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Está no ar mais um episódio do "O Bom, o Mau e o Vilão" da Rádio Observador. Olá, Miguel Pinheiro, bom dia. Bom dia. Bom dia, Miguel. O teu bom ganhou o debate de ontem. Finalmente, Jorge Pinto venceu um debate. O frente a frente com o candidato do LIVRE era o momento ideal para António José Seguro fazer aquilo que ainda não conseguiu nesta campanha, que é falar pro eleitorado de esquerda, que é aquele que o pode levar à segunda volta. Não há mais nenhum. Eu não sei se António José Seguro está convencido que há aí um eleitorado qualquer que o pode levar à segunda volta que não seja de esquerda, mas não existe. Fica já aqui a notícia pra ele. Seguro até começou razoavelmente bem, ao lembrar que é militante do PS há mais de 40 anos. Até fez o inevitável, que era criticar as propostas laborais do governo, e até acabou por fazer um apelo ao voto útil da esquerda, mas pelo meio, António José Seguro embrulhou-se no passado e não foi capaz de explicar o papel que teve no tempo da troika, da sustentação da ação do governo de Passos Coelho, nomeadamente com a abstenção no orçamento de 2012. Seguro embrulhou-se em detalhes jurídicos a propósito de uma suposta revisão radical da Constituição à direita e embrulhou-se também ao falar sobre o SNS. Para Jorge Pinto, foi um debate de afirmação. Para António José Seguro, foi mais uma oportunidade perdida. Seguro tem de se despachar, porque oportunidades como esta não vão aparecer todos os dias. Ele tem que começar a fazer qualquer coisa de diferente, diria eu.

Sim, dá a ideia que está ali um bocadinho no meio da ponte, não é? Entre falar mais ao centro ou mais à esquerda.

Mais ao centro e mais à esquerda é esto a ser generoso.

Talvez.

Eu diria mais à direita ou mais à esquerda. Enfim, eu diria que ele tem de se decidir. Miguel, o teu mau é a ministra do Trabalho. Pois, é verdade. Este fim de semana, Maria do Rosário Palma Ramalho comentou mais uma vez a greve geral que se aproxima e sentiu que devia dizer mais qualquer coisa pra tentar fragilizar a posição dos sindicatos e por isso garantiu o seguinte. Disse que a proposta do governo, vou citar: "Não tornará os despedimentos em Portugal mais fáceis ou menos difíceis, porque eles são bastante difíceis e assim devem continuar a ser." E eu pensei: ai, sim? Muito me contam, porque vamos ver, há aqui dois problemas. O primeiro é que a ministra está a desconversar. Efetivamente, o governo não mexe nos motivos estritos pra despedimento de um trabalhador que tenha um contrato sem termo, mas mexe, por exemplo, é só um exemplo, mexe na duração dos contratos a prazo, que sendo mais longos, permitem que a entidade patronal possa dispensar um trabalhador, não pelo despedimento, mas pela mera extinção do contrato. Por isso, desconversar não vale a pena. O segundo problema é mais grave, é que a justificação política pra estas mudanças, penso eu, é a de que as mudanças são a melhor forma de modernizar o mercado de trabalho, flexibilizar as relações laborais. E isto é feito porque o governo acredita que essa é a melhor forma de todos ganharem, incluindo os trabalhadores. Supostamente, esta reforma não é pra agradar aos patrões, apenas, é pra agradar aos trabalhadores também. O argumento do governo é que os trabalhadores ganham com isto, porque com esta reforma, terão mais hipóteses de ter disponíveis oportunidades de trabalho mais vantajosas, porque o mercado de trabalho fica mais flexível, as coisas movimentam-se de forma mais favorável também pra os trabalhadores. Ora, o que as declarações de Maria do Rosário Palma Ramalho indiciam é que, afinal, a ministra não acredita em nada disto. Ela acha que deve ser muito difícil, quase impossível, as empresas despedirem alguém, mexerem na sua força de trabalho. Pelos vistos, se ela acha que difícil é que é bom, isto deve estar tudo congelado. Quem tem um emprego, já tem um emprego. Quem precisa de um emprego, safe-se. E se é assim, então mais vale a ministra filiar-se na CGTP. Eu acho que a CGTP também agradeceria mais uma militante pra no dia 11 ir à rua.

Não sei se aceitavam. Ou então esta é aquela fase negocial.

Acho que os sindicatos aceitam tudo.

Achas?

Ô Paulo, mas negocial.

Eu percebo teu ponto.

Mas eu acho que às vezes os ministros esquecem-se de uma coisa: é que eles têm de convencer o país. Eles não estão só a falar com a CGTP, eles estão a falar com o país e têm de explicar aos eleitores por que esta mudança é boa pros trabalhadores, porque senão parece que está tudo cabeça perdida.

Vamos manter nós a cabeça fria.

Está a ser difícil. Miguel, o teu vilão passou ontem por uma crise. Por falar em manter a cabeça fria. Exato. O vilão é a instituição Presidência da República. Como se sabe, ontem Marcelo Rebelo de Sousa sentiu-se mal e teve de ser operado de urgência a uma hérnia no Hospital de São João, no Porto. Agora já estará tudo bem, felizmente, é isso mesmo que toda a gente deseja. Mas a verdade é que ontem, durante várias horas, a Presidência da República passou por um momento de crise, como é óbvio, e a forma como a instituição reagiu a esse momento de crise foi um pequeno desastre. Primeiro, o Palácio de Belém publicou no site da presidência um comunicado oficial com informação errada, dizendo que Marcelo tinha tido apenas uma paragem de digestão. Então foi uma paragem de digestão. Quando, como se percebeu rapidamente, o assunto era bem mais grave, mas a informação errada foi dada aos portugueses num momento destes, pelo menos num momento destes, eu já não penso noutros, mas pelo menos num momento destes, a informação fornecida pela presidência tem de ser absolutamente rigorosa e totalmente fidedigna. Não pode ser baseada em palpites, em sensações ou em fezadas, porque eu falo por mim, eu da próxima vez não acredito. Eu quando vi a informação, pensei: "Bom, está tudo bem, uma indigestão. Foi ao hospital só porque sim, daqui a cinco minutos está a sair." Acreditei. Não volto a acreditar. Não vale a pena. E a seguir, depois disto, o chefe da Casa Civil teve de responder a uma pergunta sobre uma eventual substituição temporária do presidente e limitou-se a dizer que isso não ia acontecer porque esse é um processo pesado. Em vez de explicar devidamente o que diz a lei, que hipóteses se colocavam. Eu ainda não percebi, afinal, se acontecer alguma coisa urgente e imprevisível ao presidente, o que é que acontece e com que rapidez. Vou tentar informar ao longo do dia, porque o chefe da Casa Civil não me soube explicar. E por fim, no preciso momento em que o Presidente da República estaria a ser sedado para uma cirurgia, o mesmo chefe da Casa Civil falou ao país com pequenas graças sobre a mania de Marcelo, de que também é médico, sobre se ele estaria ainda acordado ou já a dormir. Enfim, nesta crise, a Presidência da República só mostrou amadorismo.

A falta que fazem às vezes livros de protocolo das instituições saberem como é que hão de reagir em circunstâncias que podem acontecer.

Claro, e as pessoas têm de saber é nos momentos de crise que as instituições têm de ser mais fiáveis.

Claro.

Se é assim, fica difícil. Vamos ao resumo. O bom desta terça-feira é Jorge Pinto, o mau é a Ministra do Trabalho, e o vilão de hoje é a Presidência da República.