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Começa agora uma nova edição do "O Bom, o Mau e o Vilão". Bom dia, Miguel Pinheiro.

Bom dia.

Bom dia. O teu bom sabe dar conselhos?

Ao fim deste tempo todo, ainda sabe dar conselhos. O bom é Cavaco Silva. E ontem, na cerimónia que assinalou os 40 anos da sua subida ao poder, o ex-primeiro-ministro deu dois conselhos inestimáveis ao atual primeiro-ministro. O primeiro conselho foi o de que fazer uma remodelação de governo é uma tarefa pesada e solitária, mas pode ajudar um primeiro-ministro se for feita no tempo certo. E o segundo conselho é o de que é inevitável cometer erros quando se está a governar e, portanto, não vale a pena gastar tempo e energia a tentar escondê-los. Eles estão ali e toda a gente os vê. E houve ainda um terceiro conselho que Luís Montenegro ouviu sem que Cavaco precisasse de o verbalizar, porque o atual primeiro-ministro, Luís Montenegro, disse isto: "Sentimos a responsabilidade de sermos um farol para dar ao país uma orientação para o rumo que queremos seguir." E agora, munido destes três conselhos, Luís Montenegro só precisa de olhar para Ana Paula Martins e pensar de si para si, falando com os seus botões: esta ministra é um farol ou esta ministra é um erro e devo tomar em ombros a pesada e solitária tarefa de a remodelar? Eu tenho a certeza de que quando fizer estas perguntas, Luís Montenegro perceberá que as respostas são óbvias.

Mas lá para a hora de Natal, talvez, não é?

Diria que sim, Paulo. Acho que sim. Acho que vai ser uma reflexão natalícia.

Miguel, o teu mau calou-se.

Luís Vaz das Neves, ex-juiz e antigo presidente do Tribunal da Relação de Lisboa. Vaz das Neves é arguido no caso da Operação Lex, que envolve o também ex-juiz Rui Rangel, e começou a prestar depoimento no julgamento. Começou a falar, mas a dada altura, por conselho do advogado, decidiu calar-se e anunciar que não falaria mais. Segundo ele, as questões do Ministério Público em nada tocaram o objeto do processo e os restantes pedidos de esclarecimento eram redundantes. E naturalmente, um juiz, um antigo juiz, neste caso, tem todo o direito a defender-se como entender, tem os mesmos direitos de todos os outros, mas um antigo juiz também tem, acho eu, obrigações morais, se é que isso ainda se usa hoje em dia. Nos Estados Unidos, um polícia que invoque o direito ao silêncio num processo é imediatamente despedido. Aqui, Vaz das Neves não poderia ser despedido, nem isso está previsto na lei portuguesa, isso não existe, mas esta atitude mostra que, de facto, foi uma infelicidade que Vaz das Neves tenha algum dia podido chegar a presidente do Tribunal da Relação de Lisboa. Eu esperaria de um antigo juiz, de um antigo presidente do Tribunal da Relação de Lisboa, eu esperaria que falasse, respondesse a tudo, mesmo tendo o direito a ficar em silêncio.

Mas parece, como dizes, que aquilo que são obrigações morais não são para aqui chamadas, não é?

Não, e de facto, não são. Repara.

E é preocupante, não é? Porque este tipo de funções têm muito de obrigação moral.

É, eu gostaria que a posição tivesse sido outra, para todos ficarmos esclarecidos.

Miguel, então quem é o teu vilão?

O vilão são os médicos tarefeiros. Como se sabe, o SNS está cada vez mais dependente dos médicos tarefeiros, por opções políticas, claro, com certeza, mas há hospitais em que eles asseguram mais de 50% das urgências. Até agosto, o SNS gastou 162 milhões de euros com médicos tarefeiros. Isto são mais 25 milhões do que no mesmo período do ano passado. Há hospitais que pagam cinco vezes mais a médicos tarefeiros do que a médicos do quadro. E qualquer pessoa olha para estes números e percebe que nós estamos numa situação insustentável. E por isso o governo anunciou que quer criar regras novas e quer reduzir o valor pago por hora aos tarefeiros. Os tarefeiros, claro, não gostaram, pegaram logo na pistola, na granada e na bazuca e um grupo de cerca de mil médicos tarefeiros está a ameaçar fazer uma greve por um período mínimo de três dias, pode ser mais. E isto só prova que, de facto, o SNS e nós todos não podemos ficar dependentes de um grupo de médicos que quer manter os seus privilégios, quer manter o seu poder, como nós vemos em tantos outros sítios, e querem fazer isso mesmo que implique custos para os doentes. E agora, uma de duas: ou o governo tem coragem ou é engolido pelo SNS. Luís Montenegro, que ontem esteve a ouvir Cavaco Silva e a elogiar Cavaco Silva, tem de decidir o que é que quer fazer.

Não sei se não é demasiado tarde, pelo menos para esta ministra, para isso. Vamos ver.

Paulo, se for demasiado tarde para esta ministra, arranja aí outra. Para nós é seguramente, com todo o dinheiro que estamos a gastar no SNS para depois termos listas de espera que nunca mais acabam e urgências a fecharem. Para nós seguramente é tarde. Por isso, o governo que se apresse, vá, rápido. Foram eleitos foi para isto, resolva o problema.

Vamos ao resumo. O bom desta quinta-feira é Cavaco Silva, o mau é o ex-juiz Luís Vaz das Neves e o vilão de hoje são os médicos tarefeiros. Foram as escolhas do Miguel Pinheiro nas manhãs "360 E Sempre" em podcast.