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Está no ar o Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o Major-General José Ernani Moreira. Bom dia.

Muito bom dia a todos.

Viva! Vamos começar pelo tema quente dos últimos dias ou das últimas horas. Putin telefonou a Trump. As primeiras semanas, major-general, da administração Trump traduziram-se por uma ausência de contactos de alto nível entre Estados Unidos e Europa. Mas esta semana, muitos e proeminentes membros da administração norte-americana participaram em reuniões com os líderes europeus. Tivemos também esse tal telefonema de hora e meia entre Putin e Trump, marcando um início formal das negociações sobre a Ucrânia. O que é que nós podemos esperar de tantos acontecimentos em simultâneo?

Foi uma semana riquíssima do ponto de vista dos acontecimentos, provavelmente nem todos naquele sentido que os europeus pensavam ou esperavam. Vamos ser bastante claros sobre isto. Até ao momento, porque a semana ainda não acabou e a Ucrânia parece ter anunciado hoje que não iria participar nas negociações entre os Estados Unidos e a Rússia, que se desenrolam ao lado da Cimeira de Segurança em Munique. Há três acontecimentos que me parecem merecer destaque durante esta semana. A primeira tem sido pouco noticiada, mas é muito relevante, que é a visita do Secretário de Estado do Tesouro americano, Scott Bessent, a Kiev. Foi falar diretamente com o Zelensky e foi levar o esboço de um acordo para ser assinado por Zelensky, que é basicamente um acordo para a extração de minerais críticos da Ucrânia. Isto é, os Estados Unidos entraram nesta guerra para defender o direito internacional, para defender os direitos humanos, para impedir que uma Rússia se tornasse imperial na geografia da Europa e de repente, com a eleição de Trump, enviam um secretário do Tesouro para fazer um contrato. É como aquela coisa das pessoas que enviam a conta antes da pessoa morrer. Então ainda não houve uma negociação de paz e já há um acordo de extração de materiais críticos sugerido pelos próprios norte-americanos, em termos que foram redigidos pela administração Trump.

Os Estados não têm amigos, têm interesses.

Exatamente. Esta visita de Scott Bessent é uma visita estranhíssima, porque todos os secretários de Estado que têm ido até hoje à Ucrânia foram mostrar solidariedade com a Ucrânia, pedir respeito pela integridade do seu território e pela sua soberania. Segundo aspecto: foram as duas reuniões que o novo secretário da Defesa, Pete Hegseth, fez com os ministros da Defesa dos países europeus, de um ponto de vista primeiro informal e depois mais formal. Esta visita marcou uma falta de empatia tremenda deste novo secretário de Estado da Defesa, secretário da Defesa, com os ministros da Defesa europeus. Esta falta de empatia ficou muito clara na forma e nos discursos que foram utilizados por Pete Hegseth, quer na comunicação com os ministros, quer naquilo que foram as conferências de imprensa que deu e que foram, do meu ponto de vista e na minha leitura, desastrosas. É claro que houve clareza a mais aqui. Mas esta clareza foi muito mais do que aquilo que esperavam os ministros da Defesa europeus na NATO, porque o que esperavam era que houvesse uma insistência nos tais 5% de gastos do PIB de cada país com a defesa. Era isso que se estava à espera. Mas o que trouxe Pete Hegseth para cima da mesa vai muito mais para lá do que o mero aumento do contributo europeu. Diz uma coisa que a Europa não queria ouvir, que era: a Europa já não é uma prioridade estratégica para os Estados Unidos da América. Ora, quando a Europa era uma prioridade estratégica para os Estados Unidos da Europa, a organização que o garantia era a NATO. A partir do momento em que a Europa já não é considerada uma prioridade estratégica para os Estados Unidos, a própria NATO corre risco de vida. E isto é reforçado por outras declarações de Pete Hegseth. Por exemplo: a Europa tem de deixar a sua dependência securitária em relação aos Estados Unidos. Lá está a NATO, outra vez aqui metida como instrumento. A Europa vai ter de suportar a Ucrânia, isso já sabíamos, quer do ponto de vista militar, quer do ponto de vista económico, e não haverá tropas dos Estados Unidos na Ucrânia E depois, não haverá missões da NATO na Ucrânia. Isto é, a NATO como organização não será utilizada. Vamos voltar outra vez à NATO sem missão. Nós estamos a caminhar para uma NATO sem missão. Por quê? Porque Vladimir Putin é amigo de Donald Trump e, portanto, todos os assuntos da segurança europeia serão resolvidos telefonicamente, sem recurso a instituições. Isto é, uma desvalorização completa do instrumento NATO que existia até agora. Depois, as próprias tropas europeias que venham a ser utilizadas na Ucrânia não terão uma bandeira da NATO. Isto é, não haverá nenhuma relação entre essas tropas a utilizar e a NATO. E mais, é que essas tropas não estarão ao abrigo do artigo quinto da NATO. Isto é, se forem atacadas pela Rússia, problema das tropas europeias que estão lá, não vão ficar à espera que os Estados Unidos venham em seu socorro.

Não vai valer o princípio "um ataque contra um é um ataque contra todos."

Nada. Portanto, o que é que temos aqui? Temos que pode haver um acordo entre Vladimir Putin e Donald Trump. Esse acordo vai precisar de tropas europeias para garantir a linha de interposição entre a Ucrânia e a Federação Russa. Ora, essas tropas não têm nenhuma garantia por parte dos Estados Unidos. Quer dizer, então prestam-se para ir colaborar num acordo desenhado pelos Estados Unidos e não têm a proteção dos próprios Estados Unidos.

É uma versão muito instrumentalizada das Forças Armadas.

Saímos daqui bastante mais surpresos do que tínhamos entrado nesta semana. Mas nem foi este o grande assunto da semana. O grande assunto da semana foi o telefonema entre Vladimir Putin e Donald Trump. Vamos ver como é que nós, europeus, tínhamos olhado para este sistema. Tínhamos olhado da seguinte maneira: ia ser aproveitada a Conferência de Segurança de Munique para o restabelecimento de ligações de alto nível entre a Europa e os Estados Unidos. Mas isto tinha um conjunto de passos, e esses passos eram o seguinte, Keith Kellogg vinha à Europa apresentar aos aliados europeus o seu plano de paz. Vinha também o Marco Rubio, o secretário de Estado, e vinha também o presidente J. D. Vance para ouvir os aliados sobre este planeamento. E depois de feita esta sincronização com os aliados, então o plano seria apresentado a Putin. Isto é, havia um consenso ocidental formado antes de haver o início das negociações formais com Putin. Ora, Putin deve ter percebido que lhe era altamente desfavorável este consenso e resolveu antecipar tudo. Portanto, antes de esses contactos serem estabelecidos entre os Estados Unidos e a Europa, resolve tomar a iniciativa, telefonar a Trump, definindo logo os seus termos. Conclusão: os europeus que estavam à espera de participar na definição deste acordo, estão agora muito surpreendidos, porque aparentemente, antes de lhes ser apresentado o plano, esse plano já começou a ser discutido entre Vladimir Putin e Donald Trump. Portanto, estamos aqui numa fase muito complicada das relações. O que eu diria para terminar sobre este assunto? O seguinte: nós temos no estudo da política internacional, a ideia ou a orientação de que é fundamental que as relações entre os países se façam de um ponto de vista institucional, isto é, estejam todas as instituições envolvidas nesse relacionamento.

As chamadas partes.

Exatamente. Por quê? Porque é a forma de perpetuar a continuação dos vários interesses e sairmos daquela lógica conjuntural das amizades. Isto é, o que deve reger as relações internacionais são os interesses, não são as amizades, porque as amizades são episódicas. Ocorrem agora e depois, amanhã já não ocorrem, porque por uma razão qualquer, perdeu-se a empatia. Ora, o que Trump está a fazer às relações internacionais é substituir aquilo que eram relações de natureza institucional entre as partes, por relações de natureza pessoal. Isto tem uma consequência, mais uma vez a NATO. É que a NATO era o instrumento de ligação transatlântica dos interesses entre a Europa e os Estados Unidos. A partir do momento em que ele acha que o instrumento adequado para garantir a segurança da Europa é a sua amizade e a sua conversa pessoal com Putin, não precisa em nada das instituições. Ou seja, Vladimir Putin abriu imensas garrafas de champanhe durante esta semana. Por quê? Porque Vladimir Putin vai fazer um favor a Trump também. Esse favor é esperar durante quatro anos antes de retomar a sua ofensiva sobre a Europa Vai conceder a Trump uma paz na Europa. Por quê? Porque Putin também lhe interessa agora esperar o tempo suficiente para reconstruir a sua força, reprioritizar os seus interesses, constituir estoques de guerra que estão muito esgotados, etc. Isto é, há aqui uma conjugação que vai dar a ideia de que Trump trouxe a paz para a Europa e Vladimir Putin garantiu-lhe essa paz, porque Vladimir Putin, a ele também lhe interessa fazer aqui um conjunto de modificações e não se importa de esperar quatro anos. Em conclusão, Vladimir Putin tem tempo estratégico. Estará no poder enquanto quiser, o que significa que não se importa de dar a Trump quatro anos de segurança na Europa. Trump vai sentir-se imensamente feliz com isso e enquanto esses quatro anos de Trump durarem, Vladimir Putin irá preparar-se para enfrentar a Europa mais tarde.

Vamos continuar a falar de Trump, mas olhando para outra região do planeta. Apesar das críticas internacionais, o presidente norte-americano continua a detalhar o seu plano para a Faixa de Gaza. Esta semana recebeu em Washington o rei Abdullah, da Jordânia, que lhe foi mostrar as dificuldades do plano, nomeadamente ao nível do deslocamento da população de Gaza. Entretanto, a tensão entre o Hamas e Israel, que poderia indiciar um regresso à guerra, parece estar a suavizar-se. Que avaliação faz destes desenvolvimentos, major-general?

Muito bem. Tudo isto começou com o conjunto de declarações bombásticas de Donald Trump sobre o futuro da Faixa de Gaza, que, recordemos, incluía dois ou três aspectos. O primeiro aspecto tinha a ver com o facto de a reconstrução ser incompatível com a permanência dos palestinianos na Faixa de Gaza e, portanto, a solução dele era retirar os palestinianos da Faixa de Gaza. Depois andou um bocadinho indeciso se voltariam ou se não voltariam, iniciar o processo de reconstrução, fazer de Gaza aquilo que ele chamou uma riviera, portanto, uma espécie de um grande resort, com condições econômicas fantásticas e de habitabilidade acima daquilo que era certamente as condições atuais de Gaza e com isso promover ali a paz na Faixa de Gaza. Isto é, promover a paz através da reconstrução de um tecido econômico diferente. Esta era a ideia de Trump. A ideia de Trump chocou de imediato com todos os interesses que estão instalados na zona, nomeadamente com a enorme dificuldade de se saber: "Então, mas são dois milhões de palestinianos, isto não são 200 mil, nem 20 mil, são dois milhões. Dois milhões é muita gente. Quem é que vai receber dois milhões de palestinianos?" Essa foi a primeira fase. A primeira fase foi: nós vamos tomar conta da Faixa de Gaza. Nós, Estados Unidos, vamos tomar conta. Mas já houve uma evolução, porque a certa altura até se pensou: mas então vão tomar conta do ponto de vista internacional, como? Vão comprar? Porque foi uma das hipóteses que foi lançada, foi comprar Gaza. Perante também as reações negativas nos Estados Unidos, o comprar Gaza deixou de estar em cima da mesa. E esta semana foi introduzida uma nova versão, que é: vamos administrar Gaza. Bom, administrar Gaza não é a mesma coisa que comprar, nem ter a posse. Até porque o que estamos a discutir nesta segunda fase do acordo de cessar-fogo, que ainda continua vigente, é exatamente quem é que vai administrar Gaza. Era mais uma proposta, os Estados Unidos irão administrar Gaza durante esta fase. Mas, entretanto, veio o rei Abdullah II, da Jordânia, aos Estados Unidos recordar várias coisas. Primeiro, recordar que a Jordânia é um aliado fiel dos Estados Unidos há muitos anos e um parceiro fundamental para se garantir a estabilidade próxima junto a Israel. Portanto, veio puxar dos seus trunfos de que eu só consigo fazer isto se não me enviarem agora um milhão ou dois milhões de palestinianos. Por quê? Porque já existem três milhões de palestinianos a viver na Jordânia. São três milhões, é muita gente.

Em condições muito precárias, não é?

O que significa que há uma pressão na rua também da Jordânia. Isto é, a Jordânia não pode concordar, pelo menos publicamente, com o conjunto de propostas que sejam lançadas, porque há uma pressão de rua também imensa na Jordânia, em virtude de existirem estes três milhões. E, por outro lado, a Jordânia tem o mesmo problema que tem o Egito, é que a população de Gaza está muito radicalizada e, portanto, temem que haja um alastrar depois para as respectivas sociedades civis de toda esta militância da população de Gaza. Trump terá sido um bocadinho sensível a isto, mas, na verdade, Trump não desistiu da sua ideia. Anda à procura agora da maneira de concretizar essa ideia. Entretanto, o presidente do Egito, Al-Sisi, também tem um plano. Nós não conhecemos ainda os detalhes desse plano, mas esse plano não vai Não encaixa perfeitamente naquilo que era a ideia de Donald Trump. Entretanto, Donald Trump atirou com a libertação de todos os reféns no sábado. Houve aqui uma imensa crise, mas essa crise parece agora ter-se encaminhado para uma normalização e o que nós esperamos é que sábado haja a libertação de mais três reféns e que, para já, o processo de cessar-fogo se aguente.

Muito bem, vamos à cortina de fumo. De acordo com a intelligence da Coreia do Sul, o vizinho do Norte enviou milhares de trabalhadores norte-coreanos para a Rússia durante o ano de 2024. A Federação Russa diz que concedeu vistos para estudantes. Parece haver aqui uma cortina de fumo imensa. O que se passa agora na relação próxima ou cada vez mais próxima entre a Coreia do Norte e a Rússia, major-general?

Esse é o aspecto fundamental disto. É que aquela cooperação, que era estratégica e que começou por ser apenas por granadas de artilharia, já está num passo muito mais adiantado. Isto é, enquanto nós assistimos no Ocidente ao desfazer das relações transatlânticas entre aliados europeus, o que nós assistimos do lado de lá é o fortalecimento de todos os laços antiocidentais que se vão produzindo entre a Federação Russa e a Coreia do Norte. O que diz a intelligence da Coreia do Sul? Diz que os trabalhadores norte-coreanos têm vindo a ser exportados para trabalhar na Federação Russa. Ora, os dados da Federação Russa mostram dados oficiais de que entraram mais de 13 mil norte-coreanos durante o ano de 2024, sendo que a maioria foi através de autorizações de visto para irem estudar. Então foram para a construção civil ou foram para estudar. E isto tem uma explicação, e é aqui que está a cortina de fumo. É que em 2017, a Rússia votou favoravelmente uma resolução das Nações Unidas, que é a 2397, por causa dos testes dos mísseis balísticos intercontinentais, que proíbe que os países aceitem trabalhadores norte-coreanos. Ora, a Rússia está a precisar imenso de trabalhadores para muitos setores, entre os quais a construção civil. E então, para ela própria não contrariar uma declaração que foi ela própria que votou, então vêm todos estudar.

São estudantes trabalhadores.

São agora estudantes trabalhadores na Federação Russa.

Isto é fantástico, esta cortina de fumo. Vamos ao Ponto de Mira. E o Ponto de Mira gosta de destinos exóticos. Depois de já termos estado nas Ilhas Virgens, nas Caraíbas, hoje vamos para o Pacífico e para as Ilhas Cook. A que se deve este interesse por destinos exóticos insulares?

Exatamente. Para nós é só destinos de sonho.

É saudades de verão.

É tipicamente saudades de verão. Isto está tudo relacionado e é isso que eu vou procurar aqui mostrar. As Ilhas Cook, onde estão na Oceania, no Pacífico Sul, estiveram muitos anos dependentes da Nova Zelândia. Foram uma colônia da Nova Zelândia entre 1901 e 1965, e depois ganharam um determinado estatuto de autonomia. Têm um primeiro-ministro, têm um governo próprio, têm apenas uma limitação: quem garante a segurança e a defesa das Ilhas Cook é a Nova Zelândia. E portanto, as Ilhas Cook, na sua política internacional, estão relativamente diminuídas porque têm que consultar com a Nova Zelândia no que diz respeito aos assuntos de segurança e de defesa. Ora, de repente, o primeiro-ministro das Ilhas Cook vai a Pequim negociar infraestruturas de natureza naval para as Ilhas Cook. Porque eu trago isto e isto está tudo relacionado com tudo o que vimos das Ilhas Virgem, da Gronelândia e da Dinamarca? As Ilhas Virgem têm 15 mil habitantes. Quando nós damos uma ilha, o processo de independência, sem a integrar completamente no sistema internacional, o que estamos a dizer é que estamos a entregá-la à China. A Nova Zelândia, com este seu processo das autonomias, dos respeitos, está a entregar as Ilhas Cook à China. A China não perdeu uma oportunidade. Vai oferecer infraestruturas de natureza naval, portos. Para quê? Para poder um dia também ter os seus navios de alto-mar, a sua marinha de alto-mar, ancorada nos portos das Ilhas Cook, encostadinho à Nova Zelândia.

Estica o braço, não é?

Exatamente. Isto é a mesma coisa da Gronelândia e da Dinamarca. Isto é, nós não podemos, nesta nossa bondade pouco realista, pensar que um país com 15 mil habitantes, que não consegue gerar segurança própria, se vai abster de ter um relacionamento próximo com a China, que à custa destes investimentos em infraestruturas portuárias, está a preparar apenas os ancoradouros para a sua marinha de guerra. É a mesma coisa, exatamente, que se está a passar aqui.

Major-General Arno Moreira, muito obrigado por mais um "Domínio da Guerra", que regressa na próxima sexta-feira.

Foi um prazer. Um abraço e bom fim de semana a todos. Muito obrigado.