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Começa agora uma nova edição do "Domínio da Guerra", da Rádio Observador. Comigo já está o major-general José Fernando Moreira. Bem-vindo. General, não estou a ouvi-lo.
Olá, muito bom dia a todos.
Agora sim. Lembro que, além da rádio, também nos pode acompanhar em direto através do Facebook, YouTube ou site do Observador. Na quarta-feira, a revista Time publicou uma entrevista com o presidente Joe Biden. Dela fazia parte uma afirmação que tem merecido múltiplas interpretações. Biden afirma que, para haver paz, não é necessário que a Ucrânia adira à NATO. Isso deixou Kiev inquieta. General, como é que devemos interpretar as palavras de Joe Biden?
Deixou Kiev bastante inquieta com esta deriva que parecia bastante menos assertiva do que aquilo que as cimeiras anteriores haviam, de alguma maneira, delineado, que era um planeamento progressivo que permitisse a Kiev vir a integrar a NATO. Isto tem que ser compreendido, talvez, à luz de três eventos que ou aconteceram ou estão para acontecer. O primeiro tem a ver com o candidato às eleições dos Estados Unidos da América. Joe Biden está já em campanha eleitoral. Está cada vez mais perto das eleições, faltam muito poucos meses para as eleições, e Joe Biden não parece querer deixar aberta uma assertividade que possa eventualmente ser explorada pelo setor republicano. Isto é, de que Joe Biden está a conduzir a América para a guerra, através de um conjunto de promessas à Ucrânia que acabarão por envolver os Estados Unidos através da NATO. E, portanto, nota-se aqui uma certa prudência, que eu diria, a prudência do candidato será talvez a primeira justificação para este tipo de afirmação. A segunda tem a ver com o fato de Joe Biden ir promover e receber agora os líderes mundiais na Cimeira da NATO em Washington. A Cimeira da NATO em Washington é um encontro muito marcante e Kiev tinha certamente grandes expectativas de que esse encontro acabasse por ficar marcado por um anúncio, por um grande anúncio, por uma afirmação de que o lugar da Ucrânia é certamente na NATO e que se está a estabelecer já o percurso até lá chegar.
E que depois ficasse difícil voltar atrás, não é?
É, que houvesse aqui um comprometimento de natureza política que tornasse irreversível este processo. Segundo aspecto. O terceiro, portanto, é o aspecto da pessoa que convidou os outros e que agora quer manter as expectativas menos elevadas do que aquilo que se poderia eventualmente esperar de uma cimeira deste nível. E a terceira é, talvez, do meu ponto de vista, aquela que se tem falado menos, mas parece-me a mais importante de todas. Os Estados Unidos já perceberam que vão ter que ser o mediador entre a Ucrânia e a Federação Russa. Quer dizer, não conseguimos ver em mais lado nenhum ninguém que tenha capacidade de poder vir a mediar este encontro que vai ter que acontecer, não sabemos ainda quando, nem em que condições, entre a Federação Russa e a Ucrânia. E nesse sentido, os Estados Unidos tinham tomado duas medidas, mais uma medida e um esclarecimento nos últimos 15 dias, que foram muito mal recebidos por Moscovo. E, portanto, de alguma maneira, as declarações de Joe Biden, o que pretendem é deixar aqui uma porta de diálogo para que a Rússia não se sinta encurralada e que os Estados Unidos possam ter também um papel de mediador na resolução desta guerra. É que os Estados Unidos tinham dado uma autorização extraordinária, que foi a da utilização de armas dos Estados Unidos em território da Federação Russa, e poucos dias depois, a Casa Branca confirmou que afinal a Ucrânia estava também autorizada a abater aeronaves russas, mesmo que elas estivessem a sobrevoar território da Federação Russa, desde que elas pudessem constituir uma ameaça no lançamento de vetores aéreos sobre a Ucrânia. Isto ainda não tinha sido dito com esta clareza, que afinal os sistemas antiaéreos fornecidos pelos Estados Unidos podem ser utilizados no interior para abater aeronaves russas no interior. E este esclarecimento não foi apenas dito nesta dimensão, isto é, não é uma autorização nova, mas foi esclarecido pela Casa Branca que a Ucrânia está autorizada desde o início da guerra a fazer isto. Portanto, houve duas declarações aqui extraordinariamente assertivas por parte da administração norte-americana relativamente ao emprego do seu armamento no interior do território russo. A Federação Russa precisava ter aqui também agora uma espécie de uma porta ainda entreaberta. E julgo que as declarações de Joe Biden são nesse sentido. É dizer: nós vamos primeiro acabar com a guerra E só depois é que se vai colocar o problema da adesão da Ucrânia à NATO. Faz todo o sentido, mas isto tem que ser visto nesta tripla perspectiva.
E com esses pontos todos, é.
A perspectiva do candidato, daquele que vai receber os seus homólogos agora na Cimeira de Washington e aquela do mediador que quer manter a sua posição, uma porta pelo menos meio entreaberta no diálogo com a Federação Russa.
E na mesma semana em que temos relato das primeiras utilizações pela Ucrânia de armas ocidentais em território russo, assistimos nas televisões públicas russas a debates intensos sobre a necessidade de utilizar armamento nuclear contra o Ocidente e tivemos direito a mais uma ameaça de Putin de entregar armas de longo alcance a outros países para que as possam utilizar também contra o Ocidente. General, já são muitas ameaças. Como é que as vamos encarar?
Esta semana foi demais na televisão russa. Provavelmente relacionado com a nossa notícia anterior da autorização, mas foi demais esta semana. Nos canais públicos de televisão da Rússia, um conjunto de comentadores, que nós identificamos como sendo os comentadores do regime, passaram a semana toda a passar mensagens absolutamente incríveis. Portanto, muitos dos que estão aqui do lado de cá e que continuam a dizer que a Rússia não nos quer atacar, sintonizem nos canais russos para ver o que se diz.
Já ficam com outra ideia.
Já ficam com outra ideia. E então, três coisas extraordinárias. Primeira: um desses comentadores diz assim: "Mas quantas cidades tem a Polónia? Cidades grandes terá umas 15. Duas armas nucleares para cada uma".
Fizeram-se contas.
Fizeram-se contas. "Nós com uma única salva da nossa divisão de mísseis Iskander, damos cabo dos polacos para sempre, dos polacos, da língua polaca, da Polónia, das cidades polacas. Estamos à espera de quê? Continuamos a achar que Berlim, que Paris, que Washington vai defender ou vai sacrificar as suas respectivas cidades para defender a Polónia? Estamos à espera de quê?" Depois, uma das outras grandes interlocutoras destes programas diz assim: "Por que ainda não temos os mísseis em Cuba e no México? Nós temos que rapidamente apontar aos Estados Unidos, naquilo que são aqueles países com quem temos relações e amizade nas Caraíbas, temos que apontar armas aos Estados Unidos". Depois veio Medvedev dizer o seguinte esta semana: "Os Estados Unidos e os seus aliados têm que começar a sentir o uso direto das armas russas, através de partes terceiras". Isto é, há muita gente que detesta os Estados Unidos. Vamos fornecer a todos esses estados e a esses grupos o armamento necessário para poderem atacar a Europa, os interesses europeus e os Estados Unidos. Isto é a iranização do sistema internacional, que é utilizar proxies para não ser os próprios a utilizarem esse armamento e arranjar alguém que dispare este tipo de armamento. É preciso ver que os houthis dispararam esta semana contra Israel, pela primeira vez, um míssil de combustível sólido. A diferença entre os de combustível sólido e os de combustível líquido, tem a ver com o tempo de preparação pro lançamento do míssil. É que os de combustível sólido estão prontos a lançar. Portanto, chegam à plataforma de lançamento e são imediatamente lançados, enquanto os de combustível líquido precisam de tempo de preparação antes de poderem ser lançados e alguns já foram inclusivamente abatidos pelos Estados Unidos durante esta fase de preparação. Portanto, a Federação Russa está a iranizar, está a procurar iranizar o sistema internacional, dotando de armamento absolutamente contemporâneo e catastrófico esses elementos, no sentido de cercar a Europa e os interesses dos Estados Unidos e dos europeus. Há aqui um problema muito grande, para o qual nós andamos completamente de olhos fechados. Chama-se Líbia. A Líbia é um Iêmen em potência, porque na Líbia há dois governos. Esta semana viajou pra Líbia o vice-ministro da Defesa da Rússia para contactos com o exército da Líbia, o exército que está em Tobruk, não o que pertence ao governo reconhecido, para instalar-se uma base naval russa em Tobruk, mesmo em frente à costa europeia do Mediterrâneo, e com esta possibilidade de fornecimento de novo tipo de armamento. São os houthis, é outra vez, é a iranização. A Rússia está neste momento numa fase em que anda à procura de houthis que lhes possam ser úteis. É claro que há um conjunto de países que são simpáticos com a Federação Russa, estou-me a lembrar, por exemplo, da Argélia Mas a Argélia tem um comprometimento com a Europa que não pode ser utilizada como instrumento de lançamento deste tipo de armamento. Mas estes exércitoszinhos da Líbia estão desejosos de ter equipamento, quer para as suas lutas internas pelo controle, como também para poderem utilizar como arma de pressão sobre a Europa.
Mas General, andamos todos distraídos.
Andamos todos distraídos. Sim. Nós abandonámos completamente a questão da Líbia. Há muito tempo que nós não nos interessamos pela Líbia e não estamos a ver o conjunto de dinâmicas que ali se estão a passar e que têm a ver com aquilo que eu chamo a iranização do sistema internacional através da Rússia, que se mostrou agora, através de Putin, disponível para fornecer a estes pequenos Estados combatentes, grupos revolucionários, o armamento muito sofisticado que lhe permita atingir a Europa.
Então que as suas palavras sirvam de alguma forma de alerta.
Não estou absolutamente esperançoso disso.
Esta semana pareceram acentuar-se as divisões entre a visão americana e a visão do governo israelita sobre a guerra em Gaza. É claro que elas nunca estiveram suficientemente alinhadas, mas esta semana já ninguém se preocupou em minimizá-las. Portanto, podemos parar agora.
Foi exatamente isso. Durante algum tempo, houve aqui um certo recato, digamos, um certo recato em não colocar na praça pública as divergências que eram evidentes desde o início. Mas esta semana, julgo que terão caído todas essas proteções de ataque mútuo e as relações entre os Estados Unidos e Israel estão efetivamente a atravessar uma fase enorme de degradação. Houve aqui um ou dois acontecimentos importantes que fizeram também estalar este verniz. O primeiro tem a ver com o anúncio de um novo plano de paz. Eu já perdi a conta, já julgo que todos perdemos, praticamente todas as semanas temos o anúncio de um novo plano de paz. Desta vez, o plano de paz foi apresentado por Joe Biden, que fez uma espécie de anúncio surpresa, dizendo que Israel tinha oferecido um plano de paz ao Hamas. Tinha três fases. Dessas fases, digamos, a primeira é a única que estava bem estabelecida, correspondia a seis semanas de cessar-fogo completo. Depois, tinha uma área que era nova para satisfazer o Hamas, que era: Israel iria retirar das áreas mais populosas de Gaza, o grosso das suas forças. Portanto, iria basicamente sair das cidades. Não era sair de Gaza.
Era dessas que são mais populosas.
Era sair dessas cidades com maior população. E depois, aquilo que era habitual também nos outros acordos, que era a troca de reféns por prisioneiros. Desta vez contemplava-se também um aspecto interessante, que era a população, os palestinianos podiam regressar às suas cidades e havia um incremento da ajuda humanitária. Só que Israel veio dizer que não estava de acordo com este plano. Olha isso.
O plano que teria apresentado.
Joe Biden mostrou este plano como o plano tendo sido apresentado por Israel, portanto que Israel estaria de acordo. E depois vêm fontes do governo ligadas ao primeiro-ministro dizer que afinal Israel não está de acordo com este plano. O Hamas, que estava sob pressão para responder, os Estados Unidos concordavam, os países árabes concordavam, Israel, afinal, parecia ter sido quem tinha iniciado este processo, e o Hamas, que estava encostado à parede, de repente sentiu-se outra vez aliviado. Afinal, Israel não está de acordo com o plano, portanto eu também não sou obrigado a nada, não temos que aceitar nada. E, portanto, estamos numa fase muito complicada, em que Netanyahu e Joe Biden já não se falam, e quando se falam, têm palavras muito desagradáveis de um para o outro. Enquanto isso, permanece por definir aquilo que tem sido desde o início desta invasão, aquilo que mais tem separado os Estados Unidos de Israel, que é a sua visão a médio e a longo prazo sobre a Faixa de Gaza. Para os Estados Unidos, a Faixa de Gaza era entendida como um território de operações, em que a operação era realizada e depois Israel se retirava da Faixa de Gaza. Israel não tem exatamente esta mesma visão. Isto perturba o quê? Perturba depois a segunda e a terceira fase destes coisas, porque é claro que a primeira fase está mais desenvolvida, porque não toca neste assunto muito crítico, que é o que pensa Israel fazer relativamente ao futuro da Faixa de Gaza. Para os Estados Unidos, é impensável que Israel continue na Faixa de Gaza depois de realizada a operação militar. A segunda questão é a questão da noção de vitória. Os Estados Unidos são muito prudentes nisto e aprenderam muito também com resultados que lhes foram desfavoráveis. A noção de vitória facilita ou complica tudo. O que é uma vitória de Israel, na visão de Joe Biden? É que o Hamas não consegue repetir o 7 de outubro Isso é que é a noção de vitória. Foi suficientemente desarticulado, o exemplo ficou dado para que o Hamas não torne a repetir o 7 de outubro. Qual é a visão de Israel? É maximalista, é a destruição do Hamas. E, portanto, isto são duas noções de vitória que comprometem depois todo o desenvolvimento da guerra. Para os Estados Unidos, Israel podia anunciar a vitória neste momento, dizer: "Nós consideramos que estão desarticuladas as capacidades do Hamas a um nível em que ele não vai conseguir repetir o que fez. Vitória, saímos de Gaza". Não está fácil.
A China anunciou esta semana que não estavam garantidas as condições para participar na Cimeira da Paz, na Suíça, e negou que estivesse a forçar os países do sul a não estarem presentes. General Arno Moreira, é exatamente assim ou escondem-se aqui intenções atrás de uma cortina de fumo?
A Ucrânia andou a namorar a China para ela estar presente. Bem tentou. E houve até reuniões preparatórias e algumas delas ainda decorrem, mas a China já disse oficialmente que não irá estar presente.
O que não nos surpreende.
Não surpreende. O que é que esconde esta não participação? O que esconde a não participação são três ou quatro aspectos que me parecem significativos. Primeiro, evitar que resulte desta reunião alguma leitura de sucesso. Isso é importante para a China e também importante para a Rússia. Isto é, que não se crie a sensação que de repente o mundo está unido em favor da Ucrânia e que estão reunidas as condições para que o plano de Zelensky possa ser implementado na sua totalidade. Portanto, primeiro é evitar que haja um sucesso nesta reunião. Segundo aspecto é evitar isolar a Federação Russa. Isto é, se a China estivesse presente, todos olhariam para uma cadeira que está vazia, que é da Federação Russa. A Federação Russa estaria isolada no sistema internacional. Com outra cadeira vazia ao lado, a da China, certamente que fica disfarçada a não presença. Não está a Rússia, mas também não está a China e também não estarão outros actores. Terceiro aspecto, a China continua a alimentar, porque ela apresentou um plano de paz, não dizia nada, é verdade.
Já falámos sobre isso.
Já falámos sobre isso. O plano de paz não dizia nada, mas era um plano de paz. E a China tem esperança de que um insucesso da reunião na Suíça possa reencaminhar as coisas para lhe dar outra vez protagonismo no seu plano de paz. Para isso, precisa que esta reunião seja um insucesso. Entretanto, esta semana, conjuntamente com o Brasil, o Brasil anda de braço dado com a Rússia e com a China de uma forma absolutamente escandalosa naquilo que é a ideia que nós temos do Brasil. Assinou com a China uma declaração conjunta apelando a conversações de paz diretas entre a Rússia e a Ucrânia, certamente mediadas pela China. E depois, aqui é que está a cortina de fumo, de que não vai exercer pressão nenhuma sobre os outros países para eles estarem ou não estarem presentes. Isto não é verdade. Não é verdade, porque a partir do momento em que esses países entraram numa dependência de natureza económica e sobretudo de investimentos chineses nas infraestruturas vitais para o funcionamento desses países, esses países não têm outra alternativa senão seguir o exemplo da China. Eu escrevi uma frase, pensei uma frase, escrevi uma frase, vou partilhar: o maior poder é aquele que se exerce sem ser necessário emitir ordens. Isto é, quem está debaixo sabe que tem que fazer assim, não precisa de receber as ordens.
Hoje o nosso Ponto de Mira está colocado no dia 1 de junho de 1996, data em que foi assinado o Memorando de Budapeste, que colocou fim ao arsenal nuclear ucraniano. General Arno Moreira, por que é importante recordar este dia?
Passaram 28 anos desde aquilo que é o fim do estatuto nuclear da Ucrânia. Eu trouxe para aqui alguns números que são importantes recordar. Quando a União Soviética se desfez, ela tinha o seu armamento nuclear disperso também por outras repúblicas. Cazaquistão, Bielorrússia e Ucrânia. A Ucrânia era quem tinha mais do armamento nuclear da União Soviética. Em 1991, e reparem nestes números que eles são impressionantes, a Ucrânia dispunha, em 91, de 4200 ogivas nucleares táticas. Dispunha de 2156 ogivas nucleares estratégicas. Isto dá para destruir o mundo completo. Mas não possuía só as ogivas, possuía os meios de lançamento das ogivas. Possuía 130 mísseis intercontinentais SS19, 46 mísseis intercontinentais SS24 e dispunha de 43 aviões bombardeiros estratégicos Tu-95 e Tu-160. Entregou à Rússia isto em troca de quê? De uma promessa de que a sua soberania nas fronteiras que detinha em 91 estaria assegurada. Como teria sido tudo diferente se a Ucrânia não tivesse entregue aquilo que era, na altura, o terceiro maior arsenal nuclear do mundo. É por isso que a Ucrânia quer aderir à NATO, não quer apenas estes compromissos que o tempo leva.
General Arno Moreira, passa sempre a correr este Domínio da Guerra. É sempre um gosto, até sexta.
Muito obrigado, um bom fim de semana a todos.