados Unidos deixarem de ser nossos aliados, a nossa presença no Atlântico acaba.
E depois Donald Trump na Casa Branca não será eterno, espera-se.
Não será, mas também, Paulo, honestamente, não sabemos o que vem a seguir.
Não sabemos, pode ser pior amanhã.
Achar que acabando a carreira política de Donald Trump, nós voltamos aos tempos verdejantes de antigamente, pode ser um engano. De qualquer forma, os Estados Unidos estarão lá e teremos de saber lidar com eles.
É isso.
Miguel, o teu mau é a guerra dos números.
Pois, já se sabe, em Portugal é sempre assim. Quando há uma greve, nós temos uma guerra de números. Isso voltou a acontecer na última greve geral a 3 de junho. Quem foi ouvindo a CGTP ao longo do dia ficou convencidíssimo de que o país estava totalmente paralisado. Cada sindicalista que se aproximava de um microfone ou de uma câmera enunciava uma série de setores com 100% de adesão à greve. Aquilo era 100%, estava tudo fechado. E quem foi ouvindo o governo ao longo desse dia ia recebendo números totalmente diferentes. Ora, nós já não estamos propriamente na Idade da Pedra e, portanto, é possível tentar perceber de forma objetiva se um país está a trabalhar ou não. E o Banco de Portugal foi olhar para, entre outras coisas, o tráfego rodoviário de veículos comerciais pesados nas autoestradas, o consumo de eletricidade, o consumo de gás natural, o correio e as cargas que chegaram aos aeroportos portugueses, as compras que foram feitas com cartões, portanto, perceber se a economia estava a mexer. E há duas conclusões: a primeira é o número absoluto. A atividade econômica em Portugal teve uma quebra de 5,1% no dia da última greve geral. E a segunda conclusão é comparativa. Na greve geral anterior, uns meses antes, a 11 de dezembro, a quebra tinha sido de 6,3%. Ou seja, os efeitos da segunda greve foram substancialmente menores do que os efeitos da primeira. E não é preciso andar a inventar. Basta olhar pra números a sério, não é para os números que se inventa, é para os números a sério.
Pois, agora vamos olhar para os factos, queres ver, pra tirar conclusões.
Paulo, comigo é assim. A minha postura é essa. É uma postura de verticalidade absoluta. Eu não admito essas coisas. Eu sei que estás habituado a isso.
Não sei onde é que isto vai parar, se começarmos a olhar para os números, para as estatísticas, mas enfim.
Logo tu.
O teu vilão vai à bola, Paulo Ferreira.
Não. Eu sei que ele queria.
Chamaram.
Eu sei, Paulo.
Futebol é meu nome do meio.
Tu estás mortinho pra fazer as malas, mas não, não és tu.
Pronto, tenho que esperar.
Paulo, o mundo não gira à tua volta. Eu sei que é difícil, mas eu tinha que te dizer isto. O vilão é a troica do Estado, o presidente da República, o presidente do Parlamento e o primeiro-ministro. Começou agora um novo mundial de futebol e lá vai a nossa troica do Estado atrás da seleção.
Nem a viajou, que se eles não fossem.
Com certeza, aquilo parava. Então lá vão eles com aquelas motas com sidecar. Lá vão eles no sidecar. No dia 17, Portugal tem o seu primeiro jogo e nas bancadas vai estar José Pedro Aguiar-Branco. No segundo jogo com o Uzbequistão, essa grande potência futebolística, vai estar nas bancadas Luís Montenegro. No terceiro jogo com a Colômbia, vamos ter nas bancadas António José Seguro. E isto não é novidade nenhuma, atenção, como é óbvio, isto não foi inventado por esta troica, mas o facto de ser habitual não faz com que seja normal. Por que carga d'água o nosso Estado tem de estar representado ao mais alto nível em todos os jogos da seleção, ainda por cima no mundial que se está a realizar no continente americano? Ainda se fosse aqui ao lado, mas mesmo assim, sinceramente, a troica do Estado fez questão de explicar aos jornalistas que, ao contrário do que acontece noutras situações, nem o presidente do Parlamento, nem o presidente da República levam comitivas. Cuidado, isto aqui não é tudo à grande. Não, não levam comitivas. E eu acho que eles não percebem que o ponto não é esse. Se Portugal chegasse à final, com certeza iria lá o chefe do Estado, sim, senhor. Mas até lá era simples. Aliás, pra usar a expressão que os políticos tanto gostam. À política, o que é da política, e à bola, o que é da bola. Até porque não era o Luís que queria que o deixassem trabalhar? Então o Luís, o António e o Zé Pedro ficam a trabalhar. E os jogadores da seleção ficam também a trabalhar, cada um no seu canto. Acho que era melhor.
Pode ser que os três juntos consigam fazer as contas pra saber quanto é que nos vai custar o próximo mundial de 2030.
Olha, certo. Eu até já estou a sentir a carteira mais leve.
Exato.
Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é José Manuel Bolieiro, o mau é a guerra dos números e o vilão de hoje é a troica do Estado. São as escolhas do Miguel Pinheiro.